A máscara da felicidade

September 15, 2010 at 4:53 pm (Cinema e TV)

Várias coisas vieram-me à mente após ter visto a adaptação cinematográfica de Truffaut do livro de Ray Bradbury. Primeiro, esquecera-me da beleza e perfeição da prosa de David Copperfield de Charles Dickens,  uma prosa tão perfeita que inspira um novo sopro de vida na personagem emocionalmente morta de Bradbury, o bombeiro Montag. Segundo, esquecera-me do quão poderosa era a ideia de transformar as pessoas no próprio livro, de perpetuar a obra literária através da memória humana. As vidas dessas pessoas tornam-se preciosas e ganham um novo sentido. No livro de Bradbury, Clarisse pergunta a Montag se é feliz. Apanhado desprevenido, a sua mente começa a reflectir e a libertar-se da sua própria passividade, até finalmente chegar à fulminante conclusão.

He was not happy. He was not happy. He recognized this as the true state of affairs. He wore his happiness like a mask and the girl had run across the lawn with the mask and there was no way of asking for it back.

O que me fascina é esse breve momento de pânico em que Montag deseja ser de novo aparentemente feliz e ignorante dos males da sua sociedade. Mas não há um caminho de volta.

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I’m as mad as hell

June 2, 2010 at 8:31 pm (Cinema e TV)

HOWARD BEALE: I don’t have to tell you things are bad. Everybody knows things are bad. It’s a depression. Everybody’s out of work or scared of losing their job. The dollar buys a nickel’s work, banks are going bust, shopkeepers keep a gun under the counter. Punks are running wild in the street and there’s nobody anywhere who seems to know what to do, and there’s no end to it. We know the air is unfit to breathe and our food is unfit to eat, and we sit watching our TV’s while some local newscaster tells us that today we had fifteen homicides and sixty-three violent crimes, as if that’s the way it’s supposed to be. We know things are bad – worse than bad. They’re crazy. It’s like everything everywhere is going crazy, so we don’t go out anymore. We sit in the house, and slowly the world we are living in is getting smaller, and all we say is, ‘Please, at least leave us alone in our living rooms. Let me have my toaster and my TV and my steel-belted radials and I won’t say anything. Just leave us alone.’ Well, I’m not gonna leave you alone. I want you to get mad! I don’t want you to protest. I don’t want you to riot – I don’t want you to write to your congressman because I wouldn’t know what to tell you to write. I don’t know what to do about the depression and the inflation and the Russians and the crime in the street. All I know is that first you’ve got to get mad.

[shouting] You’ve got to say, ‘I’m a HUMAN BEING, Goddamnit! My life has VALUE!’ So I want you to get up now. I want all of you to get up out of your chairs. I want you to get up right now and go to the window. Open it, and stick your head out, and yell,

[shouting] ‘I’M AS MAD AS HELL, AND I’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!’ I want you to get up right now, sit up, go to your windows, open them and stick your head out and yell – ‘I’m as mad as hell and I’m not going to take this anymore!’ Things have got to change. But first, you’ve gotta get mad!… You’ve got to say, ‘I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore!’ Then we’ll figure out what to do about the depression and the inflation and the oil crisis. But first get up out of your chairs, open the window, stick your head out, and yell, and say it:
[screaming at the top of his lungs] “I’M AS MAD AS HELL, AND I’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!”

NETWORK de Sidney Lumet, guião de Paddy Chayefsky (1976)

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A imaginação delirante do Dr. Parnassus

March 28, 2010 at 8:29 pm (Cinema e TV)

Muito poucos amam e compreendem a fantasia como Terry Gilliam e a encaram como uma manifestação do poder da imaginação. Desde o mítico The Adventures of Baron Munchausen que o realizador se tem consagrado a um estilo fantasioso sem rédeas, barroco, bizarro, povoado de elementos de beleza e grotesco, com uma predilecção para personagens caídas em desgraça que iniciam um caminho tortuoso para recuperar a sanidade ou o coração.

Parnassus não é nenhuma excepção. Um antigo monge que desafiou o Diabo a uma aposta em que o poder dos contadores de histórias triunfaria, começa a sua descida ao Inferno no momento em que os tempos mudam e as pessoas cedem a um manto de desprezo, indiferença e desdém pela magia da mente.

Mas mesmo lutando contra o poder do demónio que tão eloquentemente é interpretado por Tom Waits, o actor predilecto para os papéis de diabo, louco ou homem-mistério com uns toques de satânico e uns toques de loucura, o amor condena de novo a alma imortal de Parnassus, e amaldiçoa a sua descendência, uma bela filha de 16 anos, nascida de um milagre…

Quase se pode dizer que Gilliam fez uma homenagem fellinesca no seu filme The Imaginarium of Dr. Parnassus, pois tal como Fellini, quando o seu universo envolve circos ambulantes, não faltam personagens réprobas: os anões, os bêbados, os abandonados, os deformados.

A personagem central que iria constituir o redentor de Parnassus e a sua salvação do pacto faustiano que condenaria a sua filha, Tony Shepherd, começa como um homem caído em desgraça, cuja vida foi salva e deseja retribuir ao seu protector, Parnassus. Tony estava claramente destinado a ser o elemento a desencadear a libertação do velho monge mas, infelizmente, por morte prematura do actor Heath Ledger, a personagem teve que ser inteiramente recriada e perdeu muito da sua intensidade e coerência na recta final.

Que isso não impeça o espectador de apreciar este filme imensamente imaginativo e recheado de símbolos em que o livre arbítrio é concedido aos que ousam enfrentar o misterioso espelho, aos que desejam recuperar a felicidade dos melhores sonhos. Apenas os de fraca imaginação sucumbem ao Diabo, mas Parnassus mantém, com o poder da sua mente, a porta aberta para os delírios do país das maravilhas, mesmo que tenha que pagar um preço demasiado elevado.

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A comédia na Grande Depressão

March 21, 2010 at 10:08 pm (Cinema e TV)

Uma das melhores obras que a década de 30 nos ofereceu, It Happened One Night (Aconteceu Uma Noite) de Frank Capra, conta a história de uma herdeira mimada (Claudette Colbert) que foge das garras do pai milionário para tentar casar com o amor da sua vida. Na sua determinação para chegar ao futuro marido rejeitado pelo pai, inicia uma longa viagem de autocarro em que conhece um jornalista (Clark Gable) que não só a ajuda a chegar a Nova Iorque, mas como inevitavelmente se apaixona por ela no curso da viagem.

Clark Gable e Claudette Colbert em "It Happened One Night" de Frank Capra (1934)

Na verdade, embora hoje seja facilmente confundido com comédia romântica, pertence ao mundo das screwball comedies que viram o seu auge nas décadas 30 e 40. It Happened One Night foi o primeiro filme da história do cinema a ganhar os cinco principais Óscares: melhor filme, melhor realizador, melhor actor, melhor actriz e melhor argumento original. Este feito só se voltaria a repetir duas vezes com duas obras dramáticas: Voando sobre um Ninho de Cucos em 1975 e O Silêncio dos Inocentes em 1991.

O domínio do génio dramático em cinema tem sido incontestável, mas nem sempre foi assim. O filme de Capra é um produto da sua época marcada pela Grande Depressão, num tempo em que os americanos procuravam obter uma fuga  da realidade dura, e era enorme o fascínio pela riqueza das celebridades. Surgiram assim obras-primas como as comédias  Bringing up Baby, The Philadelphia Story, The Awful Truth ou Mr. and Mrs. Smith.

As screwball caracterizavam-se pelas situações absurdas, diálogos inteligentes e rápidos, abordagem das diferenças de classes sociais, bem como um tom burlesco e de farsa (influência do vaudeville do início do século XX que viria a dar lugar ao Método naturalista e de influência russa a partir da década de 50, e possivelmente uma das razões que contribuiu para o definhar da comédia).

Não preciso de dar razões para verem e apreciarem este filme, mas em caso de dúvida, aqui vai:

1 – A oportunidade de ver a personagem de Clarke Gable a obter umas boas gargalhadas à custa da incapacidade da personagem de Colbert em se desenrascar sozinha. O gozo de Clark Gable é simplesmente bom demais para não ser apreciado pelo espectador.

2 – Raríssimas são as vezes em que se vê uma história boa pontuada por diálogos brilhantes recheados de alusões sexuais que escaparam incólumes à censura da época. É especialmente fascinante a forma como o sexo é expresso no filme de Capra através de referências bíblicas (The Walls of Jericho).

3 – A química entre os actores é essencial. Começa por uma desconfiança mútua que cede a camaradagem para abrir passagem a atracção até culminar em amor. Quantas vezes já vimos estes passos tomados em milhares de comédias românticas? Mas quantas delas são memoráveis graças a brilhantes actores? O papel da vida de Gable pode ser o de Rhett Butler, mas em It Happened One Night ele é o everyman acarinhado pelo público que não tolera o nonsense e opulência da classe abastada, e no entanto não resiste ao charme da herdeira mimada.

4 – As cenas perfeitas de comédia e respectivo timing. Impossível esquecer a cena icónica em que Gable ensina Colbert como apanhar boleia. Ou quando Gable leva Colbert às costas enquanto se desenrola uma conversa absurda sobre piggyback.

5 – A memorável cena final do casamento em que se realça toda a classe e elegância dos ricos. Colbert transforma-se notavelmente de mulher na estrada em mulher no seu elemento, vestida de noiva, e é caso para dizer que as actrizes de hoje têm muito que aprender sobre classe. Consigo quase imaginar o impacto nas salas de cinema dos anos 30 da belíssima cena da fuga do altar e a reacção dos convidados.

Curiosamente, o documentário do DVD refere que a actriz Claudette Colbert estava convencida de que este tinha sido um dos piores filmes da sua carreira no decorrer das filmagens. Mas um actor raramente vê o produto final editado e é a última pessoa a conhecer e apreciar a obra-prima que está a criar. Vou deixar os diálogos deste filme falarem por eles próprios. Fica um excerto entre o pai da herdeira e o jornalista:

Alexander Andrews: Do you love her?

Peter Warne : A normal human being couldn’t live under the same roof with her without going nutty! She’s my idea of nothing!

ALexander Andrews: I asked you a simple question! Do you love her?

Peter Warne: YES! But don’t hold that against me, I’m a little screwy myself!


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Recordar 2009

December 27, 2009 at 1:02 pm (Cinema e TV, Livros/BD/revistas, Strange Land)

De filmes, em cinema e estreias recentes, poucos sobressaíram.Inglorious Basterds, District 9, MoonSherlock Holmes foram provavelmente as melhores ofertas no mercado no campo fantástico. E antes que discordem/concordem com a minha inclusão de Sherlock Holmes no campo do fantástico,  não o incluo neste género pelas referências à magia negra, mas sim pelo carácter avançado da ciência presente na era vitoriana, características associadas a steampunk. O filme está longe de perfeito e nem o considero muito bom, mas ainda assim acho que deve ser mencionado, tão só porque é raro o filme hoje em dia que seja capaz de entreter sem cair em banalidades.

Avatar merece uma referência, mas não a minha simpatia. É um filme que deslumbra pelos efeitos visuais assombrosos, no entanto, não consigo desculpar uma história tão pobre num filme tão caro, com marketing tão descarado. Coloco-o na mesma esteira que o argumento inacreditavelmente mau do quarto filme do Indiana Jones. É uma tendência que mostra a falência das ideias que têm marcado os últimos anos do cinema de Hollywood.

Fomos salvos pelo cinema independente em filmes como District 9, a arrecadar o troféu de filme do ano para mim, mesmo que imperfeito. O falso início em tom de documentário dá lugar um enredo trepidante em torno de extraterrestres segregados na África do Sul e promete um franchise forte e fresco.

Duncan Jones mostra o seu amor pelo melhor que a literatura de ficção científica deu ao mundo em Moon, a história de um astronauta alienado numa missão espacial na Lua com a duração de 3 anos, mas as aparências não são o que parecem no cenário solitário das paisagens lunares…

Tenho sentimentos contraditórios em relação a Inglorious Basterds. Os primeiros dez minutos são perfeitos e arrebatadores. O desenvolvimento é intrigante e estou sinceramente a gostar, mas depois Tarantino arruina fenomenalmente o filme a partir do momento em que mata todo o grupo da resistência numa taverna. A partir daí perde o rumo e consistência. Mas aqueles quinze minutos iniciais em que o Coronel Landa elimina uma família judia com o seu charme e conversação são certamente do melhor que vi no cinema.

São os filmes clássicos que têm vindo a conquistar cada vez mais a minha admiração. Num ano recheado de revisitação ou descoberta de filmes dos anos setenta, ficou-me na memória Thunderbolt and Lightfoot (1972) de Michael Cimino a reunir um par de actores que dispensa apresentações, Clint Eastwood e Jeff Bridges. Uma mistura de road movie e heist movie, é um filme recheado de cenas memoráveis, de uma grande química entre personagens, e de um sentimento cinematográfico tão inerente aos anos 70, que hoje já não se reproduz na tela. A década de 70 foi verdadeiramente a década dos realizadores com liberdade criativa.

Em livros, este tem sido um ano recheado de leituras. Algumas fui referindo ao longo do ano no blogue, e por isso dispensam nova referência, mas houve muitos livros, dos mais variados géneros,  que não foram mencionados e não por falta de qualidade, simplesmente por falta de disciplina da minha parte para escrever sobre eles. Entre os melhores, escolho:

Royal Assassin de Robin Hobb. A Saída de Emergência começou a publicar a série Farseer este ano, mas nunca esperei ver tal qualidade de prosa e foi uma das grandes surpresas deste ano. Mesmo com um início lento, não há dúvida de que Hobb domina facilmente a narração na primeira pessoa e a exposição do conflito psicológico das personagens, mas supera-se na descrição do vínculo emocional entre animais e homens.  É no segundo livro Royal Assassin (em português, O Punhal do SoberanoA Corte dos Traidores) que atinge um nível de excelência, colocando esta trilogia no mesmo patamar do melhor que a fantasia épica tem produzido nas últimas décadas.

Acacia, The War with the Mein de David Anthony Durham. Este autor tem tido uma excelente recepção positiva nos últimos anos graças à sua série Acacia e tenho que concordar que é uma estreia muito forte no campo da fantasia, com uma escrita impecabilíssima. Acacia é um império refém do passado que vendeu a sua alma ao diabo. O povo está viciado num narcótico trazido de terras distantes e misteriosas por uma guilda mercante poderosa e capaz de desafiar o poder do rei.  Em troca da droga, todos os reinos têm que ceder uma quota que consiste em crianças que são traficadas e enviadas às misteriosas terras… Os Mein são um povo derrotado e exilado para estepes geladas, mas passaram séculos a conspirar o fim de Acacia e assim é preparado o cenário do 1º livro. O início lembra demais Dune, sendo a primeira parte do livro a mais frágil, mas Durham compensa com uma segunda e terceira partes espectaculares e trepidantes, nunca optando por soluções fáceis, nem procurando arrastar interminavelmente conflitos.

Drood de Dan Simmons. Como é que eu poderia resistir a um livro que combina um enredo situado na época vitoriana em torno dos escritores Charles Dickens e Wilkie Collins com uns toques de sobrenatural e fantástico? As expectativas eram altíssimas mas Dan Simmons não é qualquer escritor e sabe desenvolver um trabalho de pesquisa excepcional, combinado com os seus dotes narrativos. Quem é Drood? Será um produto de uma mente perturbada e iludida? Será real? Até Collins, o narrador, não é fiável nos seus relatos, no meio dos seus estados alucinados induzidos por láudano. A obsessão de Dickens por Drood irá levá-lo ao submundo negro de Londres mas pode iniciá-lo num caminho perigoso de insanidade e perigo sem retorno…

Hunger de Elise Blackwell. Tive o prazer de ler este livro e traduzi-lo para a editora Livros de Areia que deverá lançá-lo no início de 2010. A história centra-se nos meses do Inverno de fome durante o cerco de Leninegrado. Um cientista russo especialista em sementes é forçado a defender com os seus colegas o Instituto Russo de Plantas durante o cerco. Mas consegue ele próprio resistir perante a fome cruel que devasta lentamente a cidade e os seus habitantes? Com não mais de 100 páginas, Elise Blackwell sabe transmitir, de forma pungente, o impacto físico e destrutivo da guerra e as cicatrizes que deixa na relação entre marido  mulher.

River of Gods de Ian McDonald. O panteão hindu de deuses já fora abordado numa outra obra de ficção científica de Zelazny, Lord of Light, mas a abordagem de McDonald é mais ambiciosa na medida em que não só transforma o panteão divino hindu, mas reinventa um país vasto e complexo como a Índia no contexto de um futuro distópico e tecnológico. Com um leque enorme de personagens oriundos das mais variadas classes sociais, McDonald desafia as capacidades do leitor com uma prosa imaginativa a caminhar para uma visão que transcende muito para além da esfera do humano.

Como a Raiva ao Vento de Rawi Hage. Este autor libanês, e também imigrante, venceu vários prémios literários importantes, chamando a atenção para a sua obra De Niro’s Game (referência ao filme de Cimino, The Deer Hunter), em que descreve Beirute durante os piores anos da guerra civil libanesa. Através das personagens de George e Bassam, assistimos ao dilema universal do indivíduo que tem que escolher entre ser aniquilado por uma existência de crime e atrocidades ou a fuga para o exílio e para uma vida longe da terra natal. Só alguém que viveu de perto esta realidade como Hage poderia descrever de forma tão realista um tempo em que não há soluções fáceis, apenas a escolha do mal menor.

The Help de Kathryn Stockett. Este livro foi lançado em Fevereiro do ano 2009 nos EUA e desde o Verão tem-se mantido no top de vendas de ficção em hardcover do New York  Times. É um romance de estreia, sendo a autora praticamente desconhecida, e a que se deve o sucesso? É uma obra inspiradora sobre a relação entre patroas brancas e criadas negras na América sulista da década de 60, num tempo em que era perigoso pertencer à raça afro-americana. As protagonistas são Minnie e Aibileen, duas criadas negras que aceitam contar a sua história a uma jovem rapariga branca, Miss Skeeter, com ambições de escritora. O que conquista o leitor é a descrição tão realista e emocional das personagens e das suas pequenas lutas e medos diários. Um retrato emotivo e realista, com uma escrita soberba, de uma época de grandes transformações sociais na América, mas de um ponto de vista raramente contado nos manuais de História.

Burning your Boats (collected short-stories) de Angela Carter. A morte prematura de Carter causada por cancro roubou ao mundo uma voz inovadora e verdadeiramente moderna que, felizmente, hoje ainda é apreciada e inclusive estudada. Mais do que nenhum outro escritor, Carter soube revitalizar o legado do passado, nomeadamente, os contos de fadas e lendas, transformando-os com um cunho muito próprio e feminista. Esta colectânea, que reúne todos os seus contos,  demonstra a capacidade da autora em expor a semente de violência e perversidade presente nas relações humanas, a natureza sexual latente em contos de fadas como demonstra tão exemplarmente na colectânea The Bloody Chamber, mas acima de tudo, expõe uma voz que ecoa os tempos modernos de emancipação feminina.

Suldrun’s Garden, 1º volume de Lyonesse de Jack Vance. Não me recordo se li este livro em 2009, mas quero destacá-lo porque, depois de ter lido tantas sagas arturianas ou baseadas na história de Artur, ainda encontro uma capaz de me deslumbrar, à semelhança de alguns mitos celtas, com a sua beleza e simplicidade, a sua ternura e sense of wonder. A escrita de Vance é extremamente versátil e acho difícil de acreditar que este é também o autor da série Demon Prince ou do clássico Tales from the Dying Earth. Mal posso esperar para que chegue em finais de Janeiro a belíssima hardcover com a trilogia Lyonesse completa.

The Moonstone de Wilkie Collins. Muitos anos antes da primeira aparição de Sherlock Holmes por Conan Doyle em A Study in Scarlet, Wilkie Collins criara o Sargento Cuff, um famoso detective com enormes poderes de dedução. Surgiu no seu romance The Moonstone em que um diamante indiano valioso é roubado na Índia e levado para Inglaterra onde acaba por parar às mãos de uma herdeira inglesa. A jóia é roubada na noite do seu aniversário, desencadeando uma série de eventos e mistérios que são desvendados em forma epistolar pelas personagens intervenientes. Se Dickens era mestre na criação de personagens, Collins era sem dúvida superior na construção de enredo e suspense, facto que já o demonstrara no brilhante A Mulher de Branco.

Menções honrosas vão para Disgrace de Coetzee, The White Tiger de Aravand Adinga, Lisboa Triunfante de David Soares e também o álbum de BD Mucha e, por fim, Buracos Negros de Lázaro Covadlo.

Este foi também o ano que regressei à leitura de peças dramáticas de dramaturgos como Harold Pinter, Tom Stoppard, Anton Tchékov e Henri Ibsen. Gostava de poder mencionar muitos mais livros mas ainda não tive oportunidade de os ler, embora estejam cá a aguardar nas estantes.

Em séries televisivas, não quero deixar de destacar True Blood, Damages e Lark Rise to Candleford.

Tenho grandes planos para 2010, e certamente não quero chegar ao fim de 2010 sem ter conseguido concretizá-los. Apenas peço mais disciplina para escrever.

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O Homem que Queria Ser Rei

October 17, 2009 at 10:00 am (Cinema e TV, Livros/BD/revistas)

Sean Connery e Michael Caine em The Man who Would be King, John Huston (1975)

Sean Connery e Michael Caine em The Man who Would be King, John Huston (1975)

In any place where they fight, a man who knows how to drill men can always be a King. We shall go to those parts and say to any King we find – “D’you want to vanquish your foes?’ and we will show him how to drill men; for that we know better than anything else. Then we will subvert that King and seize his Throne and establish a Dynasty.

Sábias palavras de Daniel Dravot (Sean Connery), mas que lhe custaram caro. Baseado no conto de Rudyard Kipking, ele próprio é o narrador da estranha jornada de dois ex-soldados britânicos ao Kafiristão, uma terra intocada por civilização na qual  ambicionam ser reis.

A colonização britânica da Índia influenciou de muitas formas a literatura vitoriana do séc. XIX. Obras como The Moonstone de Wilkie Collins pintam um retrato impiedoso e cruel de uma terra que exerce vingança contra aqueles que roubam o que lhe pertence. A civilização de Londres nunca está a salvo perante esta terra de devoção e exaltação religiosa, terra de enigmas e beleza misteriosa aliada a morte. Mas é Kipling que, melhor do que nunca, descreveu Índia, a terra em que nasceu, no seu mais momento mais marcante, no auge e declínio do colonialismo britânico.

O Homem que Queria Ser Rei é pura aventura que capta o exotismo do Oriente que tanto fascinara o Império Britânico, é sentido de humor absoluto na pele dos dois homens vigaristas interpretados por Caine e Connery (duas fabulosas interpretações), e não podia faltar o toque de tragédia para aqueles loucos suficientes para se aventurarem no coração de antigos mistérios, julgando-se superiores em força e inteligência…

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Os estranhos meandros do Motelx

September 10, 2009 at 9:28 pm (Cinema e TV)

O festival de cinema de terror, Motelx, já terminou no passado domingo, mas só agora tive a oportunidade de partilhar no blogue os filmes e eventos a que assisti  entre 2 e 6 de Setembro no cinema S. Jorge, em Lisboa.

Flick

Imaginem uma típica cidade britânica dos anos 60 onde as noites são dominadas por danças de salão ao som do rockabilly. Um teddy boy solitário e com evidentes problemas em socializar deseja convidar a rapariga dos seus sonhos para uma dança. Acontece que o namorado-gorila-rufia da rapariga não está disposto a cedê-la. Espancado até atingir um ponto sem retorno, o rapaz comete um massacre no salão de dança. Com a rapariga  nos braços, foge de carro mas um acidente atira o seu carro da ponte.

Será apenas cinquenta anos depois que o carro e o cadáver do condutor é retirado do fundo do rio, e o morto desperta para a vingança com a música rock de uma rádio pirata…  O mais bizarro será certamente a personagem da actriz Faye Dunaway (lembram-se dela em Bonnie and Clyde e Network?), que interpreta uma detective maneta, encarregue de investigar o caso das mortes perpetradas pelo zombie. E confesso que considerei esta narrativa bizarra e bem escrita, com pranchas de BD tresloucadas a acelerarem o rimo da acção, muito divertida.

Trick ‘r Treat

O feriado do Halloween e o cinema de terror andam de mãos dadas desde há décadas. Longe vão os tempos em que Carpenter criou o clássico Halloween, um filme hoje em muito datado e a roçar o ridículo, sobre jovens a serem mortos por um psicopata na noite do Samhain. Mas ainda é possível encontrar variações muito interessantes e abordagens refrescantes como a que Michael Dougherty fez em Trick ‘r Treat.

Várias histórias cruzam-se nessa noite. A da virgem de 22 anos (a mesma Anna Paquin da série TRUE BLOOD e que ironicamente é perseguida por um vampiro…),    que procura por um homem com quem passar a sua primeira noite. A das crianças que batem de porta em porta pedindo por doces ou travessuras, acabando por relembrar uma história sombria do horror cometido contra crianças condenadas à morte há décadas naquela cidade. A do velho que vive num casarão solitário e é assombrado por um espírito demoníaco. E finalmente a do serial killer que não hesita em procurar vítimas para alimentar a sua psicose. Todas estas histórias acabam por se cruzar num encadeamento muito bem orquestrado pelo realizador. Não podia deixar de haver um elo que os une a todos e isso será a pequena criança com um saco enfiado na cabeça que assiste em silêncio a todos os males… Não hesito em recomendar este filme, um dos mais interessantes em homenagem ao espírito do Halloween.

A Maldição de Marialva

A dificuldade em encontrar imagens deste filme atesta a sua raridade. Numa tentativa de resgatar do fundo do baú pérolas esquecidas feitas em terras portuguesas que se enquadrem no género do fantástico, eis que o festival apresentou A Maldição de Marialva de António de Macedo. Por incrível que pareça, o realizador não tem cópias dos seus filmes, nem existem reproduções em DVD, estando disponíveis apenas nos arquivos da Cinemateca Portuguesa ou da RTP.

Passado no séc. X, numa aldeia a sul do rio Douro, Macedo inspirou-se nas lendas beirãs sobre a Dama de Pé de Cabra, imortalizada por Alexandre de Herculano num dos seus contos. O filme abre com uma impressionante cena de uma aldeia medieval onde três ladrões são sentenciados à forca. A mulher e a filha são forçadas a suportar o estigma de bruxas e marcadas a ferro, mas a filha é salva a tempo pela intervenção de um físico que as resgata das garras do povo.

A vila está nas mãos de Maria Alva, uma bruxa que irá confrontar o sábio Hélio até ao clímax final em que Alva amaldiçoa a terra e se precipita de uma torre. A maioria dos actores portugueses são nossos conhecidos do teatro, televisão e cinema, com destaque para Lídia Franco e Carlos Daniel. A cenografia e fotografia são fantásticas, tornando a reconstituição histórica medieval muito credível, nem sempre parecendo que algumas cenas na verdade são montagens de estúdio.

Passando às curtas portuguesas a que tive oportunidade de assistir, houve de tudo. Algumas obras bem mázinhas ou bastante fracas em conteúdo. Destaco várias, as que me ficaram gravadas na mente pelas mais variadas razões:

O Caçador de Joana Lindo

Interessante em termos visuais e poéticos, mas tão abstracto na linguagem e tão recheado de imagens desconexas que temo não ter compreendido a mensagem da curta.

Reborn de António Pascoalinho

Uma história simples e bem contada do luto recente de dois irmãos numa casa assombrada pelo espírito do pai. Podia ter tido um final mais eficaz, mas ainda assim achei que estava entre as curtas mais competentes.

No Silêncio de Pedro Rodrigues

Uma curta curtíssima, de facto, mas eficaz. Julgamos que se trata de uma curta banal em que um psiciopata retém uma vítima na cave e sujeita-a a uma tortura cruel, mas o flashback dos últimos minutos revela a verdade e é então que compreendemos melhor a frustração e angústia do torturador, que não é um psicopata, mas na verdade alguém que procura vingança em nome de uma criança abusada pelo pedófilo que tem preso nas suas mãos.

Papá Wrestling de Fernando Alle

Recebeu menção honrosa, mas por mim teria sido declarada a curta vencedora. Bem humorada, absurda, capaz de arrancar umas boas gargalhadas do público, eis que um menino de escola é atormentado por uns quantos rufias que lhe roubam a lancheira. Regressado a casa num estado deplorável de baba e ranho, o miúdo recorre ao papá wrestling que emerge, furibundo, e parte qual super-herói em busca de justiça… Hilariante! Podem assistir à curta no Youtube.

F. R. U.N.C de Paulo Prazeres

F.R.U.N.C. é… bem, pois… FRUNC. Acedam a esse link para acederem ao Frunc. E vale a pena ficar a assistir aos créditos finais.

Sangue Frio de Patrick Mendes

E foi esta a curta vencedora… Consigo perceber o fascínio que terá exercido no júri. Uma fotografia cativante a revelar à partida uma história de grande potencial, mas a verdade é que a concretização ficou aquém da ideia. Observamos uma mulher a retirar um espantalho do seu pouso de madeira, deitá-lo, ao que depois retira um aparelho de transfusão de sangue e começa a bombear o seu sangue para o espantalho. Durante dez minutos só ouvimos o aparelho a bombar o sangue e, embora se possam achar múltiplos significados existencialistas nesses dez minutos, teria bastado reduzir em nove minutos a cena e teríamos uma curta menos secante e pretensiosa, e bem mais suportável.

E foram estes os filmes e curtas que quis destacar desta última edição do Motelx. Houve muito mais, mas não me foi possível assistir a tudo. Se quiserem espreitar as masterclasses de Stuart Gordon e John Landis podem fazê-lo através deste link e deste. Tanto Gordon como Landis são homens confiantes, seguros, carismáticos, donos de uma experiência e conhecimentos invejáveis. Vale a pena seguir as obras de ambos estes mestres de horror.

Já na sua 3ª edição, é interessante ver o festival Motelx a crescer em público e diversidade. No primeiro ano ainda era de tendências claramente góticas, mas rápido se tornou um dos festivais mais “in” de Lisboa e agora ninguém quer perder esta festa do terror que se realiza todos os anos em inícios de Setembro. Cá aguardamos pelo próximo ano com expectativa.

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If…

March 29, 2009 at 7:40 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

The thing I hate about you, Rowntree, is the way you give Coca-Cola to your scum, and your best teddy bear to Oxfam, and expect us to lick your frigid fingers for the rest of your frigid life.

Se há um filme que deve ser relembrado e salvo do baú do esquecimento é If… de Lindsay Anderson. Uma pessoa jamais se esquece do fulgurante papel de Malcolm McDowell como Mick Travis, o estudante insurgente que irá declamar tiradas poéticas a favor da violência e revolução.

A citação acima é retirada de uma cena particularmente sublime em que Travis desafia frontalmente as pessoas responsáveis pelo seu sofrimento, sem medo, apenas a coragem dos rebeldes.

Muitos não saberão que If… é o primeiro filme de Malcolm McDowell, lançando-o para a fama no Reino Unido e chamando a atenção do realizador Stanley Kubrick que acabaria por escolhê-lo para o infame papel de Alex DeLarge em Clockwork Orange. Embora ambos os filmes tenham protagonistas semelhantes que lutam contra o establishment, o estudante que incita à revolta em If… está longe da psicose que invade cada canto da mente perversa de Alex deLarge. O estudante é de natureza idealista, arrogante, seguro, confiante nas suas capacidades e ciente de que estão a ser completamente desperdiçadas no ambiente enclausurado e rigído da escola privada  inglesa.

Malcolm McDowell em  If... de Lindsay Andersin (1968)

Malcolm McDowell em If... de Lindsay Anderson (1968)

É um filme notável, cheio de cenas inesquecíveis, que tive a oportunidade de ver pela primeira vez na Cinemateca Portuguesa em 2008. A história é aparentemente simples. Numa escola privada no Reino Unido, os alunos são ensinados a conformarem-se aos seus superiores e a nunca desafiarem a autoridade da direcção ou dos estudantes mais velhos que controlam os alunos.

Neste cenário tão tipicamente Eton, surge no início do filme um jovem qual Guy Fawkes a esconder com a sua capa um bigode rebelde. Mick, juntamente com dois amigos, é o eterno insubmisso que se aliará a favor dos oprimidos contra a injustiça. Mas não é assim tão simples. De facto, o filme de Lindsay Anderson pouco tem de simples e politicamente correcto. Não é apenas uma afirmação contra a moral hipócrita vigente ou a autoridade  senil, mas é também um espelho das grandes transformações que se iriam operar nessa década, os anos sessenta.

Lançado no ano simbólico de 1968, o filme acabaria por ter um profundo impacto numa geração de espectadores e na própria história do cinema britânico que se afasta então dos modelos clássicos a favor de uma nova abordagem de denúncia e reveladora da sociedade moderna em que o homem recupera o controlo do seu destino.

Travis não é apenas um mero defensor de estudantes mais fracos ou alguém que deseja vingar-se dos seus opressores. É o revolucionário incendiário que afirma que One man can change the world with the bullet in the right place ou Violence and revolution are the only pure acts. Não tem uma consciência de herói que separa nitidamente o bem do mal, até porque Mick não hesitará em roubar uma mota ou usar armas ou bombas. É o anarca completo sem consciência moral, uma criatura perigosa de deixar à solta, e não é por acaso que o filme envereda cada vez mais  num tom surreal e satírico que irá terminar da forma mais brilhante e politicamente incorrecta que me lembro de ver em cinema.

O que importa é o acto de rebelião, a derradeira ofensa à instituição. Um grito de liberdade que estava reprimido há demasiado tempo e que acabaria por ecoar as próprias mudanças da sociedade inglesa nessa década.  É curioso notar como a homossexualidade é abordada de um ângulo muito suave e naturalista, algo invulgar na altura.

A cinematografia é excelente e o espectador poderá estranhar algumas imagens a preto e branco de interiores (a lenda diz que o filme não tinha orçamento suficiente para filmar todas as cenas a cores). Os jovens actores, seja os vilões ou os rebeldes, são todos de um realismo admirável e McDowell nunca esteve tão bem num filme que acabaria por definir o rumo da sua carreira de forma tão marcante.

Lindsay Anderson realizaria mais dois filmes com a personagem de Mick Travis, O Lucky Man! e Britannia Hospital que não vi, mas se forem tão marcantes como If…

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Watchmen

March 8, 2009 at 4:13 pm (Cinema e TV, Livros/BD/revistas)

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É difícil descrever Watchmen sem cair no ridículo. É um dos marcos fundamentais na história moderna da banda-desenhada não só pela sua complexidade narrativa, mas também pela sua inédita abordagem ao mito do super-herói. A partir da sua data de publicação, a escrita da BD não mais passou a ser a mesma e o formato tornou-se terreno fértil de exploração visual e narrativa das idiossincrasias do nosso tempo.

A novela gráfica amplificou a paranóia causada pela Guerra Fria, expondo o conceito vital de guerra que subjuga todo o enredo e o qual testemunhámos ao longo da História – Whoever we are, wherever we reside, we exist upon the whim of murderers.

Em Watchmen assistimos também ao notável uso da técnica da história alternativa, a recriação de um tempo e espaço semelhante ao nosso mas em que certos eventos históricos tomaram precedência sobre outros, alterando o curso da Humanidade. E se a guerra do Vietname tivesse sido ganha e Nixon eleito uma terceira vez? A resposta está em Watchmen.

Mas regressemos aos anos 50 da presente América criada por Alan Moore, altura em que um bando de super-heróis ganha fama assumindo-se como uma liga de combate ao crime. Eis que surge a primeira geração de super-heróis mascarados, sem poderes especiais, e que iria dar lugar a uma nova geração que viria a ser ilegalizada por Nixon.

A América alternativa dos anos 80 de Alan Moore venceu a guerra do Vietname graças à intervenção de Dr. Manhattan, um cientista que, após um terrível desastre, torna-se um semi-deus com a capacidade de alterar espaço e tempo. E é apenas graças a ele que ainda não se deu a deflagração da III Guerra Mundial e o holocausto nuclear, consequência da corrida às armas entre americanos e soviéticos.

No entanto, a guerra está iminente, e faltam apenas cinco minutos para a meia-noite, a hora simbólica que anuncia a proximidade ao dia do Armagedão.

Para compreender as personagens principais que compõem a história principal, é essencial compreender o background e Snyder fez um trabalho notável na sequência de abertura ao recriar toda a história do grupo de super-heróis desde a sua criação. Embora eu tenha sérias dúvidas que o espectador sem conhecimentos da história tenha conseguido acompanhar a torrente de informação.

Alan Moore fez algo na altura que nenhum argumentista tinha alguma vez feito. Descreveu o super-herói como um ser vulnerável, sujeito a falhas, profundamente afectado pelo ambiente que o rodeia e não imune a dor. Às vezes a dor torna-se tão forte que alguns atingem o ponto de não-retorno como Rorschach, tornando-se vigilantes psicóticos a calcorrear as ruelas sombrias do submundo do crime e penetrando nas trevas sem compromisso, desprovidos de emoções humanas.

A justiça em termos de branco e preto aplicada por Rorschach é irónica, considerando que as personagens que a aplicam estão longe de serem linearizadas e mesmo um super-herói como o Comediante, que abate a tiro mulheres grávidas e não é mais do que um mercenário sem escrúpulos de instintos violentos, vacila perante o abismo.

Todos eles, com as suas neuroses, medos e dúvidas tornaram-se objectos do passado até ao momento em que o Comediante é brutalmente assassinado, lançando a paranóia em Rorschach, determinado a descobrir a identidade do seu assassino e os motivos.

A contrapor a Rorschach e o Comediante, temos personagens como Nite Owl, insatisfeito com a renúncia aos dias de vingador, Ozymandias, o homem mais inteligente do mundo que se equipara a Alexandre o Grande e Ramsés II ou Miss Jupiter, a filha da primeira Miss Jupiter, que mantém uma relação amorosa com Dr. Manhattan, este distanciando-se cada vez mais da Humanidade.

O filme não falha em ser fiel à obra, mas os grandes diálogos soam falsos e perdem toda a intensidade quando soam ditos pelos actores e é apenas quando Rorschach profere todo o seu desprezo pela imundice que assola Nova Iorque no seu diário que acredito que estes super-heróis existiram realmente. Patrick Wilson é um excelente actor, mas porque o senti desconfortável e pouco convincente na pele de mascarado? Laurie Jupiter é apenas uma sex-bomb que troca com facilidade um homem por outro, mas é na verdade uma mulher muito carente que precisa de ser amada, quem diria no filme? Ozymandias não aparenta ser mais do que o vilão fanático e alucinado, mas é na verdade aquilo que Raskolnikov tentou ser tão desesperadamente em Crime e Castigo de Dostoievsky, um homem que alcançou a grandeza ao superar dilemas de ordem moral, na essência, a linha ténue entre o bem e o mal.

Quando o relógio atinge o ponteiro da meia-noite libertando o Armagedão, o filme já perdeu alguma da qualidade com que começara e torna-se quase um mero confronto de velhos amigos. Faltou a magnitude e majestade da obra literária, tornando-nos estranhamente indiferentes.

Não julgo o filme Watchmen em comparação com a novela gráfica porque seria injusto. Todos nós sabíamos à partida que iria ser intransponível, mesmo que os detalhes da história estejam lá todos. Mas para o público que não conhece o material, que possível interesse poderá ter um grupo neurótico de super-heróis com máscaras decididamente más? Faltou a chama para que o espectador conseguisse perceber que estava perante uma obra-prima.

A história de Watchmen não pode ser contada numa sinopse, e fazê-lo é na verdade retirar-lhe toda a grandeza. Há tanto mais para dizer sobre a riqueza de uma obra como Watchmen e a própria erudição rigorosa de Alan Moore, uma das imagens de marca dos seus argumentos de BD. No entanto, para ser justa, não deixa de ter os seus bons momentos como a sequência de abertura ao som de The times they are a-changing de Bob Dylan, a evocação de Dr. Manhattan em Marte dos acontecimentos que conduziram ao seu acidente, ou a captura de Rorschach pela polícia, revelando a sua verdadeira identidade.

Todavia, pela primeira vez terei que fazer um reparo à banda-sonora de um filme. Era mesmo necessário repetir A Cavalgada das Valquírias numa sequência sobre o Vietname? Tenho a certeza de que, com algum esforço, teriam conseguido escolher algo mais original.

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Última parte das recomendações de ficção científica

March 8, 2009 at 12:03 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca, Livros/BD/revistas)

E aqui está a última parte da lista de recomendações de obras de ficção científica por João Barreiros, incluída no catálogo da Cinemateca de 1984. Inclui as temáticas O HOMEM E A MÁQUINA, O HOMEM PROGRAMADO e O MUTANTE.

Espero que esta lista tenha despertado o vosso interesse para a leitura de ficção científica. Para os que já lêem, ficam a conhecer mais obras, para os que ainda não lêem ficam com uma ideia da vastidão e complexidade do género (tentarei arranjar uma forma segura de reproduzir o texto que acompanha as recomendações).

O HOMEM E A MÁQUINA

a) O homem sujeito à máquina

Jack Williamson
The Humanoids (1948)
The Humanoid Touch (1980)

Walter Tevis
Mockingbird (1980)

Daniel F. Galouwye
Simulacron-3 (1964)

b) A máquina sujeita ao homem

John Sladek
Roderick (1980)
Roderick at random (1981)
The reproductive system (1968)

Robert Silverberg
Tower of Glass (1970)

Isaac Asimov
The Book of Robots (1983)
The Robots of Dawn (1983)
Caves of Steel (1954)
The Naked Sun (1956)

David Gerrold
When Harlie was One (1972)

c) O conflito homem vs. máquina

Douglas Mason
The End Bringers (1973)

D. F. Jones
Colossus (1966)

Alfred Bester
Extro (1975)

Kevin Donnell
Mayflies (1979)

Phyllis Gotlieb
O Master Caliban (1976)

Roger Zelazny
My Name is Legion (1976)

Francis R. Rayer
Tomorrow Sometimes Comes (1951)

d) A síntese final

Stanislaw Lem
The Invencible (1963)

Charles Harness
The ring of Ritournelle (1968)

Chris Boyce
Catchworld (1975)

R. A. Lafferty
Arrive at Easterwine (1971)

Algis Budrys
Michaelmas (1977)

Frederik Pohl
Man-Plus (1976)

O HOMEM PROGRAMADO
Tema único: A programação pela igualdade

T. J. Bass
Half past Human (1971)
The Godwhale (1974)

Chris Boyce
Brainfix (1980)

Bernard Wolfe
Limbo (1954)

Frank Herbert

Hellstron Hive (1973)

Ira Levin
This Perfect Day (1970)

O MUTANTE

a) O mutante solitário

John Crowley
Beasts (1976)

Gertrude Friedberg
The Revolving Boy (1966)

Robert Silverberg
Dying Inside (1972)

b) O mutante guestaltico

Theodore Sturgeon
More than Human (1953)

Keith Roberts
The Inner Wheel (1970)

Tom Reamy
Blind Voices (1973)

Henry Kuttner
Mutant (1953)

Wilmar Shiras
Children of the Atom (1953)

c) Um futuro só de mutantes

Orson Scott Card
A Planet Called Treason (1981)

A.A. Attanasio
Radix (1981)

John Wyndham
The Crysalids (1955)

Norman Spinrad
The Iron Dream (1972)

Walter Miller
A Canticle for Leibowitz (1957)

Samuel Delany
The Einstein Intersection (1967)

Stuart Gordon
One-Eye (1973)
Two-eyes
Three-eyes

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