Mitos falsos e crises anunciadas

April 18, 2010 at 9:53 pm (Strange Land)

Através do twitter da editora Livros de Areia, tive acesso a um artigo muito pertinente publicado no jornal Panorama, editado pela McSweeney’s. Nesta nova era em que profetas da tecnologia lançam previsões sobre o fim do livro como objecto físico e a sua nova encarnação em formato digital com acesso através dos gadgets e chips mais sofisticados, muito se tem usado o argumento ecológico para convencer os mais renitentes a aderir aos e-readers e e-books.

Na realidade, fomos educados para pensar que por cada folha de papel que consumimos estamos a destruir árvores e o meio ambiente. É cada vez mais um dado adquirido entre a sociedade que se deve evitar ao máximo o desperdício de papel, e nos últimos anos têm-se propagado medidas que contribuem para o fim do desperdício, ou mesmo o fim do uso de papel como medida benéfica para a Natureza.

Mas será mesmo assim tão simples? Parte da minha actividade consiste em garantir o fornecimento contínuo de papel necessário para a produção dos livros da editora. Sei em primeira mão que se gastam quantidades obscenas de papel anualmente, e com preços que empalideceriam qualquer um. Mesmo que uma árvore seja capaz de produzir centenas de resmas de papel, como seria possível que o mundo já não estivesse desprovido de árvores? E então tudo passou a fazer mais sentido depois de ler este artigo no McSweeney’s sobre a luta de uma pequena fábrica de papel para se manter à tona na transição da era da impressão para a era digital.

O artigo, da autoria do famoso autor Nicholson Baker, refere a existência de uma velha fábrica de papel em Maine, EUA, que produzia todo o tipo de papéis e que tinha sido considerada uma das maiores no seu tempo. A indústria americana de papel foi afectada por uma crise precipitada pela imposição do formato digital em jornais, mas também perante uma excepcionalmente árdua crise económica.  Começou com o fecho de algumas máquinas de fabrico de papel. Depois o despedimento parcial dos seus operários. Até que, finalmente, foi tomada a decisão de encerrar a fábrica em 2009.

Maine é rico em florestas e serrações. O autor do artigo dirigiu-se ao local e descobriu que toda aquela floresta estava em risco não por causa do abate das árvores, mas devido à sua falta.

“If the marketplace for timber, harvested sustainably from Maine’s forests, collapses because of the propagation of a myth—which some might say is a fraud—that says that using the newspaper is killing trees, then what happens is the landholder can no longer generate the revenue to pay a master logger for sustainable timber harvesting, and can’t pay the taxes. Then a developer offers to buy the land at a steep premium over what it was worth as a forest, and the developer clear-cuts the land and turns it into a low-density development. Then it really is deforested.”

Ou seja, quando um proprietário de florestas já não ganha lucro com o ciclo de abate e plantação de árvores, torna-se incapaz de financiar uma estrutura que permita a manutenção das florestas ao longo dos anos, vendo-se a braços com impostos que não consegue pagar.  Depois alguém se oferece para comprar o terreno a um valor mais baixo do que o real, decide construir um condomínio e arrasa, para sempre, com toda a floresta. E assim dá-se verdadeiramente o processo de desflorestação.

Mas o que se passa na Península Ibérica é um caso diferente. Não é a gradual popularidade do formato digital que está a causar a crise na indústria de papel de livros.  Como já referi, desde finais de 2009, mais precisamente desde o encerramento da fábrica Besaya na Espanha, iniciou-se um efeito dominó que provocou uma crise sem precedentes de falta de papel e consequente quebras de produção entre várias editoras nacionais, que se prolonga até hoje. A situação foi agravada por problemas de fornecimento de pasta às fábricas europeias de papel (o principal fornecedor chileno foi seriamente afectado pelo terramoto). O grosso de produção das fábricas consiste no papel offset (fotocópia) cujo mercado é dominado na Península Ibérica pela Portucel. Como o papel volume usado em livros é apenas uma pequena fracção da produção total de uma fábrica (que a Portucel não produz), as máquinas desse papel em fábricas espanholas são paradas para minimizar custos e conduzem a insuficiente oferta para uma procura excessiva da  parte dos editores. Inevitavelmente, perante a falta de papel volume, assiste-se a uma subida de preços substancial no sector. Podíamos começar a imprimir livros em papel de fotocópia, mas o leitor português foi habituado desde há décadas a um livro de aspecto quase luxuoso e de aparência cara, pelo que a reacção a um novo livro num pacote de muito menor qualidade poderia ser fatal.

São estes factores que podem, no futuro próximo, encorajar as editoras a adoptar mais cedo do que o previsto a tecnologia necessária para a produção de e-books bem feitos e seguros. Neste momento, mesmo sendo todos os dias bombardeados com notícias do último gadget sofisticado para a leitura e armazenamento de livros (e pergunto-me se o fascínio não será mais pelo gadget em si do que outra coisa qualquer), as editoras nacionais estão na fase pré-História de integração no mundo digital.  É um facto que 99% do mercado ainda depende inteiramente do método de impressão. E ironicamente, a maioria dos leitores nem gosta de ler livros no computador e não abdica do objecto físico. Portanto, enquanto que no Maine o papel foi abandonado a favor do formato digital, nas nossas bandas estamos a ser forçados a adoptar esse caminho, por falta de papel.

Um sério investimento nesta tecnologia teria que ser feito, não só para escapar ao aumento dos preços do papel existente, mas porque é um facto que o papel de livros está a morrer (as poucas máquinas que o produzem actualmente na Europa estão com prazos de fabrico de 4 a 6 meses quando o normal era de 3 a 4 semanas). Se não houver mudanças, passaremos a ter apenas papel de escritório que é a fatia de leão desta indústria.

Perante tudo isto, podemos concluir várias coisas:

O mito de que o papel prejudica o meio ambiente é falso.

Nunca se produziu mais papel offset como agora, mesmo com a era dos computadores, mas o facto de essa produção estar a ser praticamente monopolizada por algumas empresas, está a causar baixas ou cancelamentos de produção nas várias fábricas.

O papel de livros, mais caro e pesado, foi completamente vítima das forças do mercado, e será inevitável no futuro uma maior concertação de estratégias da parte das editoras nacionais para encontrar novas soluções que poderão ou não passar pelo formato digital, e que poderão levar anos a ser implementadas.

15 Comments

  1. pedromarquesdg said,

    A editoras em Portugal estão mal habituadas ou habituaram mal os leitores. Há anos lembro-me de me espantar quando vi que os livros de uma pequena editora (ainda que na moda, e à imagem de outras também “na moda”) eram impressos em papel Munken. Para quem não sabe, os melhores e mais caros papéis no mercado vêm da Escandinávia, como o Munken que vem da Suécia. São produzidos EXCLUSIVAMENTE lá, o que significa que qualquer pequena greve, avaria mecânica ou acidente que complique o percurso dos camiões vindos da Suécia até à gráfica irá lançar o caos neste processo. Junte-se-lhe o preço da gasolina e os salários dos camionistas. Raridade e/ou dificuldade de acesso tendem a subir o preço, não a baixá-lo. (Não me espantei foi de saber, tempos depois, que essa editora estava a ameaçar falência).

    A dificuldade de acesso ao papel “bom” não me parece conducente ao boom da aceitação do formato digital: mais depressa, como a História nos prova, as pessoas se deixam de manias e começam a ler em papel de menor qualidade (a explosão, em quantidade e qualidade, do livro de bolso nos anos de 1950 e 1960, foi feita, em grande parte, à base de papel muito barato). Hans Schmoller, director de produção na Penguin, onde sucedeu ao “lendário” Jan Tschichold, escreve, num ensaio sobre a história do paperback publicado em 1974, que na Alemanha do pós-guerra, onde havia grande escassez de papel, e perante a procura massiva de leitura, alguns editores (a Rowolt em particular) começaram a imprimir livros em papel (e em formato) de jornal(!): por alguns cêntimos, levava-se um romance para casa enrolado debaixo do braço. E ninguém perdeu em qualidade de leitura por ler os “clássicos” em papel de jornal.

    O problema não está na tecnologia mas nas leis do mercado, que está em excitação juvenil com este ciclo de gadget-novo-que-substitui-gadget-velho-que… (A pergunta nunca será: estão os editores preparados para o IPad?; deverá ser: depois do IPad, quantos meses até ao próximo gadget?) O problema não está em “poupar” as florestas evitando imprimir em papel, está em que o mercado é dominado por empresas que lançam e distribuem milhares de exemplares de centenas de maus títulos por mês, precisamente porque vivem desta exploração de títulos em alta rotação e vendas massivas.

    O texto do Baker (que é, é preciso dizer, um radical na defesa do “impresso”) faz-me pensar que é uma estupidez falar-se de um devir evolutivo, quase determinista (como se uma fosse causa do outro), da “morte” do livro em papel impresso para o “nascimento” do livro digital. Curiosamente, no mercado actual, existe já uma solução que permite o convívio entre o formato livro-de-papel e a tecnologia digital: o Print-on-Demand. A dificuldade de aceitação desta solução (e a maior facilidade de aceitação da imagem do brilhante “anjo exterminador” do futuro próximo, empunhado um ebook reader) está, obviamente, no próprio mercado: o POD implica a eliminação dos intermediários (distribuidores e livreiros, sobretudo), os mesmo que fazem aumentar necessariamente o PVP do livro em virtude das altas percentagens que levam para transportar livros e pô-los em prateleiras. E implica um nível de confiança na compra pela internet que o português médio não tem, o mesmo português que não compra um livro se não sentir a textura escandinava no papel e não pagar por ele o preço correspondente…

    Pedro Marques
    Livros de Areia Editores

  2. Safaa Dib said,

    Olá Pedro, abordaste algumas questões muito interessantes no teu texto que mereciam destaque em outros posts.

    Se eu te dissesse que, neste momento, não é possível encomendar papel Munken Pocket (uma variante do papel sueco de preço mais acessível) ao seu fornecedor português até Junho, acreditarias? Um fornecedor que se gabava de ser um dos mais estáveis e de confiança deixou de fornecer desde Abril porque os rumores dizem que o papel foi todo arrebanhado exclusivamente para uma editora. Quais regras do mercado, pergunta-se uma pessoa, perante isto.

    De qualquer forma, com base na constatação de que esse papel bom e caro está cada vez mais inacessível, e face às necessidades (excessivas) dos editores, tentei especular para onde podem ir, a partir daqui, os editores. Indiquei o formato digital como um caminho possível de ser tomado precisamente por essa excitação que tem tomado conta do mercado pelos sucessivos gadgets brilhantes e bonitinhos e cada vez mais finos que têm surgido. Mas isso não quer dizer que acredite que esse caminho resulte.
    Não mencionei no post, pois não quis divergir da questão essencial que abordei, que não considero o acesso a livros através de e-readers democrático ou abrangente, sendo sim um capricho de uma classe média/média-alta e educada. Se esse é o futuro, então é um futuro altamente limitativo para a leitura e muito mais perigoso do que livros caros produzidos em papel caro.

    Tempos de extrema crise podem levar as pessoas naturalmente a adoptar um papel mais barato sme hesitações, mas ainda não chegámos (felizmente) a esse patamar de crise, como na Alemanha do pós-guerra.
    Ainda estamos demasiado focados no caro, bonito e caro.

    Falas do formato bolso. A Saída de Emergência vende os seus próprios livros de bolso integrados na colecção 11/17 da Bertrand. Usamos um papel mais fino e mais barato, embora não considere a diferença de preço tão grande quanto deveria ser. E porque fazemos um esforço em vender livros de bolso com qualidade e imagem apelativa, as pessoas têm sido lentamente conquistadas pelos preços (10€ por livro), mas se decidíssemos produzir só esses livros, e acabar com os de formato 16×23, duvido que o meu chefe continuasse a poder pagar-me um salário daqui a menos de 1 ano. No entanto, o formato bolso tem feito uma caminhada morosa, mas cada vez mais positiva em Portugal, e daqui a uns anos, quem sabe?

    Print-on-demand? Qual print-on-demand? É inexistente em Portugal. As empresas que afirmam que o fazem estão longe de o fazer nos moldes em que deveriam fazê-lo. Ou criam “Pacotes editoriais” caríssimos que lembram as edições de uma vanity-press, ou o custo de impressão digital é tão alto que uma editora que já recorra a offset não acha de forma nenhuma compensador. Cheguei a essa conclusão depois de analisar os preços de uma print-on-demand que recentemente abriu em PT, e além disso tens que aceitar as limitações de número de páginas, formato, papel, que impõem. Depois acrescenta o IVA e as despesas de envio. Por isso, POD decente não existe em PT, ponto final. No dia em que abrir uma Lightning Source em Portugal, voltamos a falar, sendo a Publidisa em Espanha o mais próximo que existe a isso neste momento. E depois há outra questão que não te podes esquecer: POD só é adequado para pequenas e médias editoras e edições de autor. O que faz uma editora que precisa de imprimir 15.000 livros de um livro? E mesmo 2000/3000 que é a tiragem média de produção?

    Livros esses que estão demasiado dependentes de uma forte distribuidora porque têm uma forte procura? O que fazes? Aceitar pagar a parte que deves ao distribuidor, livreiros, etc, e vendes o livro conseguindo aguentar-te até à próxima novidade? Não ajuda as editoras terem entrado num ciclo prejudicial, como bem disseste, de produção massiva de novidades todos os meses, mas enquanto isso for feito, impressão digital não é a solução.

    Arranjem uma solução digital que permita impressão de grandes tiragens e substitua os custos elevados em offset e aí, sim, as mudanças poderão começar.

  3. pedromarquesdg said,

    “Arranjem uma solução digital que permita impressão de grandes tiragens e substitua os custos elevados em offset e aí, sim, as mudanças poderão começar”

    Essa poderá ser uma solução para grandes e médias/grandes editoras, que estão um pouco como o tubarão: têm de continuar a nadar (ie., lançar tiragens elevadas) senão afundam. O problema mais generalizado (limite dos espaços físicos de compra e armazenamento, dado o avolumar do stock de livros publicados), cura-se já com o Print on Demand: livros produzidos consoante a compra, e até à medida dos desejos do comprador: com a capa B em vez da A, com badanas, com a Introdução de fulano (com o devido acréscimo de PVP) em vez dos Posfácio de sicrano, etc. Até poderia escolher a qualidade do papel (uma novela pulp num papel mais baratucho, amarelado, por exemplo). O editor voltaria a ser APENAS o que realmente deve apenas ser: um produtor (no sentido do produtor de cinema: alguém que escolhe, que selecciona, e que investe) de bons conteúdos.

    Vi por aí há tempos uma projecção futurista que não é de todo descabida: livrarias-espresso, onde terminais ligados a um servidor central permitem a consulta, escolha, formatação e encomenda de livros online, e onde máquinas de café espresso servem o cliente enquanto espera pela impressão do seu livro numa das outras máquinas ao fundo da “livraria”, e vai vendo alguns exemplares expostos dos livros que pode encomendar nos terminais. (Neste sistema, o livreiro voltaria a ganhar pelo que se supõe que sabe fazer melhor: não empilhar livros por ordem alfabética mas INFORMAR e EDUCAR o gosto da clientela: é esse o lado mais utópico da coisa…)😉

  4. Hugo Rocha said,

    Estou agora mesmo a ler “The whisperer in darkness” (H. P. Lovecraft) na edição de pechincha da Wordsworth. Pechincha aqui significa 3,58€. Comprei-o juntamente com o “Pickwick papers” do Dickens (2,38€; a edição portuguesa da Tinta da China? Cerca de 30€… nem que fosse impresso com o próprio sangue do Ricardo Araújo Pereira). A impressão da Wordsworth é superior à dos Penguin Classics, não há cá páginas borradas com excesso de tinta e outras em que a falta. Mas o papel é mau: escuro, com impurezas, amarelece mais rápido e, por a gramagem ser baixa, onde haja humidade, tende a ondular mais rápido do que outros. Se construísse uma biblioteca para ser lida pelos meus netos ou bisnetos, não seriam certamente estes que compraria. Como é para ser lida por mim, são perfeitos.

    Uma pergunta sobre as nossas “edições mais cuidadas”: para quê gastar dinheiro em papel que parece cartolina (frequentemente dificultando a leitura, de inflexível que é), para depois se fazer uma edição sem notas ou prefácio (nos casos em que se exigia que existissem), colada e não brochada, com um design atroz (tanto da capa como paginação)? É isto “qualidade”? É isto que justifica estes preços?

  5. Safaa Dib said,

    Sabes qual é o problema, Pedro? É que precisas de uma máquina realmente muito abrangente naquilo que pode fazer, porque muitas vezes os pedidos não são standard. Queres fazer um livro com uma capa impressa frente e verso, não consegues o verso ou é muito mais caro, ou porque a máquina não tem essa capacidade. Queres fazer uma estampagem? É complicado. Achas que aquele livro ficaria melhor com um outro tipo de cartolina? Não têm.

    Hugo Rocha:

    O papel não é o único factor a influenciar o PVP final de um livro. Esse preço é determinado pelos custos envolvidos num livro desde a tradução, revisão, paginação, design, preço de papel e cartolina, distribuição, marketing, etc. É errado pensar que, se usássemos a partir de agora papel muito mais barato, os preços desceriam ao nível dos preços de livros de bolso.

    As edições inglesas não pagam traduções (nem revisões em clássicos), usam um papel muito mais barato, e têm outro tipo de “almofadas” que lhes permite praticar preços bem mais acessíveis no formato paperback. Mas isso em Portugal também nós ao colocarmos os livros de bolso (equivalente ao paperback) à venda por 10€. Ah, e não esquecer que o mercado inglês tem certamente leitores em números que não existem em Portugal.

    O problema é que só produzimos AS NOVIDADES num formato maior e mais caro. Porquê? Não sei bem que isto são coisas antes do meu tempo, mas talvez devido ao novo-riquismo da década de 90 que cultivou essa ideia do livro opulento, em oposição à fraca qualidade (e fracas traduções) dos muitos livros de bolso que vinham a ser publicados na década de 70 e 80 e que deixaram marcas mais negativas do que positivas na memória dos portugueses. Foi ao formato mais caro que os leitores dos últimos vinte anos foram habituados e será agora difícil desabituá-los.

  6. starglider said,

    Caro Senhor,
    houve uma pergunta que não foi feita no seu excelente artigo: Quanto custa ecologicamente um eBook Reader?

    Cumps.

  7. Safaa Dib said,

    Starglider, é Senhora.😉
    Essa é uma boa pergunta, mas como a minha realidade editorial ainda não envolve eBook readers, tenho que confessar a minha ignorância sobre tais custos ecológicos. Deixo-a para outros mais experientes do que eu nessa área.

  8. starglider said,

    As minhas desculpas!

  9. Hugo Rocha said,

    Não pretendi sugerir que o preço de um livro dependa apenas do papel usado. Limitei-me a apontar que a discrepância de preços não pode ser explicada pela qualidade do produto editado por cá. Claro que o tamanho do mercado favorece as edições inglesas. Mas e o resto? É a distribuição em Portugal de livros ingleses mais barata do que a de livros portugueses? Exemplo: Memórias Póstumas de Brás Cubas (MPdBC), Machado de Assis; língua portuguesa e autor morto há tempo suficiente para não se dever o pagamento de direitos. A edição portuguesa mais barata que conheço é a de bolso da Biblioteca Editores Independentes (BEI). Preço: na Wook 7,20€ (a que se soma o custo do envio por correio), na Fnac 8€. Não é caro, é verdade, considerando os 30€ dos Cadernos de Pickwick (CdP), mas não deixa de ser mais do triplo do CdP em inglês (Wordsworth), apesar de este ter 750 páginas (contra as 320 do MPdBC) num formato maior do que o do MPdBC, conter uma curta introdução, bibliografia adicional, cd. 40 ilustrações e ainda 153 notas clarificando expressões e eventos da altura. Acresce que, apesar da pouca qualidade do papel da Wordsworth (como referi antes), não deixa de ser preferível ao da BEI, que parece ser algo próximo do papel-bíblia. Ah, e tem a vantagem de não ser necessário usar lupa para ser lido por quem tenha mais de 15 anos de idade.

  10. Rita Canas Mendes said,

    Olá Safaa e restantes comentadores,

    Acompanho com muito interesse este blog e as suas caixas comentários. Hoje vou meter a minha colherinha (que só não ponho mais vezes porque em entrando na conversa dificilmente me calo).

    Sobre a escassez de papel, é uma pena que monopólios e outras asfixias reduzam a oferta a um leque mínimo e intermitente – limitação até certo ponto estranha, pois, numa era em que o cliente dita as regras e em que tudo é «customizável», seria de esperar que houvesse papel para todos os gostos e bolsos, sempre pronto a entregar. Tal como as coisas estão, perdem todos – o editor, o leitor, a papeleira. A solução terá mesmo de passar por parcerias entre editoras e por negociações com as papeleiras através da APEL (por que motivo não, se este é um problema comum a quase todos os editores?), mas, como é sabido, a capacidade de unir esforços não é um ponto forte da edição nacional.

    Quanto ao argumento da ecologia, poder-se-ia pensar que a digitalização do livro e da sociedade trouxesse consigo poupança de recursos, mas, além da lógica apontada no post (Maine), que prova que não é bem assim, ainda há que contar com as pilhas de material electrónico produzidas a cada dia. Em comparação, o papel é biodegradável, facilmente reciclável, não é tóxico e não se desactualiza, já para não falar no dispêndio de energia que a produção e a manutenção dos aparelhos electrónicos implica. Por enquanto, fazer equivaler digital a ecológico é um logro (digo «por enquanto» porque pode ser que no futuro os produtos e os processos se optimizem energeticamente*).

    Parece-me que esta fúria do digital é feita de muita especulação e que, apesar de o electrónico ter aspectos vantajosos em determinados casos, o papel (com muita ou pouca qualidade) manterá a sua soberania, pelo menos no livro corrente.

    *Se aparecesse entretanto um leitor de livros digitais a energia solar, como algumas calculadoras, já era simpático.

  11. Safaa Dib said,

    Olá Rita,

    Tirando as Feiras do Livro, raramente vejo a ingerência da APEL nos assuntos das editoras. A mim parece-me que a APEL faz demasiado pouco para o que poderia fazer, e não posso deixar de a considerar uma instituição demasiado passiva, formal e talvez ultrapassada? Mas talvez as próprias editoras não desejam essa ingerência da APEL que tem que manter um equilíbrio entre editores e livreiros, cujos interesses muitas vezes chocam. Fala-se num Encontro Nacional de Editores mas tenho sérias dúvidas que isso adiante para algo.

    E sim, é verdade que a produção e manutenção de máquinas também contribuem negativamente para o ambiente, mas vejo dois lados distintos nesta questão: os paladinos da tecnologia que vivem num mundo utópico que só se poderá vir a concretizar daqui a décadas mas que querem vê-lo concretizado já, e a presente realidade que está muito afastada desses avanços tecnológicos. A edição em papel ainda impera entre a esmagadora maioria do público, mas estamos constantemente a ser atormentados por um marketing e estudos agressivos que desejam estabelecer agressivamente o domínio do formato digital numa área que movimenta milhões. Preocupa-me a possibilidade de ser retirado aos editores muitos poder, preocupa-me a possibilidade de estes passarem a ser meros fabricantes (ao estilo de gráficas), sem controlo sobre as suas obras em questões como venda, preços, distribuição, direitos, e tornando-se dependentes de entidades como Amazon ou Apple ou Google. Basta ver esta última guerra de preços de ebooks em que a Amazon proibiu a venda de vários ebooks de algumas editoras para conseguir impor a sua posição. Haverá muito pouca margem de negociação para o editor no mundo digital e isso é perigoso para o futuro das editoras.

    • Rita Canas Mendes said,

      Olá de novo Safaa,

      Sim, a APEL tem esses defeitos todos e ainda mais. Envelhecida, pessoalizada e ambígua são apenas algumas das coisas que se lhe pode chamar. O facto de congregar editores e livreiros não ajuda em nada (para gáudio de quem ganha com isso)… E é verdade que os editores não querem a intromissão da APEL (como bem se vê nalguns aspectos das Feiras do Livro) quando ela se intromete, mas se em vez de uma entidade que de tempos a tempos dá o ar da sua graça fosse uma associação dos editores a trabalhar para os editores, se fosse vista e usada como o instrumento que deveria ser, se não se comportasse como uma entidade organizadora de feiras, o panorama seria certamente diferente. Talvez seja preciso vir uma nova geração para tirar as teias de aranha a esta associação que, com a assimilação da UEP, lá parece um pouco mais associada. Mais dia menos dia, terá de se transformar (já há algumas, minúsculas, mudanças) e há que fazer por isso, pressionando, provocando a mudança (coisa que talvez leve uma fornada de novos editores a conseguir).
      Em 2006, a defunta UEP organizou um congresso de editores em que estive presente. Foi muito útil para concluir o que já tinha deduzido, como por exemplo:
      – os editores não têm grande consideração uns pelos outros e isso impede-os de trabalhar em conjunto, mesmo quando isso lhes interessaria do ponto de vista evolutivo;
      – as estatísticas do livro são vagas, para não dizer inexistentes (talvez isto venha a mudar com teses de mestrado sobre o assunto nos novos cursos de edição);
      – a mentalidade ainda é a da lamúria (omnipresente) e a do subsídios, em vez de ser a da procura de criatividade e de eficiência;
      – falta de visão no que aos mercados internacionais diz respeito.
      Dessa vez, falou-se do preço fixo (com que uns concordam, outros discordam, outros assim-assim), aflorou-se a questão das limitações da distribuição em Portugal e também falou o José Rodrigues dos Santos, para tornar tudo ainda menos interessante. Pode ser que o próximo encontro haja mais mangas arregaçadas e menos powerpoints; há que ter esperança

      Sim, as máquinas, esses seres fabulosos, têm muito que se lhes diga… A economia de mercado em que actualmente vivemos é perversa em muitos aspectos – para atingirmos o patamar da máquina óptima temos de passar pelas versões imperfeitas e para que se justifique mobilizar meios para a caminhada desse aperfeiçoamento tem de haver interesse comercial, consumidores prontos a financiar essa evolução tecnológica e isso só se consegue com marketing, furor em torno da próxima novidade e muitas luzes e fumo à mistura. Caberá ao editor e ao leitor avisados adaptarem-se, não se deixarem levar pela última moda, prestando-lhe a devida atenção, acompanhando-a quando for caso disso, claro está.
      Aos editores cumpre lutar pelo espaço que é seu e não ceder sob ameaças do género Amazon, inventando ele novas armas, não se sujeitando lá porque está em desvantagem. Ao editor exige-se, mais e mais, que seja cada vez melhor no seu trabalho, tornando-se insubstituível e mostrando a todos que o é (há que fazer marketing ao papel do editor, que aquela velha imagem do sábio que decide o que merece ser fixado em papel e o que não tem qualidade já não convence ninguém, e a profissão tem muito mérito por si). Muitos ficarão pelo caminho, restando os mais engenhosos. Se vejo o quadro negro, não é apenas por ver ameaças, é também por ver muita inacção.
      Os anos fáceis da edição já lá vão – que, suponho, foram algures nos anos 30/50 (quando imprimir se tornou mais simples e se faziam tiragens habituais de 10 mil exs. – embora houvesse menos leitores também havia muito menos concorrência) e depois os anos 70/80 (democratização do país, alfabetização, acesso ao ensino, etc., ainda com pouca concorrência e tiragens enormes, sempre esgotadas). Agora a competição é feroz, todos os intervenientes no processo autor->leitor querem a sua fatia e querem-na sempre cada vez maior (aproveitando-se, claro, das fragilidades do sector). De facto, o editor tende a perder poder mas, depois de compreender o que enfrenta, tem de reagir e ripostar (coligando-se, especializando-se, etc.). Está nas suas mãos, e só nas suas.

  12. David Soares said,

    Viva, Safaa.

    Parabéns pelo artigo interessantíssimo! Passo na caixa de comentários apenas para deixar um contributo (dar uma achega?!) sobre a ideia peregrina (que muita gente tem) de que os livros electrónicos, ao contrário dos impressos em papel, são “verdes”, ou seja: amigos do ambiente.

    Com efeito, a desflorestação é um problema gravíssimo, mas (como o teu artigo muito bem indica) está mais relacionado com, por exemplo, o negócio da especulação imobiliária do que com o livreiro, cuja matéria-prima para a sua manufactura provém de outras fontes; vulgo, áreas arborizadas – propositadamente – para o efeito.

    Algo que passa uns dedos abaixo do radar na comunicação social é o facto de que é impossível reciclar a maioria do lixo electrónico (e-lixo?…): desde computadores arcaicos a telemóveis obsoletos. Algumas das peças recicláveis dos modelos caídos em desuso ainda conseguem ter uma segunda vida, mas o que é que acontece aos elementos que não são recicláveis? Estamos a falar de muitas e muitíssimas toneladas de plástico, acrílico, circuitos electrónicos, baterias e outros componentes electro-químicos que não se deterioram com facilidade. (Depois do tsunami de Dezembro de 2005, grande parte do e-lixo deitado ao mar naquela área veio dar à costa, por exemplo.)

    Às vezes, anda-se tão enfeitiçado pela tecnologia, e pelos avanços que ela permite, que nem se dá conta deste tipo de detalhes.
    É óbvio que vai sempre existir poluição, de uma forma ou de outra: imaginar que se pode acabar com ela é um mito. Apenas se pode, com menos ou mais eficácia, circunscrevê-la. Agora… Que se promova a ideia de que o livro impresso em papel é mau para o ambiente, inversamente ao digital, é falso. Aliás, à velocidade cada vez maior com que os nossos ‘gadgets’ electrónicos se vão tornando verdadeiras peças de museu e se desvalorizam, para serem substituídos por outros mais eficientes e modernos, o risco deles acabarem os seus (longuíssimos) dias como poluentes é grande.

    Se querem ler livros electrónicos, leiam-nos. Não acreditem é que eles são mais “verdes” que os outros.

    Abraço!
    David

  13. LoboBrancoTimido said,

    Sabes Safaa meto grandes dúvidas que os e-books peguem a sério em Portugal, mas se pegarem vai ser muito “engraçado” ver as broncas que vão surgir devido a pirataria.
    Eu mesmo adepto da tech detesto de todo o coração ler livros em techno treta, mas os tugas adoram estar na vanguarda das techno caganças. Mais uma coisa para os ladrões andarem a “mancar” na rua, enfim pelo menos um livro ninguém rouba a não ser que esteja mesmo a resacar forte e feio!😀
    Btw desculpa andar MIA, mas prometo mais comentários cheios de mau Português e claro má lingua.😄

  14. Diogo N said,

    “Podíamos começar a imprimir livros em papel de fotocópia, mas o leitor português foi habituado desde há décadas a um livro de aspecto quase luxuoso e de aparência cara, pelo que a reacção a um novo livro num pacote de muito menor qualidade poderia ser fatal.”

    Quem é que habituou os portugueses a tal coisa? E será que estão mesmo habituados ou apenas os comprar porquê não há alternativa? Porquê um papel “luxuoso”?

    Estou sempre a ouvir dizer que os portugueses lêem pouco, mas também estou sempre a ver os preços que estão marcados nos livros. Custam todos, regra geral, mais de 15€. É justo? É acessível? A maior parte das pessoas acha os livros caros, daí que não os comprem em grandes quantidades.

    Os ebooks são muito mais baratos. Se não fosse essa diferença de preço, talvez nem houvesse razões para os comprar. Penso que o formato electrónico só se justifica para revistas, jornais,… publicações periódicas. Em todo o resto, o livro é preferível. Este artigo é apenas mais um argumento a seu favor.😉

    O meu ponto é: o português só compra os livros que lhe são dados a comprar. Se são impressos em “papel sagrado” ao preço do ouro, ou em papel reciclado ao preço da chuva é igual. Ele comprará sempre o que estiver à venda. Olhe-se o papel dos livros estrangeiros. Já mandei vir uns quantos da Amazon do Reino Unido e o papel é sempre reciclado e os livros leves como uma pena. Já para não falar no preço, que é também muito leve (fiz uma comparação e as diferenças podem chegar a 5x mais caros em Portugal). Para quê esta diferença tão grande?

    Acredito que os portugueses até pudessem vir a ler mais, mas com esta economia e estes preços não me parece que a situação mude.

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