Os pilares da literatura

January 11, 2010 at 10:25 am (Livros/BD/revistas)

Aos 16 anos de idade apaixonei-me violentamente por literatura fantástica e não foi nenhum livro obscuro ou denso que me apresentou a esse mundo, mas o clássico de JRR Tolkien, O Senhor dos Anéis. Nunca até então tinha lido um livro que rompesse tanto com a literatura tradicional. Não sabia muito de fantasia então, embora a paixão pelas mitologias e por epopeias da Antiguidade tivesse sempre exercido um grande fascínio. Ler Tolkien foi como voltar a casa.

Mas muito antes de enveredar por esse caminho da ficção especulativa que devora, sem tréguas, o leitor, tinha começado uma outra paixão que durava há vários anos com a literatura portuguesa. Pode ser uma surpresa para muitos dos que me conhecem, mas é a literatura portuguesa que molda muito da minha escrita e pensamento actual.

Sophia de Mello Breyner

Este romance discreto da minha parte começou aos 8 ou 9 anos com os livros infantis de Sophia de Mello Breyner. Ela era uma poetisa maravilhosa, mas é a sua faceta de contadora de histórias que me conquistou numa idade muito tenra. A Fada Oriana, O Rapaz de Bronze, A Floresta, ou o belíssimo O Cavaleiro da Dinamarca são feitiços de palavras, formando uma teia de magia e encanto, de beleza e melancolia.

Alice Vieira

Sabem qual foi a autora que me acompanhou mais na transição da infância para a adolescência? Alice Vieira. O primeiro livro em língua portuguesa que me ofereceram foi Rosa, Minha Irmã Rosa. Foi Alice Vieira que me ajudou a compreender melhor a família e sociedade portuguesa, algo que me era absolutamente estranho sendo educada numa casa libanesa. Seguiram-se muitos outros, Chocolate à Chuva (talvez o meu favorito), A Espada do Rei Afonso, Este Rei que eu Escolhi, Viagem à Roda do meu Nome, Úrsula a Maior. O último que li da autora foi Caderno de Agosto. A partir daí, já era crescida demais para conseguir apreciar os seus livros, mas ela está muito presente nas minhas memórias e qualquer homenagem que lhe possa prestar é pequena demais.

José Maria Eça de Queirós

Voltando um pouco atrás no tempo, aos 11 anos, a minha irmã mais velha convenceu-me a ler Os Maias de Eça de Queirós. Não receei o volume do livro, mas tinha-me convencido de que o título desinspirado do livro não podia revelar uma boa história. Claro que estava enganada.

Os Maias proporcionou-me muitas belas tardes em que acompanhei a odisseia da família portuguesa, os anos na Universidade de Coimbra, os anos de sociedade em Lisboa e o progressivo desencanto de Carlos e Ega, a culminar na honra imaculada de Afonso despedaçada pela desgraça do filho e do neto. Também houve momentos inesquecíveis de humor: ainda hoje releio as passagens do baile de máscaras em que Ega é humilhado e a personagem, disfarçada de Mefisto, toda esfarrapada e chorona, busca consolo na casa de Carlos.

O que poderia dizer sobre Eça que todos já não saibam? Cada um dos seus romances contém lições para aspirantes a escritores, momentos de puro génio, revoluções de língua, revolta contra o estabelecimento. Os seus livros expressam muito do desencanto e frustrações de uma geração simultaneamente desprezada e admirada pelos seus contemporâneos.

Mas se algum dia o leitor se sentir muito cansado com o ácido crítico e a fina ironia de Eça, então leiam A Cidade e as Serras onde o escritor faz as pazes com o mundo, o mundo rural genuíno e saudável, intocado pelas grandes urbes manchadas de decadência. Não falta uma das passagens mais humorísticas de sempre na literatura portuguesa, a viagem de comboio de Jacinto e Fernando de Paris a Tormes.

Após a obra-prima de Eça, encontrei nas prateleiras Amor de Perdição de Camilo, terrivelmente formal e lúgubre, recheado de todos os fatalismos sentimentais de que o autor se podia lembrar, e não foi um livro que relesse com prazer.

João Baptista de Almeida Garrett

Almeida Garrett também marcou presença na minha jornada pela literatura portuguesa com o clássico Viagens na minha Terra. As primeiras páginas custaram-me imenso, mas li com prazer o romance entre Carlos e Joaninha, embora me chocasse a crueldade do desenlace.

Frei Luís de Sousa deixou-me uma impressão muito mais forte, curiosamente. Também ele dominado por uma sensação crescente de pathos e fatalismo, é contudo uma brilhante obra de caracterização psicológica. Li-a e e estudei-a e vi-a representada tantas vezes nos anos seguintes.

Foi depois de Garrett, se a memória não me atraiçoa, que descobri o manual de Português do 12º ano do meu irmão, esquecido numa secretária. Ele não era muito devotado à disciplina, e eu não resisti a explorar várias páginas do livro escolar. Dei por mim a voltar cada vez mais ao manual para descobrir os autores, os poetas, os livros que tinham importância, que tinham tido impacto e aberto o caminho para novas formas de literatura.

Júlio Dinis

Fui cativada pelos excertos de Uma Família Inglesa de Júlio Dinis e decidi comprar o livro numa papelaria perto de casa. Era o tempo em que começavam a surgir famosas adaptações de romances vitorianos da BBC e eu devorava todos os romances de costumes. Valeu-me a minha experiência de Eça para não desistir nas primeiras páginas aborrecidas. Nunca julguem obras do séc. XIX pelas primeiras páginas. Quando finalmente iniciamos a história propriamente dita, com todas as suas descrições da sociedade britânica no Porto, é então que o talento de Júlio Dinis floresce. O amor de Carlos e Cecília dificultado por diferenças de classe social e duas famílias extremosas tem um final feliz. E era a primeira vez  que lia um final feliz num livro português.

Seguiram-se As Pupilas do Senhor Reitor que o meu entusiasmo juvenil amou com toda a força. A Morgadinha dos Canaviais, mais complexo e político, mas não menos interessante. E finalmente, Os Fidalgos da Casa Mourisca, o meu romance favorito de Júlio Dinis, com um talento para construção de personagens e diálogo que, se não era igual a Eça, não o envergonhava de todo.

Vergílio Ferreira

O manual de português continuava a servir-me de guia na minha exploração auto-didacta e os próximos excertos a apelarem-me fortemente eram radicalmente diferentes: Aparição de Vergílio Ferreira. Até então estava a conhecer o século XIX, com um desvio por Gil Vicente (que detestei), e saltei para o séc. XX existencialista destemidamente.

Ainda hoje não consigo compreender o meu fascínio de então por Aparição, mas desconfio que a linguagem poética e eloquente foram determinantes para as minhas muitas releituras da obra. A angústia calma e silenciosa de Alberto a minar a sua relação com as três filhas do Dr. Moura, a sábia Ana, a destrutiva Sofia e o anjo breve de Cristina pareceu-me narrada por um bardo de alma perdida e coração destroçado.

Estudava então no Liceu Camões e vim a saber, mais tarde, que Vergílio Ferreira tinha sido professor nessa escola. Uma professora de português encontrara uma fotografia a preto e branco do autor numa sala de aula, mas não era a típica aula do professor a falar do estrado, mas do professor no centro da sala rodeado pelos seus alunos.

José Saramago

Já não me recordo de como completei a transição para José Saramago, nem porque escolhi começar com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, quando a sua obra mais leccionada era O Memorial do Convento. O Evangelho expandiu a minha mente e mostrou-me as possibilidades de realizarmos feitos ousados na literatura, a capacidade de ir para lá da história e reinventar o próprio mito e tradição. A angústia de Jesus perante a falta grave de José ao não salvar as crianças da sentença de Herodes é provavelmente uma das descrições mais fortes de relações entre pai e filho na língua portuguesa.

Miguel Torga

Miguel Torga. Esse é um nome que recordo com muito afecto e emoção. Mais do que Vergílio Ferreira, José Saramago ou Eça, foi Torga quem causou uma impressão imensa e que durará para sempre. Os seus contos da montanha, o livro dos bichos e histórias do mundo rural estão marcadas por um telurismo rico, um desespero alarmante perante o silêncio de Deus e uma profunda humildade perante o sofrimento dos homens que Torga certamente testemunhara enquanto médico. Mas há também a alegria de seres humanos e animais em estarem vivos e em comunhão com a terra.

Infelizmente, sou das poucas pessoas que conheço que leu e gostou da obra de Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal em que a insularidade dos Açores marca de forma tão indelével a vida de Margarida, encerrada no espaço geográfico das ilhas.  Achei irresistíveis as excelentes descrições das ilhas, da caça ao cachalote, da sociedade tradicional açoriana influenciada pela América.

Todos estes nomes são nomes que dispensam apresentações, mas houve também nomes quase esquecidos na literatura. António Patrício será sempre recordado por mim pela sua peça D. João e a Máscara que me fez descobrir o enorme fascínio que tenho pela figura da Morte na literatura.

Quando iniciei o ensino secundário, em especial os últimos dois anos, havia muito pouco que eu não sabia na disciplina de Português. Tomei a decisão de ingressar na variante de português/inglês na Faculdade de Letras (apesar de uma formação no secundário em ciências) esperando aprofundar os meus estudos, mas em vez disso tive que lidar com um sistema de ensino de literatura portuguesa obsoleto, degradante e que merecia ser absolutamente destruído com a maioria dos seus professores expulsos. Recuso-me a dizer uma única palavra boa sobre a variante de português na Faculdade de Letras e aconselho vivamente todos os estudantes a evitarem-na se puderem. É pouco dignificante para o estado das letras neste país que um estabelecimento dessa reputação não conceda o ensino que devia. É um péssimo, péssimo serviço que realizam às letras portuguesas.

Houve outros autores. Se não referi as obras de grandes poetas como Fernando Pessoa é porque não cresci com Pessoa e apenas mais tarde li a poesia. Nem nunca estabeleci qualquer ligação emocional com os livros de Agustina, mas a qualidade narrativa é indisputável. Não podia deixar de mencionar também José Régio, Mário de Sá-Carneiro, Antero de Quental, Cesário Verde,  autores que também enriqueceram a minha formação.

Amo as obras destes autores portugueses. São parte das minhas leituras e moldaram o meu carácter. Tivesse lido outros livros, ou não tivesse lido de todo, não seria hoje a mesma pessoa.

5 Comments

  1. alice vieira said,

    Olá
    muuto obrigada pelas suas palavras. São a melhor homenagem, a única que verdadeiramente me importa.
    Mas pode continuar a ler-me! Tenho muita coisa para adultos!
    Um grande abraço

    ALICE

  2. Safaa Dib said,

    Tem razão! A culpa é minha que não fui acompanhando o trabalho da Alice, para além dos livros juvenis.

    Fico muito contente por ter lido a minha pequena homenagem e espero poder remediar a minha falta de leituras das suas obras em breve!

    Um grande abraço e obrigado pelo seu comentário amável.

    Safaa

  3. Mário said,

    os nossos escritores são provavelmente o esplendor de Portugal.

  4. João said,

    Eu gosto mais dos antigos, estilo Fernão Mendes Pinto ou Fernão Lopes, que torna as personagens históricas tão vivas como as de um romance de Tolstoi.🙂

    Não quer explicar melhor o porquê de não ter gostado da FLUL? Dava-me jeito para escolher o meu futuro.

  5. Dunya said,

    Alguns desses livros que referiste também os li e adorei. Outros terei de os ler.

    Fiquei é com uma dúvida: e os autores libaneses que te marcaram? Quem são eles? Faz um post sobre isso, abre-nos as portas a outra literatura.

    Um abraço,

    Ágata

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