Crueldade numa noveleta e um conto

April 2, 2010 at 1:06 pm (Livros/BD/revistas)

Às vezes, as horas de trabalho e de obrigações exigem tanto tempo que se torna demasiado difícil ler romances com o mesmo prazer e dedicação dos tempos de estudante. Romances podem ser mais exigentes, mas eu mentiria se dissesse que a ficção curta não é tão ou mais exigente, mentiria se dissesse que um conto de dez páginas não pode ter  a mesma profundidade que um livro de trezentas páginas.

A ficção curta deve ser duplamente apreciada não só porque consume menos do nosso tempo que voa, mas permite oferecer o mesmo grau de satisfação para o intelecto que um romance ou uma série de livros.

E que melhor forma de demonstrar a verdade desta afirmação do que escolher uma novela e um conto, ambos brilhantes nos seus géneros, ambos com uma tal capacidade para perturbar o leitor e fazê-lo abrir os olhos perante um mundo de crueldade e selvajaria, ambos uma brilhante reflexão sobre a natureza humana?

Sandkings de George R. R. Martin é um clássico de ficção científica, publicado pela primeira vez em 1979, e vencedor dos prémios Nebula e Hugo. Narra a história de um homem de nome Simon Kress, um playboy rico que tem um enorme interesse em animais exóticos. Na sua busca por um novo animal capaz de satisfazer as suas excentricidades e caprichos cruéis, encontra uma estranha loja de nome Wo and Shade que o convence a comprar sandkings, criaturas cuja natureza as impele a guerrearem-se umas às outras, mas a também venerarem o seu dono.

Interessado por esta espécie da qual nunca ouvira falar, Kress adquire os sandkings e rápido se apercebe do sistema que move as criaturas. Demasiado impaciente para esperar que iniciem guerras por si mesmas (divididas por cores, laranja, preto, vermelho e branco), Kress começa a submetê-las a fome e a uma tortura cada vez mais brutal. A guerra que os sandkings iniciam é degradante e primitiva, reduzida ao seu nível mais básico de sobrevivência. Se Kress tivesse permitido que os sandkings tomassem o curso natural das coisas, teriam concedido um melhor espectáculo a Kress e os seus amigos com conflitos de grande subtileza e complexidade, tal como num jogo de xadrez.

À medida que os sandkings são cada vez mais instigados pela crueldade de Kress, reproduzem o rosto do seu dono nos seus castelos de areia com traços cada vez mais odiosos e perversos. Inevitavelmente, Kress perde o controlo e o monstro que criou é libertado para o perseguir…

Martin sabe que para concretizar com sucesso a atmosfera de horror não há nada como expor, com crueza, a brutalidade e egocentrismo de homens com mentes mesquinhas e insensíveis, como Kress. A personagem não tem problemas de consciência em torturar os seus animais ou oferecer os seus amigos como sacrifícios para apaziguar as criaturas. Mas, na verdade, Simon não sabe a verdade completa acerca destas criaturas que são bem mais perigosas e sofisticadas do que julgara…

No caso de George R. R. Martin, ao ler o seu trabalho de ficção curta compilado na colectânea Dreamsongs, torna-se fascinante acompanhar o percurso literário do autor, que sempre desde o início provou ser da maior diversidade possível. Martin experimentou todos os sub-géneros do fantástico, com maior ou menor sucesso, e ao ler os seus primeiros passos de aprendiz, torna-se tão óbvio que Martin ainda não encontrara a sua própria voz. Os seus contos inicialmente adoptam um estilo derivativo da fantasia épica (e péssimo), mas gradualmente começa a estabelecer e organizar ideias o riginais ainda sem um estilo de escrita que faça jus à sua imaginação. Alguns dos contos posteriores, embora de melhor qualidade, são etéreos, românticos, quase gentis. Martin encontrou a sua voz no horror. Descobriu que as suas melhores contribuições possuem um ponto de vista em que abunda a crueldade e tortura, sofrimento e acções chocantes que só chocam os mais ingénuos ou inocentes, ou  habituados a histórias de galantes cavaleiros.

E essa é a voz que se veio a expressar nas Crónicas de Gelo e Fogo com tanto sucesso. Teria a série tanto impacto se o autor optasse por um estilo passivo e convencional, em que o mal não se manifesta na realidade? Claro que não basta matar as personagens principais que gostamos para atrair leitores, mas a mestria de Martin está na natureza inflexível e pouca dada a perdão da sua escrita, na capacidade de opor a inocência de crianças a um mundo em que mercenários arrancam à dentada rostos de donzelas.

Ainda no domínio norte-americano, poucos contos conseguem produzir impacto no leitor como The Lottery de Shirley Jackson (o texto é curto e pode ser lido aqui. O que se segue sobre o conto contém spoilers). É um clássico, escrito por uma autora grandemente reconhecida na literatura das margens. Será mais conhecida pelo grande público pelo seu romance The Haunting of Hill House que teve direito a uma excelente adaptação cinematográfica em 1963 de Robert Wise, mas é We Have Always Lived in the Castle (Sempre Vivemos no Castelo) que será publicado em Portugal pela Cavalo de Ferro,

A autora vem na continuidade da grande tradição do horror sobrenatural norte-americano, representada por figuras como Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne,  Washington Irving, Ambrose Bierce, Clark Ashton Smith e Lovecraft.

O conto actualmente poderia ser considerado demasiado previsível, ou demasiado óbvio nos sinais dados pela autora. Isso não impede uma apreciação do estilo de uma autora conhecida pela sua habilidade em perpetuar fantasmas ou demónios do passado.

O que impressiona no conto é o tom casual, assente na descrição de uma rotina estabelecida há anos incontáveis e que é praticada com a maior das naturalidades. As pedras são empilhadas num canto à parte, afastadas das brincadeiras das crianças; os aldeões reúnem-se na praça e comentam entre eles como o tempo voa desde a última lotaria; fala-se da desistência da lotaria em algumas vilas enquanto homens idosos criticam a juventude de hoje que se arruína com o fim de velhos costumes. Tudo descrições naturalistas de um feriado numa aldeia, quase a lembrar os Contos da Montanha de Miguel Torga. Não há noites de tempestade, ou barulhos estranhos numa casa, ou portas ominosas que se abrem abruptamente, nem o crocitar de corvos, símbolo de maus presságios e morte.

Há apenas uma caixa preta velha cuja existência muitos preferem esquecer durante o ano até à data em que é recuperada pelo oficial da lotaria e nela são depositados os papéis da lotaria. Cada um é chamado para cumprir esse acto obrigatório perante a comunidade e a tensão e nervosismo tornam-se cada vez mais evidentes nos rostos dos aldeões.

Quando finalmente é sorteada a família a quem calhou a sorte (ainda desconhecemos o prémio), cada membro dessa família, incluindo crianças, deve submeter-se de novo ao sorteio. A mulher da família é a que mais se revolta com gritos de injustiça e será, previsivelmente, a pessoa a quem se irá destinar o prémio da lotaria. Nos parágrafos finais, as aparências caem por terra e a selvajaria de uma antiga tradição pagã é retomada. Os aldeões apedrejam a vítima até à sua morte, num antigo ritual de sacrifício humano em troca de boas colheitas. O tom casual e benigno é mantido até ao fim, reforçando ainda mais a crueldade e barbárie das acções da aldeia, num dia bonito e primaveril.

Como provam tão bem estes dois escritores, os velhos clichés de actos malévolos a coberto da noite são apenas para os mais ingénuos. Alguns podem escolher sobreviver a qualquer custo, como Simon Kress, mas a outros não é dada essa escolha. Em ambos os casos, todavia, impera uma necessidade da parte do autor de despir um antigo coração de trevas e deixá-lo nu à luz do dia.

2 Comments

  1. LFS said,

    Escolha perfeita, Safaa. SANDKINGS é o Martin que eu conheço e que conheci, um Martin puro e ainda não destilado pela fama e por milhares de páginas de uma fantasia épica (ainda que mais adulta e genuína que as demais). Espero que este Martin, juntamente com o Martin do PORTRAITS OF HIS CHILDREN e TUFF VOYAGING, seja incluido nas escolhas das editoras nacionais (and no, it’s not a hint).
    Quanto a LOTTERY, encarna toda aquela ambição de denúncia política (política no amplo sentido da organização e controlo da sociedade) que a boa literatura dos anos 60/70 costumava ter e que infelizmente anda tão afastada da nossa literatura bem comportadinha…

  2. João Ventura said,

    Este “Sandkings” não foi publicado na revista OMNI? Tenho ideia que foi aí que o li. É um daqueles que nunca mais se esquecem…

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