Prudência editorial ou a falta dela

April 14, 2010 at 9:28 am (Strange Land)

Ontem foi oficialmente confirmado que a Porto Editora vai adquirir a Bertrand. Outro passo para tornar o mundo editorial actual ainda mais pequeno e fechado, mais uniforme e perigoso. Respeito grandemente o trabalho da Porto Editora, mas mantenho algumas reservas sobre o “negócio do ano”.

Dois ou três anos depois de ter sido iniciada a concentração editorial movida por Miguel Paes do Amaral que deu origem ao grupo Leya, a mudança foi negativa e prejudicou grandemente o sector editorial. Editoras históricas foram compradas, desmontadas, assimiladas e reeducadas sob o lema “lucrem ou cessem de existir”. Homens que normalmente não compreendiam o negócio de livros, mas compreendiam perfeitamente a palavra negócios, foram postos à frente dos destinos de editoras. O que não obtém lucro é sistematicamente eliminado, ignorado ou esquecido. A Leya aumentou estratégias de marketing agressivas que forçaram outras editoras a reagir com igual agressividade, correndo o risco de se tornarem invisíveis. No meio deste jogo de visibilidade quem sofreu mais foram inevitavelmente as pequenas editoras sem capacidade financeira para entrar nestas jogadas de disputa por espaço livreiro e de imprensa.

A Leya iniciou a caminhada para uma tentativa de estabelecer a hegemonia  de uma máquina de best-sellers que não dá espaço a alternativas. E não me parece que seja aceitável de todo resignarmo-nos a um país onde são vendidos sempre o mesmo tipo de livros das mesmas editoras. Ainda é possível para uma editora querer publicar algo obscuro e desconhecido, uma obra de qualidade na qual não deseja investir centenas de euros em publicidade e marketing em livrarias, sabendo que não irá ter grande retorno financeiro? Ainda é possível a diversidade neste universo que tomou conta das editoras tradicionais portuguesas? Poderão ainda as editoras contar com jornalistas para uma selecção isenta e imparcial de livros, longe de pressões de grandes grupos?

O mundo português de livros como o conhecemos durante tantos anos acabou com a Leya. Não me cabe a mim especular sobre o futuro deste grupo, mas nas condições actuais a sua estratégia absolutamente impiedosa está longe de ser empreendedora e está longe de criar bases estáveis que durem anos e anos, criando uma situação insustentável para os seus editores.

A aquisição da Bertrand pela Porto Editora é, de facto, o negócio do ano. Muda dramaticamente a balança de poder mas é um negócio com muitos sinais que nos permitem encarar com algum optimismo a venda, ainda a aguardar aprovação da Autoridade da Concorrência. Para começar, é a aquisição de uma editora histórica por outra. A Porto Editora é uma veterana imensamente poderosa no mercado e conhecida pelo seu forte profissionalismo, rigor, e sucesso na área escolar, tendo recentemente investido na área da ficção. Praticamente tudo o que fazem é marcado pelo sucesso. Nem uma palavra contra a editora circula entre fornecedores, autores, colaboradores, o que é impressionante (e muito falam os fornecedores entre eles e desabafam com editores…). Têm o seu próprio mundo fechado mas uma estratégia inteligente e vanguardista, embora por vezes note-se que ainda estão a tactear terreno desconhecido na ficção e a tentar descobrir a melhor forma de desbravar caminho.

Acabaram de adquirir da Bertelsmann uma editora histórica que publica autores como Dan Brown, quatro outras editoras, incluindo a Quetzal, uma distribuidora lucrativa que tem a depender de si clientes importantes no mercado (como por exemplo, a Saída de Emergência), e um buraco negro de nome Círculo de Leitores, que tem sido um espinho de difícil resolução desde há muitos anos. E claro, a cereja em cima do bolo, uma vasta rede nacional de livrarias que concorre directamente com a Fnac.

O que acontecerá agora? Qual a estratégia da Porto Editora? Será uma estratégia Leya, de desmontar e assimilar, de comprar e destruir? De pôr um fim ao que é desnecessário, mesmo que implique deixar a concorrência completamente desnorteada (basta decidirem fechar a distribuidora)? E tudo para assistirmos a uma batalha de T-Rex’s enquanto outros ficam a observar?

Conseguirá esta aquisição inverter a tendência negativa que se tem verificado no mundo dos livros? Porque nem tudo pode ser calculado em função de lucros e prejuízos. Nunca se publicou tanto como agora e pode parecer positivo para os que assistem de fora, mas é um mercado minado por sérios problemas agravados pela crise actual. O mundo das artes gráficas está a afundar-se lentamente, qual Titanic, e gráficas falidas já são uma realidade (a tipografia Guerra foi a primeira). Algumas optam muitas vezes por praticar preços baixos que a médio e longo prazo prejudicam a empresa.  Para piorar as coisas, no final de 2009 começou uma crise de falta de papel volume (usado na produção de livros) que assume neste momento contornos verdadeiramente preocupantes, originando quebras de produção em várias editoras. As fábricas de papel estão a fechar ou a aumentar radicalmente os preços (não sou a pessoa mais indicada para explicar as causas) e mudanças poderão ter que ser feitas nesse sector, e são mudanças que não irão agradar aos leitores.

Acrescente-se a isso os problemas de uma distribuição com poucas alternativas e demasiado centrada na Bertrand, uma relação tensa entre editores e livreiros (que a APEL aparentemente irá fazer tudo para exacerbar na próxima Feira do Livro de Lisboa…), e fico por aqui ou acusam-me de pintar um panorama excessivamente negro. Uma solução parcial poderá passar por produzir menos acabando com a oferta excessiva no mercado.

Resta-nos aguardar pelos próximos desenvolvimentos e ter esperanças de que o mercado não entre um dia em ruptura total.  Mas há sempre homens ou empresas de grande iniciativa e visão com capacidade para iniciarem projectos sólidos e que saberão aproveitar-se das fragilidades do sector para construir algo que dure durante muitos anos. Ou talvez não.

10 Comments

  1. Célia said,

    Obrigada por estas reflexões especialmente esclarecedoras para quem, como eu, não percebe muito mas se interessa por estes meandros editoriais. Fico curiosa para saber o que vai sair deste negócio, esperando que seja algo de bom😉

  2. Rui Baptista said,

    Estou muito por fora do que se passa no mundo editorial, e espero que esta compra, a verificar-se traga alguma coisa de positivo.

    Entretanto assisti ao surgimento de duas editoras portuenses que se mantêm à margem da lógica do lucro fácil (acho que percebes onde quero chegar). E são elas a Ahab Edições e mais recentemente a 7 Nós.

    (http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1520769)

    Esperemos que o futuro possas sorrir a estas duas editoras, bem como outras mais “pequenas”

  3. Flávio Gonçalves said,

    Infelizmente o mercado está a centrar-se em três grandes grupos, Leya, Porto Editora e Babel.

    Uma vez que possuem lojas, distribuição e até gráficas próprias conseguem “parir” livros a um ritmo impressionante com muito pouco investimento, nada com o qual as pequenas editoras consigam competir.

    A nossa única esperança é a mesma da restauração, esperar que o povo não se resigne a comer sempre McDonalds, Pizza Hut e KFC…

    • Ricardo L. said,

      Esse género de vantagens a nível de estrutura de custos e capacidade produtiva existem em várias áreas não se trata de algo exclusivo à área editorial, e não invalidam a presença de outras editoras no mercado. Invalidam (ou tornam difícil) é a competição a nível de preços.

      Gostei muito de ler o artigo, no entanto julgo que peca num aspecto, que de resto tantos outros cometem, que é apresentar a procura de lucro como a raíz de todo o mal, algo que está longe de ser verdade, não sendo de todo correcto.

      No restante não tenho nada a apontar, especialmente porque não tenho a experiência de mercado editorial que me permitiria tecer considerações mais elaboradas sobre o assunto.

  4. Telmo Tobias said,

    Gostei muito de ler este artigo, embora me cause sempre alguma estranheza a suposta relação que estabelece (e que outros comentadores propagam) entre ser uma grande editora e publicar livros maus. Um Grupo Editorial como a Porto Editora publica coisas tão diferentes, em tantos formatos, para públicos tão diversos, que assumir que o que faz é tudo “mainstream” é, no mínimo, uma atitude preconceituosa. Quanto à questão da “busca do lucro”, julgo ser mais do que evidente que ser editor não é publicar o que nos apetece ou os os livros dos amigos, sem pensar se alguém vai querer comprar esses livros. Foi por causa deste tipo de lógica que muitas editoras fecharam as portas, deixando os seus colaboradores no desemprego. Ser editor implica avaliar a sustentabilidade do negócio, assumir a responsabilidade de pagar os ordenados de terceiros e não pensar que somos “mecenas culturais” iluminados. O exemplo da Quasi é um dos mais elucidativos: descubram quem é que saiu mal dessa história e quem é o “editor independente” que construiu uma imagem de grande mestre das artes e acabou no quentinho de um dos 3 grupos…

  5. Safaa Dib said,

    Estou a ver que alguns comentadores estão a ler mais do que na verdade afirmei no meu texto.

    Ricardo L: Nunca disse que a “procura por lucro” era a raiz de todo o mal. É, sem dúvida, uma parte do problema na medida em que temos grupos como a Leya que se regem inquestionavelmente por esse lema. Mas na parte final do meu texto refiro outros problemas que afectam a edição, embora não tenha aprofundado todos os aspectos, e que estão a contribuir para um sistema que está minado.

    Telmo Tobias:

    Se reparar bem, eu não cometi a generalização “ser uma grande editora é sinónimo de publicar livros maus”. Aliás, nem sequer referi em lado nenhum no texto a qualidade dos livros publicados. Referi sim uma obsessão por novidades best-sellers, e associei-o em particular ao grupo Leya.

    Aliás, na parte em que abordo o trabalho da Porto Editora nunca critiquei ou mencionei a qualidade dos livros publicados por esta editora porque, de facto, têm mostrado sinais positivos de diversidade editorial, como no caso da aquisição da Sextante. E afirmei, e volto a afirmar, que tenho boas expectativas em relação à lógica empreendedora da Porto Editora.

    Mas já agora, aproveito para esclarecer um ponto: a busca de lucro não é prejudicial em si, uma vez que todas as editoras a praticam. O alvo do meu texto são os adminstradores, que não percebem nada de livros, a destruírem a alma de editoras, a descaracterizá-las completamente e a instituírem práticas nocivas no meio literário. E o problema é que muita gente no meio está a ir atrás!

    Já agora, referiu a Quasi. Garanto-lhe que jamais considerei a Quasi (ou o seu editor) um exemplo de uma boa editora indepedendente na medida em que vim a descobrir que promoviam descaradamente uma chancela vanity-press, forçando alguns autores a pagarem bem para serem publicados, algo pelo qual já manifestei a minha opinião veementemente negativa.

    Mas diga-me: acha que neste momento há espaço para o conceito de small-presses em Portugal? Infelizmente, estamos num país que ainda não está inteiramente educado para procurar por si os livros que quer. A vasta maioria do público português ainda compra o que está à sua frente, tornando a visibilidade nas livrarias essencial. A Internet ajudou a democratizar um pouco mais, na medida em que aqui estamos todos em pé de igualdade, independentemente do dinheiro que temos nas contas, mas é lá fora, nos espaços físicos, que ainda verdadeiramente conta. E nesse, ganha quem investir mais.

    • Francisco Sousa Vieira said,

      Cara Safaa Dib,

      Gostaria de entrar em contacto consigo. O seu nome foi-me indicado numa conversa com o Richard Zimler. Deixo aqui o meu email: francisco.sousavieira@gmail.com

      Obrigado,

      Francisco

  6. Ricardo L. said,

    Bem sei que não foste ao extremo, mas sendo tão frequente o deitar de culpas para algo que é o objectivo de qualquer empresa (e que não é exclusivo, não invalida outros objectivos) achei que devia mencionar esse facto.

    Quanto aos restantes problemas editoriais, foi a parte que mais me interessou dado que nos permitiu conhecer questões que não são superficiais, que apenas quem lida com as problemáticas associadas ao mercado editorial pode descrever.

  7. mario nelson said,

    nada mais certo do que aqui está escrito
    parabens pela “coragem” de escrever sobre a triste realidade do sector livreiro
    sds
    m. nelson

  8. joana said,

    Obrigado Leya (Rua Cidade de Córdova, nº2, 2610-038 Alfragide)

    06 Fevereiro 2012 :: Guarda-freio: Filipe Santos Costa

    Dizem as notícias que Gonçalo Bulhosa, em tempos ligado à Oficina do Livro, foi contratado pela Leya para voltar àquela chancela.

    Pondo de parte a pulsão suicida de que a Leya parece dar sinal – a qual não me sinto capaz de analisar – não posso se não dar pulos de contente pela decisão da editora de Alfragide.

    É que eu tenho contas para acertar com o Sr. Bulhosa (ou melhor, o Sr. Bulhosa tem contas a acertar comigo) e não havia maneira de o encontrar. Agora já sei onde ele está: Rua Cidade de Córdova, nº2, em Alfragide, arredores de Lisboa.

    Não me orgulho de confessar isto, mas cá vai: conheço o Sr. Bulhosa. Não o pequeno génio nacional mais ou menos incompreendido de que dão conta alguns textos publicados nos últimos dias, mas um português igual a tantos outros, que acha que não tem de pagar o que deve. O Sr. Bulhosa que eu conheço foi julgado e condenado em tribunal por direitos de autor que nunca me pagou. A mim, como a outros autores e fornecedores vários da Palavra, editora que o Sr. Bulhosa, com a sua visão, o seu conhecimento do mundo editorial e o seu brilhantismo em geral, criou e destruiu num curto espaço de tempo.

    No que me diz respeito, editou em novembro de 2006 “A Última Campanha”, livro de cujos direitos de autor não vi, até hoje, nem um cêntimo. Há três anos que existe sentença, transitada em julgado, com o valor que o Sr. Bulhosa me deve e tem de pagar-me.

    Infelizmente, desde então a Justiça não conseguiu encontrá-lo. Ao que me disseram, andava em parte incerta, a julgar pela incapacidade do ofical de justiça para executar a sentença.

    Até agora. Até que a Leya o encontrou – ou ele encontrou a Leya.

    Boas notícias, portanto: não só descobri onde pára o Sr. Bulhosa, como sei que ele voltou a ter rendimentos fixos. Poderá finalmente pagar o que me deve.

    Tudo está bem quando acaba bem.

    Um dias destes, senhores da Leya, a Justiça vai bater-vos à porta. Mas não se assustem. Pela minha parte, o oficial de justiça não quer nada convosco – apenas com a vossa mais recente contratação.

    Peço que entendam que a Justiça é lenta e façam o favor de o manter por aí durante algum tempo. Obrigado.

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