A comédia na Grande Depressão

March 21, 2010 at 10:08 pm (Cinema e TV)

Uma das melhores obras que a década de 30 nos ofereceu, It Happened One Night (Aconteceu Uma Noite) de Frank Capra, conta a história de uma herdeira mimada (Claudette Colbert) que foge das garras do pai milionário para tentar casar com o amor da sua vida. Na sua determinação para chegar ao futuro marido rejeitado pelo pai, inicia uma longa viagem de autocarro em que conhece um jornalista (Clark Gable) que não só a ajuda a chegar a Nova Iorque, mas como inevitavelmente se apaixona por ela no curso da viagem.

Clark Gable e Claudette Colbert em "It Happened One Night" de Frank Capra (1934)

Na verdade, embora hoje seja facilmente confundido com comédia romântica, pertence ao mundo das screwball comedies que viram o seu auge nas décadas 30 e 40. It Happened One Night foi o primeiro filme da história do cinema a ganhar os cinco principais Óscares: melhor filme, melhor realizador, melhor actor, melhor actriz e melhor argumento original. Este feito só se voltaria a repetir duas vezes com duas obras dramáticas: Voando sobre um Ninho de Cucos em 1975 e O Silêncio dos Inocentes em 1991.

O domínio do génio dramático em cinema tem sido incontestável, mas nem sempre foi assim. O filme de Capra é um produto da sua época marcada pela Grande Depressão, num tempo em que os americanos procuravam obter uma fuga  da realidade dura, e era enorme o fascínio pela riqueza das celebridades. Surgiram assim obras-primas como as comédias  Bringing up Baby, The Philadelphia Story, The Awful Truth ou Mr. and Mrs. Smith.

As screwball caracterizavam-se pelas situações absurdas, diálogos inteligentes e rápidos, abordagem das diferenças de classes sociais, bem como um tom burlesco e de farsa (influência do vaudeville do início do século XX que viria a dar lugar ao Método naturalista e de influência russa a partir da década de 50, e possivelmente uma das razões que contribuiu para o definhar da comédia).

Não preciso de dar razões para verem e apreciarem este filme, mas em caso de dúvida, aqui vai:

1 – A oportunidade de ver a personagem de Clarke Gable a obter umas boas gargalhadas à custa da incapacidade da personagem de Colbert em se desenrascar sozinha. O gozo de Clark Gable é simplesmente bom demais para não ser apreciado pelo espectador.

2 – Raríssimas são as vezes em que se vê uma história boa pontuada por diálogos brilhantes recheados de alusões sexuais que escaparam incólumes à censura da época. É especialmente fascinante a forma como o sexo é expresso no filme de Capra através de referências bíblicas (The Walls of Jericho).

3 – A química entre os actores é essencial. Começa por uma desconfiança mútua que cede a camaradagem para abrir passagem a atracção até culminar em amor. Quantas vezes já vimos estes passos tomados em milhares de comédias românticas? Mas quantas delas são memoráveis graças a brilhantes actores? O papel da vida de Gable pode ser o de Rhett Butler, mas em It Happened One Night ele é o everyman acarinhado pelo público que não tolera o nonsense e opulência da classe abastada, e no entanto não resiste ao charme da herdeira mimada.

4 – As cenas perfeitas de comédia e respectivo timing. Impossível esquecer a cena icónica em que Gable ensina Colbert como apanhar boleia. Ou quando Gable leva Colbert às costas enquanto se desenrola uma conversa absurda sobre piggyback.

5 – A memorável cena final do casamento em que se realça toda a classe e elegância dos ricos. Colbert transforma-se notavelmente de mulher na estrada em mulher no seu elemento, vestida de noiva, e é caso para dizer que as actrizes de hoje têm muito que aprender sobre classe. Consigo quase imaginar o impacto nas salas de cinema dos anos 30 da belíssima cena da fuga do altar e a reacção dos convidados.

Curiosamente, o documentário do DVD refere que a actriz Claudette Colbert estava convencida de que este tinha sido um dos piores filmes da sua carreira no decorrer das filmagens. Mas um actor raramente vê o produto final editado e é a última pessoa a conhecer e apreciar a obra-prima que está a criar. Vou deixar os diálogos deste filme falarem por eles próprios. Fica um excerto entre o pai da herdeira e o jornalista:

Alexander Andrews: Do you love her?

Peter Warne : A normal human being couldn’t live under the same roof with her without going nutty! She’s my idea of nothing!

ALexander Andrews: I asked you a simple question! Do you love her?

Peter Warne: YES! But don’t hold that against me, I’m a little screwy myself!


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