O mundo imperfeito das revistas

March 16, 2010 at 10:44 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Ontem foi anunciado, da forma mais pragmática possível, após cinco anos, o fim da revista Os Meus Livros. Um anúncio seco a indicar a quebra de publicidade e vendas estagnadas como a causa do encerramento definitivo da revista e dispensa do seu director, João Morales.

A revista sempre primou por uma perspectiva mais abrangente do que o habitual nesta matéria e deu a oportunidade a todos para mostrarem o seu valor e projectos. O Fórum Fantástico começou a dar os seus primeiros passos fortes na imprensa através da revista que acreditou no evento. A título pessoal, é com tristeza que recebi esta notícia. Não quero deixar de agradecer ao João Morales por todo o trabalho desenvolvido e desejar-lhe boa sorte na continuação da sua carreira na área jornalística literária.

Em termos profissionais, não posso também deixar de lamentar. Continua a tendência que se tinha vindo a registar nos últimos anos de diminuição do espaço dedicado a crítica literária e notícias dos livros.

Resta-nos agora a revista Ler e alguns suplementos de jornais com um espaço diminuto dedicado a livros. É pouquíssimo para um país que publica centenas de livros por ano num mercado cada vez mais competitivo. Dezenas de editoras lutam por um lugar ao sol e já não existem suficientes plataformas em papel que escoem todas essas editoras famintas por destaque na imprensa. Do ponto de vista de uma editora, a Internet tem-se revelado como um palco mais democrático onde alguns bons golpes de relações públicas, assim como um certo inovadorismo na abordagem aos leitores,  podem marcar a diferença na venda de um determinado livro. Do ponto de vista de um jornalista/crítico, a Internet tem os seus prós e contras: a proliferação de blogues de livros tem dispensado o papel do crítico mais exigente, este totalmente ignorado pelas massas, mas ainda acarinhado por uma minoria. E também é graças à Internet que o trabalho de um crítico é mais do que nunca posto em causa, mas é também mais admirado.

No entanto, coloca-se a questão: porque é tão difícil para uma revista sobreviver e ganhar estabilidade? A experiência tem-me ensinado que é muito mais difícil editar uma revista do que livros, por incrível que pareça. É normal uma vez que a produção de um livro é muito mais linear do que reunir e produzir o conteúdo de uma revista.

Mas revistas são caras de produzir, difíceis de distribuir, difíceis de vender e lutam com o mundo permanentemente actualizado da Internet onde é tão fácil aceder a um manancial de informação que desactualiza ou põe em causa, numa questão de segundos, o conteúdo de uma revista. Há também a questão da publicidade que tem sido o alicerce fundamental. Não havendo apoios publicitários, poder-se-ia colocar a hipótese de uma empresa ou investidores a suportarem financeiramente um tal projecto. Mas até essas empresas e investidores desejam obter lucro ou algum tipo de retorno que justifique o investimento contínuo numa revista.

Referindo-me a um caso muito concreto, muitos questionam a decisão da Saída de Emergência em não distribuir nos canais normais a nova revista Bang! em papel, mas esquecem-se que a distribuição não é grátis, e por cada produto distribuído é cobrada uma percentagem que forçaria a encarecer ainda mais o preço da revista, quando ela já tem um preço puxado (5€) devido aos custos de produção. Por isso, numa tentativa de diminuir o prejuízo que tinha causado a distribuição dos primeiros 3 números de uma revista de nicho, decidiu-se por uma exclusiva venda online. É a solução perfeita? Nem por sombras porque este país ainda não é totalmente fã de compras online e ainda encara o sistema com muita suspeita.

Ainda se está à procura do sistema ideal para a revista Bang! que sempre se desejou em papel, mas nem sempre foi possível. Todavia, essa curta experiência de produção de revista, e falamos aqui de uma tiragem de 150 exemplares, abriu-me os olhos para as dificuldades sérias que enfrenta o mundo português das revistas. Apenas com fortes receitas publicitárias e aposta em conteúdos únicos e apelativos consegue marcar-se a diferença.

Claro que há sempre a opção do formato digital, mas por mais estranho que pareça nesta era tecnológica, a leitura em papel é ainda a que conquista grande parte dos leitores. Prova disso são os milhares de livros vendidos e comprados todos os dias em Portugal e no mundo. A discussão sobre ebooks e as suas consequências no mundo da edição já começou, mas em termos práticos estamos ainda numa fase muito primitiva de implementação dessa tecnologia no mercado. A actual crise grave de papel que está a começar a minar o mercado de livros na Península Ibérica e resto da Europa pode precipitar medidas em relação ao ebook, embora ainda me pareça wishful thinking. Resta-nos aguardar para ver.

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Love Snapshot #9: Belle de Jour

March 9, 2010 at 9:00 pm (Love Snapshots)

Catherine Deneuve em "Belle de Jour" de Luis Buñuel (1967)

Há total inquietação na imagem de uma mulher deitada na cama depois de ser tomada sexualmente por um homem. Mais ainda se essa mulher se prostitui de dia, mas Belle de Jour não é uma qualquer prostituta. As suas fantasias e alucinações são povoadas de desejos de natureza masoquista e há indícios que apontam para uma infância de abusos.

Se a palavra frígida é a que caracteriza na perfeição a atitude de Belle de Jour, cujo nome verdadeiro é Séverine (numa perfeita alusão à sua aparência grave e sóbria), frigidez essa reservada em exclusivo para com o marido jovem, elegante e pertencente à nata da sua classe, o mesmo não se passa com outros homens a quem a mulher se oferece  não porque esteja desesperada por dinheiro, mas porque um desejo obsessivo a comanda e não irá descansar até ser tomada, mesmo à força.

É fácil imaginar o escândalo causado por este filme tão ousado na década de sessenta e, ainda hoje, raramente se vê com tal abertura a possibilidade de uma mulher cair voluntariamente numa espiral de degradação. No entanto, não se  esquece o plano de Belle de Jour deitada numa cama após uma sessão com um dos seus clientes em que, por momentos, o espectador julga a protagonista uma vítima, mas na verdade ela ergue o rosto para exibir um sorriso felino de satisfação. Um sorriso que encerra toda uma beleza manchada pelo lado negro do desejo.

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Eu não fumo, e você?

February 6, 2010 at 12:24 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Antes de mais, uma nota pessoal. Já recebi muitos avisos de amigos a alertar-me para a insensatez de continuar a expor publicamente, com o meu nome, as tais pseudo-editoras/vanity presses. Razões? Porque não sou uma pessoa totalmente isenta uma vez que trabalho para uma (verdadeira) editora, porque devo manter-me à margem destas polémicas, mais não seja para manter o nome da minha entidade patronal afastada destas celeumas.

Tudo bons conselhos, de facto. A verdade é que não tenho paciência para assumir fachadas anónimas, mas também não tenho paciência para ver a desfaçatez cada vez maior de certas pessoas a reinar impune. Tudo o que faço em meu nome neste espaço é pessoal e afastado da minha rotina profissional, e o meu chefe é o primeiro a dizê-lo. Eu sou assistente editorial, mas sou primeiro e, antes de mais, leitora. Uma leitora talvez mais calejada, mas uma leitora.

Bem sei que depois há muito choro e dedos apontados, raiva e frustração mal canalizadas, acusações de eu ser a Cruella de Vil dos tais pseudo-editores (em vez de dálmatas) e – esta é a minha favorita – uma agente secreta a soldo de grandes corporações editoriais que pretende acabar com o trabalho mui nobre e digno dos auto-intitulados editores.

Mas desta vez  será diferente porque não me irei alongar a detalhar os passos. Desta vez confiarei no vosso bom-senso para que leiam com os próprios olhos e tirem as vossas próprias conclusões sobre a legitimidade deste projecto. Não é difícil distinguir o trigo do joio, e eu limitar-me-ei a apontar o caminho.

Uma vez que a pessoa responsável por este pseudo-projecto já demonstrou na blogosfera atitudes pouco abonatórias a seu favor e uma postura claramente ofensiva para com aqueles que criticam o seu projecto, não tenho qualquer desejo em pôr essa pessoa a chafurdar o meu nome na lama.

E no entanto, é um dever expor isto pelo que se trata, uma clara tentativa de fazer dinheiro à custa dos sonhos e aspirações de poetas incautos. E essa é e sempre foi a minha luta, porque há poucas coisas mais cruéis do que brincar com os sonhos das pessoas.

E há que chamar a atenção porque parece-me cada vez mais que os meios de comunicação social estão a desligar-se perigosamente desse papel filtrador de qualidade e lixo. Anunciam tudo, sem lei nem rei, aos seus leitores que normalmente confiam no juízo do jornalista. Se eu conseguir usar qualquer credibilidade que eu tenha para fazer as pessoas duvidar, questionar, então é uma missão cumprida.

Por isso, sem mais delongas, leiam este regulamento, tenham em particular atenção o tom geral, as alíneas 2 e 3, e tirem as vossas próprias conclusões.

PS -> Não poderia deixar de chamar a atenção para um blogue que disserta sobre este mesmo tema e regulamento com infinitamente mais estilo e sentido de humor do que eu. Falo do blogue Máscara &Chicote, editado por uma figura que se oculta por trás da máscara Fortinbras. Recomendo o blogue, em particular este post e este.

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Adenda ao Best of 2009

January 17, 2010 at 9:53 am (Livros/BD/revistas)

Esquecimento imperdoável da minha parte que justifica um novo post, no seguimento deste.

Houve um filme notável em 2009 e produzido bem longe do continente americano. O sueco Let the Right One In de Tomas Alfredson, baseado na obra literária de John Ajvide Lindqvist. É um esquecimento do qual espero redimir-me agora, na tentativa de incentivar os leitores deste blogue a verem um filme contrário a todas as convenções.  O filme narra a história da amizade de uma vampiro e um rapaz de 12 anos. Uma premissa aparentemente simples que ganha contornos perturbantes pela sua combinação de inocência e decadência. Definitivamente, um dos filmes mais marcantes de 2009.

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O melhor da tradição literária romântica II

January 16, 2010 at 8:57 pm (Livros/BD/revistas)

A mulher que me amar há-de ser infeliz por força; a que me entregar o seu destino há-de vê-lo perdido. Não quero, não posso, não devo amar a ninguém mais.

Carlos em Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett, 1846

É claro como água que Carlos amou demais e qual Ícaro, deu-se a sua queda.

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O melhor da tradição literária romântica

January 16, 2010 at 8:27 pm (Livros/BD/revistas)

Nunca amei, nunca senti por uma mulher uma destas paixões únicas, dominadoras, exclusivas, a que se sacrifica tudo; mas às vezes tenho pensado nisto e julgo haver concebido o que seria para mim o amor, se o sentisse. Se eu um dia amasse, parece-me que procuraria esconder de todos os olhos essa paixão; desejaria que ninguém me suspeitasse nem por uma palavra, nem por um gesto, nem por um olhar. Ouvir estranhos falar sequer na mulher que eu amasse ferir-me-ia como uma profanação. Não escolheria confidentes, a ninguém revelaria esse segredo da minha alma. A mais alta, a mais casta voluptuosidade, que me produziria este amor seria o poder dizer, quando estivesse só: «Ninguém no mundo sabe, ninguém suspeita este mistério do meu coração, senão ela.» Para ela só, para essa mulher que eu amasse quereria reservar todas as manifestações dos meus sentimentos, as mais sérias e as mais pueris, pertenciam-lhe; e permitir que outros as percebessem era profanar o culto. Só com ela, sim, todas as reservas acabavam; então no gesto, na palavra, no olhar revelaria inteira a minha alma, sem mistério nem discrição. Aspiraria assim nesses instantes todo o suave e delicado perfume do amor. Que o mundo, ao ver-me frio e concentrado, pensasse: «Aí está um homem de gelo, este não sabe amar», e que ela só pudesse dizer: «Oh! Eu é que sei de que extremos é capaz aquele amor que ninguém suspeita».

Jorge em Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis, 1871

É claro como água que Jorge ama, mas poucos o exprimem tão eloquentemente.

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Os pilares da literatura

January 11, 2010 at 10:25 am (Livros/BD/revistas)

Aos 16 anos de idade apaixonei-me violentamente por literatura fantástica e não foi nenhum livro obscuro ou denso que me apresentou a esse mundo, mas o clássico de JRR Tolkien, O Senhor dos Anéis. Nunca até então tinha lido um livro que rompesse tanto com a literatura tradicional. Não sabia muito de fantasia então, embora a paixão pelas mitologias e por epopeias da Antiguidade tivesse sempre exercido um grande fascínio. Ler Tolkien foi como voltar a casa.

Mas muito antes de enveredar por esse caminho da ficção especulativa que devora, sem tréguas, o leitor, tinha começado uma outra paixão que durava há vários anos com a literatura portuguesa. Pode ser uma surpresa para muitos dos que me conhecem, mas é a literatura portuguesa que molda muito da minha escrita e pensamento actual.

Sophia de Mello Breyner

Este romance discreto da minha parte começou aos 8 ou 9 anos com os livros infantis de Sophia de Mello Breyner. Ela era uma poetisa maravilhosa, mas é a sua faceta de contadora de histórias que me conquistou numa idade muito tenra. A Fada Oriana, O Rapaz de Bronze, A Floresta, ou o belíssimo O Cavaleiro da Dinamarca são feitiços de palavras, formando uma teia de magia e encanto, de beleza e melancolia.

Alice Vieira

Sabem qual foi a autora que me acompanhou mais na transição da infância para a adolescência? Alice Vieira. O primeiro livro em língua portuguesa que me ofereceram foi Rosa, Minha Irmã Rosa. Foi Alice Vieira que me ajudou a compreender melhor a família e sociedade portuguesa, algo que me era absolutamente estranho sendo educada numa casa libanesa. Seguiram-se muitos outros, Chocolate à Chuva (talvez o meu favorito), A Espada do Rei Afonso, Este Rei que eu Escolhi, Viagem à Roda do meu Nome, Úrsula a Maior. O último que li da autora foi Caderno de Agosto. A partir daí, já era crescida demais para conseguir apreciar os seus livros, mas ela está muito presente nas minhas memórias e qualquer homenagem que lhe possa prestar é pequena demais.

José Maria Eça de Queirós

Voltando um pouco atrás no tempo, aos 11 anos, a minha irmã mais velha convenceu-me a ler Os Maias de Eça de Queirós. Não receei o volume do livro, mas tinha-me convencido de que o título desinspirado do livro não podia revelar uma boa história. Claro que estava enganada.

Os Maias proporcionou-me muitas belas tardes em que acompanhei a odisseia da família portuguesa, os anos na Universidade de Coimbra, os anos de sociedade em Lisboa e o progressivo desencanto de Carlos e Ega, a culminar na honra imaculada de Afonso despedaçada pela desgraça do filho e do neto. Também houve momentos inesquecíveis de humor: ainda hoje releio as passagens do baile de máscaras em que Ega é humilhado e a personagem, disfarçada de Mefisto, toda esfarrapada e chorona, busca consolo na casa de Carlos.

O que poderia dizer sobre Eça que todos já não saibam? Cada um dos seus romances contém lições para aspirantes a escritores, momentos de puro génio, revoluções de língua, revolta contra o estabelecimento. Os seus livros expressam muito do desencanto e frustrações de uma geração simultaneamente desprezada e admirada pelos seus contemporâneos.

Mas se algum dia o leitor se sentir muito cansado com o ácido crítico e a fina ironia de Eça, então leiam A Cidade e as Serras onde o escritor faz as pazes com o mundo, o mundo rural genuíno e saudável, intocado pelas grandes urbes manchadas de decadência. Não falta uma das passagens mais humorísticas de sempre na literatura portuguesa, a viagem de comboio de Jacinto e Fernando de Paris a Tormes.

Após a obra-prima de Eça, encontrei nas prateleiras Amor de Perdição de Camilo, terrivelmente formal e lúgubre, recheado de todos os fatalismos sentimentais de que o autor se podia lembrar, e não foi um livro que relesse com prazer.

João Baptista de Almeida Garrett

Almeida Garrett também marcou presença na minha jornada pela literatura portuguesa com o clássico Viagens na minha Terra. As primeiras páginas custaram-me imenso, mas li com prazer o romance entre Carlos e Joaninha, embora me chocasse a crueldade do desenlace.

Frei Luís de Sousa deixou-me uma impressão muito mais forte, curiosamente. Também ele dominado por uma sensação crescente de pathos e fatalismo, é contudo uma brilhante obra de caracterização psicológica. Li-a e e estudei-a e vi-a representada tantas vezes nos anos seguintes.

Foi depois de Garrett, se a memória não me atraiçoa, que descobri o manual de Português do 12º ano do meu irmão, esquecido numa secretária. Ele não era muito devotado à disciplina, e eu não resisti a explorar várias páginas do livro escolar. Dei por mim a voltar cada vez mais ao manual para descobrir os autores, os poetas, os livros que tinham importância, que tinham tido impacto e aberto o caminho para novas formas de literatura.

Júlio Dinis

Fui cativada pelos excertos de Uma Família Inglesa de Júlio Dinis e decidi comprar o livro numa papelaria perto de casa. Era o tempo em que começavam a surgir famosas adaptações de romances vitorianos da BBC e eu devorava todos os romances de costumes. Valeu-me a minha experiência de Eça para não desistir nas primeiras páginas aborrecidas. Nunca julguem obras do séc. XIX pelas primeiras páginas. Quando finalmente iniciamos a história propriamente dita, com todas as suas descrições da sociedade britânica no Porto, é então que o talento de Júlio Dinis floresce. O amor de Carlos e Cecília dificultado por diferenças de classe social e duas famílias extremosas tem um final feliz. E era a primeira vez  que lia um final feliz num livro português.

Seguiram-se As Pupilas do Senhor Reitor que o meu entusiasmo juvenil amou com toda a força. A Morgadinha dos Canaviais, mais complexo e político, mas não menos interessante. E finalmente, Os Fidalgos da Casa Mourisca, o meu romance favorito de Júlio Dinis, com um talento para construção de personagens e diálogo que, se não era igual a Eça, não o envergonhava de todo.

Vergílio Ferreira

O manual de português continuava a servir-me de guia na minha exploração auto-didacta e os próximos excertos a apelarem-me fortemente eram radicalmente diferentes: Aparição de Vergílio Ferreira. Até então estava a conhecer o século XIX, com um desvio por Gil Vicente (que detestei), e saltei para o séc. XX existencialista destemidamente.

Ainda hoje não consigo compreender o meu fascínio de então por Aparição, mas desconfio que a linguagem poética e eloquente foram determinantes para as minhas muitas releituras da obra. A angústia calma e silenciosa de Alberto a minar a sua relação com as três filhas do Dr. Moura, a sábia Ana, a destrutiva Sofia e o anjo breve de Cristina pareceu-me narrada por um bardo de alma perdida e coração destroçado.

Estudava então no Liceu Camões e vim a saber, mais tarde, que Vergílio Ferreira tinha sido professor nessa escola. Uma professora de português encontrara uma fotografia a preto e branco do autor numa sala de aula, mas não era a típica aula do professor a falar do estrado, mas do professor no centro da sala rodeado pelos seus alunos.

José Saramago

Já não me recordo de como completei a transição para José Saramago, nem porque escolhi começar com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, quando a sua obra mais leccionada era O Memorial do Convento. O Evangelho expandiu a minha mente e mostrou-me as possibilidades de realizarmos feitos ousados na literatura, a capacidade de ir para lá da história e reinventar o próprio mito e tradição. A angústia de Jesus perante a falta grave de José ao não salvar as crianças da sentença de Herodes é provavelmente uma das descrições mais fortes de relações entre pai e filho na língua portuguesa.

Miguel Torga

Miguel Torga. Esse é um nome que recordo com muito afecto e emoção. Mais do que Vergílio Ferreira, José Saramago ou Eça, foi Torga quem causou uma impressão imensa e que durará para sempre. Os seus contos da montanha, o livro dos bichos e histórias do mundo rural estão marcadas por um telurismo rico, um desespero alarmante perante o silêncio de Deus e uma profunda humildade perante o sofrimento dos homens que Torga certamente testemunhara enquanto médico. Mas há também a alegria de seres humanos e animais em estarem vivos e em comunhão com a terra.

Infelizmente, sou das poucas pessoas que conheço que leu e gostou da obra de Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal em que a insularidade dos Açores marca de forma tão indelével a vida de Margarida, encerrada no espaço geográfico das ilhas.  Achei irresistíveis as excelentes descrições das ilhas, da caça ao cachalote, da sociedade tradicional açoriana influenciada pela América.

Todos estes nomes são nomes que dispensam apresentações, mas houve também nomes quase esquecidos na literatura. António Patrício será sempre recordado por mim pela sua peça D. João e a Máscara que me fez descobrir o enorme fascínio que tenho pela figura da Morte na literatura.

Quando iniciei o ensino secundário, em especial os últimos dois anos, havia muito pouco que eu não sabia na disciplina de Português. Tomei a decisão de ingressar na variante de português/inglês na Faculdade de Letras (apesar de uma formação no secundário em ciências) esperando aprofundar os meus estudos, mas em vez disso tive que lidar com um sistema de ensino de literatura portuguesa obsoleto, degradante e que merecia ser absolutamente destruído com a maioria dos seus professores expulsos. Recuso-me a dizer uma única palavra boa sobre a variante de português na Faculdade de Letras e aconselho vivamente todos os estudantes a evitarem-na se puderem. É pouco dignificante para o estado das letras neste país que um estabelecimento dessa reputação não conceda o ensino que devia. É um péssimo, péssimo serviço que realizam às letras portuguesas.

Houve outros autores. Se não referi as obras de grandes poetas como Fernando Pessoa é porque não cresci com Pessoa e apenas mais tarde li a poesia. Nem nunca estabeleci qualquer ligação emocional com os livros de Agustina, mas a qualidade narrativa é indisputável. Não podia deixar de mencionar também José Régio, Mário de Sá-Carneiro, Antero de Quental, Cesário Verde,  autores que também enriqueceram a minha formação.

Amo as obras destes autores portugueses. São parte das minhas leituras e moldaram o meu carácter. Tivesse lido outros livros, ou não tivesse lido de todo, não seria hoje a mesma pessoa.

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A indulgência dos clássicos literários

January 3, 2010 at 12:13 pm (Livros/BD/revistas)

É inevitável para quem trabalha na área dos livros acompanhar o trabalho da divulgação e crítica literária. Hoje em dia, um livro não consegue sobreviver num mercado tão saturado como o português sem algum apoio crítico, mas também seria errado pensar que um livro está condenado por não ter presença em suplementos jornalísticos. O marketing é instrumental nas vendas, muito mais do que palavras impressas num suplemento semanal.

Até porque está provado que um livro não vende mais por uma ou outra referência num jornal de grande tiragem, mas irá vender mais se for referido em todos os jornais e publicações de forma sistemática.

A Internet trouxe alguma democracia ao mundo da crítica e divulgação literária, não estando mais dependente de uns quantos editores de suplementos que nem sempre primam pela sua imparcialidade. Mas claro que não é assim tão linear e simples. A massificação de blogues ou sites onde se apresentam críticas de livros não prima pela qualidade na sua grande maioria (há sempre excepções e não são poucas), faltando bases de desconstrução crítica. Mas independentemente da qualidade dos textos, o pouco fundamentado “gosto de um livro” origina um passa-palavra que pode ser tão monumental como uma avalanche e decisivo nas vendas.

Com o cada vez menor espaço dedicado a livros pela imprensa, e o cada vez maior número de livros publicados em Portugal, editores e jornalistas são forçados a tomar escolhas pautadas por gostos pessoais ou relevância literária e cultural. Mas perante o número de obras que morrem na obscuridade de estantes e prateleiras de livrarias, é pertinente pensar se ainda é relevante dar espaço a crítica a clássicos de literatura.

Sabemos que um jornalista não pretende educar o seu público leitor, mas informá-lo. Para se escrever uma crítica sobre a poesia de Samuel Coleridge não é necessário fazer um info-dump sobre o papel de Coleridge no primeiro movimento romântico inglês. O jornalista pode fornecer algumas informações relevantes para a crítica, mas não irá nem deve adoptar a postura do mestre-escola para ensinar o quão eloquentes e fundamentais são os versos de Coleridge, porque isso seria uma crítica francamente ridícula.

Este é apenas um exemplo que inventei para que compreendam o quão irrelevante considero actualmente dar espaço a crítica literária a clássicos num mercado que precisa desesperadamente de dar voz a outras obras desconhecidas e de valor.

Os clássicos são intemporais e não precisam que um jornal contemporâneo e efémero louve as suas virtudes, porque sabemos que o clássico permanecerá muito para além da vida do jornal ou do próprio jornalista. Já foi exaltado e dissecado e já desfilou pelas bocas e canetas de todos os críticos que merecem esse nome.

Claro que há sempre novas edições a surgirem no mercado que merecem destaque, diriam alguns. Ou novas traduções. Mas será mesmo assim relevante destacar uma nova tradução de um clássico? Compreendo que se divulgue, mas criticar? Afinal a crítica será a uma nova tradução ou à obra em si? A crítica afinal incide no trabalho do tradutor ou no autor? Passando a um exemplo concreto, é relevante ou pertinente dar espaço à nova edição e tradução d’ O Monte dos Vendavais de Emily Brönte da Presença? Essa obra é estudada nas variantes de inglês das Faculdades de Letras do mundo inteiro há décadas. O que mais pode dizer o crítico que já não foi dito provavelmente melhor do que ele alguma vez poderia dizer? Mas ele está a criticar a nova edição e tradução, dizem-me vocês. Nesse caso, continua a ser um exercício bastante inútil e fútil.

Será mesmo necessário dar espaço no jornal a uma crítica à edição Assírio e Alvim do Templo Dourado de Mishima que já tem largos anos no mercado? Quase me sinto tentada a dizer que o crítico apenas quer dissertar sobre um dos seus autores favoritos. Lamento dizer que é um autor e um livro que já fazem parte do cânone.

O que mais poderá ser dito sobre obras como Anna Karenina de Tolstói ou até mesmo D. Quixote de La Mancha? Até a glorificação na imprensa de uma edição cheia de gralhas d’ O Leilão de Lote 49 de Thomas Pynchon, um clássico de ficção pós-moderna, poderia ser considerada indulgente, desnecessária e redundante, tendo em conta o autor que está em consideração, mas aparentemente Portugal precisa de ser fortemente chamado à atenção para a obra de Pynchon.

Eu compreenderia melhor se as críticas se centrassem em clássicos obscuros que merecem ser relembrados. Foram esquecidos com a passagem dos anos, mas resgatados da poeira do tempo graças a um qualquer editor de livros, e pela primeira vez traduzidos e apresentados ao público português. Aí, claro, faz todo o sentido. Aliás, ainda há pouco tempo foi criticada A Pedra da Lua (The Moonstone) de Wilkie Collins no suplemento Actual, uma obra e autor que merecem ser efectivamente relembrados aos leitores, embora a crítica deixe algo a desejar. Nada é perfeito.

Não escreveria este texto se habitássemos um mundo utópico onde existem milhares de revistas e jornais a escrever sobre todos os livros que são publicados neste país. Aí eu exaltaria o clássico tanto quanto qualquer outro crítico. Mas perante as circunstâncias tão parcas, perante o espaço de míngua dedicado a novos autores e novos livros, torna-se necessário exercer uma análise pragmática e deixar o clássico onde pertence: no panteão universalmente reconhecido da excelência literária que dispensa novas apresentações.

A isto chama-se ser prático.

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Fantasia da década

December 28, 2009 at 11:24 pm (Livros/BD/revistas)

E como a década está a chegar ao fim, eis que apresento, sem mais delongas, porque não é difícil de todo fazer esta escolha, os três melhores livros de fantasia da década. Para alcançar esta lista, não bastou ao livro ser muito bom, mas era preciso que fosse uma obra que tivesse transformado, de uma forma ou outra, a natureza do género da fantasia. Representa, como tudo neste blogue, uma opinião pessoal e vale o que vale. Os primeiros dois estão traduzidos para português, o último não.

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Recordar 2009

December 27, 2009 at 1:02 pm (Cinema e TV, Livros/BD/revistas, Strange Land)

De filmes, em cinema e estreias recentes, poucos sobressaíram.Inglorious Basterds, District 9, MoonSherlock Holmes foram provavelmente as melhores ofertas no mercado no campo fantástico. E antes que discordem/concordem com a minha inclusão de Sherlock Holmes no campo do fantástico,  não o incluo neste género pelas referências à magia negra, mas sim pelo carácter avançado da ciência presente na era vitoriana, características associadas a steampunk. O filme está longe de perfeito e nem o considero muito bom, mas ainda assim acho que deve ser mencionado, tão só porque é raro o filme hoje em dia que seja capaz de entreter sem cair em banalidades.

Avatar merece uma referência, mas não a minha simpatia. É um filme que deslumbra pelos efeitos visuais assombrosos, no entanto, não consigo desculpar uma história tão pobre num filme tão caro, com marketing tão descarado. Coloco-o na mesma esteira que o argumento inacreditavelmente mau do quarto filme do Indiana Jones. É uma tendência que mostra a falência das ideias que têm marcado os últimos anos do cinema de Hollywood.

Fomos salvos pelo cinema independente em filmes como District 9, a arrecadar o troféu de filme do ano para mim, mesmo que imperfeito. O falso início em tom de documentário dá lugar um enredo trepidante em torno de extraterrestres segregados na África do Sul e promete um franchise forte e fresco.

Duncan Jones mostra o seu amor pelo melhor que a literatura de ficção científica deu ao mundo em Moon, a história de um astronauta alienado numa missão espacial na Lua com a duração de 3 anos, mas as aparências não são o que parecem no cenário solitário das paisagens lunares…

Tenho sentimentos contraditórios em relação a Inglorious Basterds. Os primeiros dez minutos são perfeitos e arrebatadores. O desenvolvimento é intrigante e estou sinceramente a gostar, mas depois Tarantino arruina fenomenalmente o filme a partir do momento em que mata todo o grupo da resistência numa taverna. A partir daí perde o rumo e consistência. Mas aqueles quinze minutos iniciais em que o Coronel Landa elimina uma família judia com o seu charme e conversação são certamente do melhor que vi no cinema.

São os filmes clássicos que têm vindo a conquistar cada vez mais a minha admiração. Num ano recheado de revisitação ou descoberta de filmes dos anos setenta, ficou-me na memória Thunderbolt and Lightfoot (1972) de Michael Cimino a reunir um par de actores que dispensa apresentações, Clint Eastwood e Jeff Bridges. Uma mistura de road movie e heist movie, é um filme recheado de cenas memoráveis, de uma grande química entre personagens, e de um sentimento cinematográfico tão inerente aos anos 70, que hoje já não se reproduz na tela. A década de 70 foi verdadeiramente a década dos realizadores com liberdade criativa.

Em livros, este tem sido um ano recheado de leituras. Algumas fui referindo ao longo do ano no blogue, e por isso dispensam nova referência, mas houve muitos livros, dos mais variados géneros,  que não foram mencionados e não por falta de qualidade, simplesmente por falta de disciplina da minha parte para escrever sobre eles. Entre os melhores, escolho:

Royal Assassin de Robin Hobb. A Saída de Emergência começou a publicar a série Farseer este ano, mas nunca esperei ver tal qualidade de prosa e foi uma das grandes surpresas deste ano. Mesmo com um início lento, não há dúvida de que Hobb domina facilmente a narração na primeira pessoa e a exposição do conflito psicológico das personagens, mas supera-se na descrição do vínculo emocional entre animais e homens.  É no segundo livro Royal Assassin (em português, O Punhal do SoberanoA Corte dos Traidores) que atinge um nível de excelência, colocando esta trilogia no mesmo patamar do melhor que a fantasia épica tem produzido nas últimas décadas.

Acacia, The War with the Mein de David Anthony Durham. Este autor tem tido uma excelente recepção positiva nos últimos anos graças à sua série Acacia e tenho que concordar que é uma estreia muito forte no campo da fantasia, com uma escrita impecabilíssima. Acacia é um império refém do passado que vendeu a sua alma ao diabo. O povo está viciado num narcótico trazido de terras distantes e misteriosas por uma guilda mercante poderosa e capaz de desafiar o poder do rei.  Em troca da droga, todos os reinos têm que ceder uma quota que consiste em crianças que são traficadas e enviadas às misteriosas terras… Os Mein são um povo derrotado e exilado para estepes geladas, mas passaram séculos a conspirar o fim de Acacia e assim é preparado o cenário do 1º livro. O início lembra demais Dune, sendo a primeira parte do livro a mais frágil, mas Durham compensa com uma segunda e terceira partes espectaculares e trepidantes, nunca optando por soluções fáceis, nem procurando arrastar interminavelmente conflitos.

Drood de Dan Simmons. Como é que eu poderia resistir a um livro que combina um enredo situado na época vitoriana em torno dos escritores Charles Dickens e Wilkie Collins com uns toques de sobrenatural e fantástico? As expectativas eram altíssimas mas Dan Simmons não é qualquer escritor e sabe desenvolver um trabalho de pesquisa excepcional, combinado com os seus dotes narrativos. Quem é Drood? Será um produto de uma mente perturbada e iludida? Será real? Até Collins, o narrador, não é fiável nos seus relatos, no meio dos seus estados alucinados induzidos por láudano. A obsessão de Dickens por Drood irá levá-lo ao submundo negro de Londres mas pode iniciá-lo num caminho perigoso de insanidade e perigo sem retorno…

Hunger de Elise Blackwell. Tive o prazer de ler este livro e traduzi-lo para a editora Livros de Areia que deverá lançá-lo no início de 2010. A história centra-se nos meses do Inverno de fome durante o cerco de Leninegrado. Um cientista russo especialista em sementes é forçado a defender com os seus colegas o Instituto Russo de Plantas durante o cerco. Mas consegue ele próprio resistir perante a fome cruel que devasta lentamente a cidade e os seus habitantes? Com não mais de 100 páginas, Elise Blackwell sabe transmitir, de forma pungente, o impacto físico e destrutivo da guerra e as cicatrizes que deixa na relação entre marido  mulher.

River of Gods de Ian McDonald. O panteão hindu de deuses já fora abordado numa outra obra de ficção científica de Zelazny, Lord of Light, mas a abordagem de McDonald é mais ambiciosa na medida em que não só transforma o panteão divino hindu, mas reinventa um país vasto e complexo como a Índia no contexto de um futuro distópico e tecnológico. Com um leque enorme de personagens oriundos das mais variadas classes sociais, McDonald desafia as capacidades do leitor com uma prosa imaginativa a caminhar para uma visão que transcende muito para além da esfera do humano.

Como a Raiva ao Vento de Rawi Hage. Este autor libanês, e também imigrante, venceu vários prémios literários importantes, chamando a atenção para a sua obra De Niro’s Game (referência ao filme de Cimino, The Deer Hunter), em que descreve Beirute durante os piores anos da guerra civil libanesa. Através das personagens de George e Bassam, assistimos ao dilema universal do indivíduo que tem que escolher entre ser aniquilado por uma existência de crime e atrocidades ou a fuga para o exílio e para uma vida longe da terra natal. Só alguém que viveu de perto esta realidade como Hage poderia descrever de forma tão realista um tempo em que não há soluções fáceis, apenas a escolha do mal menor.

The Help de Kathryn Stockett. Este livro foi lançado em Fevereiro do ano 2009 nos EUA e desde o Verão tem-se mantido no top de vendas de ficção em hardcover do New York  Times. É um romance de estreia, sendo a autora praticamente desconhecida, e a que se deve o sucesso? É uma obra inspiradora sobre a relação entre patroas brancas e criadas negras na América sulista da década de 60, num tempo em que era perigoso pertencer à raça afro-americana. As protagonistas são Minnie e Aibileen, duas criadas negras que aceitam contar a sua história a uma jovem rapariga branca, Miss Skeeter, com ambições de escritora. O que conquista o leitor é a descrição tão realista e emocional das personagens e das suas pequenas lutas e medos diários. Um retrato emotivo e realista, com uma escrita soberba, de uma época de grandes transformações sociais na América, mas de um ponto de vista raramente contado nos manuais de História.

Burning your Boats (collected short-stories) de Angela Carter. A morte prematura de Carter causada por cancro roubou ao mundo uma voz inovadora e verdadeiramente moderna que, felizmente, hoje ainda é apreciada e inclusive estudada. Mais do que nenhum outro escritor, Carter soube revitalizar o legado do passado, nomeadamente, os contos de fadas e lendas, transformando-os com um cunho muito próprio e feminista. Esta colectânea, que reúne todos os seus contos,  demonstra a capacidade da autora em expor a semente de violência e perversidade presente nas relações humanas, a natureza sexual latente em contos de fadas como demonstra tão exemplarmente na colectânea The Bloody Chamber, mas acima de tudo, expõe uma voz que ecoa os tempos modernos de emancipação feminina.

Suldrun’s Garden, 1º volume de Lyonesse de Jack Vance. Não me recordo se li este livro em 2009, mas quero destacá-lo porque, depois de ter lido tantas sagas arturianas ou baseadas na história de Artur, ainda encontro uma capaz de me deslumbrar, à semelhança de alguns mitos celtas, com a sua beleza e simplicidade, a sua ternura e sense of wonder. A escrita de Vance é extremamente versátil e acho difícil de acreditar que este é também o autor da série Demon Prince ou do clássico Tales from the Dying Earth. Mal posso esperar para que chegue em finais de Janeiro a belíssima hardcover com a trilogia Lyonesse completa.

The Moonstone de Wilkie Collins. Muitos anos antes da primeira aparição de Sherlock Holmes por Conan Doyle em A Study in Scarlet, Wilkie Collins criara o Sargento Cuff, um famoso detective com enormes poderes de dedução. Surgiu no seu romance The Moonstone em que um diamante indiano valioso é roubado na Índia e levado para Inglaterra onde acaba por parar às mãos de uma herdeira inglesa. A jóia é roubada na noite do seu aniversário, desencadeando uma série de eventos e mistérios que são desvendados em forma epistolar pelas personagens intervenientes. Se Dickens era mestre na criação de personagens, Collins era sem dúvida superior na construção de enredo e suspense, facto que já o demonstrara no brilhante A Mulher de Branco.

Menções honrosas vão para Disgrace de Coetzee, The White Tiger de Aravand Adinga, Lisboa Triunfante de David Soares e também o álbum de BD Mucha e, por fim, Buracos Negros de Lázaro Covadlo.

Este foi também o ano que regressei à leitura de peças dramáticas de dramaturgos como Harold Pinter, Tom Stoppard, Anton Tchékov e Henri Ibsen. Gostava de poder mencionar muitos mais livros mas ainda não tive oportunidade de os ler, embora estejam cá a aguardar nas estantes.

Em séries televisivas, não quero deixar de destacar True Blood, Damages e Lark Rise to Candleford.

Tenho grandes planos para 2010, e certamente não quero chegar ao fim de 2010 sem ter conseguido concretizá-los. Apenas peço mais disciplina para escrever.

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