If…

March 29, 2009 at 7:40 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

The thing I hate about you, Rowntree, is the way you give Coca-Cola to your scum, and your best teddy bear to Oxfam, and expect us to lick your frigid fingers for the rest of your frigid life.

Se há um filme que deve ser relembrado e salvo do baú do esquecimento é If… de Lindsay Anderson. Uma pessoa jamais se esquece do fulgurante papel de Malcolm McDowell como Mick Travis, o estudante insurgente que irá declamar tiradas poéticas a favor da violência e revolução.

A citação acima é retirada de uma cena particularmente sublime em que Travis desafia frontalmente as pessoas responsáveis pelo seu sofrimento, sem medo, apenas a coragem dos rebeldes.

Muitos não saberão que If… é o primeiro filme de Malcolm McDowell, lançando-o para a fama no Reino Unido e chamando a atenção do realizador Stanley Kubrick que acabaria por escolhê-lo para o infame papel de Alex DeLarge em Clockwork Orange. Embora ambos os filmes tenham protagonistas semelhantes que lutam contra o establishment, o estudante que incita à revolta em If… está longe da psicose que invade cada canto da mente perversa de Alex deLarge. O estudante é de natureza idealista, arrogante, seguro, confiante nas suas capacidades e ciente de que estão a ser completamente desperdiçadas no ambiente enclausurado e rigído da escola privada  inglesa.

Malcolm McDowell em  If... de Lindsay Andersin (1968)

Malcolm McDowell em If... de Lindsay Anderson (1968)

É um filme notável, cheio de cenas inesquecíveis, que tive a oportunidade de ver pela primeira vez na Cinemateca Portuguesa em 2008. A história é aparentemente simples. Numa escola privada no Reino Unido, os alunos são ensinados a conformarem-se aos seus superiores e a nunca desafiarem a autoridade da direcção ou dos estudantes mais velhos que controlam os alunos.

Neste cenário tão tipicamente Eton, surge no início do filme um jovem qual Guy Fawkes a esconder com a sua capa um bigode rebelde. Mick, juntamente com dois amigos, é o eterno insubmisso que se aliará a favor dos oprimidos contra a injustiça. Mas não é assim tão simples. De facto, o filme de Lindsay Anderson pouco tem de simples e politicamente correcto. Não é apenas uma afirmação contra a moral hipócrita vigente ou a autoridade  senil, mas é também um espelho das grandes transformações que se iriam operar nessa década, os anos sessenta.

Lançado no ano simbólico de 1968, o filme acabaria por ter um profundo impacto numa geração de espectadores e na própria história do cinema britânico que se afasta então dos modelos clássicos a favor de uma nova abordagem de denúncia e reveladora da sociedade moderna em que o homem recupera o controlo do seu destino.

Travis não é apenas um mero defensor de estudantes mais fracos ou alguém que deseja vingar-se dos seus opressores. É o revolucionário incendiário que afirma que One man can change the world with the bullet in the right place ou Violence and revolution are the only pure acts. Não tem uma consciência de herói que separa nitidamente o bem do mal, até porque Mick não hesitará em roubar uma mota ou usar armas ou bombas. É o anarca completo sem consciência moral, uma criatura perigosa de deixar à solta, e não é por acaso que o filme envereda cada vez mais  num tom surreal e satírico que irá terminar da forma mais brilhante e politicamente incorrecta que me lembro de ver em cinema.

O que importa é o acto de rebelião, a derradeira ofensa à instituição. Um grito de liberdade que estava reprimido há demasiado tempo e que acabaria por ecoar as próprias mudanças da sociedade inglesa nessa década.  É curioso notar como a homossexualidade é abordada de um ângulo muito suave e naturalista, algo invulgar na altura.

A cinematografia é excelente e o espectador poderá estranhar algumas imagens a preto e branco de interiores (a lenda diz que o filme não tinha orçamento suficiente para filmar todas as cenas a cores). Os jovens actores, seja os vilões ou os rebeldes, são todos de um realismo admirável e McDowell nunca esteve tão bem num filme que acabaria por definir o rumo da sua carreira de forma tão marcante.

Lindsay Anderson realizaria mais dois filmes com a personagem de Mick Travis, O Lucky Man! e Britannia Hospital que não vi, mas se forem tão marcantes como If…

Permalink 1 Comment

Última parte das recomendações de ficção científica

March 8, 2009 at 12:03 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca, Livros/BD/revistas)

E aqui está a última parte da lista de recomendações de obras de ficção científica por João Barreiros, incluída no catálogo da Cinemateca de 1984. Inclui as temáticas O HOMEM E A MÁQUINA, O HOMEM PROGRAMADO e O MUTANTE.

Espero que esta lista tenha despertado o vosso interesse para a leitura de ficção científica. Para os que já lêem, ficam a conhecer mais obras, para os que ainda não lêem ficam com uma ideia da vastidão e complexidade do género (tentarei arranjar uma forma segura de reproduzir o texto que acompanha as recomendações).

O HOMEM E A MÁQUINA

a) O homem sujeito à máquina

Jack Williamson
The Humanoids (1948)
The Humanoid Touch (1980)

Walter Tevis
Mockingbird (1980)

Daniel F. Galouwye
Simulacron-3 (1964)

b) A máquina sujeita ao homem

John Sladek
Roderick (1980)
Roderick at random (1981)
The reproductive system (1968)

Robert Silverberg
Tower of Glass (1970)

Isaac Asimov
The Book of Robots (1983)
The Robots of Dawn (1983)
Caves of Steel (1954)
The Naked Sun (1956)

David Gerrold
When Harlie was One (1972)

c) O conflito homem vs. máquina

Douglas Mason
The End Bringers (1973)

D. F. Jones
Colossus (1966)

Alfred Bester
Extro (1975)

Kevin Donnell
Mayflies (1979)

Phyllis Gotlieb
O Master Caliban (1976)

Roger Zelazny
My Name is Legion (1976)

Francis R. Rayer
Tomorrow Sometimes Comes (1951)

d) A síntese final

Stanislaw Lem
The Invencible (1963)

Charles Harness
The ring of Ritournelle (1968)

Chris Boyce
Catchworld (1975)

R. A. Lafferty
Arrive at Easterwine (1971)

Algis Budrys
Michaelmas (1977)

Frederik Pohl
Man-Plus (1976)

O HOMEM PROGRAMADO
Tema único: A programação pela igualdade

T. J. Bass
Half past Human (1971)
The Godwhale (1974)

Chris Boyce
Brainfix (1980)

Bernard Wolfe
Limbo (1954)

Frank Herbert

Hellstron Hive (1973)

Ira Levin
This Perfect Day (1970)

O MUTANTE

a) O mutante solitário

John Crowley
Beasts (1976)

Gertrude Friedberg
The Revolving Boy (1966)

Robert Silverberg
Dying Inside (1972)

b) O mutante guestaltico

Theodore Sturgeon
More than Human (1953)

Keith Roberts
The Inner Wheel (1970)

Tom Reamy
Blind Voices (1973)

Henry Kuttner
Mutant (1953)

Wilmar Shiras
Children of the Atom (1953)

c) Um futuro só de mutantes

Orson Scott Card
A Planet Called Treason (1981)

A.A. Attanasio
Radix (1981)

John Wyndham
The Crysalids (1955)

Norman Spinrad
The Iron Dream (1972)

Walter Miller
A Canticle for Leibowitz (1957)

Samuel Delany
The Einstein Intersection (1967)

Stuart Gordon
One-Eye (1973)
Two-eyes
Three-eyes

Permalink 1 Comment

III parte de recomendações de ficção científica

March 2, 2009 at 8:23 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca, Livros/BD/revistas)

Com a terceira parte da lista de recomendações por João Barreiros, temos as temáticas APOCALIPSES E SÉCULOS SEGUINTES e A HUMANIDADE SOB O JUGO.

APOCALIPSES E SÉCULOS SEGUINTES

a) O Holocausto

Pat Frank
Alas Babylon (1959)

David Mace
Demon-4 (1984)

David Graham
Down to a Sunless Sea (1979)

Luke Rhinehart
Long Voyage Back (1983)

Frederik Pohl
The Cool War (1981)
Jem (1979)

b) Os anos seguintes

Witley Streiber
Warday (1984)

Wilson Tucker
The Long, Loud Silence (1952)

John Harrison
The Committed Man (1971)

Andrew Stephenson
The Wall of Years (1979)
Nightwatch (1978)

Chelsea Quinn Yarbro
Time of the Fourth Horseman (1977)
False Dawn (1978)

c) Os séculos seguintes

Daniel F. Galouwye
Dark Universe (1961)

Edgar Pangborn
Davy (1964)
The Judgement of Eve
The Company of Glory


Marvin Kaye e Parke Godwin

The Masters of Solitude (1979)
Wintermind (1982)

Piers Anthony
Battle Circle (1977)

Pal Williams
An Ambush of Shadows
Breaking of Northwall
Dome in the Forest
Ends of the Circle
Fall of the Shell

Roger Zelazny
Damnation Alley (1969)

J. G. Ballard
Hello America (1981)

d) Os milénios seguintes:

Fred Saberhagen
Empire of the East (1973)

Sterling E. Lanier
Hiero’s Journey (1973)
The Unforsaken Hiero (1983)

A HUMANIDADE SOB O JUGO

a) Os invasores indiferentes

Thomas Disch
The Genocides (1965)

Daniel F. Galouwye

Lords of the Psyon (1963)

b) Os invasores interferentes

Thomas Disch
The Puppies of Terra (1966)

Garry Kilworth
In Solitary (1979)

Frank Herbert
The Heaven Makers (1977)

John Brunner
Players at the Game of People (1980)

Mike Farren
Protectorate (1984)

Brian Herbert
Sidney’s Comet (1983)

Permalink 2 Comments

II parte das recomendações de FC por João Barreiros

February 28, 2009 at 7:30 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca, Livros/BD/revistas)

Na sequência deste post, seguem-se as recomendações de João Barreiros extraídas do catálogo da Cinemateca de 1984 nas temáticas O IMPACTO DE NOVAS TECNOLOGIAS, NATUREZA CONTRA O HOMEM e O SISTEMA CONTRA O CIDADÃO.

O IMPACTO DE NOVAS TECNOLOGIAS

a) Elevadores orbitais

Arthur C. Clarke
The Fountains of Paradise (1979)

Charles Sheffield
The Web Between the Worlds (1979)

b) Oniroterapia

Roger Zelazny
Dream Master (1966)

c) Linguagem e Comunicação

Ian Watson
The Embedding (1973)
The Jonah Kit (1975)

d) Astronaves arcas

Brian Aldiss
Non-Stop (1958)

Robert Heinlein
Orphans of the Stars

Harry Harrison
Captive Universe (1969)

e) Esferas Dyson (Uma concha que envolve o Sol construída à escala de um Sistema Solar)

Bob Shaw
Orbitsville (1975)

Kolin Kapp (Ciclo Cageworld)
Search for the Sun (1982)
The Lost World of Cronus (1982)
The Tyrant of Hades (1982)
Star-search (1983)

Frederick Pohl e Jack Williamson (Ciclo Cuckoo)
Farthest Star (1975)
Wall Around a Star (1983)

Michel Jeury
L’Orbe et la Roue (1983)

f) Transmissores de Matéria

Algis Budrys
Rouge Moon (1960)

David Langford
The Space Eater (1982)

Harry Harrison

One Step from Earth (1970)

Larry Niven

A Hole in Space (1974)

John Brunner
Web of Everywhere (1974)

g) Pantropia (adaptação de seres vivos a outros ecossistemas)

James Blish
The Seedling Stars (1952)

Michael Coney
The Jaws that Bite, the Claws that Catch (1975)
The Hero of Downways (1974)

NATUREZA CONTRA O HOMEM

a) Catástrofes naturais

Larry Niven e James Pournelle
Lucifer’s Hammer (1977)

John Brunner
The Crucible of Time (1984)

Michael Coney
Winter’s Children (1974)

John Christopher
The World in Winter (1962)

Richard Cowper
The Twilight of Briareus (1974)

Brian Aldiss
Hothouse (1962)

b) Catástrofes provocada
s

Frank Herbert
The White Plague (1983)
The Green Brain (1968)

Fritz Leiber
The Wanderer (1964)

J. G. Ballard
The Drought (1962)

John Brunner
The Sheep Look Up (1972)

Stephen King
The Stand (1981)

O SISTEMA CONTRA O CIDADÃO

a) Consequências da superpopulação

Harry Harrison
Make Room! Make Room! (1966)

John Brunner

Stand on Zanzibar (1968)

b) O sistema concentracionário

John Brunner
The Jagged Orbit (1969)
The Shockware Rider (1975)

Thomas Disch
Concentration Camp (1960)
334 (1972)
On Wings of Song (1979)

c) O sistema de castas

Fritz Leiber
A Specter is Haunting Texas (1969)

Larry Niven e Jerry Pournelle
Oath of Fealty (1981)

Roger Zelazny
Lord of Light (1967)

Donald Kingsbury
Courtship Rite (1982)

d) O Estado policial

John Petty
The Last Refuge (1966)

John Brunner
The Stone that Never Came Down

Yevgeni Zamyatin
We (1924)

Larry Niven
A Gift From Earth (1978)

Michael Bishop
Catacomb Yes (1979)
A Little Knowledge (1977)

Ursula K. Le Guin

The New Atlantis

Kate Wilhelm
City of Cain (1974)

George Turner
Beloved Son (1978)
Vaneglory (1981)

Permalink 3 Comments

Recomendações de ficção científica por João Barreiros

February 27, 2009 at 7:55 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca, Livros/BD/revistas)

Como prometido, eis que transcrevo, com a devida permissão do autor, a lista de obras literárias de ficção científica recomendada por João Barreiros que surgiu no catálogo da Cinemateca Portuguesa de 1984 dedicado a cinema de FC. A lista encontra-se dividida por várias temáticas: SPACE OPERA, O IMPACTO DE NOVAS TECNOLOGIAS, NATUREZA CONTRA O HOMEM, O SISTEMA CONTRA O CIDADÃO, APOCALIPSES E SÉCULOS SEGUINTES, A HUMANIDADE SOB O JUGO, O HOMEM E A MÁQUINA, O HOMEM PROGRAMADO e O MUTANTE.

Seria mais fácil digitalizar as páginas, mas tenho dificuldades em fazê-lo sem estragar a edição.

Devo dizer que é uma lista bastante abrangente e como está indicado numa nota do autor a anteceder as recomendações, há um reduzido número de obras disponíveis na língua portuguesa. De há 25 anos para cá, terão surgido mais traduções, ainda assim, embora uma ou outra editora publiquem regularmente obras de FC, o mundo da edição portuguesa ignora ostensivamente o género e muitos clássicos ficaram ainda por editar.

Posto isto, neste post, encontrarão as recomendações relativas a SPACE OPERA. As restantes temáticas irão surgir posteriormente.

SPACE OPERA

a) Ascensão e queda dos impérios galácticos

Isaac Asimov (Ciclo Fundação)
Foundation
Foundation and Empire
Second Foundation
Foundation Edge
(1983)

Cordwainer Smith (Ciclo “Senhores da Instrumentalidade”)
You will never be the same (1953)
The Planet Buyer (1964)
The Underpeople (1968)
Quest of the Three Worlds (1966)
Three to a Given Star (1966)
Space Lords (1965)
Stardreamer (1971)

Janet Morris (Ciclo “Kerrion”)
Dream Dancer (1980)
Cruiser Dreams (1981)
Earth Dreams (1982)

Somtow Sucharitkul (Ciclo “Os Inquestors”)

Light on the Sound (1982)
Throne of Madness (1983)

b) As Civilizações Decadentes:

James Blish (Ciclo “Cidades no Espaço)
They Shall Have Stars (1957)
A Live for the Stars (1962)
Earthman, Come Home (1955)
The Triumph of Time (1958)

Alexei Paxini
Rite of Passage (1969)

Samuel Delaney
Nova (1968)

Norman Spinrad

The Men in the Jungle (1967)
The Void Captain’s Tale (1983)

George R. R. Martin
Dying of the Light (1977)

Jack Vance (Ciclo “Príncipes Demónio”)

Star King (1964)
Killing Machine (1964)
The Palace of Love (1967)
The Face (1979)
A Book of Dreams (1981)

c) As grandes guerras estelares

Samuel Delaney
Babel-17 (1966)

Joe Haldeman
The Forever War (1974)
Mindbridge (1976)
All my Sins Remembered (1977)

John Harrison
The Centauri Device (1974)

Richard Lupoff
Space War Blues (1978)

K. Hansen
War Games (1982)

d) A epopeia dos grandes planetas

Frank Herbert (Ciclo Dune)
Dune (1965)
Dune Messiah (1969)
Children of Dune (1976)
God Emperor of Dune (1982)
Heretics of Dune (1984)

Frank Herbert (Ciclo Pandora)
The Jesus Incident (1979)
The Lazarus Effect (1983)

Brian Aldiss (Ciclo Helliconia)
Helliconia Spring (1982)
Helliconia Summer (1983)
Helliconia Winter (1984)

Robert Silverberg (Ciclo Majipoor)

Lord Valentine’s Castle (1980)
Majipoor Chronicles (1982)
Valentine Pontifex (1984)

e) Os primeiros contactos

A. E. Van Vogt
The Voyage of the Space Beagle (1950)

Piers Anthony
Macroscope (1969)

Larry Niven com Jerry Pournelle
The Mote in God’s Eye (1974)

Larry Niven
Ringworld (1976)
Ringworld Engeniers (1983)

Ian Watson
God’s World (1979)

John Varley (Ciclo Gaea)

Titan (1979)
Wizard (1980)
Demon (1984)

Permalink 3 Comments

Onde se encontra uma raridade da ficção científica

January 18, 2009 at 2:15 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca, Strange Land)

catalogo-0031

Capa do catálogo da Cinemateca de FC, La Ville Entière de Max Ernst

Num incrível golpe afortunado em que os deuses alfarrabistas me decidiram abençoar com uma prenda vinda do mais alto céu, vi com estes meus olhos descrentes o catálogo da Cinemateca de Ficção Científica do ano 1984 e adquiri-o pela módica quantia de 20 euros na Livraria Antiquária do Calhariz. Nunca na minha existência sonhei sequer em obtê-lo pelo que ainda não consigo acreditar que é meu.

Para quem não conhece a história deste catálogo, trata-se de uma raridade absoluta, da qual só vi a capa pela primeira vez neste post. No ano de 1984, a Cinemateca Portuguesa organizou um ciclo de cinema de ficção científica em conjunto com a Fundação Calouste Gulbenkian e com o apoio de várias Embaixadas e instituições culturais por ocasião da data de 1984, consagrada na obra de George Orwell.

catalogo-009

Representou o auge de qualquer actividade organizada em prol da ficção científica em Portugal, dando origem a um catálogo brutal em peso e qualidade de 500 páginas, numa edição de 2000 exemplares que esgotou nas semanas subsequentes ao ciclo. O ano em si, o ano de 1984 de George Orwell,  torna o catálogo ainda mais valioso, mas os textos acompanhados de imagens sobre a história da FC em cinema e os seus mais consagrados cineastas são o que dão consistência e profundidade ao objecto, conferindo-lhe um valor histórico em Portugal.

Ainda não tive a oportunidade de ler os textos, mas destaco desde já um da autoria do João Barreiros sobre a literatura de FC, acompanhado de uma bibliografia de livros recomendados dividida em temáticas. Reproduzo em baixo um excerto:

Porque ler FC, mergulhar no prazer degustativo que ela pode outorgar, desperta em nós como que uma sede de imaginário que nunca será saciada. É a porta aberta a racionalização do mito, a uma visão de eternidade que transcende o fim temporal das nossas consciências, pois lê-se sempre algo mais capaz de superar aquilo que já foi lido.

Está tudo ali. A explicação racional do maravilhoso, o gosto do bom texto que se revolve na boca como um caramelo, a acção, principalmente um livro onde coisas acontecem, onde as personagens agem, pensam e se transforma, onde mitos, religiões, filosofias, tecnologias, ecologias e sociedades crescem e se desenvolvem como cristais. É uma dinâmica que se instaura em cada frenético consumir de páginas, um desejo que desperta, e também, mas não se preocupem, um resquício agre-doce de uma forma nunca completamente satisfeita.

A Ficção Científica como Tema e Problema, João Manuel Barreiros

catalogo-011

Há certamente mais para dizer sobre este livro, mas quero prestar-lhe primeiro uma leitura atenta. E penso que seria interessante reproduzir neste blogue a bibliografia de livros de ficção científica na altura recomendada pelo João Barreiros, se me for permitido pelo autor.

Não posso deixar de reparar que decorreram 25 anos desde a realização desse ciclo da Cinemateca e a publicação do catálogo. Não será pertinente realizar uma iniciativa que comemore esta data e nos relembre este objecto e o longínquo ano de 1984 que representou não só uma apoteose, mas em que soou também o canto do cisne da FC em Portugal? Fica a sugestão.

Permalink 10 Comments

Diário da Cinemateca: High Plains Drifter

January 14, 2009 at 1:40 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

Novo ano, nova categoria. Como o ano 2008 foi definitivamente o ano da Cinemateca Portuguesa, um espaço que tenciono continuar a visitar assiduamente, fica criada esta nova categoria sobre os filmes que vou vendo na Cinemateca (a iniciar brevemente uma nova fase mais interessante, esperamos nós, com o anúncio recente da saída de João Bénard da Costa).

Já tinha falado neste blogue anteriormente de alguns grandes clássicos que tive a oportunidade de visionar como Peeping Tom de Michael Powell, Casanova de Fellini, The Killers de Don Siegel, Night of the Hunter de Charles Laughton, A Clockwork Orange de Kubrick, mas espero ainda comentar outros como If… de Lindsay Anderson ou O Anjo Exterminador de Buñuel, seja em pequenos apontamentos ou textos mais fundamentados. De uma forma ou outra, os filmes estão inevitavelmente contaminados pelo meu gosto por fantástico, mas não se limitam à sua esfera.

Ultimamente, a atenção a cinema tem sido maior do que a que tenho devotado à área da literatura, tão só porque estou a enveredar por novas leituras ou a retomar outras que deixei para trás na minha adolescência, e também porque planeio testar novas ideias para este blogue que advém do facto de presentemente trabalhar como assistente editorial. Os desafios de falar sobre edição parecem-me tão aliciantes quanto falar dos livros em si.

E para inaugurar esta nova categoria Diário da Cinemateca, nada melhor do que um filme realizado por Clint Eastwood, exibido no âmbito de uma retrospectiva ao actor e realizador prolífico. A escolha recaiu em High Plains Drifter, realizado pelo próprio actor.

High Plains Drifter [aviso de spoilers] começa com a chegada de um estranho a uma pequena cidade americana. O cowboy caminha indiferente e sem medo perante os olhares dos habitantes que o fitam com desconfiança, não sabendo o que pensar da sua postura arrogante e provocatória. Mas a arrogância do homem sem nome é logo testada por arruaceiros que morrem às suas mãos, e a perícia que demonstra no uso de  armas leva a cidade a convidá-lo a organizar uma defesa contra um trio de bandidos que cedo irão ser libertos da prisão e buscar a sua vingança contra a pequena cidade.

Mas nada é o que parece, e cedo a chegada do estranho volta a evocar fantasmas e a despertar memórias dolorosas do passado. Os pecados da cidade voltam para assombrá-los e descobrimos que a força misteriosa que impele o estranho a lidar com a cidade é afinal motivada por um crime cometido e uma maldição…

Começa como um típico western, mas o tom sobrenatural vai adquirindo cada vez mais força, culminando na estranha visão de uma cidade inteira pintada de vermelho,  como se recriando um cenário do próprio inferno. E o inferno efectivamente desce à cidade no momento em que o homem sem nome começa a punir os habitantes e bandidos. Por esta altura, não é difícil adivinhar a verdadeira identidade do estranho e compreendemos que é uma consequência da maldição lançada pelo antigo xerife, morto às mãos da populaça.

Da mesma forma que chegou, cavalgando o cavalo com indiferença e desprezo, o estranho abandona a cidade em ruínas e com o sentido de missão cumprida. De certa forma e apesar de se tratarem de obras vastamente diferentes, High PLains Drifter trouxe-me à memória o filme The Fog de John Carpenter, que também tive a oportunidade de rever na Cinemateca recentemente.

Em The Fog, uma pequena cidade costeira está amaldiçoada por uma colónia de leprosos e, durante uma noite especial longa, são assombrados pelos fantasmas dos leprosos que apenas irão saciar a sua sede por vingança com sangue. Vale a pena ver Carpenter tão só pela verosimilhança que impregna em cada imagem, recriando a realidade e beleza de uma vila costeira que está na iminência de um ataque mortífero, ao som de uma banda-sonora surreal e sinistra.

Um western e um filme de horror que nos lembram na perfeição que os mortos não descansam e podem voltar a qualquer momento para nos assombrar.

Permalink Leave a Comment

A Sombra do Caçador

December 22, 2008 at 11:09 am (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

Alguém devia escrever sobre o fascínio gerado pela figura do pregador na América profunda e sulista. O pregador que incita a multidão à prece fervorosa, que abjura a imoralidade e assume-se como paladino zeloso da moral quando ele próprio traz demónios no seu encalço.

Tal como a figura do falso pregador Harry Powell em A Sombra do Caçador ( The Night of the Hunter, 1955) de Charles Laughton. Sedutor, com uma voz de anjo, o protagonista interpretado por Robert Mitchum esconde a sua própria vilania por trás de uma fachada de santo e são apenas os olhos inocentes de uma criança que conseguem ver o rosto nu do mal e da cobiça.

Um relato negro e perturbante com laivos do gótico americano original, na tradição de escritores como Washington Irving, Ambrose Bierce, Nathaniel Hawthorne e Edgar Alan Poe, e que revela o melhor em Robert Mitchum e em Shelley Winters como uma mãe destroçada pela implacável hipocrisia moral vigente nos tempos da Depressão.

You thought, Willa, that the moment you walked in that door, I’d start to paw at you in that abominable way that men are supposed to do on their wedding night. Ain’t that right, now?

[…] Get up. Now go look at yourself yonder in that mirror. Do as I say. Look at yourself. What do you see, girl? You see the body of a woman, the temple of creation and motherhood. You see the flesh of Eve that man since Adam has profaned. That body was meant for begettin’ children. It was not meant for the lust of men!

Há amor e ódio tal como inscrito nos nós dos dedos do pregador. Mas é o ódio e ganância que incentivam o caçador a lançar cuidadosamente o cerco em torno da sua presa frágil e humana, um ódio quase triunfal, não fosse a inocência da criança-homem que perservera na confrontação contra a força demoníaca do falso homem de Deus.


Permalink Leave a Comment

The Killers

December 13, 2008 at 1:24 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

thekillers1964

Passou ontem o The Killers de Don Siegel na Cinemateca. Grande elenco. O implacável e duro Lee Marvin num dos seus papéis de marca, a bela e sedutora Angie Dickinson numa combinação explosiva com um John Cassavetes muito sexy, e um vilão que não é nada mais, nada menos do que um antigo presidente dos Estados Unidos da América, Reagan.

Não é uma das melhores histórias daquele tempo sobre gansgsters e golpes falhados, mas compensa com o seu estilo e humor. E o que tem de inferior já  supera muito o que se faz actualmente no cinema.

Permalink Leave a Comment

Casanova in love with Dancing Doll

July 11, 2008 at 2:13 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

Depois de ver ontem Casanova de Fellini (1976) na Cinemateca, há uma cena maravilhosa que não me larga. Devo dizer que não é fácil gostar de Fellini. Temos que nos deixar levar e não esperar nenhuma lógica ou compromisso com a realidade e temos que nos deixar cativar pelas poderosas fantasias que irrompem da mente do cineasta. Penso que com a idade, Fellini cedeu cada vez mais ao seu próprio imaginário, fabricando sonhos de sonhos, enredando o espectador numa teia de ilusão e estranheza.

Em Casanova estão presentes todos os elementos fellinescos que constituem a imagem de marca do cineasta. Os freaks, que por norma seriam marginalizados por serem demasiado feios ou grotescos, são os filhos predilectos de Fellini e povoam todas as cenas. Eles fazem parte de circos ambulantes, companhias de actores, estão entre a ralé, escondidos nas nobres casas ou nos bordéis, nunca cessando de existir na imaginação de Fellini.

Mas é Casanova o centro da história, o homem de façanhas prodigiosas no amor, famoso pela sua erudição em artes e letras mas, principalmente, pela energia e paixão que devota a cada mulher que admira. Contudo, a sua vida é uma existência vácua, em perseguição de fama e fortuna, julgando-se uma grande figura que será relembrada através das eras, quando na verdade não passa de uma figura patética, humilhada no fim, destroçada pela perda da juventude e vigor. Diz-se que Fellini via em Casanova a representação de toda a imoralidade que abominava e que tinha tomado conta da Roma do seu tempo, nas décadas de 50 e 60. E a ser isto verdade, não nos podemos deixar espantar com o retrato desencantado e imoral que Fellini nos oferece do princípio ao fim.

Apesar disso, há uma cena em que é inegável que Fellini se superou e se deixou comover pela tragédia da vida de Casanova. Na parte final, o homem de letras deixa-se fascinar por uma boneca mecânica em tamanho real. Uma obra-prima, a beleza da boneca impressiona-o e, numa dança lenta, sedutora e quase mágica, ele faz amor com a boneca na talvez única cena de amor verdadeiramente tocante em todo o filme.

A cena é magnífica pela música de Nino Rota, coreografia de movimentos e monólogos de Casanova, tornando-se artística e bela como como só Fellini poderia criar. Mas vendo para além da beleza, a boneca mecânica representa uma metáfora que espelha a existência do próprio galã, vazia e desprovida de sentimentos. Não é por acaso que os sonhos finais da vida de Giacomo Casanova relembram o melhor da sua juventude em Veneza, enquanto dança lado a lado com a boneca. É um fim triste, mas apropriado, a uma vida devotada ao prazer e boémia.

Pode não ser o melhor filme de Fellini, mas a sua beleza é certamente algo para guardar na memória (e não terá esta cena reproduzida abaixo um toque de ficção científica? Esta boneca é demasiada avançada para o seu tempo, é antes um robô, embora o espectador saiba que é um humano a fingir que é um ser mecânico).

Permalink Leave a Comment

Next page »