Top de livros de ficção científica – Parte II

October 7, 2009 at 10:04 pm (Livros/BD/revistas)

Há cerca de um ano,  escrevi um top de livros de ficção científica em que descrevi cinco dos meus livros favoritos. Prometi então a segunda parte, com mais cinco livros, e eis que agora chega tardiamente. As minhas escolhas não pretendem ser inovadoras, pelo contrário, serão consideradas clássicas pelo cânone da ficção científica. Mas a verdade é que estes são os livros que me inspiraram e fizeram-me abraçar o género em pleno, partindo à descoberta de mais filões de ouro. Distopias, viagens no espaço, guerras planetárias, planetas misteriosos, história alternativa, vitória e domínio de ditaduras fascistas, são alguns dos elementos presentes nestas obras literárias.

Brave New World de Aldous Huxley. Se alguma vez houve um livro que me tenha surpreendido com a sua data de publicação é esta obra-prima de Aldous Huxley (descendente de T. H. Huxley, o “bulldogue” de Darwin).  Escrito nos anos trinta, e centrado em temas ainda hoje polémicos como manipulação genética, controlo e condicionamento da população, esta obra de Huxley tem para nos oferecer uma visão negra e assustadora de uma sociedade totalmente controlada desde o nascimento do indivíduo até à sua morte. Não há lugar para individualismo ou conceito de família ou mesmo relações pessoais nesta sociedade espartilhada.

Todos devem viver de acordo com um ideal que esconde uma autoridade totalitária e dominante. Mas é natural que alguns não se revejam neste tipo de sociedade tão aparentemente perfeita e dividida por castas. Quando um casal viaja a uma reserva de nativos, e encontra Linda, uma mulher que deu luz a um rapaz, John, torna-se aparente que se encontram perante um indivíduo que viveu inteiramente livre do condicionamento do governo. Mãe e filho desejam voltar ao novo mundo. Linda porque está cansada de ser maltratada e excluída (assim como o seu filho) pelos nativos, John porque anseia por ver as maravilhas do brave new world. À semelhança de Miranda, filha de Próspero em A Tempestade de Shakespeare, John nunca saiu da sua “ilha”, sempre protegido pela família.

Mas no novo mundo, o selvagem John não tem lugar. A sua angústia, medo, tristeza são completamente descartados perante o olhar ávido de pessoas que o tratam como uma aberração turística, conduzindo inevitavelmente ao clímax trágico. É uma visão inteiramente desencantada e distópica sobre a crueldade e cegueira da natureza humana, condicionada por mestres tiranos que governam o mundo de acordo com os seus ideais e caprichos, auxiliados por uma tecnologia ímpar.

Tradução disponível em português.

The Stars my Destination de Alfred Bester

Escrito nos anos 50, eis outra obra visionária e perfeita na sua construção narrativa, em torno do clássico tema da vingança. Gulliver Foyle é um homem à deriva no espaço, a sofrer uma morte lenta. Uma nave especial de passagem ignora o seu pedido de ajuda e é então que Foyle desperta da sua passividade e transforma-se num monstro psicopata.

Como diria um dos oficiais em Apocalypse Now, Every man has a breaking point, e o breaking point de Foyle é atingido no preciso momento em que vê a salvação recusada. Consumido por uma raiva e desejo de vingança inumanos, ele irrompe do seu estado de letargia e abandono para se tornar num dos homens mais perigosos do sistema solar.

Para conseguir a sua vingança, Foyle transforma-se num homem sofisticado, rico e inteligente, capaz de lidar com a nata da sociedade, representada pelo milionário Presteign. Todos perseguem Foyle implacavelmente, pois só ele sabe o segredo capaz de travar uma guerra interplanetária.

No entanto, esse segredo é secundário face à evolução de Foyle que assistimos; uma das personagens mais fascinantes, que começa por ser um vilão desprezível, assassino, com tendências de psicopata, mas que lentamente se torna em alguém com uma consciência e humano, humanizando até os seus próprios inimigos nesse processo de transformação. Ele é condenado e admirado ao mesmo tempo, e a sua natureza de tigre que se reflecte no rosto nunca é completamente apaziguada, mesmo quando tenta exercer controlo sobre as suas emoções.

Ainda hoje o livro apresenta as suas ideias frescas e um ritmo de acção alucinante e sem falhas, com cenas maravilhosas e profundamente imaginativas, e um dos finais mais assombrosos da literatura de FC.

Tradução disponível em português.

The Martian Chronicles de Ray Bradbury

Poucos são os livros que terão abordado o tema de colonização, ainda para mais uma colonização ficcional e imaginária, com a humanidade e emoção que Bradbury depositou nestes contos sobre o abandono da Terra à mercê de uma catástrofe militar ou humanitária e a subsequente fuga para o planeta Marte onde o Homem terá tentado iniciar uma nova vida.

Por vezes a lembrar o despojamento, busca pela dignidade e esperança cega presentes em As Vinhas da Ira de John Steinbeck, cada história representa várias etapas ao longo da colonização de Marte, contadas por ordem cronológica. Algumas histórias ficam na memória mais facilmente do que outras, mas todas são percorridas por um fio de inquietação. Não considero algumas histórias como sendo de horror, mas têm o dom de perturbarem profundamente o leitor.

Nunca esquecerei da história da Terceira Expedição a Marte em que os astronautas se deparam com uma cidade americana típica em que os familiares estão presentes para acolhê-los. Mas à noite, sentindo-se seguros no silêncio e protecção das casas,  os astronautas são mortos pela mesma família que os acolhe e pelo planeta que lhes montara a armadilha cruel.

Ou então a história do casal a viver em Marte que perdera um filho. Uma noite, o rapaz que perderam regressa a casa como se nunca tivesse desaparecido. A mãe deixa-se levar pelo conforto ilusório da sua presença, mesmo que o pai saiba que na verdade é um marciano com a habilidade de assumir identidades. Quando o rapaz é levado para a cidade, é separado da sua família, e  perante o caos da multidão morre, incapaz de suportar o peso das memórias e luto por familiares perdidos de cada uma das pessoas que o rodeia.

Não posso deixar de citar outro conto memorável nesta colectânea clássica. There Will Come Soft Rains, a descrição de uma casa controlada por aparelhos automáticos, vazia e abandonada perante um holocausto nuclear que dizimou a população. A tecnologia continua, indiferente ao destino da humanidade, limpando a casa e desempenhando as actividades quotidianas, até ela própria ser tragada pela Natureza.

Estes contos que seleccionei são uma amostra da brilhante reflexão de Bradbury sobre a colonização planetária e as suas consequências, indo beber ao consciente e inconsciente colectivo da Humanidade, aos sonhos, esperanças e angústias, às perdas e vitórias, numa demanda por um lugar onde nenhum Homem jamais foi a não ser na imaginação.

Tradução disponível em português.

The Man in the High Castle de Phillip K. Dick

Em 1963, o talento atormentado de Phillip K. Dick deu à luz uma obra pioneira no sub-género da história alternativa, O Homem do Castelo Alto (a ser republicado em 2010 pela editora Saída de Emergência). Embora não seja propriamente um livro de FC, decidi escolher esta obra, mais não seja porque é a minha favorita vinda de um dos autores mais conhecidos no género. O livro descreve uma realidade alternativa em que os japoneses e alemães ganharam a guerra. Roosevelt foi assassinado, substituído por um presidente que conduziu uma política isolacionista e não soube  solucionar a Grande Depressão. Os japoneses conduziram um ataque em larga escala bem sucedido a Pearl Harbour. Depois da derrota dos aliados, o território dos EU foi dividido entre os alemães e japoneses. Os alemães nos anos 60 já se lançavam em colonização espacial e tinham perpretado o Holocausto no continente Africano. Este é o cenário do livro.

Mas dentro deste cenário, muitas personagens estão a ler um livro escrito por Hawhtorne Abendsen, o Homem do Castelo Alto, em que os Aliados venceram a II Guerra, ainda assim, esta não se trata da verdade histórica. Este relato  também é ficcional,  referindo que a discriminação racial deixara de ser um problema nos EUA, o ataque a Pearl Harbour falhara, nunca houve uma revolução cultural chinesa, os britânicos derrotaram Rommel em África e a Grã-Bretanha acabara por emergir como a única superpotência no mundo.

Duas realidades históricas alternativas são descritas, caminhando para um final metaficcional. História, realidade, ficção interagem e questionam-se entre si, nunca estando o leitor seguro do terreno em que se move.  A impressão com que se fica é a de que o autor se deixou fascinar pela possibilidade de imensas realidades paralelas poderem vir a concretizarem-se, caso se tivessem tomado certas decisões em momentos cruciais da História.

Mas para além destes aspectos, o livro é extremamente recomendado tão só por certos brilhantes insights, no que diz respeito a identidade e cultura.

Tradução disponível em português.

Solaris de Stanislaw Lem

Tenho que admitir a verdade. É muito difícil falar sobre uma obra como Solaris que contém mundos de pensamentos, sentimentos e ideias por dizer. Não sei como começar a falar sobre este livro que me impressionou grandemente. Quando recomendo Solaris, o leitor estará na verdade a fazer um favor a si próprio se ler qualquer uma das obras de Stanislaw Lem, Fiasco, Memórias Encontradas numa Banheira, Congresso Futurológico, O Regresso das Estrelas, entre outros.

Mas Solaris será sempre a obra mais marcante deste saudoso escritor polaco tão só pelo intensa forma como retrata a solidão do indivíduo no cosmos face a forças poderosas que ultrapassam a sua compreensão. Solaris é um enigma, embora haja várias teorias. O que é certo é que o planeta tem acesso aos segredos mais recônditos do ser humano, manifestando-os numa forma física que quebra os fracos de espírito. Para Kris Kelvin, um psicólogo que irá verificar os estranhos fenómenos que ocorrem no planeta, Solaris traz-lhe de volta a mulher falecida que cometera suicídio, Rheya, despertando toda uma miríade de emoções complexas e dolorosas. O amor enlouquece ou consome a alma, mas é a natureza alienígena e enigmática de Solaris que mais assombra o leitor, aliada a uma descrição poética e profundamente perturbadora. Tradução disponível em português.

Espero que estas descrições breves destas obras tenham despertado o interesse de leitores porque estamos perante romances/contos de grande força e mérito, que mereciam muito mais do que o mero rótulo de ficção científica. São clássicos de literatura que trouxeram reflexões sobre o futuro de uma forma que nos faz temer, mas também ganhar expectativa e esperança por aquilo que esse futuro pode trazer. Afinal não é esse um dos objectivos da ficção científica? Termino este post com uma citação de Phillip K. Dick que penso que descreve na perfeição o amor do escritor de ficção científica pelo género:

“I want to write about people I love, and put them into a fictional world spun out of my own mind, not the world we actually have, because the world we actually have does not meet my standards. Okay, so I should revise my standards; I’m out of step. I should yield to reality. I have never yielded to reality. That’s what SF is all about. If you wish to yield to reality, go read Philip Roth; read the New York literary establishment mainstream bestselling writers… This is why I love SF. I love to read it; I love to write it. The SF writer sees not just possibilities but wild possibilities. It’s not just ‘What if’ – it’s ‘My God; what if’ – in frenzy and hysteria. The Martians are always coming. – Philip K Dick 1980

10 Comments

  1. Pedro said,

    Adorei o blogue!

    Já li “Admirável Mundo Novo”. Gostei muito. A ciência está extremamente bem explorada, que visão aquela! E o final deixou-me a reflectir um bocado,

    SPOILER!!!

    o suicídio do “selvagem” é deveras uma conclusão que nos leva a crer que, realmente realmente, toda e qualquer sociedade é feita desses ideais… Pessoalmente, foi isso que conclui. Ele não se suicidou simplesmente por se sentir desintegrado, mas acho que conseguimos chegar à conclusão que ele próprio tinha ideais vindos da sua terra que não conseguia ignorar…

  2. Pedro said,

    Já agora, vou ler “Fahrenheit 451”. Já deves ter lido… O que achaste?

    E, embora tenha gostado de Brave New World, não foi a minha distopia preferida… Essa continua a ser “1984”, que eu simplesmente idolatro!

  3. Safaa Dib said,

    Obrigado! Sim, já li o “Fahrenheit 451”. Se leres a 1ª parte deste post (dei o link em cima), irás reparar que foi logo o primeiro livro que citei e refiro como me marcou bastante.

    Já agora, também escrevi sobre o 1984 noutro post:
    https://retratos.wordpress.com/2008/07/20/o-fim-das-ilusoes-em-1984/

  4. Carla Ribeiro said,

    Ah, deixaste-me com vontade de voltar a ler o Admirável Mundo Novo… Já lá vão uns aninhos desde que o li e, na altura, foi um livro marcante.
    Dos outros que referiste, ainda não li nenhum. Já li outras obras de Ray Bradbury, Philip K Dick e Stanislaw Lem, mas estes não conhecia. Talvez seja uma boa altura para procurar…

  5. No vazio da onda said,

    Permita-me que recomende o livro que supostamente “inspirou” o livro do Huxley e o do Orwell:
    “Nós”, Evgueni Zamiatine (Ed. Antígona)
    Uma distopia do anos 20 (?)

  6. Maldoror said,

    Aproveito para te perguntar se a tradução portuguesa do Solaris é decente ou se recomendas ler noutra língua…?

  7. Safaa Dib said,

    Recomendo noutra língua, embora outra língua seja sempre uma tradução, já que o original é polaco. Agora não tenho certeza, mas penso que a tradução da Europa-América foi feita a partir do francês ou inglês. Portanto, fica a perder duplamente…

    A tradução inglesa será sempre mais aconselhável.

    Bem lembrada a recomendação do “We” de Zamiatine, esqueci-me de a referir.

    • Maldoror said,

      Pois, perguntei-to porque as traduções da Europa-América não são conhecidas pela sua qualidade. Sendo assim, acho que comprarei em inglês…

    • Maldoror said,

      Descobri agora (2 anos depois) que parece que a tradução inglesa também não é nada famosa. O próprio Stanislaw Lem nunca gostou dela e gostaria de a ter alterado mas nunca foi possível devido a questões relacionadas com direitos de autor.

      • Maldoror said,

        E aproveito para deixar aqui (para os interessados) um pequeno ensaio de David Pearce ao Brave New World. É um «desmontar» da obra, sob uma perspectiva transumanista: http://huxley.net/

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