O coração moribundo alfacinha
Trabalho na Parede, mas vivo em Lisboa até fazer a mudança definitiva de casa. Isto significa que sempre que necessito de fazer compras em Lisboa tenho que recorrer a um centro comercial, ou aproveitar os sábados de manhã para as compras nalgumas lojas tradicionais lisboetas.
Mas por vezes, sou acometida do síndrome da estupidez, também vulgarmente chamado “nunca mais aprendes a lição, Safaa”, ao insistir em dar oportunidades ao comércio tradicional que não impliquem uma deslocação aos centros comerciais Colombo ou Vasco da Gama. Durante a semana, apanho o comboio exactamente às 18.15, demoro 25 minutos a chegar ao Cais do Sodré. São 18.40 e corro para o metro para tentar alcançar uma determinada zona do centro de Lisboa que tem uma determinada loja com um objecto que estou determinada em adquirir.
Das duas vezes que tentei esta aventura, alcancei ofegante a porta às 18.57 ou 18.58. E das duas vezes deparei-me com uma loja fechada, deserta, sem vivalma, como se nunca tivesse sequer aberto nesse dia.
A minha raiva e frustração foi tal que à terceira vez que isto me aconteceu na semana passada comecei a bater à porta com força, determinada a escrever no livro de reclamação ou a ser atendida. Claro que não recebi nenhuma resposta porque não havia ninguém para me abrir a porta.
E tenho para mim que este é apenas um dos muitos sinais preocupantes de um comércio moribundo que está preso ao passado, a um tempo desta cidade que já não existe. Lisboa tornou-se a cidade dos habitantes dos centros comerciais porque ninguém se está para chatear como eu me chateei por três vezes. E assim essas lojas morrem a olhos vistos, incapazes de se adaptarem a novos tempos, conservando o seu precioso horário de funcionamento inadequado à realidade do trabalhador, com encerramento para hora de almoço. Os únicos que conseguem sobreviver são os chineses e lojas bagatelas e mesmo os chineses começam a adquirir os hábitos portugueses de fechar a barraca cedo. Penso que ainda não chegam ao cúmulo de fechar antes da hora.
Ainda me recordo do tempo em que os meus pais trabalhavam na baixa lisboeta em finais da década de 80, inícios de 90, e a minha mãe levava-me todas as semanas à rua dos Fanqueiros, uma das ruas mais comercialmente vibrantes em tempos que já lá vão. Agora uma pessoa passeia ao longo dessa rua e vê essas mesmas lojas encerradas ou transformadas em armazéns chineses ou iguais a si mesmas ao longo dos anos, incapazes de fazerem frente ao novo comércio moderno.
A Câmara de Lisboa não encontra soluções dinamizadoras que não passem de fogo-fátuo pré-eleições. Aliás, tudo o que é bom e relevante nesta cidade é feito na época de campanha de eleições, ou por qualquer outro motivo de força maior (visita do Papa). Há muito tempo já que os Presidentes dessa Câmara demitiram-se das suas funções, tendo como ambição única ascender a primeiros-ministros ou líderes de partidos.
Lisboa dificilmente volta a ser o que era, até que surja algum político com visão para recuperar a cidade do abandono em que se afunda, sem ceder a interesses económicos ou políticos. Até lá não recorro mais a estas lojas muitas vezes caras, inflexíveis e mal habituadas.
I’m as mad as hell
HOWARD BEALE: I don’t have to tell you things are bad. Everybody knows things are bad. It’s a depression. Everybody’s out of work or scared of losing their job. The dollar buys a nickel’s work, banks are going bust, shopkeepers keep a gun under the counter. Punks are running wild in the street and there’s nobody anywhere who seems to know what to do, and there’s no end to it. We know the air is unfit to breathe and our food is unfit to eat, and we sit watching our TV’s while some local newscaster tells us that today we had fifteen homicides and sixty-three violent crimes, as if that’s the way it’s supposed to be. We know things are bad – worse than bad. They’re crazy. It’s like everything everywhere is going crazy, so we don’t go out anymore. We sit in the house, and slowly the world we are living in is getting smaller, and all we say is, ‘Please, at least leave us alone in our living rooms. Let me have my toaster and my TV and my steel-belted radials and I won’t say anything. Just leave us alone.’ Well, I’m not gonna leave you alone. I want you to get mad! I don’t want you to protest. I don’t want you to riot – I don’t want you to write to your congressman because I wouldn’t know what to tell you to write. I don’t know what to do about the depression and the inflation and the Russians and the crime in the street. All I know is that first you’ve got to get mad.
[shouting] You’ve got to say, ‘I’m a HUMAN BEING, Goddamnit! My life has VALUE!’ So I want you to get up now. I want all of you to get up out of your chairs. I want you to get up right now and go to the window. Open it, and stick your head out, and yell,
[shouting] ‘I’M AS MAD AS HELL, AND I’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!’ I want you to get up right now, sit up, go to your windows, open them and stick your head out and yell – ‘I’m as mad as hell and I’m not going to take this anymore!’ Things have got to change. But first, you’ve gotta get mad!… You’ve got to say, ‘I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore!’ Then we’ll figure out what to do about the depression and the inflation and the oil crisis. But first get up out of your chairs, open the window, stick your head out, and yell, and say it:
[screaming at the top of his lungs] “I’M AS MAD AS HELL, AND I’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!”
NETWORK de Sidney Lumet, guião de Paddy Chayefsky (1976)
Agradecimento
Não quero deixar de prestar um agradecimento aos Booktailors e a José Mário Silva do blogue Bibliotecário de Babel pela referência à minha nova posição como editora da revista Bang! Obrigado. Vamos ver se estou à altura.
Aqui estou eu de volta
Tenho andado terrivelmente silenciosa neste blogue mas as razões são muitas e variadas.
Quando não trabalhava na editora, trabalhei na feira do livro de Lisboa e devo dizer que este ano foi um tanto ou quanto mais atribulada que o costume, em que muitas foram as noites geladas em que mal conseguíamos combater a cruel ventania que perpassava pelo parque. Houve também um belo dia de chuva incessante que ocasionou infiltrações nos stands, arruinando alguns livros. Não faltaram descontos durante a semana à última hora do dia quando o vendedor já só anseia por fechar a barraca e ir para casa. Ouvia-se sempre um ruído de fundo muito insistente e constante que descobriu-se ser o resmungo de descontentamento dos livreiros.
Foi uma feira memorável, sem dúvida. Viu-se de tudo. Adeptos benfiquistas a entupir durante uma noite o parque e os acessos à feira, com famílias inteiras a desfilarem entre os livros enquanto os filhotes sopravam forte nas vuvuzelas e adeptos trepavam a estátua do Marquês. Um cortejo papal em que o Papa do seu Papamobile acenou à feira (não posso garantir que acenou mas a minha imaginação já preparou o cenário todo). Encerramentos imprevistos da feira para alívio de uns, fúria de outros e perplexidade de todos. E assim passaram muitas e muitas horas agradáveis e não tão agradáveis no parque, com o pançudo das bifanas como companhia ao almoço. E lanche. E jantar. E ceia.
Evidentemente que teria tudo sido perdoado ou esquecido não tivesse a APEL tido a ideia infeliz de prolongar durante mais uma semana uma feira que já se revelara até então um calvário para vendedores.
Mas finda a feira do livro, vejo-me a braços com uma mudança de casa e assim os meus dias têm sido muito preenchidos. Não faltam novidades como o facto de ter sido escolhida como a nova editora da revista Bang! e deixem-me que vos diga, meus amigos, que editar uma revista dá trabalho mas um gozo estupendo. A Bang n.º 8 já está fechada, mas há surpresas pelo caminho e tenho que me conter para não as revelar antes do tempo.
Estou a considerar actualizar mais regularmente este blogue nos próximos tempos, mas nunca fui uma pessoa de actualizar só por actualizar, e até eu sentir que tenho algo de relevante para partilhar convosco, não pretendo cansar-me a mim e a vocês em vão. Todavia, não vos apoquenteis pois sinto que tenho muito para dizer. Falta-me é tempo, esse eterno fugitivo.





