Love Snapshot #7: A Marquesa de O

October 5, 2009 at 9:39 am (Love Snapshots)

Edith Clevel em Die Marquise von O (1976)

Edith Clever em Die Marquise von O de Eric Rohmer (1976)

O Pesadelo de John Henry Fuseli (1781)

O Pesadelo de John Henry Fuseli (1781)

Atente-se como a imagem acima extraída do filme de Rohmer recria tão notavelmente a pintura O Pesadelo de Henry Fuseli. Os tons sexuais e eróticos presentes na obra de arte são abertamente assumidos por esse caldeirão de caos e instinto que é o id. Será a pintura de uma violação? De um desejo sexual reprimido em que o demónio/homem toma posse da figura feminina? A analogia com a pintura, que influenciou muitos artistas e escritores no seu tempo, não é inteiramente despropositada face à noveleta de Heinrich von Kleist, Die Marquise von O.

Quando a marquesa de O, uma viúva jovem e virtuosa que vive na fortaleza do seu pai, é salva por um conde russo das mãos de violadores, ela desconhece que se tornou um irresistível objecto de desejo para este homem que se irá aproveitar do seu estado perturbado e induzido em ópio.

Após essa fatídica noite, a marquesa é assombrada pela dúvida pois sente uma semente a crescer no seu ventre. Mas a consciência diz-lhe que tal não é possível. Confirmados os seus piores receios, e perante uma gravidez assombrosa, é injustamente acusada pela sociedade e família de se envolver numa relação sexual ilícita e desonrosa. É neste momento que a marquesa revela a força do seu carácter, ao erguer-se do seu infortúnio com grande dignidade, aceitando a sua vergonha com a toda a resignação que o seu coração de filha renegada, mulher desonrada e futura mãe é capaz.

Numa tentativa de legitimizar a união e a criança, decide publicar um anúncio no jornal, solicitando ao pai da criança que revele a sua identidade. Ninguém acredita na sua inocência, excepto o conde russo que tenta clamá-la com grande determinação como sua esposa. Movido por uma consciência pesada e uma paixão exaltada, está determinado a salvar a reputação da marquesa.

Mas o que é mais fascinante nesta adaptação e obra literária, e aquilo que terá possivelmente intrigado Rohmer, é a coexistência no ser humano do anjo e demónio. O conde cai em desgraça ao cometer uma violação, mas é ao mesmo tempo encarado como o salvador a quem a marquesa presta uma enorme dívida de gratidão. Os anjos da natureza humana dão lugar aos servos do diabo que pregam as suas partidas a homens fracos. E serão as mulheres o objecto do desejo a precipitar essa queda para os extremos, tal como a marquesa provocou  com as suas formas voluptuosas o fogo demoníaco nos olhos do conde russo.

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