A resistência (do crítico) é fútil

November 8, 2009 at 8:12 pm (Livros/BD/revistas)

É curioso como podemos encontrar em textos de críticos literários ou jornalísticos alguns padrões. São ideias feitas sobre certos livros ou autores que acabam invariavelmente por se infiltrarem em toda a crítica formando uma noção sobre esse mesmo autor ou livro. Mas a pergunta que devemos colocar é: de onde vêm essas noções? Em Portugal sabemos que raramente as opiniões formadas por críticos sobre obras estrangeiras são originais, únicas, ou com um único pensamento genuíno. São, na maioria das vezes, copiadas ou inspiradas naquilo que é dito nos círculos literários norte-americanos ou europeus.

O marketing tem jogado um papel poderoso nos últimos anos de forma a lançar certas tendências no seio da crítica. Se uma certa perspectiva de um certo autor torna mais literariamente apetitosa a sua obra,  então é certo que as campanhas de vendas ir-se-ão basear nessa perspectiva, mesmo que represente uma distorção da realidade. O trágico é a fraca resistência do crítico perante estas promoções, e diria mesmo até cumplicidade.

E até posso dar um exemplo. Por esta altura, todos conhecem o autor chileno Roberto Bolaño devido à atenção mediática que a sua obra 2666 recebeu em Portugal. Subitamente, ler Bolaño tornou-se cool e obrigatório.  Sobre o autor, o crítico Eduardo Pitta escreveu o seguinte texto na revista LER, e do qual cito o seguinte excerto:

Bolaño nasceu no Chile mas passou a adolescência e o início da idade adulta no México. Em 1973 regressou a Santiago para lutar ao lado de Allende. Pinochet trocou-lhe as voltas e o jovem trotsquista, fundador do Infrarrealismo poético (ao tempo era sobretudo poeta), esteve preso oito dias. Quem ler Os Detectives Selvagens encontra referências ao surrealismo punk que distinguia o movimento. Depois do intervalo chileno voltou à diáspora. Essa parte inclui a amizade com o poeta salvadorenho Roque Dalton, que o introduziu na guerrilha da Frente Farabundo Martí. Acusado de colaboracionismo com a CIA, Dalton foi executado aos 39 anos por camaradas de uma facção rival. Foi então que Bolaño partiu para a Europa, onde lavou pratos em restaurantes (acontece a muito boa gente) antes de ver reconhecido o estatuto de escritor.

È fácil perceber a intenção de Eduardo Pitta em retratar um Bolaño rebelde, como sendo o Che da literatura, que sobreviveu a tempos difíceis e o representante de um tempo de cólera, em suma, o oposto do típico escritor da Ivy League.

Mas depois, por coincidência, li este ensaio interessante do escritor e amigo de Roberto Bolaño, Horacio Castellanos Moya, que encontrei por intermédio deste artigo do Guardian. Em baixo, reproduzo excertos, mas recomendo a leitura do ensaio de Moya na íntegra.

The market has its landlords, like everything on this infected planet, and it’s the landlords of the market who decide the mambo that you dance, whether it’s selling cheap condoms or Latin American novels in the U.S. I say this because the central idea of Pollack’s work is that behind the construction of the Bolaño myth was not only a publisher’s marketing operation but also a redefinition of the image of Latin American culture and literature that the North American cultural establishment is now selling to the public.

(…)

Maybe I was not the only one surprised when, on opening the North American edition of The Savage Detectives, I found a photograph of the author that I didn’t recognize. It is a post-adolescent Bolaño, with his long hair and mustache, the look of a hippie or of the young non-conformist in the time of the infrarealists—the poetry movement he helped found in Mexico in 1974—and not the Bolaño who wrote the books that we know. I was delighted at the photo, and since I’m naïve, I told myself that surely it had been a stroke of luck for the editors to get a photo of the time to which the greater part of the novel alludes.

(…)

It didn’t occur to me to think then, since the book had just come off the press and was beginning to cause a stir in New York, that this nostalgic evocation of the rebel counterculture of the sixties and seventies was part of a finely-tuned strategy.

(…)

The key idea is that for thirty years, the work of García Márquez, with its magical realism, represented Latin American literature in the imagination of the North American reader. But since everything tarnishes and ends up losing its luster, the cultural establishment eventually went looking for something new.

(…)

It was no casual fact, then, that the majority of articles profiling the author laid the emphasis on the episodes of his tumultuous youth: his decision to drop out of high school and become a poet; his terrestrial odyssey from Mexico to Chile, where he was jailed during the coup d’état; the formation of the failed infrarealist movement with the poet Mario Santiago; his itinerant existence in Europe; his eventual jobs as camp watchman and dishwasher; a presumed drug addiction; and his premature death. “These iconoclastic episodes coupled with Bolaño’s death at fifty,” writes Pollack, “are too tempting to narrate as anything but a tragedy of mythical proportions: here seems to be someone who actually saw his youthful ideals through to their ultimate consequences.” “Meet the Kurt Cobain of Latin American literature,” wrote Daniel Crimmins in Paste magazine.

(…)

No North American journalist highlighted the fact, Sarah Pollack warns, that The Savage Detectives and the greater part of Bolaño’s prose work “were written as a sober family man” during the last ten years of his life—and an excellent father, I’d add, whose major preoccupation was his children, and that if he took a lover at the end of his life, he did it in the most conservative Latin American style, without threatening the preservation of his family.

(…)

And he remained a non-conformist up to the end of his life, when fortune had already begun to touch him: he attacked the sacred cows of Latin American literature, especially the boom, which he called, in an email he sent me in 2002: “the rancid private club full of cobwebs presided over by Vargas Llosa, García Márquez, Fuentes, and other pterodactyls.”

It was this non-conformity that served to perfection the myth’s construction in the United States, in the same way that this aspect of Che’s life (the motorcycle journey and not the experience as minister of Castro’s regime or guerilla leader assassinated by the CIA) is what was used to sell his myth in the same market.

No mercado americano e atrevo-me a dizer em todos os mercados em que os seus livros foram traduzidos e vendidos. Até Eduardo Pitta prova isso referindo no texto para a LER precisamente todos os grandes clichés da vida de Bolaño que favorecem a imagem de James Dean rebelde, sendo cúmplice da fabricação do mito em torno do autor chileno.

Cansados do realismo mágico latino-americano que já espremera todo o seu sumo, as editoras norte-americanas moldam uma nova imagem da literatura latina, mais visceral e negra e é em Bolaño que encontram um representante por excelência. A sua obra é menos boa por isso? Não. Tem o valor que tem. Mas nunca teria a atenção que teve não fosse por uma brilhante e subtil estratégia de marketing.

Afinal de contas, o leitor gosta do mito do rebelde incoformista que sucumbiu à miséria e morte prematura no fim. The stuff of legend, como diriam os americanos. Mesmo que isso signifique umas quantas distorções pelo caminho de forma a vender melhor o produto. No caso de Bolaño tivemos sorte porque não é de todo mau autor. O que é preocupante em todos estas estratégias bem-sucedidas é que, se nos quiserem fazerem crer um dia que a mediocridade é genial, mesmo não passando tudo de uma fabricação, quem estará lá para nos avisar ou esclarecer? Certamente não o crítico cúmplice e pouco resistente.

7 Comments

  1. João Seixas said,

    “O que é preocupante em todos estas estratégias bem-sucedidas é que, se nos quiserem fazerem crer um dia que a mediocridade é genial (…)”

    Mas por onde é que tu tens andado? Não tem sido a mediocridade a única coisa que nos têm impingido ultimamente como genialidade?

  2. David Soares said,

    Bom texto.

    Eu li o “2666” (escrevi sobre ele no meu weblog e tudo) e acho que o ‘hype’ é justificado: o livro é muito bom – somente não é genial como andam por aí a dizer. É muito bom, tal como outro livro qualquer que seja ‘muito bom’, vulgo: está bem feito e as personagens são interessantes. Quanto a ser “genial”, tenho dúvidas… A prosa de “2666” também é um pouco ‘on the plain side’ e isso esfria-me um bocado: prefiro espectáculos pirómanos de linguagem, mas também não é por aí que o proverbial gato vai às filhoses. Se assim fosse não era capaz de ler metade do que leio.

    Mas tem piada a colagem do suposto Realismo Mágico à literatura sul-americana. O que se passou foi que o Juan Rulfo (autor de “Pedro Páramo”, o catalisador da corrente do Realismo Mágico sul-americano) era um grande fã de Halldór Laxness e quis escrever algo que fosse ao encontro do que ele encontrava nesses livros. O gérmen do verdadeiro Realismo Mágico encontra-se na literatura do Norte da Europa, como na obra do islandês Laxness ou até do, mais recente, holandês Gerard Reve. O que não significa que não haja um RM sul-americano, não é isso que está em causa… As origens do sub-género é que estão em outro lugar e, tantas vezes, esquecidas. É como o costume do chá que foi instituído em Inglaterra pela rainha Catarina de Bragança…

    Agora, se o ‘establishment’, ou parte do ‘establishment’ quer fazer do Bolaño um Garcia Marquez recauchutado (ou ressuscitado)… Só para quem não leu o livro, sinceramente. É que de Realismo Mágico tem 0. Algum surrealismo, certamente. Agora fantasia nem vê-la. De facto, até há passagens do “2666” em que o autor dá a entender que desdenha o Fantástico, por isso… Deve estar a dar voltas na tumba, ‘as we speak’.

    E estou de acordo contogo quando dizes que até tivemos sorte com o caso do Bolaño, porque o livro é bom. Olha se fosse outra coisa…

    Abraço.
    David

  3. nfonseca said,

    Mas o Código do outro, que já anda aí a vender outra sequela, o que foi senão uma gigantesca campanha de marketing? Bem feita, com a particularidade de ter sido bem feita até demais lol. Mas é inegável que a mundo editorial americano, por vezes tem estas tendências totalizantes, que são por vezes algo descabidas. Os danos culturais ou de relevância comercial que existam vão demorar anos até serem sentidos por completo, pelo que é prematuro dar muita opinião, para além de que não só cheira a esturro, como também o “ajuda a estupidificar o mercado dos mass market a nível mundial”, entre outras coisas do mesmo estilo.
    Eu por acaso fui dos que percebi pela presença online do tema, que captei logo desde o início, bem antes do hype chegar cá, e da campanha k se estava a gerar… e já muita gente se tem pronunciado nesse sentido da “massive orchestration”. Não me escandalizou mas, é curioso e importante ter isso em conta.

    mas em nota ao David: mmm… para além do Rulfo, andamos a esquecer-nos de Lugones e de mais uns quantos (o que até não é dificil, dada a pouca visibilidade, especialmente por cá mas tb a nível internacional), mas isso contribui sem dúvida para a noção de hoje de Realismo Mágico, embora talvez não seja, a meu ver o essencial… mas isto é tema controverso, com barbas e de as fazer crescer😀
    Seja como for, o certo é que para “vender”, nos dias de hoje, alguém daquelas bandas, é verdade que a estratégia ditava que tentassem uma personagem mais negra, de rebeldia mantida no baú do passado, etc
    É o ciclo. Os EUA em especial vão mostrando sentir uma lacuna especial por culturas estrangeiras. Não li o 2666 (só dois contos – gostei, mas nem por isso), mas cheira-me que a tua descrição David vai à mouche. Pelo menos vai de acordo com as minhas expectativas. E por isso é que digo que apesar das modas, vou deixá-lo marinar na estante durante algum tempo. Principalmente porque até nem aprecio muito calhamaços…🙂

    Excelente post!

  4. Safaa Dib said,

    David:

    Penso que a ideia foi encontrar um novo Marquez, mas inserido num estilo e género diferente. Aliás, transcrevo esta citação do texto (vou acrescentar esta parte ao meu texto):
    “The key idea is that for thirty years, the work of García Márquez, with its magical realism, represented Latin American literature in the imagination of the North American reader. But since everything tarnishes and ends up losing its luster, the cultural establishment eventually went looking for something new.”

    Seixas:
    Não basta dizer que a mediocridade está impingida em todo o lado, há que expor casos e factos. De qualquer forma, neste caso em particular do Bolaño, não estamos perante mediocridade, mas pelas várias opiniões, incluindo a do David, também não me parece estarmos perante genialidade. Depende de quem ouvires, mas diria-te para desconfiares de quem ouvires.

    Nuno:
    Quanto a ser calhamaço, por acaso, os desejos do autor não foram respeitados que quis que o livro 2666 fosse publicado em 5 volumes.

  5. pedromarquesdg said,

    (Via Elise Blackwell no twitter):
    Bolaño Inc.
    by Horacio Castellanos Moya, November 2009

    Roberto Bolaño is being sold in the U.S. as the next Gabriel García Márquez, a darker, wilder, decidedly un-magical paragon of Latin American literature. But his former friend and fellow novelist, Horacio Castellanos Moya, isn’t buying it.
    http://www.guernicamag.com/features/1382/bolano_inc/

  6. pedromarquesdg said,

    Ora bolas, encontrei o mesmo texto, mas noutra fonte… Bem, duas vezes é melhor do que uma.🙂

  7. Paulo Brito said,

    Eu como me “assusto” facilmente com esta publicidade histérica espero cautelosamente que as águas acalmem.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: