Lembram-se daquele meu post sobre as vanity-press em que dei o exemplo da Bubok? Pois bem, recentemente chegou ao meu conhecimento através de um determinado fórum mais um caso de vanity-press, aliás, neste caso será antes uma author mill.
Acontece que ontem, muito a propósito deste assunto, Jaime Bulhosa da livraria Pó dos Livros publicou no blogue da livraria um texto muito pertinente precisamente a alertar para estas pseudo-editoras. Não pude deixar de inserir um comentário que hoje foi destacado nesse blogue.
A situação que denunciei no blogue da livraria é relativa a uma editora de nome “Edita-me” da área do Porto e refere-se a uma antologia de talentos fantásticos. Antes do Verão, recordo-me de ter lido sobre esse concurso e o respectivo regulamento, até ter lido o desenlace em torno dessa antologia num fórum que costumo visitar.
Vou começar pelo início. Acompanhem-me que vale a pena chegar ao fim deste post.
Alguns participantes do dito fórum decidiram enviar as suas contribuições para esse concurso nas categorias de conto, poesia e ilustração em que os seleccionados seriam publicados numa antologia de “talentos fantásticos”.
O regulamento tinha indícios que não auspiciavam muito de positivo na medida em que inseria uma definição de fantástico paupérrima: O Fantástico pode ser entendido como uma abordagem ficcional ligada a personagens como fadas, feiticeiras, vampiros, lobisomens, monstros de qualquer espécie, Deuses, gnomos, gigantes, sereias, extra-terrestres ou outras entidades não humanas.
O regulamento previa que, caso houvesse o mínimo de 50 candidaturas seleccionadas, os participantes escolhidos seriam publicados na antologia. Só o facto de ter sido estabelecido um número mínimo para a dita publicação era motivo de suspeita, mas avancemos que a procissão ainda só vai no adro.
Entretanto, graças a várias discussões que assisti nesse fórum e através de várias pessoas com quem me relaciono, descobri que sempre haveria uma antologia, tendo os editores recebido 113 participações, das quais foram seleccionadas 80, como noticiado no blogue da editora.
Uma festa de lançamento, na noite das bruxas, elegeria o vencedor em cada categoria que ganharia um portátil, oferta patrocinada pela Tsunami. As anormalidades começaram a ser desvendadas com os esclarecimentos por parte da editora sobre a participação nessa antologia.
De acordo com o editor, relativamente aos direitos de autor (isto é de causar uma paragem cardíaca):
4. Direitos de autor
Tomando em consideração tratar-se de 80 autores distintos presentes na Antologia, teriam de ser repartidos por todos em partes iguais os direitos de autor (10% sobre o preço de capa), originando que cada um recebesse o valor de 2.5 cêntimos por cada exemplar vendido. Desta forma, cada autor apenas atingiria o valor dos 2€ quando fossem vendidos 80 exemplares.
Por este motivo, resolveu a editora atribuir individualmente o valor de 10% sobre o preço de capa (2€) na forma de desconto sobre a compra.
Por outro lado, possibilitando aos autores adquirir mais do que um exemplar com o referido desconto (que poderão “revender” pelo PVP de 20€) está o autor a multiplicar o seu “ganho em direitos de autor” sem que tenha de estar dependente das vendas efectuadas, nem aguardar 1 ano por ele.
Pensamos que assim, encontramos uma forma mais eficaz e por ventura mais rentável para os autores, de atribuição dos direitos de autor.
Que falta de vergonha é esta? Como é possível sequer ser assumida tal coisa como se fosse algo perfeitamente natural pagar direitos de autor em descontos de 10% sobre o preço de capa do livro? E ainda encorajam o autor a ele próprio revender o seu livro de forma a ter uma margem de lucro. Mais chocante é o facto de esse referido desconto ter validade de 1 mês!
Se ainda não perceberam bem, passo a explicar. Os autores seleccionados não têm direito à oferta de um exemplar. O livro custa 20€, mas como está explicado neste ponto:
2. Prazo para usufruir do desconto concedido aos autores
O desconto concedido aos autores que façam a sua pré-reserva, é válido por um período de 30 dias. Ou seja, até dia 30/Nov.
Incrível, não é? Afinal os tais direitos de autor que vieram na forma de um desconto de 10% sobre o preço de capa deixam de ser concedidos após um período de 30 dias! Só tenho pena que este esquema não seja crime punível por lei.
E quanto à razão de não oferecerem exemplares aos autores? Passo a citar o editor:
Na Edita-Me optamos por colocar a participação livre, assumindo tanto todos os custos com a realização do concurso, como todos os riscos inerentes à publicação da Antologia.
E tendo em conta o número de participações, o tipo de livro que é, com a dimensão que tem, acreditem: para uma editora jovem como é o caso da Edita-Me, os custos são bastantes elevados e o risco é considerável.
Não nos seria possível encetar uma iniciativa destas, nestes moldes, se ainda para além destes custos tivéssemos de assumir o custo de 1 livro por participante.
Assim, entre cruzar os braços num acto de passividade (tão comum nos dias de hoje e ainda mais nos assuntos ligados à cultura) não levando a cabo nenhuma iniciativa de promoção de autores emergentes, ou levar a cabo um concurso destes, nos moldes em que o mesmo foi feito: A nossa opção foi um claro “SIM, vamos em frente, vale a pena, quanto mais não seja, pela divulgação dos autores, que de outra forma, dificilmente teriam possibilidade de ver um trabalho seu publicado”.
Que comovente. Saltou-me uma lágrima do canto do olho. Claro que não devemos cruzar os braços e se deve fazer tudo pela divulgação de autores emergentes. Que causa tão nobre atrás da qual se esconde a raposa à espera de cravar a dentuça na mass.. no osso! Atenção que não está aqui a ser posta a qualidade do conteúdo da antologia, sendo esse facto perfeitamente irrelevante. Questionam-se sim as tácticas pouco éticas desta pseudo-editora que pretende apenas obter lucro à custa da boa vontade de aspirantes a autores.
E agora dizem-me em defesa da editora: Não tivemos que pagar nada para participar no concurso nem para ser publicados. E agora digo eu: Tiveram que pagar 18 euros pelo exemplar e se os 80 participantes e respectivos familiares decidirem realmente desembolsar essa quantia (os familiares desembolsam 20€), é só fazer as contas e ver quem afinal ganha em toda esta situação. Portanto, não houve cobrança pré-concurso, mas houve pós-concurso. Considerando que não há investimento em distribuição, porque o livro não vai chegar às livrarias que interessam (a tabacaria da esquina não conta), sendo em grande parte vendido através do site da editora, e uma vez que não houve obviamente impressão de tiragem e os portáteis foram oferta da Tsunami, a editora só teve despesas de impressão dos exemplares da antologia que foram encomendados.
Acontece que, de acordo com os testemunhos de pessoas que compraram a antologia, a qualidade da dita é péssima. As queixas que li foram as seguintes: má paginação com má fonte e sem margens, falta de revisão dos textos estando o livro repleto de erros, corte de texto dos autores, e nem sequer foi colocada a biografia dos autores porque não havia espaço… Em suma, uma antologia estupidamente cara que se limitou a despejar textos de 80 autores às quais foram atribuídas classificações. Isto não é edição, nem é trabalho de uma editora que se preze.
Se houve algum investimento da parte desta pseudo-editora foi numa festa na noite das bruxas num bar no Porto em que se garantiu aos autores que não lhes seria cobrado consumo mínimo nem entrada, quando afinal veio a saber-se que houve cobrança (verdade seja dita, prometeram reembolsar os autores indignados, cá esperamos para saber se houve ou não reembolso). E eu nem sequer vou referir o facto de que muitos participantes consideraram os vencedores dos portáteis de qualidade duvidosa, porque isso seria entrar em todo um campo especulativo e o que interessa são os factos.
Portanto, recapitulemos. Definição de author mill (quando tiver tempo traduzo para português):
Unlike vanity publishers or self-publishing services, author mills don’t charge upfront fees—which is why they can convincingly present themselves as “real” publishers–but they often do their best to turn their authors into customers, heavily encouraging them to buy their own books, or incentivizing self-purchases with special offers and discounts. Because of the need for author volume, editorial gatekeeping is lax (though many author mills, knowing how much authors crave validation, claim to be selective). Author mills protect their profits by doing everything on the cheap, with minimal or nonexistent editing, interior and cover design that’s straight-from-template, and no meaningful marketing or distribution, resulting in tiny sales for the average author mill book. They also often have exploitive, nonstandard contracts.
Parece-me que depois desta exposição, podemos concluir que, no caso da “edita-me”, estamos perante uma author mill genuína.
Não me canso de repetir, e vou voltar a dizê-lo: Um autor não deve pagar para ser publicado. Um autor não deve aceitar jamais comparticipar custos de publicação com a editora. Um autor deve exigir pagamento pelos direitos de autor e esse pagamento nunca deve vir em forma de descontos ou promessas ou festas de lançamento. Um autor nunca deve pagar por exemplares de uma obra sua se não tiver recebido um livro sequer. E estas coisas envolvem sempre uma coisa chamada contratos. Exijam sempre um contrato e depois leiam as entrelinhas todas.
O Luís Rodrigues tinha aconselhado este site e também passo a palavra aos interessados onde poderão obter informações mais completas sobre os numerosos esquemas postos em práticas por pseudo-editoras.
Acreditem que é muito fácil saber distinguir o trigo do joio, basta colocarem as perguntas certas e terem noções básicas sobre edição de livros. Sejam sempre desconfiados e não se iludam com falinhas mansas ao vosso ego de escritores. Estas empresas não querem saber de qualidade ou talento, apenas lhes interessa como podem obter lucro da melhor forma possível.
E quem me atirar com os seguintes dois discursos:
– Tu trabalhas numa editora e estás a ser parcial e injusta, só queres é puxar clientes para a tua editora.
ou
– Isso é tudo inveja porque estamos a ser publicados e em Portugal só se gosta é de falar mal. Prefiro a “edita-me” do que enviar manuscritos para outras editoras onde só se publica com cunhas.
Vai levar com um livro bem pesado na cabeça para ver se ganha juízo!