A indulgência dos clássicos literários

January 3, 2010 at 12:13 pm (Livros/BD/revistas)

É inevitável para quem trabalha na área dos livros acompanhar o trabalho da divulgação e crítica literária. Hoje em dia, um livro não consegue sobreviver num mercado tão saturado como o português sem algum apoio crítico, mas também seria errado pensar que um livro está condenado por não ter presença em suplementos jornalísticos. O marketing é instrumental nas vendas, muito mais do que palavras impressas num suplemento semanal.

Até porque está provado que um livro não vende mais por uma ou outra referência num jornal de grande tiragem, mas irá vender mais se for referido em todos os jornais e publicações de forma sistemática.

A Internet trouxe alguma democracia ao mundo da crítica e divulgação literária, não estando mais dependente de uns quantos editores de suplementos que nem sempre primam pela sua imparcialidade. Mas claro que não é assim tão linear e simples. A massificação de blogues ou sites onde se apresentam críticas de livros não prima pela qualidade na sua grande maioria (há sempre excepções e não são poucas), faltando bases de desconstrução crítica. Mas independentemente da qualidade dos textos, o pouco fundamentado “gosto de um livro” origina um passa-palavra que pode ser tão monumental como uma avalanche e decisivo nas vendas.

Com o cada vez menor espaço dedicado a livros pela imprensa, e o cada vez maior número de livros publicados em Portugal, editores e jornalistas são forçados a tomar escolhas pautadas por gostos pessoais ou relevância literária e cultural. Mas perante o número de obras que morrem na obscuridade de estantes e prateleiras de livrarias, é pertinente pensar se ainda é relevante dar espaço a crítica a clássicos de literatura.

Sabemos que um jornalista não pretende educar o seu público leitor, mas informá-lo. Para se escrever uma crítica sobre a poesia de Samuel Coleridge não é necessário fazer um info-dump sobre o papel de Coleridge no primeiro movimento romântico inglês. O jornalista pode fornecer algumas informações relevantes para a crítica, mas não irá nem deve adoptar a postura do mestre-escola para ensinar o quão eloquentes e fundamentais são os versos de Coleridge, porque isso seria uma crítica francamente ridícula.

Este é apenas um exemplo que inventei para que compreendam o quão irrelevante considero actualmente dar espaço a crítica literária a clássicos num mercado que precisa desesperadamente de dar voz a outras obras desconhecidas e de valor.

Os clássicos são intemporais e não precisam que um jornal contemporâneo e efémero louve as suas virtudes, porque sabemos que o clássico permanecerá muito para além da vida do jornal ou do próprio jornalista. Já foi exaltado e dissecado e já desfilou pelas bocas e canetas de todos os críticos que merecem esse nome.

Claro que há sempre novas edições a surgirem no mercado que merecem destaque, diriam alguns. Ou novas traduções. Mas será mesmo assim relevante destacar uma nova tradução de um clássico? Compreendo que se divulgue, mas criticar? Afinal a crítica será a uma nova tradução ou à obra em si? A crítica afinal incide no trabalho do tradutor ou no autor? Passando a um exemplo concreto, é relevante ou pertinente dar espaço à nova edição e tradução d’ O Monte dos Vendavais de Emily Brönte da Presença? Essa obra é estudada nas variantes de inglês das Faculdades de Letras do mundo inteiro há décadas. O que mais pode dizer o crítico que já não foi dito provavelmente melhor do que ele alguma vez poderia dizer? Mas ele está a criticar a nova edição e tradução, dizem-me vocês. Nesse caso, continua a ser um exercício bastante inútil e fútil.

Será mesmo necessário dar espaço no jornal a uma crítica à edição Assírio e Alvim do Templo Dourado de Mishima que já tem largos anos no mercado? Quase me sinto tentada a dizer que o crítico apenas quer dissertar sobre um dos seus autores favoritos. Lamento dizer que é um autor e um livro que já fazem parte do cânone.

O que mais poderá ser dito sobre obras como Anna Karenina de Tolstói ou até mesmo D. Quixote de La Mancha? Até a glorificação na imprensa de uma edição cheia de gralhas d’ O Leilão de Lote 49 de Thomas Pynchon, um clássico de ficção pós-moderna, poderia ser considerada indulgente, desnecessária e redundante, tendo em conta o autor que está em consideração, mas aparentemente Portugal precisa de ser fortemente chamado à atenção para a obra de Pynchon.

Eu compreenderia melhor se as críticas se centrassem em clássicos obscuros que merecem ser relembrados. Foram esquecidos com a passagem dos anos, mas resgatados da poeira do tempo graças a um qualquer editor de livros, e pela primeira vez traduzidos e apresentados ao público português. Aí, claro, faz todo o sentido. Aliás, ainda há pouco tempo foi criticada A Pedra da Lua (The Moonstone) de Wilkie Collins no suplemento Actual, uma obra e autor que merecem ser efectivamente relembrados aos leitores, embora a crítica deixe algo a desejar. Nada é perfeito.

Não escreveria este texto se habitássemos um mundo utópico onde existem milhares de revistas e jornais a escrever sobre todos os livros que são publicados neste país. Aí eu exaltaria o clássico tanto quanto qualquer outro crítico. Mas perante as circunstâncias tão parcas, perante o espaço de míngua dedicado a novos autores e novos livros, torna-se necessário exercer uma análise pragmática e deixar o clássico onde pertence: no panteão universalmente reconhecido da excelência literária que dispensa novas apresentações.

A isto chama-se ser prático.

8 Comments

  1. Mr. Steed said,

    “Sabemos que um jornalista não pretende educar o seu público leitor, mas informá-lo. Para se escrever uma crítica sobre a poesia de Samuel Coleridge não é necessário fazer um info-dump sobre o papel de Coleridge no primeiro movimento romântico inglês. O jornalista pode fornecer algumas informações relevantes para a crítica, mas não irá nem deve adoptar a postura do mestre-escola para ensinar o quão eloquente e fundamental são os versos de Coleridge, porque isso seria uma crítica francamente ridícula.”

    O crítico deve ter um papel didáctico. Crítica não é notícia. Se calhar, o problema começa quando embarcam em considerações onanistas que nem informam nem educam, ou as tais info-dumps que apenas pretendem dizer “ei, este escriba sabe bué sobre Malraux, reparem como sou culto”. Essas são as más críticas.

  2. Rui Baptista said,

    Gostei muito do texto – não esperava outra coisa.

    Vais desculpar-me a ignorância, mas o que significa “info-dump”. É a segunda vez em poucos disa que leio esse termo e ainda não consegui decifrar o seu significado.

    Um abraço,

    Rui

  3. Safaa Dib said,

    Steed, se o crítico for bom, saberá exercer esse papel didáctico subtilmente, saberá contextualizar as suas críticas de forma a que o leitor possa entender melhor a obra. O problema é que há uma linha ténue entre fornecer contexto e os tais info-dumps.

    Como dizes, a verdade é que ou assistimos a excessos de informação ou a considerações demasiado crípticas ou elitistas pejadas de chavões que mais servem para desorientar o leitor.

    Mas sim, concedo que o crítico deve exercer um papel didáctico na medida certa.

    Rui, info-dump é despejar informação estilo Wikipedia num texto literário ou jornalístico, e é considerado um sinal de fraca escrita ou crítica.

  4. Rui Baptista said,

    Obrigado Safaa🙂

  5. LFS said,

    Olá. Texto pertinente, Safaa. Mas concordo e não concordo.

    Concordo porque não será no espaço de uma crítica que o autor da mesma conseguirá apresentar a complexidade de uma obra que terá sido alvo de ensaios literários extensos e complexos, a não ser que esse autor seja uma autoridade no assunto (e muitos não o serão). A função do crítico deverá ser então principalmente de alertar para a saida desta nova edição, e de explicar o que há de diferente nesta face às restantes edições que existirão no mercado. Pelo menos espera-se que a editora tenha tido algum critério para tal, e que não se limite a encher catálogo com obras de domínio público. Ou seja, que esta nova edição traga algo de diferente ou novo sobre as anteriores.

    Não concordo com a implicação de menor relevância face às obras modernas. Um livro que sobrevive gerações tem certamente algo que os demais não têm. Alguma verdade fundamental sobre a natureza humana, alguma revolução intrínseca no campo da literatura. Porventura estará muito bem escrito. Nada se mantém disponível tanto tempo se não tiver características intemporais. E uma vez que o tempo de vida de cada leitor é limitado, poderemos colocar a pergunta se deveremos dar tanta atenção aos livros modernos – sendo perfeitamente legítimo afirmar-se que grande parte da literatura actual não merece a digna luz da publicação. Neste caso, e no limite, poderíamos dizer que só os clássicos seriam merecedores de atenção crítica…🙂

    Claro que nada disto é desejável. O desejável é que todos os livros com um mínimo de competência sejam publicados e criticados, e que as críticas orientem os leitores e até os autores, para as qualidades meritórias e os afastem das execráveis.

    Aos poucos iremos construindo um mundo melhor e jamais perfeito.

  6. Safaa Dib said,

    Luís, achas que me dá prazer expor uma perspectiva tão radical em relação a clássicos literários? Mas infelizmente, não podemos focar demasiado a atenção crítica neles, por mais merecedores que sejam, porque o mundo não pára e os livros não param de sair como pãezinhos quentes de um grande forno gráfico… E se uma grande percentagem deles é lixo,há também muitos que não são lixo de todo.

    O mercado está saturado e vai continuar a estar assim durante os próximos tempos. E estou perfeitamente consciente de que os jornalistas recebem centenas de livros e que só escolhem aquilo que acham que é relevante para o público ou para os círculos literários, isto quando não há favores envolvidos.

    Mas já agora, não acho mesmo relevante ocupar espaço de crítica a clássicos para apontar as diferenças em relação a edições passadas. Em Portugal, muitas das vezes, é só nova capa e nova tradução. Se não for nova tradução, repescam uma tradução que tem décadas, passam pelo scan e mandam para a gráfica, mantendo as gralhas causadas pelo programa de digitalização com OCR. E foi precisamente isso que aconteceu no livro do Pynchon, Lote 49…

    Volto a dizer, esse é um exercício fútil e inútil no contexto actual editorial.

  7. Sílvio Silva said,

    deve de existir espaço para as duas verdades, muitas vezes distantes de conteúdo. mas acredito, assim como em qualquer profissão, que se deve dar oportunidade aos que começam a respirar uma nova realidade, porque o futuro a eles pertence…

  8. Caio Andrade said,

    “Sabemos que um jornalista não pretende educar o seu público leitor, mas informá-lo.”

    Um tanto offtopic, mas não pude deixar de rir nervosamente da simplicidade com que desse lado do Atlântico vocês podem dizer isso enquanto no Brasil a “pedagogia jornalística” parece ser a regra. Para os jornalistas daqui é meio assim, como se o público fosse a indiaiada e eles os novos Padres Manuel da Nóbrega.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: