Bang! day

November 2, 2010 at 10:11 am (Livros/BD/revistas, Strange Land)

É hoje a apresentação! O encontro está marcado para as 19h, na Fnac Chiado.

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Tristes tristezas

October 15, 2010 at 10:33 am (Livros/BD/revistas, Strange Land)

É bom saber que o lançamento do Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick esteve quase deserto. É sinal de que o nosso fantástico está cheio de boas obras e de grandes autores, de tal forma que o lançamento de uma das melhores obras do género numa nova tradução e acompanhada por um excelente ensaio, por um orador reputado no mainstream, não suscita sequer uma palpitação. Se antes estes acontecimentos eram raros, proporcionando ao fandom uma oportunidade para se encontrar, hoje é tão frequente que nem sequer justifica a deslocação a uma livraria…

A FC de qualidade já está tão divulgada entre o mainstream e a academia, que até a presença – que há anos seria pouco habitual – de uma personalidade televisiva para os apresentar é encarada com perfeita indiferença. E foi bom ver que NENHUM dos divulgadores de FC e autores esteve presente, estes últimos provavelmente por estarem a escrever mais um livro, para se juntar à mão-cheia que publicaram nestes últimos cinco anos…

Adenda: Comentário no fórum Bang! do editor Luís Corte Real ao lançamento do livro. Como penso que é relevante, transcrevo em baixo.

Triste, triste foi o facto de ninguém ter aparecido. É verdade que a apresentação do Nuno Rogeiro foi curta, mas teve mais conteúdo do que algumas apresentações que já assisti de uma hora. O Rogeiro foi directo e conciso. O livro de Philip K. Dick dava assunto para muitas horas, mas ele tinha de sair às 19h. E como a sala estava vazia e ninguém quis fazer perguntas, ele ainda foi embora mais cedo.

Apesar da excelência do autor e do livro e do mediatismo do apresentador, a sala estava às moscas. Foi uma boa amostra do interesse do fandom pela fc. Fala-se, critica-se, lamenta-se… mas poucos se mexem. Se não fosse a paixão que temos pelo género, deixávamos-nos destas aventuras e publicávamos apenas a PC Cast. Mas pronto…

Um abraço e votos de boas leituras,
Luis CR

Nova adenda: A caixa de comentários deste post foi fechada em virtude da discussão que tomou lugar nela ter cedido a trocas de galhardetes que não irei mais tolerar. Os comentários não foram apagados mas só surgem acedendo ao link do post.

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Vencedor do passatempo FOME

October 2, 2010 at 7:41 am (Livros/BD/revistas)

E eis que, com um dia de atraso, posso anunciar o vencedor do passatempo FOME. Bem sei que escrever frases criativas não é o passatempo mais fácil mas, apesar de tudo, a adesão foi boa e quero agradecer a todos os que participaram.

E agora sem mais delongas, apresento a frase vencedora que me conquistou pelas suas referências literárias.

Já li a Morte — a de Ivan Ilitch —, a Guerra — a dos mundos — e a Peste — a do Camus. Bem se vê que me falta a Fome. Entretanto, tenho disfarçado com a Luxúria — nem de propósito, estou neste momento a ler Fanny Hill, palavra! — que é bom e não engorda, mas pode meter doenças, infantário e outras chatices. Não, venha a Fome.

O autor da frase é o Hugo Emanuel da Rocha Carreira que deve entrar em contacto comigo para me indicar a sua morada de envio.

Obrigado a todos e para o ano há mais!

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Passatempo Fome

September 21, 2010 at 9:14 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Como já todos os meus leitores do blogue deverão saber, fui a tradutora da obra de Elise Blackwell, Fome, publicada em Portugal pela editora Livros de Areia. Um livro que tem recebido críticas bastante elogiosas e positivas na imprensa literária e blogosfera e pensei que seria uma boa altura realizar um passatempo de oferta de um livro. Como tradutora, tive direito a vários exemplares, pelo que não me importo de abdicar de um para os interessados em conhecer esta extraordinária história no tempo do cerco de Leninegrado.

Se ainda tiverem dúvidas sobre o que se trata o livro, podem ler os vários textos na blogosfera aqui, aqui e outro aqui.

Para concorrerem ao passatempo basta escreverem uma frase em 340 caracteres (pode ser menos, mas não mais) em que indicam a razão porque gostariam de ler este livro, até dia 30 de Setembro. A melhor frase, sujeita inteiramente a critérios subjectivos ditados pelos meus neurónios, será seleccionada e anunciada a 1 de Outubro, recebendo o livro como oferta.

Não se safam de um pequeno regulamento de participação, uma vez que a experiência já me ensinou a ter algum cuidado neste tipo de passatempos.

Deverão enviar para o o meu mail pessoal com indicação no assunto PASSATEMPO FOME , a vossa participação junto com o nome completo. Só é válida uma participação por pessoa. Só são aceites participações de Portugal (continente e ilhas). O envio do livro será da minha responsabilidade e custo, mas não me responsabilizo por extravios dos CTT ou moradas incorrectas. Reservo-me ao direito de não escolher uma frase vencedora se considerar que nenhuma me agrada o suficiente.

Resta-me desejar boa sorte a todos os participantes e que ganhe a frase mais inspirada e inventiva!

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Fome

August 24, 2010 at 11:13 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Há grandes livros e há pequenos grandes livros. O tamanho do livro é irrelevante perante a certeza de um autor que sabe com quantas palavras deseja contar uma determinada história. E num tempo em que cada vez mais o autor sente que tem que compensar o seu leitor com prosa extensa, é bom ver livros que marcam a diferença.

Tive o prazer de traduzir um pequeno grande livro, FOME de Elise Blackwell, que acaba de ser lançado pela Livros de Areia. Já poderão ter lido várias excelentes críticas ao livro como aqui e aqui, mas eu não queria deixar de partilhar algumas ideias e pensamentos sobre a obra.

O título não deixa margem para dúvidas. Durante a Segunda Guerra, a cidade de Leninegrado (hoje São Petersburgo) foi sujeita a um cerco de 900 dias pelas tropas alemãs e, tal como nos cercos da Idade Média a castelos e fortificações, os sitiantes apenas tinham que esperar que as necessidades mais básicas dos sitiados se esgotassem para conquistar lentamente a vitória da forma mais cruel.

A narrativa de Elise Blackwell é baseada em factos verídicos, centrando-se na campanha contra Nikolai Vavilov, um dos maiores geneticistas e botânicos do seu tempo e o principal responsável pela criação de uma das maiores colecções de sementes do mundo. Vavilov foi publicamente desacreditado pelo agrónomo Trofim Lysenko que conquistou os ouvidos de Estaline e incutiu nele um ódio por toda a genética mendeliana. Vavilov foi condenado à prisão e morreu de maus tratos e subnutrição em 1943 mas o seu trabalho não foi esquecido. Os cientistas do Instituto juraram proteger as colecções de sementes da população esfaimada, da destruição de bombas e deles próprios.

O cientista sem nome que nos conta a história de FOME relata na 1ª pessoa a sobrevivência atroz ao cerco, povoada de memórias intensamente pessoais e em torno da sua mulher Alena, também ela uma cientista, mas tão mais heróica do que ele próprio.

Mais do que descrever a experiência de fome – “essa fome cinzenta, e não a própria morte, que temia, que evitava a custo de toda a honra” – nesses meses de Inverno em que a população foi submetida a múltiplas tiranias, o olhar do narrador surpreende pela sua frieza e crueldade, por actos de egoísmo completo perpetrados por uma natureza cobarde e nada heróica.

Ele é de facto o elo mais fraco da cadeia, o homem que jurou proteger as sementes mas que foi incapaz de se submeter ao sacrifício por uma causa mais nobre. Afinal ele é o homem que estava disposto “a acreditar mais nas histórias sobre pessoas que cometeram actos piores do que os meus, as histórias sobre pessoas menos humanas (ou talvez mais humanas) do que eu”.

Numa prosa incisiva,  límpida e evocativa, Elise Blackwell expõe os demónios interiores de um homem atormentado pelo acto de traição cometido para com a sua mulher e colegas, mas também pela sua natureza cobarde.  É um homem acima de tudo governado pelas suas paixões, e que significa realmente a honra perante a necessidade imperiosa de sobreviver?

Apesar do tema trágico, FOME está longe de ser uma narrativa deprimente. O sentimento de perda e nostalgia é inescapável, mas contrasta com os episódios vívidos e sensuais do prazer do acto de comer ou fazer amor. As viagens pelo mundo inteiro – Abissínia, México, Lago Nicarágua – em busca de sementes constituem também alguns dos melhores pedaços de prosa deste livro, bem como os momentos que estabelecem enquadramentos interessantes referentes à notável agricultura babilónia. Babilónia essa devorada pelo “abismo da História”, bem como Leninegrado/São Petersburgo um dia o serão.

E o que resta? “Em noites quentes, quando acordo encharcado em suor, sei que a redenção, se possível, é irrelevante. Um homem é governado por apetite e remorso, e eu engoli o que pude.”

Não posso deixar de chamar também a atenção para a notícia recente de a colecção de sementes do Instituto Vavilov estar em risco de ser parcialmente destruída para dar lugar a condomínios privados. É surpreendente que uma colecção que sobreviveu aos nazis – até eles não permitiram a sua destruição – esteja em risco de morrer no século XXI, numa era onde precisamos desesperadamente de aprender com a biodiversidade dessas sementes e colecções de plantas e frutos. Leiam o livro. Tenho a certeza que aprenderão coisas novas com ele.

Entrevista a Elise Blackwell sobre FOME

Compra online do livro no site da editora

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Agradecimento

June 2, 2010 at 7:12 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Não quero deixar de prestar um agradecimento aos Booktailors e a José Mário Silva do blogue Bibliotecário de Babel pela referência à minha nova posição como editora da revista Bang! Obrigado. Vamos ver se estou à altura.

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Crueldade numa noveleta e um conto

April 2, 2010 at 1:06 pm (Livros/BD/revistas)

Às vezes, as horas de trabalho e de obrigações exigem tanto tempo que se torna demasiado difícil ler romances com o mesmo prazer e dedicação dos tempos de estudante. Romances podem ser mais exigentes, mas eu mentiria se dissesse que a ficção curta não é tão ou mais exigente, mentiria se dissesse que um conto de dez páginas não pode ter  a mesma profundidade que um livro de trezentas páginas.

A ficção curta deve ser duplamente apreciada não só porque consume menos do nosso tempo que voa, mas permite oferecer o mesmo grau de satisfação para o intelecto que um romance ou uma série de livros.

E que melhor forma de demonstrar a verdade desta afirmação do que escolher uma novela e um conto, ambos brilhantes nos seus géneros, ambos com uma tal capacidade para perturbar o leitor e fazê-lo abrir os olhos perante um mundo de crueldade e selvajaria, ambos uma brilhante reflexão sobre a natureza humana?

Sandkings de George R. R. Martin é um clássico de ficção científica, publicado pela primeira vez em 1979, e vencedor dos prémios Nebula e Hugo. Narra a história de um homem de nome Simon Kress, um playboy rico que tem um enorme interesse em animais exóticos. Na sua busca por um novo animal capaz de satisfazer as suas excentricidades e caprichos cruéis, encontra uma estranha loja de nome Wo and Shade que o convence a comprar sandkings, criaturas cuja natureza as impele a guerrearem-se umas às outras, mas a também venerarem o seu dono.

Interessado por esta espécie da qual nunca ouvira falar, Kress adquire os sandkings e rápido se apercebe do sistema que move as criaturas. Demasiado impaciente para esperar que iniciem guerras por si mesmas (divididas por cores, laranja, preto, vermelho e branco), Kress começa a submetê-las a fome e a uma tortura cada vez mais brutal. A guerra que os sandkings iniciam é degradante e primitiva, reduzida ao seu nível mais básico de sobrevivência. Se Kress tivesse permitido que os sandkings tomassem o curso natural das coisas, teriam concedido um melhor espectáculo a Kress e os seus amigos com conflitos de grande subtileza e complexidade, tal como num jogo de xadrez.

À medida que os sandkings são cada vez mais instigados pela crueldade de Kress, reproduzem o rosto do seu dono nos seus castelos de areia com traços cada vez mais odiosos e perversos. Inevitavelmente, Kress perde o controlo e o monstro que criou é libertado para o perseguir…

Martin sabe que para concretizar com sucesso a atmosfera de horror não há nada como expor, com crueza, a brutalidade e egocentrismo de homens com mentes mesquinhas e insensíveis, como Kress. A personagem não tem problemas de consciência em torturar os seus animais ou oferecer os seus amigos como sacrifícios para apaziguar as criaturas. Mas, na verdade, Simon não sabe a verdade completa acerca destas criaturas que são bem mais perigosas e sofisticadas do que julgara…

No caso de George R. R. Martin, ao ler o seu trabalho de ficção curta compilado na colectânea Dreamsongs, torna-se fascinante acompanhar o percurso literário do autor, que sempre desde o início provou ser da maior diversidade possível. Martin experimentou todos os sub-géneros do fantástico, com maior ou menor sucesso, e ao ler os seus primeiros passos de aprendiz, torna-se tão óbvio que Martin ainda não encontrara a sua própria voz. Os seus contos inicialmente adoptam um estilo derivativo da fantasia épica (e péssimo), mas gradualmente começa a estabelecer e organizar ideias o riginais ainda sem um estilo de escrita que faça jus à sua imaginação. Alguns dos contos posteriores, embora de melhor qualidade, são etéreos, românticos, quase gentis. Martin encontrou a sua voz no horror. Descobriu que as suas melhores contribuições possuem um ponto de vista em que abunda a crueldade e tortura, sofrimento e acções chocantes que só chocam os mais ingénuos ou inocentes, ou  habituados a histórias de galantes cavaleiros.

E essa é a voz que se veio a expressar nas Crónicas de Gelo e Fogo com tanto sucesso. Teria a série tanto impacto se o autor optasse por um estilo passivo e convencional, em que o mal não se manifesta na realidade? Claro que não basta matar as personagens principais que gostamos para atrair leitores, mas a mestria de Martin está na natureza inflexível e pouca dada a perdão da sua escrita, na capacidade de opor a inocência de crianças a um mundo em que mercenários arrancam à dentada rostos de donzelas.

Ainda no domínio norte-americano, poucos contos conseguem produzir impacto no leitor como The Lottery de Shirley Jackson (o texto é curto e pode ser lido aqui. O que se segue sobre o conto contém spoilers). É um clássico, escrito por uma autora grandemente reconhecida na literatura das margens. Será mais conhecida pelo grande público pelo seu romance The Haunting of Hill House que teve direito a uma excelente adaptação cinematográfica em 1963 de Robert Wise, mas é We Have Always Lived in the Castle (Sempre Vivemos no Castelo) que será publicado em Portugal pela Cavalo de Ferro,

A autora vem na continuidade da grande tradição do horror sobrenatural norte-americano, representada por figuras como Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne,  Washington Irving, Ambrose Bierce, Clark Ashton Smith e Lovecraft.

O conto actualmente poderia ser considerado demasiado previsível, ou demasiado óbvio nos sinais dados pela autora. Isso não impede uma apreciação do estilo de uma autora conhecida pela sua habilidade em perpetuar fantasmas ou demónios do passado.

O que impressiona no conto é o tom casual, assente na descrição de uma rotina estabelecida há anos incontáveis e que é praticada com a maior das naturalidades. As pedras são empilhadas num canto à parte, afastadas das brincadeiras das crianças; os aldeões reúnem-se na praça e comentam entre eles como o tempo voa desde a última lotaria; fala-se da desistência da lotaria em algumas vilas enquanto homens idosos criticam a juventude de hoje que se arruína com o fim de velhos costumes. Tudo descrições naturalistas de um feriado numa aldeia, quase a lembrar os Contos da Montanha de Miguel Torga. Não há noites de tempestade, ou barulhos estranhos numa casa, ou portas ominosas que se abrem abruptamente, nem o crocitar de corvos, símbolo de maus presságios e morte.

Há apenas uma caixa preta velha cuja existência muitos preferem esquecer durante o ano até à data em que é recuperada pelo oficial da lotaria e nela são depositados os papéis da lotaria. Cada um é chamado para cumprir esse acto obrigatório perante a comunidade e a tensão e nervosismo tornam-se cada vez mais evidentes nos rostos dos aldeões.

Quando finalmente é sorteada a família a quem calhou a sorte (ainda desconhecemos o prémio), cada membro dessa família, incluindo crianças, deve submeter-se de novo ao sorteio. A mulher da família é a que mais se revolta com gritos de injustiça e será, previsivelmente, a pessoa a quem se irá destinar o prémio da lotaria. Nos parágrafos finais, as aparências caem por terra e a selvajaria de uma antiga tradição pagã é retomada. Os aldeões apedrejam a vítima até à sua morte, num antigo ritual de sacrifício humano em troca de boas colheitas. O tom casual e benigno é mantido até ao fim, reforçando ainda mais a crueldade e barbárie das acções da aldeia, num dia bonito e primaveril.

Como provam tão bem estes dois escritores, os velhos clichés de actos malévolos a coberto da noite são apenas para os mais ingénuos. Alguns podem escolher sobreviver a qualquer custo, como Simon Kress, mas a outros não é dada essa escolha. Em ambos os casos, todavia, impera uma necessidade da parte do autor de despir um antigo coração de trevas e deixá-lo nu à luz do dia.

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O mundo imperfeito das revistas

March 16, 2010 at 10:44 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Ontem foi anunciado, da forma mais pragmática possível, após cinco anos, o fim da revista Os Meus Livros. Um anúncio seco a indicar a quebra de publicidade e vendas estagnadas como a causa do encerramento definitivo da revista e dispensa do seu director, João Morales.

A revista sempre primou por uma perspectiva mais abrangente do que o habitual nesta matéria e deu a oportunidade a todos para mostrarem o seu valor e projectos. O Fórum Fantástico começou a dar os seus primeiros passos fortes na imprensa através da revista que acreditou no evento. A título pessoal, é com tristeza que recebi esta notícia. Não quero deixar de agradecer ao João Morales por todo o trabalho desenvolvido e desejar-lhe boa sorte na continuação da sua carreira na área jornalística literária.

Em termos profissionais, não posso também deixar de lamentar. Continua a tendência que se tinha vindo a registar nos últimos anos de diminuição do espaço dedicado a crítica literária e notícias dos livros.

Resta-nos agora a revista Ler e alguns suplementos de jornais com um espaço diminuto dedicado a livros. É pouquíssimo para um país que publica centenas de livros por ano num mercado cada vez mais competitivo. Dezenas de editoras lutam por um lugar ao sol e já não existem suficientes plataformas em papel que escoem todas essas editoras famintas por destaque na imprensa. Do ponto de vista de uma editora, a Internet tem-se revelado como um palco mais democrático onde alguns bons golpes de relações públicas, assim como um certo inovadorismo na abordagem aos leitores,  podem marcar a diferença na venda de um determinado livro. Do ponto de vista de um jornalista/crítico, a Internet tem os seus prós e contras: a proliferação de blogues de livros tem dispensado o papel do crítico mais exigente, este totalmente ignorado pelas massas, mas ainda acarinhado por uma minoria. E também é graças à Internet que o trabalho de um crítico é mais do que nunca posto em causa, mas é também mais admirado.

No entanto, coloca-se a questão: porque é tão difícil para uma revista sobreviver e ganhar estabilidade? A experiência tem-me ensinado que é muito mais difícil editar uma revista do que livros, por incrível que pareça. É normal uma vez que a produção de um livro é muito mais linear do que reunir e produzir o conteúdo de uma revista.

Mas revistas são caras de produzir, difíceis de distribuir, difíceis de vender e lutam com o mundo permanentemente actualizado da Internet onde é tão fácil aceder a um manancial de informação que desactualiza ou põe em causa, numa questão de segundos, o conteúdo de uma revista. Há também a questão da publicidade que tem sido o alicerce fundamental. Não havendo apoios publicitários, poder-se-ia colocar a hipótese de uma empresa ou investidores a suportarem financeiramente um tal projecto. Mas até essas empresas e investidores desejam obter lucro ou algum tipo de retorno que justifique o investimento contínuo numa revista.

Referindo-me a um caso muito concreto, muitos questionam a decisão da Saída de Emergência em não distribuir nos canais normais a nova revista Bang! em papel, mas esquecem-se que a distribuição não é grátis, e por cada produto distribuído é cobrada uma percentagem que forçaria a encarecer ainda mais o preço da revista, quando ela já tem um preço puxado (5€) devido aos custos de produção. Por isso, numa tentativa de diminuir o prejuízo que tinha causado a distribuição dos primeiros 3 números de uma revista de nicho, decidiu-se por uma exclusiva venda online. É a solução perfeita? Nem por sombras porque este país ainda não é totalmente fã de compras online e ainda encara o sistema com muita suspeita.

Ainda se está à procura do sistema ideal para a revista Bang! que sempre se desejou em papel, mas nem sempre foi possível. Todavia, essa curta experiência de produção de revista, e falamos aqui de uma tiragem de 150 exemplares, abriu-me os olhos para as dificuldades sérias que enfrenta o mundo português das revistas. Apenas com fortes receitas publicitárias e aposta em conteúdos únicos e apelativos consegue marcar-se a diferença.

Claro que há sempre a opção do formato digital, mas por mais estranho que pareça nesta era tecnológica, a leitura em papel é ainda a que conquista grande parte dos leitores. Prova disso são os milhares de livros vendidos e comprados todos os dias em Portugal e no mundo. A discussão sobre ebooks e as suas consequências no mundo da edição já começou, mas em termos práticos estamos ainda numa fase muito primitiva de implementação dessa tecnologia no mercado. A actual crise grave de papel que está a começar a minar o mercado de livros na Península Ibérica e resto da Europa pode precipitar medidas em relação ao ebook, embora ainda me pareça wishful thinking. Resta-nos aguardar para ver.

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Eu não fumo, e você?

February 6, 2010 at 12:24 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Antes de mais, uma nota pessoal. Já recebi muitos avisos de amigos a alertar-me para a insensatez de continuar a expor publicamente, com o meu nome, as tais pseudo-editoras/vanity presses. Razões? Porque não sou uma pessoa totalmente isenta uma vez que trabalho para uma (verdadeira) editora, porque devo manter-me à margem destas polémicas, mais não seja para manter o nome da minha entidade patronal afastada destas celeumas.

Tudo bons conselhos, de facto. A verdade é que não tenho paciência para assumir fachadas anónimas, mas também não tenho paciência para ver a desfaçatez cada vez maior de certas pessoas a reinar impune. Tudo o que faço em meu nome neste espaço é pessoal e afastado da minha rotina profissional, e o meu chefe é o primeiro a dizê-lo. Eu sou assistente editorial, mas sou primeiro e, antes de mais, leitora. Uma leitora talvez mais calejada, mas uma leitora.

Bem sei que depois há muito choro e dedos apontados, raiva e frustração mal canalizadas, acusações de eu ser a Cruella de Vil dos tais pseudo-editores (em vez de dálmatas) e – esta é a minha favorita – uma agente secreta a soldo de grandes corporações editoriais que pretende acabar com o trabalho mui nobre e digno dos auto-intitulados editores.

Mas desta vez  será diferente porque não me irei alongar a detalhar os passos. Desta vez confiarei no vosso bom-senso para que leiam com os próprios olhos e tirem as vossas próprias conclusões sobre a legitimidade deste projecto. Não é difícil distinguir o trigo do joio, e eu limitar-me-ei a apontar o caminho.

Uma vez que a pessoa responsável por este pseudo-projecto já demonstrou na blogosfera atitudes pouco abonatórias a seu favor e uma postura claramente ofensiva para com aqueles que criticam o seu projecto, não tenho qualquer desejo em pôr essa pessoa a chafurdar o meu nome na lama.

E no entanto, é um dever expor isto pelo que se trata, uma clara tentativa de fazer dinheiro à custa dos sonhos e aspirações de poetas incautos. E essa é e sempre foi a minha luta, porque há poucas coisas mais cruéis do que brincar com os sonhos das pessoas.

E há que chamar a atenção porque parece-me cada vez mais que os meios de comunicação social estão a desligar-se perigosamente desse papel filtrador de qualidade e lixo. Anunciam tudo, sem lei nem rei, aos seus leitores que normalmente confiam no juízo do jornalista. Se eu conseguir usar qualquer credibilidade que eu tenha para fazer as pessoas duvidar, questionar, então é uma missão cumprida.

Por isso, sem mais delongas, leiam este regulamento, tenham em particular atenção o tom geral, as alíneas 2 e 3, e tirem as vossas próprias conclusões.

PS -> Não poderia deixar de chamar a atenção para um blogue que disserta sobre este mesmo tema e regulamento com infinitamente mais estilo e sentido de humor do que eu. Falo do blogue Máscara &Chicote, editado por uma figura que se oculta por trás da máscara Fortinbras. Recomendo o blogue, em particular este post e este.

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Adenda ao Best of 2009

January 17, 2010 at 9:53 am (Livros/BD/revistas)

Esquecimento imperdoável da minha parte que justifica um novo post, no seguimento deste.

Houve um filme notável em 2009 e produzido bem longe do continente americano. O sueco Let the Right One In de Tomas Alfredson, baseado na obra literária de John Ajvide Lindqvist. É um esquecimento do qual espero redimir-me agora, na tentativa de incentivar os leitores deste blogue a verem um filme contrário a todas as convenções.  O filme narra a história da amizade de uma vampiro e um rapaz de 12 anos. Uma premissa aparentemente simples que ganha contornos perturbantes pela sua combinação de inocência e decadência. Definitivamente, um dos filmes mais marcantes de 2009.

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