O coração moribundo alfacinha

June 16, 2010 at 7:56 pm (Strange Land)

Trabalho na Parede, mas vivo em Lisboa até fazer a mudança definitiva de casa. Isto significa que sempre que necessito de fazer compras em Lisboa tenho que recorrer a um centro comercial, ou aproveitar os sábados de manhã para as compras nalgumas lojas tradicionais lisboetas.

Mas por vezes, sou acometida do síndrome da estupidez, também vulgarmente chamado “nunca mais aprendes a lição, Safaa”, ao insistir em dar oportunidades ao comércio tradicional que não impliquem uma deslocação aos centros comerciais Colombo ou Vasco da Gama. Durante a semana, apanho o comboio exactamente às 18.15, demoro 25 minutos a chegar ao Cais do Sodré. São 18.40 e corro para o metro para tentar alcançar uma determinada zona do centro de Lisboa que tem uma determinada loja com um objecto que estou determinada em adquirir.

Das duas vezes que tentei esta aventura, alcancei ofegante a porta às 18.57 ou 18.58. E das duas vezes deparei-me com uma loja fechada, deserta, sem vivalma, como se nunca tivesse sequer aberto nesse dia.

A minha raiva e frustração foi tal que à terceira vez que isto me aconteceu na semana passada comecei a bater à porta com força, determinada a escrever no livro de reclamação ou a ser atendida. Claro que não recebi nenhuma resposta porque não havia ninguém para me abrir a porta.

E tenho para mim que este é apenas um dos muitos sinais preocupantes de um comércio moribundo que está preso ao passado, a um tempo desta cidade que já não existe. Lisboa tornou-se a cidade dos habitantes dos centros comerciais porque ninguém se está para chatear como eu me chateei por três vezes. E assim essas lojas morrem a olhos vistos, incapazes de se adaptarem a novos tempos, conservando o seu precioso horário de funcionamento inadequado à realidade do trabalhador, com encerramento para hora de almoço. Os únicos que conseguem sobreviver são os chineses e lojas bagatelas e mesmo os chineses começam a adquirir os hábitos portugueses de fechar a barraca cedo. Penso que ainda não chegam ao cúmulo de fechar antes da hora.

Ainda me recordo do tempo em que os meus pais trabalhavam na baixa lisboeta em finais da década de 80, inícios de 90, e a minha mãe levava-me todas as semanas à rua dos Fanqueiros, uma das ruas mais comercialmente vibrantes em tempos que já lá vão. Agora uma pessoa passeia ao longo dessa rua e vê essas mesmas lojas encerradas ou transformadas em armazéns chineses ou iguais a si mesmas ao longo dos anos, incapazes de fazerem frente ao novo comércio moderno.

A Câmara de Lisboa não encontra soluções dinamizadoras que não passem de fogo-fátuo pré-eleições. Aliás, tudo o que é bom e relevante nesta cidade é feito na época de campanha de eleições, ou por qualquer outro motivo de força maior (visita do Papa).  Há muito tempo já que os Presidentes dessa Câmara demitiram-se das suas funções, tendo como ambição única ascender a primeiros-ministros ou líderes de partidos.

Lisboa dificilmente volta a ser o que era, até que surja algum político com visão para recuperar a cidade do abandono em que se afunda, sem ceder a interesses económicos ou políticos. Até lá não recorro mais a estas lojas muitas vezes caras,  inflexíveis e mal habituadas.

5 Comments

  1. David Soares said,

    Viva, Safaa.

    Belas reflexões que aqui teces. Como sabes, também moro em Lisboa e, em virtude disso (se calhar), tenho uma visão global da cidade, que é, demasiadas vezes, mesmo aquilo que falta nas medidas implementadas pelos sucessivos governos. Só quem mora na cidade (como nós) e faz dela o seu local de residência/trabalho/lazer compreende como faz falta tanta coisa útil para o bom funcionamento da chamada “vida de todos os dias”. O problema do estacionamento, por exemplo, é apenas um pequeno item da lista de coisas a tratar com urgência. Outro item é, como bem escreveste no teu artigo, o do horário do comércio tradicional – que é essencial para a revitalização das zonas em que está inserido, ainda por cima: uma zona sem comércio activo é uma zona morta. E neste ponto só uma mudança nos hábitos e formas de pensar dos comerciantes é que pode resultar numa solução viável: vulgo, abrir as lojas à hora de almoço, aos fins-de-semanas à tarde e, sobretudo, depois das 19H00.

    Há, de igual modo, outro fenómeno: o de que, muitas vezes, os artigos e condições que o comércio tradicional disponibiliza não estão em consonância com as necessidades e os gostos do público. O que é uma pena, claro, mas as coisas são mesmo assim.

    Talvez o problema esteja, mesmo, nas mentes e nos hábitos. Aliás, em que outra grande cidade é que se encontram postos turísticos fechados aos fins-de-semanas?!… Não em muitas, suspeito…

    Abraço!
    David

  2. Maldonado said,

    Não é só em Lisboa que o chamado comércio tradicional está em declínio, mas em todas as cidades do país.
    Moro numa grande cidade da Margem Sul e noto esse fenómeno.
    Os centros comerciais suplantaram as pequenas lojas em todo o país, dada a sua grande capacidade de oferta…

  3. Gisela_Monteiro said,

    Concordo, em absoluto, com a ideia da não adaptação do comércio tradicional com a realidade do século XXI e as suas consequências.
    O comércio tradicional tem um horário que está adequado – ainda! – às necessidades do público que o frequentava até meados dos anos 70, diria eu.
    A realidade mudou no momento em que, por exemplo, as mulheres começaram a acumular o papel de donas de casa com trabalho fora de casa (ou seja, sujeito a um horário específico).

    Culpabilizar o declínio do comércio tradicional apenas com o aparecimento dos grandes centros comerciais (como se ouve muitas vezes dizer por aí) é um pouco como culpabilizar apenas os downloads ilegais no desaparecimento dos clubes de vídeo: então e a chegada da TV por cabo, com canais só de cinema e séries e a possibilidade de ter filmes on demand, num sistema semelhante ao clube de vídeo, mas sem o aborrecimento de ter de sair de casa ou encontrar o filme esgotado, não teve um papel maior nisso?

    Parece-me que os centros comerciais surgiram para colmatar esta falha do comércio tradicional em responder às novas necessidades do público.

    É como fechar os Hipermercados nas tardes de Domingo, justificando que se pretende promover assim o comércio tradicional!
    Alguém é capaz de me dizer qual é a loja de bairro, pertencente ao dito comércio tradicional, aberta ao Domingo à tarde?

    A nossa Lisboa precisa de mudanças efectivas e fundamentais e, lamento, mas não me parece que as mais importantes sejam coisas como tirar o trânsito do Terreiro do Paço.
    Quem é que quer ir para lá passear a pé quando tudo o que existe em volta (e na Rua Augusta, da Prata, do Ouro, etc.) são portas fechadas e montras cobertas por grades?
    Ao fim de semana, das zonas do centro da cidades é apenas no Chiado se vê gente a passear e isso acontece, na minha opinião, por terem algumas esplanadas e um conjunto de lojas aberto que, apesar da localização, é mais um centro comercial.

  4. Mary Jane said,

    Olá🙂
    Gostei muito deste blog.
    é verdade, cada vez me convenço mais disso, o comercio tradicional não acompanha, de todo, a vida dos portugueses, até porque cada vez mais as pessoas trabalham por turnos. E quanto à hora de almoço, sim, é fantastico as lojas fecharem nesse periodo! Até porque não existem pessoas que aproveitam essas mesmas horinhas para fazer compras nem nada, oh sr. por favor estejam àvontadinha em continuar assim, não se incomode!
    Enfim… Já nem penso, para não ficar triste!

    Beijinhos

  5. LoboBrancoTimido said,

    Hum, eu por acaso sou da opinião que devemos ser pontuais a abrir e a fechar uma loja. Até porque tenho que o fazer todos os dias menos ao Domingo e feriados. Existem também os cliente que querem que a loja abra para eles depois desta fechar, parecendo não compreender que existem regras a cumprir e que depois de 420 clientes e com ainda 10 para atender depois da hora “que não é paga aos assistentes” a entrada de mais 1 não pode nem deve ser aceite por quem fecha a loja. Chegar 5 minutos antes da loja fechar é na boa, chegar 5 minutos depois foi azar.

    Vamos fatiar a coisa!😄

    Quanto ao livro de reclamações, até o podes pedir se estiveres dentro da loja, sim chamar a policia não resulta se estiveres na rua, eles apenas dizem que só podes pedir o livro no interior das instalações. Livro de reclamações é uma piada para mim, serve para acalmar o cliente insatisfeito para ele não partir a loiça na loja, lembra a chupeta do bébé.

    Lojas tradicionais, algumas lá se safam por serem de nichos ou porque têm donos que gostam do que fazem, dou-te o exemplo da “ciclone” para os lados da assembleia da república. Loja de comércio tradicional que vale por 3 centro consumistas (perdão comerciais), apenas e só pelo amor que os donos têm a camisola.

    Horas de almoço, pá a malta têm de comer e algumas lojas não podem ter dois trabalhadores para se renderem no almoço. A mim também me dava jeito que algumas estivessem abertas a hora de almoço mas enfim, é a vida!

    Infelizmente o comércio dito tradicional está mesmo muito mal nos dias que correm, mal devido a empregados mal formados que não gostam do trabalho, mal porque o patrão que também é vendedor deixou a muito de ser como era quando começou o seu negocio, cheio de esperanças de uma vida recheada de sucesso para agora olhar a volta e ver mares de dividas e aquilo que o estado tuga gosta de fazer que se chama “encavar” os patrões até eles fecharem a porta ou suicidarem-se (acontece por vezes e não é só no Japão).

    Seja como for o comercio tradicional precisa de gente nova e empreendedora como aquele sr. da ciclone que salvo erro é doutorado, mas que suja as mãos pelo sonho da sua loja de bicicletas..só espero que se safem desta suposta crise! Eu realmente sinto a crise mas também vejo muito boa gente a comprar aparelhos de 400€ que têm como única finalidade a comunicação os outros. Deve ser mesmo muito importante comunicar mesmo que se passe fome para ter um bocado de plástico no bolso…
    Desculpa o Português mal amanhado, deixo o correcto para o teu trabalho!😄
    Abraços.

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