Mitos falsos e crises anunciadas

April 18, 2010 at 9:53 pm (Strange Land)

Através do twitter da editora Livros de Areia, tive acesso a um artigo muito pertinente publicado no jornal Panorama, editado pela McSweeney’s. Nesta nova era em que profetas da tecnologia lançam previsões sobre o fim do livro como objecto físico e a sua nova encarnação em formato digital com acesso através dos gadgets e chips mais sofisticados, muito se tem usado o argumento ecológico para convencer os mais renitentes a aderir aos e-readers e e-books.

Na realidade, fomos educados para pensar que por cada folha de papel que consumimos estamos a destruir árvores e o meio ambiente. É cada vez mais um dado adquirido entre a sociedade que se deve evitar ao máximo o desperdício de papel, e nos últimos anos têm-se propagado medidas que contribuem para o fim do desperdício, ou mesmo o fim do uso de papel como medida benéfica para a Natureza.

Mas será mesmo assim tão simples? Parte da minha actividade consiste em garantir o fornecimento contínuo de papel necessário para a produção dos livros da editora. Sei em primeira mão que se gastam quantidades obscenas de papel anualmente, e com preços que empalideceriam qualquer um. Mesmo que uma árvore seja capaz de produzir centenas de resmas de papel, como seria possível que o mundo já não estivesse desprovido de árvores? E então tudo passou a fazer mais sentido depois de ler este artigo no McSweeney’s sobre a luta de uma pequena fábrica de papel para se manter à tona na transição da era da impressão para a era digital.

O artigo, da autoria do famoso autor Nicholson Baker, refere a existência de uma velha fábrica de papel em Maine, EUA, que produzia todo o tipo de papéis e que tinha sido considerada uma das maiores no seu tempo. A indústria americana de papel foi afectada por uma crise precipitada pela imposição do formato digital em jornais, mas também perante uma excepcionalmente árdua crise económica.  Começou com o fecho de algumas máquinas de fabrico de papel. Depois o despedimento parcial dos seus operários. Até que, finalmente, foi tomada a decisão de encerrar a fábrica em 2009.

Maine é rico em florestas e serrações. O autor do artigo dirigiu-se ao local e descobriu que toda aquela floresta estava em risco não por causa do abate das árvores, mas devido à sua falta.

“If the marketplace for timber, harvested sustainably from Maine’s forests, collapses because of the propagation of a myth—which some might say is a fraud—that says that using the newspaper is killing trees, then what happens is the landholder can no longer generate the revenue to pay a master logger for sustainable timber harvesting, and can’t pay the taxes. Then a developer offers to buy the land at a steep premium over what it was worth as a forest, and the developer clear-cuts the land and turns it into a low-density development. Then it really is deforested.”

Ou seja, quando um proprietário de florestas já não ganha lucro com o ciclo de abate e plantação de árvores, torna-se incapaz de financiar uma estrutura que permita a manutenção das florestas ao longo dos anos, vendo-se a braços com impostos que não consegue pagar.  Depois alguém se oferece para comprar o terreno a um valor mais baixo do que o real, decide construir um condomínio e arrasa, para sempre, com toda a floresta. E assim dá-se verdadeiramente o processo de desflorestação.

Mas o que se passa na Península Ibérica é um caso diferente. Não é a gradual popularidade do formato digital que está a causar a crise na indústria de papel de livros.  Como já referi, desde finais de 2009, mais precisamente desde o encerramento da fábrica Besaya na Espanha, iniciou-se um efeito dominó que provocou uma crise sem precedentes de falta de papel e consequente quebras de produção entre várias editoras nacionais, que se prolonga até hoje. A situação foi agravada por problemas de fornecimento de pasta às fábricas europeias de papel (o principal fornecedor chileno foi seriamente afectado pelo terramoto). O grosso de produção das fábricas consiste no papel offset (fotocópia) cujo mercado é dominado na Península Ibérica pela Portucel. Como o papel volume usado em livros é apenas uma pequena fracção da produção total de uma fábrica (que a Portucel não produz), as máquinas desse papel em fábricas espanholas são paradas para minimizar custos e conduzem a insuficiente oferta para uma procura excessiva da  parte dos editores. Inevitavelmente, perante a falta de papel volume, assiste-se a uma subida de preços substancial no sector. Podíamos começar a imprimir livros em papel de fotocópia, mas o leitor português foi habituado desde há décadas a um livro de aspecto quase luxuoso e de aparência cara, pelo que a reacção a um novo livro num pacote de muito menor qualidade poderia ser fatal.

São estes factores que podem, no futuro próximo, encorajar as editoras a adoptar mais cedo do que o previsto a tecnologia necessária para a produção de e-books bem feitos e seguros. Neste momento, mesmo sendo todos os dias bombardeados com notícias do último gadget sofisticado para a leitura e armazenamento de livros (e pergunto-me se o fascínio não será mais pelo gadget em si do que outra coisa qualquer), as editoras nacionais estão na fase pré-História de integração no mundo digital.  É um facto que 99% do mercado ainda depende inteiramente do método de impressão. E ironicamente, a maioria dos leitores nem gosta de ler livros no computador e não abdica do objecto físico. Portanto, enquanto que no Maine o papel foi abandonado a favor do formato digital, nas nossas bandas estamos a ser forçados a adoptar esse caminho, por falta de papel.

Um sério investimento nesta tecnologia teria que ser feito, não só para escapar ao aumento dos preços do papel existente, mas porque é um facto que o papel de livros está a morrer (as poucas máquinas que o produzem actualmente na Europa estão com prazos de fabrico de 4 a 6 meses quando o normal era de 3 a 4 semanas). Se não houver mudanças, passaremos a ter apenas papel de escritório que é a fatia de leão desta indústria.

Perante tudo isto, podemos concluir várias coisas:

O mito de que o papel prejudica o meio ambiente é falso.

Nunca se produziu mais papel offset como agora, mesmo com a era dos computadores, mas o facto de essa produção estar a ser praticamente monopolizada por algumas empresas, está a causar baixas ou cancelamentos de produção nas várias fábricas.

O papel de livros, mais caro e pesado, foi completamente vítima das forças do mercado, e será inevitável no futuro uma maior concertação de estratégias da parte das editoras nacionais para encontrar novas soluções que poderão ou não passar pelo formato digital, e que poderão levar anos a ser implementadas.

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Prudência editorial ou a falta dela

April 14, 2010 at 9:28 am (Strange Land)

Ontem foi oficialmente confirmado que a Porto Editora vai adquirir a Bertrand. Outro passo para tornar o mundo editorial actual ainda mais pequeno e fechado, mais uniforme e perigoso. Respeito grandemente o trabalho da Porto Editora, mas mantenho algumas reservas sobre o “negócio do ano”.

Dois ou três anos depois de ter sido iniciada a concentração editorial movida por Miguel Paes do Amaral que deu origem ao grupo Leya, a mudança foi negativa e prejudicou grandemente o sector editorial. Editoras históricas foram compradas, desmontadas, assimiladas e reeducadas sob o lema “lucrem ou cessem de existir”. Homens que normalmente não compreendiam o negócio de livros, mas compreendiam perfeitamente a palavra negócios, foram postos à frente dos destinos de editoras. O que não obtém lucro é sistematicamente eliminado, ignorado ou esquecido. A Leya aumentou estratégias de marketing agressivas que forçaram outras editoras a reagir com igual agressividade, correndo o risco de se tornarem invisíveis. No meio deste jogo de visibilidade quem sofreu mais foram inevitavelmente as pequenas editoras sem capacidade financeira para entrar nestas jogadas de disputa por espaço livreiro e de imprensa.

A Leya iniciou a caminhada para uma tentativa de estabelecer a hegemonia  de uma máquina de best-sellers que não dá espaço a alternativas. E não me parece que seja aceitável de todo resignarmo-nos a um país onde são vendidos sempre o mesmo tipo de livros das mesmas editoras. Ainda é possível para uma editora querer publicar algo obscuro e desconhecido, uma obra de qualidade na qual não deseja investir centenas de euros em publicidade e marketing em livrarias, sabendo que não irá ter grande retorno financeiro? Ainda é possível a diversidade neste universo que tomou conta das editoras tradicionais portuguesas? Poderão ainda as editoras contar com jornalistas para uma selecção isenta e imparcial de livros, longe de pressões de grandes grupos?

O mundo português de livros como o conhecemos durante tantos anos acabou com a Leya. Não me cabe a mim especular sobre o futuro deste grupo, mas nas condições actuais a sua estratégia absolutamente impiedosa está longe de ser empreendedora e está longe de criar bases estáveis que durem anos e anos, criando uma situação insustentável para os seus editores.

A aquisição da Bertrand pela Porto Editora é, de facto, o negócio do ano. Muda dramaticamente a balança de poder mas é um negócio com muitos sinais que nos permitem encarar com algum optimismo a venda, ainda a aguardar aprovação da Autoridade da Concorrência. Para começar, é a aquisição de uma editora histórica por outra. A Porto Editora é uma veterana imensamente poderosa no mercado e conhecida pelo seu forte profissionalismo, rigor, e sucesso na área escolar, tendo recentemente investido na área da ficção. Praticamente tudo o que fazem é marcado pelo sucesso. Nem uma palavra contra a editora circula entre fornecedores, autores, colaboradores, o que é impressionante (e muito falam os fornecedores entre eles e desabafam com editores…). Têm o seu próprio mundo fechado mas uma estratégia inteligente e vanguardista, embora por vezes note-se que ainda estão a tactear terreno desconhecido na ficção e a tentar descobrir a melhor forma de desbravar caminho.

Acabaram de adquirir da Bertelsmann uma editora histórica que publica autores como Dan Brown, quatro outras editoras, incluindo a Quetzal, uma distribuidora lucrativa que tem a depender de si clientes importantes no mercado (como por exemplo, a Saída de Emergência), e um buraco negro de nome Círculo de Leitores, que tem sido um espinho de difícil resolução desde há muitos anos. E claro, a cereja em cima do bolo, uma vasta rede nacional de livrarias que concorre directamente com a Fnac.

O que acontecerá agora? Qual a estratégia da Porto Editora? Será uma estratégia Leya, de desmontar e assimilar, de comprar e destruir? De pôr um fim ao que é desnecessário, mesmo que implique deixar a concorrência completamente desnorteada (basta decidirem fechar a distribuidora)? E tudo para assistirmos a uma batalha de T-Rex’s enquanto outros ficam a observar?

Conseguirá esta aquisição inverter a tendência negativa que se tem verificado no mundo dos livros? Porque nem tudo pode ser calculado em função de lucros e prejuízos. Nunca se publicou tanto como agora e pode parecer positivo para os que assistem de fora, mas é um mercado minado por sérios problemas agravados pela crise actual. O mundo das artes gráficas está a afundar-se lentamente, qual Titanic, e gráficas falidas já são uma realidade (a tipografia Guerra foi a primeira). Algumas optam muitas vezes por praticar preços baixos que a médio e longo prazo prejudicam a empresa.  Para piorar as coisas, no final de 2009 começou uma crise de falta de papel volume (usado na produção de livros) que assume neste momento contornos verdadeiramente preocupantes, originando quebras de produção em várias editoras. As fábricas de papel estão a fechar ou a aumentar radicalmente os preços (não sou a pessoa mais indicada para explicar as causas) e mudanças poderão ter que ser feitas nesse sector, e são mudanças que não irão agradar aos leitores.

Acrescente-se a isso os problemas de uma distribuição com poucas alternativas e demasiado centrada na Bertrand, uma relação tensa entre editores e livreiros (que a APEL aparentemente irá fazer tudo para exacerbar na próxima Feira do Livro de Lisboa…), e fico por aqui ou acusam-me de pintar um panorama excessivamente negro. Uma solução parcial poderá passar por produzir menos acabando com a oferta excessiva no mercado.

Resta-nos aguardar pelos próximos desenvolvimentos e ter esperanças de que o mercado não entre um dia em ruptura total.  Mas há sempre homens ou empresas de grande iniciativa e visão com capacidade para iniciarem projectos sólidos e que saberão aproveitar-se das fragilidades do sector para construir algo que dure durante muitos anos. Ou talvez não.

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Crueldade numa noveleta e um conto

April 2, 2010 at 1:06 pm (Livros/BD/revistas)

Às vezes, as horas de trabalho e de obrigações exigem tanto tempo que se torna demasiado difícil ler romances com o mesmo prazer e dedicação dos tempos de estudante. Romances podem ser mais exigentes, mas eu mentiria se dissesse que a ficção curta não é tão ou mais exigente, mentiria se dissesse que um conto de dez páginas não pode ter  a mesma profundidade que um livro de trezentas páginas.

A ficção curta deve ser duplamente apreciada não só porque consume menos do nosso tempo que voa, mas permite oferecer o mesmo grau de satisfação para o intelecto que um romance ou uma série de livros.

E que melhor forma de demonstrar a verdade desta afirmação do que escolher uma novela e um conto, ambos brilhantes nos seus géneros, ambos com uma tal capacidade para perturbar o leitor e fazê-lo abrir os olhos perante um mundo de crueldade e selvajaria, ambos uma brilhante reflexão sobre a natureza humana?

Sandkings de George R. R. Martin é um clássico de ficção científica, publicado pela primeira vez em 1979, e vencedor dos prémios Nebula e Hugo. Narra a história de um homem de nome Simon Kress, um playboy rico que tem um enorme interesse em animais exóticos. Na sua busca por um novo animal capaz de satisfazer as suas excentricidades e caprichos cruéis, encontra uma estranha loja de nome Wo and Shade que o convence a comprar sandkings, criaturas cuja natureza as impele a guerrearem-se umas às outras, mas a também venerarem o seu dono.

Interessado por esta espécie da qual nunca ouvira falar, Kress adquire os sandkings e rápido se apercebe do sistema que move as criaturas. Demasiado impaciente para esperar que iniciem guerras por si mesmas (divididas por cores, laranja, preto, vermelho e branco), Kress começa a submetê-las a fome e a uma tortura cada vez mais brutal. A guerra que os sandkings iniciam é degradante e primitiva, reduzida ao seu nível mais básico de sobrevivência. Se Kress tivesse permitido que os sandkings tomassem o curso natural das coisas, teriam concedido um melhor espectáculo a Kress e os seus amigos com conflitos de grande subtileza e complexidade, tal como num jogo de xadrez.

À medida que os sandkings são cada vez mais instigados pela crueldade de Kress, reproduzem o rosto do seu dono nos seus castelos de areia com traços cada vez mais odiosos e perversos. Inevitavelmente, Kress perde o controlo e o monstro que criou é libertado para o perseguir…

Martin sabe que para concretizar com sucesso a atmosfera de horror não há nada como expor, com crueza, a brutalidade e egocentrismo de homens com mentes mesquinhas e insensíveis, como Kress. A personagem não tem problemas de consciência em torturar os seus animais ou oferecer os seus amigos como sacrifícios para apaziguar as criaturas. Mas, na verdade, Simon não sabe a verdade completa acerca destas criaturas que são bem mais perigosas e sofisticadas do que julgara…

No caso de George R. R. Martin, ao ler o seu trabalho de ficção curta compilado na colectânea Dreamsongs, torna-se fascinante acompanhar o percurso literário do autor, que sempre desde o início provou ser da maior diversidade possível. Martin experimentou todos os sub-géneros do fantástico, com maior ou menor sucesso, e ao ler os seus primeiros passos de aprendiz, torna-se tão óbvio que Martin ainda não encontrara a sua própria voz. Os seus contos inicialmente adoptam um estilo derivativo da fantasia épica (e péssimo), mas gradualmente começa a estabelecer e organizar ideias o riginais ainda sem um estilo de escrita que faça jus à sua imaginação. Alguns dos contos posteriores, embora de melhor qualidade, são etéreos, românticos, quase gentis. Martin encontrou a sua voz no horror. Descobriu que as suas melhores contribuições possuem um ponto de vista em que abunda a crueldade e tortura, sofrimento e acções chocantes que só chocam os mais ingénuos ou inocentes, ou  habituados a histórias de galantes cavaleiros.

E essa é a voz que se veio a expressar nas Crónicas de Gelo e Fogo com tanto sucesso. Teria a série tanto impacto se o autor optasse por um estilo passivo e convencional, em que o mal não se manifesta na realidade? Claro que não basta matar as personagens principais que gostamos para atrair leitores, mas a mestria de Martin está na natureza inflexível e pouca dada a perdão da sua escrita, na capacidade de opor a inocência de crianças a um mundo em que mercenários arrancam à dentada rostos de donzelas.

Ainda no domínio norte-americano, poucos contos conseguem produzir impacto no leitor como The Lottery de Shirley Jackson (o texto é curto e pode ser lido aqui. O que se segue sobre o conto contém spoilers). É um clássico, escrito por uma autora grandemente reconhecida na literatura das margens. Será mais conhecida pelo grande público pelo seu romance The Haunting of Hill House que teve direito a uma excelente adaptação cinematográfica em 1963 de Robert Wise, mas é We Have Always Lived in the Castle (Sempre Vivemos no Castelo) que será publicado em Portugal pela Cavalo de Ferro,

A autora vem na continuidade da grande tradição do horror sobrenatural norte-americano, representada por figuras como Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne,  Washington Irving, Ambrose Bierce, Clark Ashton Smith e Lovecraft.

O conto actualmente poderia ser considerado demasiado previsível, ou demasiado óbvio nos sinais dados pela autora. Isso não impede uma apreciação do estilo de uma autora conhecida pela sua habilidade em perpetuar fantasmas ou demónios do passado.

O que impressiona no conto é o tom casual, assente na descrição de uma rotina estabelecida há anos incontáveis e que é praticada com a maior das naturalidades. As pedras são empilhadas num canto à parte, afastadas das brincadeiras das crianças; os aldeões reúnem-se na praça e comentam entre eles como o tempo voa desde a última lotaria; fala-se da desistência da lotaria em algumas vilas enquanto homens idosos criticam a juventude de hoje que se arruína com o fim de velhos costumes. Tudo descrições naturalistas de um feriado numa aldeia, quase a lembrar os Contos da Montanha de Miguel Torga. Não há noites de tempestade, ou barulhos estranhos numa casa, ou portas ominosas que se abrem abruptamente, nem o crocitar de corvos, símbolo de maus presságios e morte.

Há apenas uma caixa preta velha cuja existência muitos preferem esquecer durante o ano até à data em que é recuperada pelo oficial da lotaria e nela são depositados os papéis da lotaria. Cada um é chamado para cumprir esse acto obrigatório perante a comunidade e a tensão e nervosismo tornam-se cada vez mais evidentes nos rostos dos aldeões.

Quando finalmente é sorteada a família a quem calhou a sorte (ainda desconhecemos o prémio), cada membro dessa família, incluindo crianças, deve submeter-se de novo ao sorteio. A mulher da família é a que mais se revolta com gritos de injustiça e será, previsivelmente, a pessoa a quem se irá destinar o prémio da lotaria. Nos parágrafos finais, as aparências caem por terra e a selvajaria de uma antiga tradição pagã é retomada. Os aldeões apedrejam a vítima até à sua morte, num antigo ritual de sacrifício humano em troca de boas colheitas. O tom casual e benigno é mantido até ao fim, reforçando ainda mais a crueldade e barbárie das acções da aldeia, num dia bonito e primaveril.

Como provam tão bem estes dois escritores, os velhos clichés de actos malévolos a coberto da noite são apenas para os mais ingénuos. Alguns podem escolher sobreviver a qualquer custo, como Simon Kress, mas a outros não é dada essa escolha. Em ambos os casos, todavia, impera uma necessidade da parte do autor de despir um antigo coração de trevas e deixá-lo nu à luz do dia.

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