A imaginação delirante do Dr. Parnassus

Muito poucos amam e compreendem a fantasia como Terry Gilliam e a encaram como uma manifestação do poder da imaginação. Desde o mítico The Adventures of Baron Munchausen que o realizador se tem consagrado a um estilo fantasioso sem rédeas, barroco, bizarro, povoado de elementos de beleza e grotesco, com uma predilecção para personagens caídas em desgraça que iniciam um caminho tortuoso para recuperar a sanidade ou o coração.
Parnassus não é nenhuma excepção. Um antigo monge que desafiou o Diabo a uma aposta em que o poder dos contadores de histórias triunfaria, começa a sua descida ao Inferno no momento em que os tempos mudam e as pessoas cedem a um manto de desprezo, indiferença e desdém pela magia da mente.
Mas mesmo lutando contra o poder do demónio que tão eloquentemente é interpretado por Tom Waits, o actor predilecto para os papéis de diabo, louco ou homem-mistério com uns toques de satânico e uns toques de loucura, o amor condena de novo a alma imortal de Parnassus, e amaldiçoa a sua descendência, uma bela filha de 16 anos, nascida de um milagre…
Quase se pode dizer que Gilliam fez uma homenagem fellinesca no seu filme The Imaginarium of Dr. Parnassus, pois tal como Fellini, quando o seu universo envolve circos ambulantes, não faltam personagens réprobas: os anões, os bêbados, os abandonados, os deformados.
A personagem central que iria constituir o redentor de Parnassus e a sua salvação do pacto faustiano que condenaria a sua filha, Tony Shepherd, começa como um homem caído em desgraça, cuja vida foi salva e deseja retribuir ao seu protector, Parnassus. Tony estava claramente destinado a ser o elemento a desencadear a libertação do velho monge mas, infelizmente, por morte prematura do actor Heath Ledger, a personagem teve que ser inteiramente recriada e perdeu muito da sua intensidade e coerência na recta final.
Que isso não impeça o espectador de apreciar este filme imensamente imaginativo e recheado de símbolos em que o livre arbítrio é concedido aos que ousam enfrentar o misterioso espelho, aos que desejam recuperar a felicidade dos melhores sonhos. Apenas os de fraca imaginação sucumbem ao Diabo, mas Parnassus mantém, com o poder da sua mente, a porta aberta para os delírios do país das maravilhas, mesmo que tenha que pagar um preço demasiado elevado.
A comédia na Grande Depressão
Uma das melhores obras que a década de 30 nos ofereceu, It Happened One Night (Aconteceu Uma Noite) de Frank Capra, conta a história de uma herdeira mimada (Claudette Colbert) que foge das garras do pai milionário para tentar casar com o amor da sua vida. Na sua determinação para chegar ao futuro marido rejeitado pelo pai, inicia uma longa viagem de autocarro em que conhece um jornalista (Clark Gable) que não só a ajuda a chegar a Nova Iorque, mas como inevitavelmente se apaixona por ela no curso da viagem.

Clark Gable e Claudette Colbert em "It Happened One Night" de Frank Capra (1934)
Na verdade, embora hoje seja facilmente confundido com comédia romântica, pertence ao mundo das screwball comedies que viram o seu auge nas décadas 30 e 40. It Happened One Night foi o primeiro filme da história do cinema a ganhar os cinco principais Óscares: melhor filme, melhor realizador, melhor actor, melhor actriz e melhor argumento original. Este feito só se voltaria a repetir duas vezes com duas obras dramáticas: Voando sobre um Ninho de Cucos em 1975 e O Silêncio dos Inocentes em 1991.
O domínio do génio dramático em cinema tem sido incontestável, mas nem sempre foi assim. O filme de Capra é um produto da sua época marcada pela Grande Depressão, num tempo em que os americanos procuravam obter uma fuga da realidade dura, e era enorme o fascínio pela riqueza das celebridades. Surgiram assim obras-primas como as comédias Bringing up Baby, The Philadelphia Story, The Awful Truth ou Mr. and Mrs. Smith.
As screwball caracterizavam-se pelas situações absurdas, diálogos inteligentes e rápidos, abordagem das diferenças de classes sociais, bem como um tom burlesco e de farsa (influência do vaudeville do início do século XX que viria a dar lugar ao Método naturalista e de influência russa a partir da década de 50, e possivelmente uma das razões que contribuiu para o definhar da comédia).
Não preciso de dar razões para verem e apreciarem este filme, mas em caso de dúvida, aqui vai:
1 – A oportunidade de ver a personagem de Clarke Gable a obter umas boas gargalhadas à custa da incapacidade da personagem de Colbert em se desenrascar sozinha. O gozo de Clark Gable é simplesmente bom demais para não ser apreciado pelo espectador.
2 – Raríssimas são as vezes em que se vê uma história boa pontuada por diálogos brilhantes recheados de alusões sexuais que escaparam incólumes à censura da época. É especialmente fascinante a forma como o sexo é expresso no filme de Capra através de referências bíblicas (The Walls of Jericho).
3 – A química entre os actores é essencial. Começa por uma desconfiança mútua que cede a camaradagem para abrir passagem a atracção até culminar em amor. Quantas vezes já vimos estes passos tomados em milhares de comédias românticas? Mas quantas delas são memoráveis graças a brilhantes actores? O papel da vida de Gable pode ser o de Rhett Butler, mas em It Happened One Night ele é o everyman acarinhado pelo público que não tolera o nonsense e opulência da classe abastada, e no entanto não resiste ao charme da herdeira mimada.
4 – As cenas perfeitas de comédia e respectivo timing. Impossível esquecer a cena icónica em que Gable ensina Colbert como apanhar boleia. Ou quando Gable leva Colbert às costas enquanto se desenrola uma conversa absurda sobre piggyback.
5 – A memorável cena final do casamento em que se realça toda a classe e elegância dos ricos. Colbert transforma-se notavelmente de mulher na estrada em mulher no seu elemento, vestida de noiva, e é caso para dizer que as actrizes de hoje têm muito que aprender sobre classe. Consigo quase imaginar o impacto nas salas de cinema dos anos 30 da belíssima cena da fuga do altar e a reacção dos convidados.
Curiosamente, o documentário do DVD refere que a actriz Claudette Colbert estava convencida de que este tinha sido um dos piores filmes da sua carreira no decorrer das filmagens. Mas um actor raramente vê o produto final editado e é a última pessoa a conhecer e apreciar a obra-prima que está a criar. Vou deixar os diálogos deste filme falarem por eles próprios. Fica um excerto entre o pai da herdeira e o jornalista:
Alexander Andrews: Do you love her?
Peter Warne : A normal human being couldn’t live under the same roof with her without going nutty! She’s my idea of nothing!
ALexander Andrews: I asked you a simple question! Do you love her?
Peter Warne: YES! But don’t hold that against me, I’m a little screwy myself!
O mundo imperfeito das revistas
Ontem foi anunciado, da forma mais pragmática possível, após cinco anos, o fim da revista Os Meus Livros. Um anúncio seco a indicar a quebra de publicidade e vendas estagnadas como a causa do encerramento definitivo da revista e dispensa do seu director, João Morales.
A revista sempre primou por uma perspectiva mais abrangente do que o habitual nesta matéria e deu a oportunidade a todos para mostrarem o seu valor e projectos. O Fórum Fantástico começou a dar os seus primeiros passos fortes na imprensa através da revista que acreditou no evento. A título pessoal, é com tristeza que recebi esta notícia. Não quero deixar de agradecer ao João Morales por todo o trabalho desenvolvido e desejar-lhe boa sorte na continuação da sua carreira na área jornalística literária.
Em termos profissionais, não posso também deixar de lamentar. Continua a tendência que se tinha vindo a registar nos últimos anos de diminuição do espaço dedicado a crítica literária e notícias dos livros.
Resta-nos agora a revista Ler e alguns suplementos de jornais com um espaço diminuto dedicado a livros. É pouquíssimo para um país que publica centenas de livros por ano num mercado cada vez mais competitivo. Dezenas de editoras lutam por um lugar ao sol e já não existem suficientes plataformas em papel que escoem todas essas editoras famintas por destaque na imprensa. Do ponto de vista de uma editora, a Internet tem-se revelado como um palco mais democrático onde alguns bons golpes de relações públicas, assim como um certo inovadorismo na abordagem aos leitores, podem marcar a diferença na venda de um determinado livro. Do ponto de vista de um jornalista/crítico, a Internet tem os seus prós e contras: a proliferação de blogues de livros tem dispensado o papel do crítico mais exigente, este totalmente ignorado pelas massas, mas ainda acarinhado por uma minoria. E também é graças à Internet que o trabalho de um crítico é mais do que nunca posto em causa, mas é também mais admirado.
No entanto, coloca-se a questão: porque é tão difícil para uma revista sobreviver e ganhar estabilidade? A experiência tem-me ensinado que é muito mais difícil editar uma revista do que livros, por incrível que pareça. É normal uma vez que a produção de um livro é muito mais linear do que reunir e produzir o conteúdo de uma revista.
Mas revistas são caras de produzir, difíceis de distribuir, difíceis de vender e lutam com o mundo permanentemente actualizado da Internet onde é tão fácil aceder a um manancial de informação que desactualiza ou põe em causa, numa questão de segundos, o conteúdo de uma revista. Há também a questão da publicidade que tem sido o alicerce fundamental. Não havendo apoios publicitários, poder-se-ia colocar a hipótese de uma empresa ou investidores a suportarem financeiramente um tal projecto. Mas até essas empresas e investidores desejam obter lucro ou algum tipo de retorno que justifique o investimento contínuo numa revista.
Referindo-me a um caso muito concreto, muitos questionam a decisão da Saída de Emergência em não distribuir nos canais normais a nova revista Bang! em papel, mas esquecem-se que a distribuição não é grátis, e por cada produto distribuído é cobrada uma percentagem que forçaria a encarecer ainda mais o preço da revista, quando ela já tem um preço puxado (5€) devido aos custos de produção. Por isso, numa tentativa de diminuir o prejuízo que tinha causado a distribuição dos primeiros 3 números de uma revista de nicho, decidiu-se por uma exclusiva venda online. É a solução perfeita? Nem por sombras porque este país ainda não é totalmente fã de compras online e ainda encara o sistema com muita suspeita.
Ainda se está à procura do sistema ideal para a revista Bang! que sempre se desejou em papel, mas nem sempre foi possível. Todavia, essa curta experiência de produção de revista, e falamos aqui de uma tiragem de 150 exemplares, abriu-me os olhos para as dificuldades sérias que enfrenta o mundo português das revistas. Apenas com fortes receitas publicitárias e aposta em conteúdos únicos e apelativos consegue marcar-se a diferença.
Claro que há sempre a opção do formato digital, mas por mais estranho que pareça nesta era tecnológica, a leitura em papel é ainda a que conquista grande parte dos leitores. Prova disso são os milhares de livros vendidos e comprados todos os dias em Portugal e no mundo. A discussão sobre ebooks e as suas consequências no mundo da edição já começou, mas em termos práticos estamos ainda numa fase muito primitiva de implementação dessa tecnologia no mercado. A actual crise grave de papel que está a começar a minar o mercado de livros na Península Ibérica e resto da Europa pode precipitar medidas em relação ao ebook, embora ainda me pareça wishful thinking. Resta-nos aguardar para ver.
Love Snapshot #9: Belle de Jour
Há total inquietação na imagem de uma mulher deitada na cama depois de ser tomada sexualmente por um homem. Mais ainda se essa mulher se prostitui de dia, mas Belle de Jour não é uma qualquer prostituta. As suas fantasias e alucinações são povoadas de desejos de natureza masoquista e há indícios que apontam para uma infância de abusos.
Se a palavra frígida é a que caracteriza na perfeição a atitude de Belle de Jour, cujo nome verdadeiro é Séverine (numa perfeita alusão à sua aparência grave e sóbria), frigidez essa reservada em exclusivo para com o marido jovem, elegante e pertencente à nata da sua classe, o mesmo não se passa com outros homens a quem a mulher se oferece não porque esteja desesperada por dinheiro, mas porque um desejo obsessivo a comanda e não irá descansar até ser tomada, mesmo à força.
É fácil imaginar o escândalo causado por este filme tão ousado na década de sessenta e, ainda hoje, raramente se vê com tal abertura a possibilidade de uma mulher cair voluntariamente numa espiral de degradação. No entanto, não se esquece o plano de Belle de Jour deitada numa cama após uma sessão com um dos seus clientes em que, por momentos, o espectador julga a protagonista uma vítima, mas na verdade ela ergue o rosto para exibir um sorriso felino de satisfação. Um sorriso que encerra toda uma beleza manchada pelo lado negro do desejo.






