Love Snapshot #10: The Last Picture Show

August 25, 2010 at 10:37 pm (Love Snapshots)

Há um amor selvagem e sem rédeas que só é trazido de volta graças à memória de um velho homem sentado à beira de um rio. Essa é uma entre muitas cenas memoráveis de um clássico americano que quebrou fronteiras e atreveu-se a traçar as linhas desgastadas da América profunda, a preto e branco. Mas das muitas formas de amor presentes em The Last Picture Show – o amor adolescente e virginal, o amor adúltero, o amor desencantado ou mesmo envergonhado – há o que sobressai acima de todos, o amor na flor da idade onde a paixão e a entrega incondicional são fortes, e nada mais importa. Me and this young lady was pretty wild, I guess. In pretty deep. O leão recorda no seu Inverno o fulgor de dias de Verão e esses breves instantes de amor permanecem para sempre no seu velho coração, inspirando sentimentos de saudade, desejo e uma vontade de reviver esses momentos perfeitos da vida. Afinal, é ele próprio, Sam the Lion, quem diz que o amor é a coisa certa a fazer: ‘Cause being crazy about a woman like her is always the right thing to do. Being an old decrepit bag of bones, that’s what’s ridiculous. Gettin’ old.

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Fome

August 24, 2010 at 11:13 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Há grandes livros e há pequenos grandes livros. O tamanho do livro é irrelevante perante a certeza de um autor que sabe com quantas palavras deseja contar uma determinada história. E num tempo em que cada vez mais o autor sente que tem que compensar o seu leitor com prosa extensa, é bom ver livros que marcam a diferença.

Tive o prazer de traduzir um pequeno grande livro, FOME de Elise Blackwell, que acaba de ser lançado pela Livros de Areia. Já poderão ter lido várias excelentes críticas ao livro como aqui e aqui, mas eu não queria deixar de partilhar algumas ideias e pensamentos sobre a obra.

O título não deixa margem para dúvidas. Durante a Segunda Guerra, a cidade de Leninegrado (hoje São Petersburgo) foi sujeita a um cerco de 900 dias pelas tropas alemãs e, tal como nos cercos da Idade Média a castelos e fortificações, os sitiantes apenas tinham que esperar que as necessidades mais básicas dos sitiados se esgotassem para conquistar lentamente a vitória da forma mais cruel.

A narrativa de Elise Blackwell é baseada em factos verídicos, centrando-se na campanha contra Nikolai Vavilov, um dos maiores geneticistas e botânicos do seu tempo e o principal responsável pela criação de uma das maiores colecções de sementes do mundo. Vavilov foi publicamente desacreditado pelo agrónomo Trofim Lysenko que conquistou os ouvidos de Estaline e incutiu nele um ódio por toda a genética mendeliana. Vavilov foi condenado à prisão e morreu de maus tratos e subnutrição em 1943 mas o seu trabalho não foi esquecido. Os cientistas do Instituto juraram proteger as colecções de sementes da população esfaimada, da destruição de bombas e deles próprios.

O cientista sem nome que nos conta a história de FOME relata na 1ª pessoa a sobrevivência atroz ao cerco, povoada de memórias intensamente pessoais e em torno da sua mulher Alena, também ela uma cientista, mas tão mais heróica do que ele próprio.

Mais do que descrever a experiência de fome – “essa fome cinzenta, e não a própria morte, que temia, que evitava a custo de toda a honra” – nesses meses de Inverno em que a população foi submetida a múltiplas tiranias, o olhar do narrador surpreende pela sua frieza e crueldade, por actos de egoísmo completo perpetrados por uma natureza cobarde e nada heróica.

Ele é de facto o elo mais fraco da cadeia, o homem que jurou proteger as sementes mas que foi incapaz de se submeter ao sacrifício por uma causa mais nobre. Afinal ele é o homem que estava disposto “a acreditar mais nas histórias sobre pessoas que cometeram actos piores do que os meus, as histórias sobre pessoas menos humanas (ou talvez mais humanas) do que eu”.

Numa prosa incisiva,  límpida e evocativa, Elise Blackwell expõe os demónios interiores de um homem atormentado pelo acto de traição cometido para com a sua mulher e colegas, mas também pela sua natureza cobarde.  É um homem acima de tudo governado pelas suas paixões, e que significa realmente a honra perante a necessidade imperiosa de sobreviver?

Apesar do tema trágico, FOME está longe de ser uma narrativa deprimente. O sentimento de perda e nostalgia é inescapável, mas contrasta com os episódios vívidos e sensuais do prazer do acto de comer ou fazer amor. As viagens pelo mundo inteiro – Abissínia, México, Lago Nicarágua – em busca de sementes constituem também alguns dos melhores pedaços de prosa deste livro, bem como os momentos que estabelecem enquadramentos interessantes referentes à notável agricultura babilónia. Babilónia essa devorada pelo “abismo da História”, bem como Leninegrado/São Petersburgo um dia o serão.

E o que resta? “Em noites quentes, quando acordo encharcado em suor, sei que a redenção, se possível, é irrelevante. Um homem é governado por apetite e remorso, e eu engoli o que pude.”

Não posso deixar de chamar também a atenção para a notícia recente de a colecção de sementes do Instituto Vavilov estar em risco de ser parcialmente destruída para dar lugar a condomínios privados. É surpreendente que uma colecção que sobreviveu aos nazis – até eles não permitiram a sua destruição – esteja em risco de morrer no século XXI, numa era onde precisamos desesperadamente de aprender com a biodiversidade dessas sementes e colecções de plantas e frutos. Leiam o livro. Tenho a certeza que aprenderão coisas novas com ele.

Entrevista a Elise Blackwell sobre FOME

Compra online do livro no site da editora

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Countdown

August 24, 2010 at 2:08 pm (Strange Land)

Contagem decrescente para a reactivação de Stranger in a Strange Land, o blogue de Safaa Dib:
Faltam menos de 10 horas.

Acreditem em mim quando digo que os dias não têm sido fáceis.

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