O mundo imperfeito das revistas

March 16, 2010 at 10:44 pm (Livros/BD/revistas, Strange Land)

Ontem foi anunciado, da forma mais pragmática possível, após cinco anos, o fim da revista Os Meus Livros. Um anúncio seco a indicar a quebra de publicidade e vendas estagnadas como a causa do encerramento definitivo da revista e dispensa do seu director, João Morales.

A revista sempre primou por uma perspectiva mais abrangente do que o habitual nesta matéria e deu a oportunidade a todos para mostrarem o seu valor e projectos. O Fórum Fantástico começou a dar os seus primeiros passos fortes na imprensa através da revista que acreditou no evento. A título pessoal, é com tristeza que recebi esta notícia. Não quero deixar de agradecer ao João Morales por todo o trabalho desenvolvido e desejar-lhe boa sorte na continuação da sua carreira na área jornalística literária.

Em termos profissionais, não posso também deixar de lamentar. Continua a tendência que se tinha vindo a registar nos últimos anos de diminuição do espaço dedicado a crítica literária e notícias dos livros.

Resta-nos agora a revista Ler e alguns suplementos de jornais com um espaço diminuto dedicado a livros. É pouquíssimo para um país que publica centenas de livros por ano num mercado cada vez mais competitivo. Dezenas de editoras lutam por um lugar ao sol e já não existem suficientes plataformas em papel que escoem todas essas editoras famintas por destaque na imprensa. Do ponto de vista de uma editora, a Internet tem-se revelado como um palco mais democrático onde alguns bons golpes de relações públicas, assim como um certo inovadorismo na abordagem aos leitores,  podem marcar a diferença na venda de um determinado livro. Do ponto de vista de um jornalista/crítico, a Internet tem os seus prós e contras: a proliferação de blogues de livros tem dispensado o papel do crítico mais exigente, este totalmente ignorado pelas massas, mas ainda acarinhado por uma minoria. E também é graças à Internet que o trabalho de um crítico é mais do que nunca posto em causa, mas é também mais admirado.

No entanto, coloca-se a questão: porque é tão difícil para uma revista sobreviver e ganhar estabilidade? A experiência tem-me ensinado que é muito mais difícil editar uma revista do que livros, por incrível que pareça. É normal uma vez que a produção de um livro é muito mais linear do que reunir e produzir o conteúdo de uma revista.

Mas revistas são caras de produzir, difíceis de distribuir, difíceis de vender e lutam com o mundo permanentemente actualizado da Internet onde é tão fácil aceder a um manancial de informação que desactualiza ou põe em causa, numa questão de segundos, o conteúdo de uma revista. Há também a questão da publicidade que tem sido o alicerce fundamental. Não havendo apoios publicitários, poder-se-ia colocar a hipótese de uma empresa ou investidores a suportarem financeiramente um tal projecto. Mas até essas empresas e investidores desejam obter lucro ou algum tipo de retorno que justifique o investimento contínuo numa revista.

Referindo-me a um caso muito concreto, muitos questionam a decisão da Saída de Emergência em não distribuir nos canais normais a nova revista Bang! em papel, mas esquecem-se que a distribuição não é grátis, e por cada produto distribuído é cobrada uma percentagem que forçaria a encarecer ainda mais o preço da revista, quando ela já tem um preço puxado (5€) devido aos custos de produção. Por isso, numa tentativa de diminuir o prejuízo que tinha causado a distribuição dos primeiros 3 números de uma revista de nicho, decidiu-se por uma exclusiva venda online. É a solução perfeita? Nem por sombras porque este país ainda não é totalmente fã de compras online e ainda encara o sistema com muita suspeita.

Ainda se está à procura do sistema ideal para a revista Bang! que sempre se desejou em papel, mas nem sempre foi possível. Todavia, essa curta experiência de produção de revista, e falamos aqui de uma tiragem de 150 exemplares, abriu-me os olhos para as dificuldades sérias que enfrenta o mundo português das revistas. Apenas com fortes receitas publicitárias e aposta em conteúdos únicos e apelativos consegue marcar-se a diferença.

Claro que há sempre a opção do formato digital, mas por mais estranho que pareça nesta era tecnológica, a leitura em papel é ainda a que conquista grande parte dos leitores. Prova disso são os milhares de livros vendidos e comprados todos os dias em Portugal e no mundo. A discussão sobre ebooks e as suas consequências no mundo da edição já começou, mas em termos práticos estamos ainda numa fase muito primitiva de implementação dessa tecnologia no mercado. A actual crise grave de papel que está a começar a minar o mercado de livros na Península Ibérica e resto da Europa pode precipitar medidas em relação ao ebook, embora ainda me pareça wishful thinking. Resta-nos aguardar para ver.

2 Comments

  1. LFS said,

    (my 2 cents) Por algum motivo, a principal razão de existência destas revistas devia ser a crítica literária, e contudo os artigos de recensão são os mais diminutos, os menos trabalhados – a OML era particularmente notória nesta falha, dando pouco espaço aos colaboradores para se pronunciarem, mas inclusive a concorrente directa, a LER, também padece deste mal. Será que as revistas e os jornais ainda não perceberam que não devem ter conteúdo que parece copiado de um blogue qualquer? Que deviam aproveitar o formato papel, o preferido para leituras longas e complexas, apresentar artigos profundos, feitos por especialistas, pagos convenientemente, e captar assim os leitores – ainda que fosse uma faixa pequena mas fiel? Que deviam pensar em longa duração e não ter um aspecto de usar e deitar fora como tinha a OML – característica em que a LER ao menos é mais inteligente? E que deviam marcar diferença e apostar nos géneros mais populares – algo em que a OML ganhava à LER em pontos?

  2. Safaa Dib said,

    Olá Luís Filipe Silva, desaparecido em combate, que não responde a e-mails ou telefonemas.😉

    COncordo que as revistas deviam focar-se mais em conteúdo inédito que não seja meramente copiado ou traduzido de outras fontes. Também nunca percebi porque é que, com tantos colaboradores externos em ambas as revistas, sempre houve espaço diminuto para críticas literárias.

    Mas quanto ao aspecto usar e deitar fora, aspectos de luxo implicam orçamentos de luxo e é natural que se tenham que realizar alguns sacrifícios neste departamento. Eu acho que é possível fazer com custos moderados uma revista de aspecto bastante agradável. Estamos muito contentes com a qualidade da impressão da Bang na Publidisa, mas obviamente só compensa para tiragens pequenas ou médias, não na ordem dos milhares.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: