A imaginação delirante do Dr. Parnassus

March 28, 2010 at 8:29 pm (Cinema e TV)

Muito poucos amam e compreendem a fantasia como Terry Gilliam e a encaram como uma manifestação do poder da imaginação. Desde o mítico The Adventures of Baron Munchausen que o realizador se tem consagrado a um estilo fantasioso sem rédeas, barroco, bizarro, povoado de elementos de beleza e grotesco, com uma predilecção para personagens caídas em desgraça que iniciam um caminho tortuoso para recuperar a sanidade ou o coração.

Parnassus não é nenhuma excepção. Um antigo monge que desafiou o Diabo a uma aposta em que o poder dos contadores de histórias triunfaria, começa a sua descida ao Inferno no momento em que os tempos mudam e as pessoas cedem a um manto de desprezo, indiferença e desdém pela magia da mente.

Mas mesmo lutando contra o poder do demónio que tão eloquentemente é interpretado por Tom Waits, o actor predilecto para os papéis de diabo, louco ou homem-mistério com uns toques de satânico e uns toques de loucura, o amor condena de novo a alma imortal de Parnassus, e amaldiçoa a sua descendência, uma bela filha de 16 anos, nascida de um milagre…

Quase se pode dizer que Gilliam fez uma homenagem fellinesca no seu filme The Imaginarium of Dr. Parnassus, pois tal como Fellini, quando o seu universo envolve circos ambulantes, não faltam personagens réprobas: os anões, os bêbados, os abandonados, os deformados.

A personagem central que iria constituir o redentor de Parnassus e a sua salvação do pacto faustiano que condenaria a sua filha, Tony Shepherd, começa como um homem caído em desgraça, cuja vida foi salva e deseja retribuir ao seu protector, Parnassus. Tony estava claramente destinado a ser o elemento a desencadear a libertação do velho monge mas, infelizmente, por morte prematura do actor Heath Ledger, a personagem teve que ser inteiramente recriada e perdeu muito da sua intensidade e coerência na recta final.

Que isso não impeça o espectador de apreciar este filme imensamente imaginativo e recheado de símbolos em que o livre arbítrio é concedido aos que ousam enfrentar o misterioso espelho, aos que desejam recuperar a felicidade dos melhores sonhos. Apenas os de fraca imaginação sucumbem ao Diabo, mas Parnassus mantém, com o poder da sua mente, a porta aberta para os delírios do país das maravilhas, mesmo que tenha que pagar um preço demasiado elevado.

1 Comment

  1. Reviews/Recensões/Críticas « Correio do Fantástico said,

    […] Abril 3, 2010 por Flávio Gonçalves Gostaria de destacar aqui três recensões (soa melhor do que críticas, embora seja português brasileiro) que li hoje, uma acerca do filme O Homem Que Queria Enganar o Diabo pela caneta da Safaa Dib; A imaginação delirante do Dr. Parnassus. […]

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