Recordar 2009

December 27, 2009 at 1:02 pm (Cinema e TV, Livros/BD/revistas, Strange Land)

De filmes, em cinema e estreias recentes, poucos sobressaíram.Inglorious Basterds, District 9, MoonSherlock Holmes foram provavelmente as melhores ofertas no mercado no campo fantástico. E antes que discordem/concordem com a minha inclusão de Sherlock Holmes no campo do fantástico,  não o incluo neste género pelas referências à magia negra, mas sim pelo carácter avançado da ciência presente na era vitoriana, características associadas a steampunk. O filme está longe de perfeito e nem o considero muito bom, mas ainda assim acho que deve ser mencionado, tão só porque é raro o filme hoje em dia que seja capaz de entreter sem cair em banalidades.

Avatar merece uma referência, mas não a minha simpatia. É um filme que deslumbra pelos efeitos visuais assombrosos, no entanto, não consigo desculpar uma história tão pobre num filme tão caro, com marketing tão descarado. Coloco-o na mesma esteira que o argumento inacreditavelmente mau do quarto filme do Indiana Jones. É uma tendência que mostra a falência das ideias que têm marcado os últimos anos do cinema de Hollywood.

Fomos salvos pelo cinema independente em filmes como District 9, a arrecadar o troféu de filme do ano para mim, mesmo que imperfeito. O falso início em tom de documentário dá lugar um enredo trepidante em torno de extraterrestres segregados na África do Sul e promete um franchise forte e fresco.

Duncan Jones mostra o seu amor pelo melhor que a literatura de ficção científica deu ao mundo em Moon, a história de um astronauta alienado numa missão espacial na Lua com a duração de 3 anos, mas as aparências não são o que parecem no cenário solitário das paisagens lunares…

Tenho sentimentos contraditórios em relação a Inglorious Basterds. Os primeiros dez minutos são perfeitos e arrebatadores. O desenvolvimento é intrigante e estou sinceramente a gostar, mas depois Tarantino arruina fenomenalmente o filme a partir do momento em que mata todo o grupo da resistência numa taverna. A partir daí perde o rumo e consistência. Mas aqueles quinze minutos iniciais em que o Coronel Landa elimina uma família judia com o seu charme e conversação são certamente do melhor que vi no cinema.

São os filmes clássicos que têm vindo a conquistar cada vez mais a minha admiração. Num ano recheado de revisitação ou descoberta de filmes dos anos setenta, ficou-me na memória Thunderbolt and Lightfoot (1972) de Michael Cimino a reunir um par de actores que dispensa apresentações, Clint Eastwood e Jeff Bridges. Uma mistura de road movie e heist movie, é um filme recheado de cenas memoráveis, de uma grande química entre personagens, e de um sentimento cinematográfico tão inerente aos anos 70, que hoje já não se reproduz na tela. A década de 70 foi verdadeiramente a década dos realizadores com liberdade criativa.

Em livros, este tem sido um ano recheado de leituras. Algumas fui referindo ao longo do ano no blogue, e por isso dispensam nova referência, mas houve muitos livros, dos mais variados géneros,  que não foram mencionados e não por falta de qualidade, simplesmente por falta de disciplina da minha parte para escrever sobre eles. Entre os melhores, escolho:

Royal Assassin de Robin Hobb. A Saída de Emergência começou a publicar a série Farseer este ano, mas nunca esperei ver tal qualidade de prosa e foi uma das grandes surpresas deste ano. Mesmo com um início lento, não há dúvida de que Hobb domina facilmente a narração na primeira pessoa e a exposição do conflito psicológico das personagens, mas supera-se na descrição do vínculo emocional entre animais e homens.  É no segundo livro Royal Assassin (em português, O Punhal do SoberanoA Corte dos Traidores) que atinge um nível de excelência, colocando esta trilogia no mesmo patamar do melhor que a fantasia épica tem produzido nas últimas décadas.

Acacia, The War with the Mein de David Anthony Durham. Este autor tem tido uma excelente recepção positiva nos últimos anos graças à sua série Acacia e tenho que concordar que é uma estreia muito forte no campo da fantasia, com uma escrita impecabilíssima. Acacia é um império refém do passado que vendeu a sua alma ao diabo. O povo está viciado num narcótico trazido de terras distantes e misteriosas por uma guilda mercante poderosa e capaz de desafiar o poder do rei.  Em troca da droga, todos os reinos têm que ceder uma quota que consiste em crianças que são traficadas e enviadas às misteriosas terras… Os Mein são um povo derrotado e exilado para estepes geladas, mas passaram séculos a conspirar o fim de Acacia e assim é preparado o cenário do 1º livro. O início lembra demais Dune, sendo a primeira parte do livro a mais frágil, mas Durham compensa com uma segunda e terceira partes espectaculares e trepidantes, nunca optando por soluções fáceis, nem procurando arrastar interminavelmente conflitos.

Drood de Dan Simmons. Como é que eu poderia resistir a um livro que combina um enredo situado na época vitoriana em torno dos escritores Charles Dickens e Wilkie Collins com uns toques de sobrenatural e fantástico? As expectativas eram altíssimas mas Dan Simmons não é qualquer escritor e sabe desenvolver um trabalho de pesquisa excepcional, combinado com os seus dotes narrativos. Quem é Drood? Será um produto de uma mente perturbada e iludida? Será real? Até Collins, o narrador, não é fiável nos seus relatos, no meio dos seus estados alucinados induzidos por láudano. A obsessão de Dickens por Drood irá levá-lo ao submundo negro de Londres mas pode iniciá-lo num caminho perigoso de insanidade e perigo sem retorno…

Hunger de Elise Blackwell. Tive o prazer de ler este livro e traduzi-lo para a editora Livros de Areia que deverá lançá-lo no início de 2010. A história centra-se nos meses do Inverno de fome durante o cerco de Leninegrado. Um cientista russo especialista em sementes é forçado a defender com os seus colegas o Instituto Russo de Plantas durante o cerco. Mas consegue ele próprio resistir perante a fome cruel que devasta lentamente a cidade e os seus habitantes? Com não mais de 100 páginas, Elise Blackwell sabe transmitir, de forma pungente, o impacto físico e destrutivo da guerra e as cicatrizes que deixa na relação entre marido  mulher.

River of Gods de Ian McDonald. O panteão hindu de deuses já fora abordado numa outra obra de ficção científica de Zelazny, Lord of Light, mas a abordagem de McDonald é mais ambiciosa na medida em que não só transforma o panteão divino hindu, mas reinventa um país vasto e complexo como a Índia no contexto de um futuro distópico e tecnológico. Com um leque enorme de personagens oriundos das mais variadas classes sociais, McDonald desafia as capacidades do leitor com uma prosa imaginativa a caminhar para uma visão que transcende muito para além da esfera do humano.

Como a Raiva ao Vento de Rawi Hage. Este autor libanês, e também imigrante, venceu vários prémios literários importantes, chamando a atenção para a sua obra De Niro’s Game (referência ao filme de Cimino, The Deer Hunter), em que descreve Beirute durante os piores anos da guerra civil libanesa. Através das personagens de George e Bassam, assistimos ao dilema universal do indivíduo que tem que escolher entre ser aniquilado por uma existência de crime e atrocidades ou a fuga para o exílio e para uma vida longe da terra natal. Só alguém que viveu de perto esta realidade como Hage poderia descrever de forma tão realista um tempo em que não há soluções fáceis, apenas a escolha do mal menor.

The Help de Kathryn Stockett. Este livro foi lançado em Fevereiro do ano 2009 nos EUA e desde o Verão tem-se mantido no top de vendas de ficção em hardcover do New York  Times. É um romance de estreia, sendo a autora praticamente desconhecida, e a que se deve o sucesso? É uma obra inspiradora sobre a relação entre patroas brancas e criadas negras na América sulista da década de 60, num tempo em que era perigoso pertencer à raça afro-americana. As protagonistas são Minnie e Aibileen, duas criadas negras que aceitam contar a sua história a uma jovem rapariga branca, Miss Skeeter, com ambições de escritora. O que conquista o leitor é a descrição tão realista e emocional das personagens e das suas pequenas lutas e medos diários. Um retrato emotivo e realista, com uma escrita soberba, de uma época de grandes transformações sociais na América, mas de um ponto de vista raramente contado nos manuais de História.

Burning your Boats (collected short-stories) de Angela Carter. A morte prematura de Carter causada por cancro roubou ao mundo uma voz inovadora e verdadeiramente moderna que, felizmente, hoje ainda é apreciada e inclusive estudada. Mais do que nenhum outro escritor, Carter soube revitalizar o legado do passado, nomeadamente, os contos de fadas e lendas, transformando-os com um cunho muito próprio e feminista. Esta colectânea, que reúne todos os seus contos,  demonstra a capacidade da autora em expor a semente de violência e perversidade presente nas relações humanas, a natureza sexual latente em contos de fadas como demonstra tão exemplarmente na colectânea The Bloody Chamber, mas acima de tudo, expõe uma voz que ecoa os tempos modernos de emancipação feminina.

Suldrun’s Garden, 1º volume de Lyonesse de Jack Vance. Não me recordo se li este livro em 2009, mas quero destacá-lo porque, depois de ter lido tantas sagas arturianas ou baseadas na história de Artur, ainda encontro uma capaz de me deslumbrar, à semelhança de alguns mitos celtas, com a sua beleza e simplicidade, a sua ternura e sense of wonder. A escrita de Vance é extremamente versátil e acho difícil de acreditar que este é também o autor da série Demon Prince ou do clássico Tales from the Dying Earth. Mal posso esperar para que chegue em finais de Janeiro a belíssima hardcover com a trilogia Lyonesse completa.

The Moonstone de Wilkie Collins. Muitos anos antes da primeira aparição de Sherlock Holmes por Conan Doyle em A Study in Scarlet, Wilkie Collins criara o Sargento Cuff, um famoso detective com enormes poderes de dedução. Surgiu no seu romance The Moonstone em que um diamante indiano valioso é roubado na Índia e levado para Inglaterra onde acaba por parar às mãos de uma herdeira inglesa. A jóia é roubada na noite do seu aniversário, desencadeando uma série de eventos e mistérios que são desvendados em forma epistolar pelas personagens intervenientes. Se Dickens era mestre na criação de personagens, Collins era sem dúvida superior na construção de enredo e suspense, facto que já o demonstrara no brilhante A Mulher de Branco.

Menções honrosas vão para Disgrace de Coetzee, The White Tiger de Aravand Adinga, Lisboa Triunfante de David Soares e também o álbum de BD Mucha e, por fim, Buracos Negros de Lázaro Covadlo.

Este foi também o ano que regressei à leitura de peças dramáticas de dramaturgos como Harold Pinter, Tom Stoppard, Anton Tchékov e Henri Ibsen. Gostava de poder mencionar muitos mais livros mas ainda não tive oportunidade de os ler, embora estejam cá a aguardar nas estantes.

Em séries televisivas, não quero deixar de destacar True Blood, Damages e Lark Rise to Candleford.

Tenho grandes planos para 2010, e certamente não quero chegar ao fim de 2010 sem ter conseguido concretizá-los. Apenas peço mais disciplina para escrever.

1 Comment

  1. Adenda ao Best of 2009 « Stranger in a Strange Land said,

    […] leave a comment » Esquecimento imperdoável da minha parte que justifica um novo post, no seguimento deste. […]

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