O resto é Silêncio

November 1, 2009 at 6:40 pm (Livros/BD/revistas)

Em pequenas aldeias erigidas em regiões inóspitas e intocadas pela civilização urbana conserva-se, muitas vezes, a tradição ancestral vinda das bocas de avós e idosos que receberam essa mesma tradição dos seus próprios antepassados.

São terras onde a superstição ainda é forte, onde ainda se acredita piamente que o mau-olhado trouxe má sorte a uma casa ou arruinou o casamento de uma mulher bonita, invejada pela sua beleza. O bruxedo existe oculto no coração de vilas, mesmo que não plenamente assumido pelos habitantes e são os medos primordiais que mantém a magia (boa ou má) viva.

Tudo isto para falar sobre o álbum belga de BD de Didier Comès, Silêncio. Em pranchas a preto e branco, começa por retratar uma vila nas Ardenas, região em que o próprio autor nasceu, e onde se diz que muitas bruxas foram queimadas. A história centra-se na figura de um rapaz mudo e inocente, que recebeu o nome de Silêncio. Acedemos apenas aos seus pensamentos ingénuos e infantis, desprovidos de mal e ódio, mesmo que tenha todas as razões para odiar o homem que cuida dele, e que na verdade o explora e submete a maus tratos físicos e psicológicos.

Mas o rapaz é imune ao mal que o seu guardião inspira. Até ao momento em que conhece a misteriosa feiticeira cega, que vive em reclusão nos bosques, e então a sua vida muda. A cortina da ignorância em que vive é por uns momentos afastada e Silêncio passa a conhecer a história do sangue que lhe corre nas veias, sangue cigano castigado pela vila…

Mas agora que conhece a verdade, Silêncio não deixa de ser um peão num duelo letal de feitiçaria que conduz à loucura ou mesmo morte. Recordo-me na animação Princesa Mononoke de Miyazaki que a única cura para o príncipe Ashitaka contra a maldição do deus javali consistia em abandonar a sua terra e povo  “to see with eyes unclouded by hate”.

No caso de Silêncio, há apenas uma visão que inevitavelmente conduz a perdão e piedade, virtudes que não resistem perante a crueldade humana. Mesmo o amor brevemente conhecido por Silêncio pela feiticeira é incapaz de superar os obstáculos presentes numa comunidade temerosa e perversa que age na ignorância, nem que para isso tenha que cometer crimes.

Esta é, na essência, uma história sobre marginais, pessoas diferentes constantemente discriminadas por essa diferença, ainda mais quando vivem em meios onde domina a tacanhez e o provincianismo.  Afinal a maioria das bruxas eram queimadas não porque demonstravam poderes especiais mas porque, em algum momento das suas vidas, cometeram algum acto bizarro. Tal como o demonstra a aldeia nas Ardenas de Silêncio, é perigoso ser-se diferente, a custo da própria vida.

Todavia, mesmo que a realidade dura não ofereça qualquer alívio para os marginalizados,  Didier Comès não deixa de manifestar um toque de ternura e compaixão perante o destino final de Silêncio, mas apenas se o leitor estiver disposto a aceitar a morte como a passagem para o paraíso onde os sonhos se concretizam e onde se conquista a felicidade que escapa em vida (contradizendo assim directamente as últimas palavras de Hamlet que usei como título deste post).

É, sem dúvida, uma das mais bonitas, profundas e sensíveis histórias que tive a oportunidade de ler este ano, publicada em português pela Bertrand (edição fora de circulação) e Edições Asa, em 2 volumes.

Nota: Um agradecimento ao Pedro Marques por me ter emprestado o álbum (a 1ª edição!) e me ter dado a conhecer esta história.

3 Comments

  1. David Soares said,

    Grande álbum de banda desenhada – e o melhor trabalho de Comès. Um dos meus livros de BD preferidos. Ainda bem que leste a primeira edição, porque a segunda é de levar as mãos à cabeça: cores horrorosas e uma nada católica divisão em dois volumes (porquê?).
    Poucos álbuns de BD conseguem ser tão especiais quanto este: quem diz que gosta de BD e nunca leu o “Silêncio” é poser, ’nuff said.

  2. Safaa Dib said,

    Olá David,

    Sim, realmente, também não percebo essa divisão em dois volumes pela Asa, considerando que é uma história que se insere facilmente numa edição apenas.

    Se bastasse só ler o “Silêncio”… mas ainda tenho que ler muito em BD para não dar mau nome à coisa.

  3. Francisco Norega said,

    Fiquei extremamente curioso.
    Talvez um dia tenha oportunidade de ler esse livro, e preencher assim uma lacuna nas minhas leituras de bd.

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