Love Snapshot #10: The Last Picture Show

August 25, 2010 at 10:37 pm (Love Snapshots)

Há um amor selvagem e sem rédeas que só é trazido de volta graças à memória de um velho homem sentado à beira de um rio. Essa é uma entre muitas cenas memoráveis de um clássico americano que quebrou fronteiras e atreveu-se a traçar as linhas desgastadas da América profunda, a preto e branco. Mas das muitas formas de amor presentes em The Last Picture Show – o amor adolescente e virginal, o amor adúltero, o amor desencantado ou mesmo envergonhado – há o que sobressai acima de todos, o amor na flor da idade onde a paixão e a entrega incondicional são fortes, e nada mais importa. Me and this young lady was pretty wild, I guess. In pretty deep. O leão recorda no seu Inverno o fulgor de dias de Verão e esses breves instantes de amor permanecem para sempre no seu velho coração, inspirando sentimentos de saudade, desejo e uma vontade de reviver esses momentos perfeitos da vida. Afinal, é ele próprio, Sam the Lion, quem diz que o amor é a coisa certa a fazer: ‘Cause being crazy about a woman like her is always the right thing to do. Being an old decrepit bag of bones, that’s what’s ridiculous. Gettin’ old.

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Love Snapshot #9: Belle de Jour

March 9, 2010 at 9:00 pm (Love Snapshots)

Catherine Deneuve em "Belle de Jour" de Luis Buñuel (1967)

Há total inquietação na imagem de uma mulher deitada na cama depois de ser tomada sexualmente por um homem. Mais ainda se essa mulher se prostitui de dia, mas Belle de Jour não é uma qualquer prostituta. As suas fantasias e alucinações são povoadas de desejos de natureza masoquista e há indícios que apontam para uma infância de abusos.

Se a palavra frígida é a que caracteriza na perfeição a atitude de Belle de Jour, cujo nome verdadeiro é Séverine (numa perfeita alusão à sua aparência grave e sóbria), frigidez essa reservada em exclusivo para com o marido jovem, elegante e pertencente à nata da sua classe, o mesmo não se passa com outros homens a quem a mulher se oferece  não porque esteja desesperada por dinheiro, mas porque um desejo obsessivo a comanda e não irá descansar até ser tomada, mesmo à força.

É fácil imaginar o escândalo causado por este filme tão ousado na década de sessenta e, ainda hoje, raramente se vê com tal abertura a possibilidade de uma mulher cair voluntariamente numa espiral de degradação. No entanto, não se  esquece o plano de Belle de Jour deitada numa cama após uma sessão com um dos seus clientes em que, por momentos, o espectador julga a protagonista uma vítima, mas na verdade ela ergue o rosto para exibir um sorriso felino de satisfação. Um sorriso que encerra toda uma beleza manchada pelo lado negro do desejo.

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Love snapshot #8: Lust, Caution

December 13, 2009 at 9:24 am (Love Snapshots)

Lust, Caution (2007) de Ang Lee

É raro o filme que dispensa uma cena de foro íntimo e sexual. Sexo é essencial na representação de uma relação amorosa, seja como fim, como meio ou início do jogo de conquista entre homem e mulher que se sentem atraídos um pelo outro. Tornou-se um acto banal em cinema, normalmente convencional, puritano e tímido na Hollywood recente, cru e desinibido no cinema europeu, e erótico, agressivo ou terno em cinema independente.

Mas é raro assistirmos a uma verdadeira expressão sexual como a vista em Lust, Caution de Ang Lee em que o sexo é também uma personagem. A jovem estudante Mai Tai Tai é recrutada pela resistência chinesa contra o Japão na década de 40, iniciando um processo de reeducação em que será usada como arma e instrumento de sedução de uma influente figura política em Xangai.

Mesmo consciente do papel de isco sexual que irá eventualmente subjugar a vontade do político, apenas tarde demais descobre a espiral infernal de desejo masculino que exige mais do que ela esperava dar. Mas Tai Tai  não se limita a submeter-se à vontade do seu captor. Numa jogada ousada, ela ultrapassa o seu medo e ergue-se à altura do desafio, começando uma odisseia sexual em que a presa conquista o coração do caçador.

Com a escalada de erotismo entre Tai Tai e o político (o actor Tony Leung numa interpretação sempre imaculada),  a sua duplicidade torna-se cada vez mais dilacerante. Afinal esse é o homem que a protege, afasta a sua solidão e oferece-lhe, ironicamente, os poucos momentos de felicidade e segurança na sua vida.

Conquistada a ligação emocional com o homem que jurara matar, tem que fazer a sua escolha. Infelizmente para Tai Tai, os jogos perigosos de espionagem e política são indiferentes perante o amor. A sua decisão prova ser fatal,  e são o seu próprio corpo e coração que ditam a condenação ao inferno dos amantes.

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Love Snapshot #7: A Marquesa de O

October 5, 2009 at 9:39 am (Love Snapshots)

Edith Clevel em Die Marquise von O (1976)

Edith Clever em Die Marquise von O de Eric Rohmer (1976)

O Pesadelo de John Henry Fuseli (1781)

O Pesadelo de John Henry Fuseli (1781)

Atente-se como a imagem acima extraída do filme de Rohmer recria tão notavelmente a pintura O Pesadelo de Henry Fuseli. Os tons sexuais e eróticos presentes na obra de arte são abertamente assumidos por esse caldeirão de caos e instinto que é o id. Será a pintura de uma violação? De um desejo sexual reprimido em que o demónio/homem toma posse da figura feminina? A analogia com a pintura, que influenciou muitos artistas e escritores no seu tempo, não é inteiramente despropositada face à noveleta de Heinrich von Kleist, Die Marquise von O.

Quando a marquesa de O, uma viúva jovem e virtuosa que vive na fortaleza do seu pai, é salva por um conde russo das mãos de violadores, ela desconhece que se tornou um irresistível objecto de desejo para este homem que se irá aproveitar do seu estado perturbado e induzido em ópio.

Após essa fatídica noite, a marquesa é assombrada pela dúvida pois sente uma semente a crescer no seu ventre. Mas a consciência diz-lhe que tal não é possível. Confirmados os seus piores receios, e perante uma gravidez assombrosa, é injustamente acusada pela sociedade e família de se envolver numa relação sexual ilícita e desonrosa. É neste momento que a marquesa revela a força do seu carácter, ao erguer-se do seu infortúnio com grande dignidade, aceitando a sua vergonha com a toda a resignação que o seu coração de filha renegada, mulher desonrada e futura mãe é capaz.

Numa tentativa de legitimizar a união e a criança, decide publicar um anúncio no jornal, solicitando ao pai da criança que revele a sua identidade. Ninguém acredita na sua inocência, excepto o conde russo que tenta clamá-la com grande determinação como sua esposa. Movido por uma consciência pesada e uma paixão exaltada, está determinado a salvar a reputação da marquesa.

Mas o que é mais fascinante nesta adaptação e obra literária, e aquilo que terá possivelmente intrigado Rohmer, é a coexistência no ser humano do anjo e demónio. O conde cai em desgraça ao cometer uma violação, mas é ao mesmo tempo encarado como o salvador a quem a marquesa presta uma enorme dívida de gratidão. Os anjos da natureza humana dão lugar aos servos do diabo que pregam as suas partidas a homens fracos. E serão as mulheres o objecto do desejo a precipitar essa queda para os extremos, tal como a marquesa provocou  com as suas formas voluptuosas o fogo demoníaco nos olhos do conde russo.

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Love snapshot #6: The Go-Between

April 19, 2009 at 6:27 pm (Love Snapshots)

Julie Christie em The Go-Between de Joseph Losey

Julie Christie em "The Go-Between" de Joseph Losey

Quando o rapaz Leo é convidado para passar um Verão crucial da sua adolescência com uma família aristocrática inglesa, é ainda demasiado inocente para se aperceber do mundo subtil dos adultos, permeado de jogos e silêncios eloquentes, de mentiras e manipulação.

Tudo o que vê é a beleza fulgurante e angelical de Marian (Julie Christie), irmã do seu amigo, destinada a ser uma futura Lady. A sua paixão de rapaz é inteiramente ingénua, levando-o a devotar-se a Marian com toda a sua alma. Mas a jovem mulher, mesmo tendo a face de um anjo, tem segredos que nunca revela por inteiro. Força Leo a servir de mensageiro entre ela e o homem por quem está apaixonada, um agricultor inferior à sua classe (Alan Bates). De forma inconsciente ao rapaz, é através dele que o casal consuma a sua relação  sexual ilícita, nunca revelada por palavras em todo o filme (e essa é um dos feitos notáveis do argumento de Harold Pinter em que tudo está subeentendido nas entrelinhas, mas nunca claramente expresso).

Descrevendo uma Inglaterra de início de século que já não existe, e em particular uma classe extremamente opulenta e antiquada que se extinguiu para dar lugar a uma classe mais enérgica e consciente dos seus pares, The Go-Between é um filme todo ele sobre desejo e amor. Mas um desejo esmagado pela força das circunstâncias e por uma sociedade hipócrita que mantém as aparências da convencionalidade, ignorando propositadamente a imoralidade que corre no seu seio.

Aprisionado entre os amantes, e manipulado sem escrúpulos, o rapaz irá entrar da pior forma possível no mundo adulto, servindo de testemunha a um amor trágico. Ele será, acima de tudo, a principal vítima do egoísmo de outros, um mero peão no jogo entre deusas e homens que não são fortes o suficiente para resistir à luz tentadora que irradia do Olimpo dos deuses.

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Love snapshot #5: Tess

March 15, 2009 at 1:07 pm (Love Snapshots)

tess

Nastassja Kinski em Tess de Roman Polanski (1979)

O início de Tess de Roman Polanski pode levar-nos a pensar que estamos perante uma obra sentimental e lírica, mas se há uma qualidade enervante na obra literária de Thomas Hardy é o seu desejo inflexível de expor a crueldade da natureza humana que é dominada pelos caprichos de homens poderosos. Todavia, até os homens podem ser as vítimas dessa marcha implacável do destino que tudo mancha de vermelho, a cor da tragédia.

O morango que Alec, um fidalgo que se enamora de uma prima plebeia, força Tess a comer não é mais do que o símbolo do fruto proibido que irá fazer a jovem mulher cair nas malhas do desejo masculino. Como poderia a sua pureza resistir perante o rosto de ignomínia e uma sociedade tão moralmente espartilhada que condena a rapariga a expiar uma culpa que nunca lhe pertenceu?

Mas mesmo quando Tess luta contra todas as expectativas em se livrar da mancha do pecado, e julga ver a salvação na forma de um anjo, o diabo não consegue esquecer o rosto que a sua vilania deseja possuir de novo. É um dos momentos mais notáveis quando Alec  não se consegue contar perante a beleza de Tess, I was your master once!  I shall be so again. If you are any man’s wife, you’re mine.

A força desta declaração revela-se profética. A tirania do desejo triunfa, mas condena ambos os amantes ao Hades. Impossibilitada de de viver o seu verdadeiro e único amor, Tess escolhe a única via que lhe resta no seu desespero, condenando-se perante uma sociedade indiferente a verdadeira justiça.

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Love snapshot #4: Letter From an Unknown Woman

February 11, 2009 at 10:21 pm (Love Snapshots)

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Joan Fontaine e Louis Jourdan em Carta de uma Mulher Desconhecida (1948)

Gosto imenso da imagem acima. Não só porque pertence a um dos meus filmes favoritos, Letter from an Unknown Woman de Max Ophüls, mas também porque é a pura representação de uma mulher genuinamente apaixonada. Lisa Berndle (Joan Fontaine) sempre amou desde rapariga o artista Stefan Brand (Louis Jourdan), mas tímida e inocente como era, ele nunca desviou o olhar para a rapariga que o venerava em silêncio.

E quando um dia os seus caminhos se cruzam de novo, ele vê pela primeira vez a mulher graciosa e bonita, e os olhos de Stefan brilham como quem descobriu uma ave rara. Quando se conhecem melhor, e embarcam numa “viagem de comboio” que é na verdade uma viagem fixa enquanto os cenários vão sendo trocados, é completamente visível nessa cena o crescente fascínio de Stefan por Lisa, uma mulher que está a viver o melhor momento de sempre porque sabe que está a ser correspondida pelo grande amor da sua vida.

O calor que emana desta cena é quase palpável. Quase consigo imaginar as borboletas no estômago de Lisa por estar perante Stefan. E por um breve momento, pensamos que talvez ele não seja tão egoísta e vaidoso como aparenta ser, e queremos acreditar que as coisas não têm que terminar de forma trágica, e que ambos talvez poderão ser felizes para sempre porque tudo o que vemos naquele instante é a paixão que nutrem um pelo outro, não importando o quão breve seja.

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Love snapshot #3: Raise the Red Lantern

February 7, 2009 at 11:54 am (Love Snapshots)

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Gong Li em Raise the Red Lantern (1991)

O que faria uma mulher para se tornar a favorita de um homem? Para começar, ela odiaria todas as outras mulheres que disputassem o seu amor e atenção.  Em Raise the Red Lantern de Zhang Yimou, nos aposentos sumptuosos e sedutores das concubinas, onde impera o vermelho da paixão, o mestre e senhor da casa, sempre de face oculta, favorece Songlian (a deslumbrante Gong Li), mas ela tem que aprender a sobreviver num ninho de víboras, ou será mordida pelo veneno dos ciúmes, da inveja e do ódio.

Para triunfar é preciso encarnar as qualidades de amor como convém a uma concubina, mas na sua inexperiência, ela é incapaz de lidar com a dissimulação de outros. E quando ela própria se enreda no labirinto das mentiras, vê-se sozinha e sem salvação no mundo subtilmente opressivo e cruel  do palácio onde mulheres são mortas por adultério, perante os olhos cegos da justiça.

Mas por breve instantes, Songlian triunfa quando as outras concubinas aparentemente aceitaram o seu novo estatuto de favorita do mestre. Ela rejubila e cai no pecado da arrogância. Todavia, tudo é ilusório e efémero, e Songlian aprende da forma mais cruel que não é mais do que um objecto de posse, sem vontade própria. E que a vida de uma concubina é tão solitária e vazia como o quarto em que se vê encerrada na imagem acima, sem nenhum amor para dar ou receber.

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Love snapshot #2: No more the crying game

January 12, 2009 at 10:44 pm (Love Snapshots)

Jaye Davidson em The Crying Game (1992)

Jaye Davidson em The Crying Game (1992)

Causa verdadeira sensação a aparição, sob as luzes do palco, de Dil a cantar The Crying Game num pub perante o olhar hipnotizado de Fergus, um ex-membro do IRA que conhecera Jody, o amante de Dil e soldado britânico, em circunstâncias extremas. Levado a questionar as políticas extremas do IRA e impelido por um estranho sentido de dever e curiosidade, Fergus encontra Dil para lhe transmitir as palavras e memória de Jody, mas  deixa-se inevitavelmente levar pela sua própria necessidade de amar e ser amado.

E por mais irónico que isso soe (não posso revelar o enredo subtil e bastante complexo), o charme, a graça e feminilidade de Dil encantam Fergus, mesmo quando descobre os factos que falam por si. A verdade acaba por perder toda a relevância perante a difícil constatação de que está disposto a assumir as consequências do amor que sente, não importando a dimensão do sacrifício que terá que realizar para preservar o seu afecto. Um afecto que o revela como um novo homem, transformado pelas suas experiências.

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Love Snapshot #1: A Beautiful Liar

January 11, 2009 at 2:09 pm (Love Snapshots)

Isabelle Adjani em L'Histoire d'Adéle H. (1975)

Isabelle Adjani em L'Histoire d'Adéle H. (1975)

Inspirando-me no título da colectânea Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada de Pablo Neruda, esta é a primeira de vinte imagens (e uma canção desesperada) em cinema que irei escolher e que, na minha opinião pessoal, reflectem amor e desejo. Será difícil escolher entre tantos bons filmes e poderia talvez argumentar sem grande dificuldade que todo o cinema é, no fundo, sobre amor ou a necessidade por amor.

Na primeira imagem escolhida, Isabelle Adjani é aparentemente a encarnação de virtude e inocência. Consumida de dia e noite pelo amor exacerbado que sente por um oficial do exército (Bruce Robinson), ela fará tudo para obter o homem que ama. Qual Orfeu a descender ao Hades em busca da mulher amada, Adèle inicia a sua própria descida ao Inferno que não lhe trará nenhuma felicidade.

Ao descobrir que o oficial está noivo de uma herdeira, ela confronta o pai da rapariga e mente com absoluta convicção, destruindo sem escrúpulos a reputação do Tenente, com uma falsa história de abandono e gravidez. De todas as imagens que podia escolher, essas são as que mais me fascinam, aquelas em que a beleza encantadora e o olhar triste de Adjani suportam as  mentiras vergonhosas, tal como reproduzido na imagem acima. Como não acreditar que essa é a verdadeira imagem de virtude enganada e desprezada pela inconstância de homens? Mas aquilo que vemos raramente é a realidade.

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