Os estranhos meandros do Motelx

September 10, 2009 at 9:28 pm (Cinema e TV)

O festival de cinema de terror, Motelx, já terminou no passado domingo, mas só agora tive a oportunidade de partilhar no blogue os filmes e eventos a que assisti  entre 2 e 6 de Setembro no cinema S. Jorge, em Lisboa.

Flick

Imaginem uma típica cidade britânica dos anos 60 onde as noites são dominadas por danças de salão ao som do rockabilly. Um teddy boy solitário e com evidentes problemas em socializar deseja convidar a rapariga dos seus sonhos para uma dança. Acontece que o namorado-gorila-rufia da rapariga não está disposto a cedê-la. Espancado até atingir um ponto sem retorno, o rapaz comete um massacre no salão de dança. Com a rapariga  nos braços, foge de carro mas um acidente atira o seu carro da ponte.

Será apenas cinquenta anos depois que o carro e o cadáver do condutor é retirado do fundo do rio, e o morto desperta para a vingança com a música rock de uma rádio pirata…  O mais bizarro será certamente a personagem da actriz Faye Dunaway (lembram-se dela em Bonnie and Clyde e Network?), que interpreta uma detective maneta, encarregue de investigar o caso das mortes perpetradas pelo zombie. E confesso que considerei esta narrativa bizarra e bem escrita, com pranchas de BD tresloucadas a acelerarem o rimo da acção, muito divertida.

Trick ‘r Treat

O feriado do Halloween e o cinema de terror andam de mãos dadas desde há décadas. Longe vão os tempos em que Carpenter criou o clássico Halloween, um filme hoje em muito datado e a roçar o ridículo, sobre jovens a serem mortos por um psicopata na noite do Samhain. Mas ainda é possível encontrar variações muito interessantes e abordagens refrescantes como a que Michael Dougherty fez em Trick ‘r Treat.

Várias histórias cruzam-se nessa noite. A da virgem de 22 anos (a mesma Anna Paquin da série TRUE BLOOD e que ironicamente é perseguida por um vampiro…),    que procura por um homem com quem passar a sua primeira noite. A das crianças que batem de porta em porta pedindo por doces ou travessuras, acabando por relembrar uma história sombria do horror cometido contra crianças condenadas à morte há décadas naquela cidade. A do velho que vive num casarão solitário e é assombrado por um espírito demoníaco. E finalmente a do serial killer que não hesita em procurar vítimas para alimentar a sua psicose. Todas estas histórias acabam por se cruzar num encadeamento muito bem orquestrado pelo realizador. Não podia deixar de haver um elo que os une a todos e isso será a pequena criança com um saco enfiado na cabeça que assiste em silêncio a todos os males… Não hesito em recomendar este filme, um dos mais interessantes em homenagem ao espírito do Halloween.

A Maldição de Marialva

A dificuldade em encontrar imagens deste filme atesta a sua raridade. Numa tentativa de resgatar do fundo do baú pérolas esquecidas feitas em terras portuguesas que se enquadrem no género do fantástico, eis que o festival apresentou A Maldição de Marialva de António de Macedo. Por incrível que pareça, o realizador não tem cópias dos seus filmes, nem existem reproduções em DVD, estando disponíveis apenas nos arquivos da Cinemateca Portuguesa ou da RTP.

Passado no séc. X, numa aldeia a sul do rio Douro, Macedo inspirou-se nas lendas beirãs sobre a Dama de Pé de Cabra, imortalizada por Alexandre de Herculano num dos seus contos. O filme abre com uma impressionante cena de uma aldeia medieval onde três ladrões são sentenciados à forca. A mulher e a filha são forçadas a suportar o estigma de bruxas e marcadas a ferro, mas a filha é salva a tempo pela intervenção de um físico que as resgata das garras do povo.

A vila está nas mãos de Maria Alva, uma bruxa que irá confrontar o sábio Hélio até ao clímax final em que Alva amaldiçoa a terra e se precipita de uma torre. A maioria dos actores portugueses são nossos conhecidos do teatro, televisão e cinema, com destaque para Lídia Franco e Carlos Daniel. A cenografia e fotografia são fantásticas, tornando a reconstituição histórica medieval muito credível, nem sempre parecendo que algumas cenas na verdade são montagens de estúdio.

Passando às curtas portuguesas a que tive oportunidade de assistir, houve de tudo. Algumas obras bem mázinhas ou bastante fracas em conteúdo. Destaco várias, as que me ficaram gravadas na mente pelas mais variadas razões:

O Caçador de Joana Lindo

Interessante em termos visuais e poéticos, mas tão abstracto na linguagem e tão recheado de imagens desconexas que temo não ter compreendido a mensagem da curta.

Reborn de António Pascoalinho

Uma história simples e bem contada do luto recente de dois irmãos numa casa assombrada pelo espírito do pai. Podia ter tido um final mais eficaz, mas ainda assim achei que estava entre as curtas mais competentes.

No Silêncio de Pedro Rodrigues

Uma curta curtíssima, de facto, mas eficaz. Julgamos que se trata de uma curta banal em que um psiciopata retém uma vítima na cave e sujeita-a a uma tortura cruel, mas o flashback dos últimos minutos revela a verdade e é então que compreendemos melhor a frustração e angústia do torturador, que não é um psicopata, mas na verdade alguém que procura vingança em nome de uma criança abusada pelo pedófilo que tem preso nas suas mãos.

Papá Wrestling de Fernando Alle

Recebeu menção honrosa, mas por mim teria sido declarada a curta vencedora. Bem humorada, absurda, capaz de arrancar umas boas gargalhadas do público, eis que um menino de escola é atormentado por uns quantos rufias que lhe roubam a lancheira. Regressado a casa num estado deplorável de baba e ranho, o miúdo recorre ao papá wrestling que emerge, furibundo, e parte qual super-herói em busca de justiça… Hilariante! Podem assistir à curta no Youtube.

F. R. U.N.C de Paulo Prazeres

F.R.U.N.C. é… bem, pois… FRUNC. Acedam a esse link para acederem ao Frunc. E vale a pena ficar a assistir aos créditos finais.

Sangue Frio de Patrick Mendes

E foi esta a curta vencedora… Consigo perceber o fascínio que terá exercido no júri. Uma fotografia cativante a revelar à partida uma história de grande potencial, mas a verdade é que a concretização ficou aquém da ideia. Observamos uma mulher a retirar um espantalho do seu pouso de madeira, deitá-lo, ao que depois retira um aparelho de transfusão de sangue e começa a bombear o seu sangue para o espantalho. Durante dez minutos só ouvimos o aparelho a bombar o sangue e, embora se possam achar múltiplos significados existencialistas nesses dez minutos, teria bastado reduzir em nove minutos a cena e teríamos uma curta menos secante e pretensiosa, e bem mais suportável.

E foram estes os filmes e curtas que quis destacar desta última edição do Motelx. Houve muito mais, mas não me foi possível assistir a tudo. Se quiserem espreitar as masterclasses de Stuart Gordon e John Landis podem fazê-lo através deste link e deste. Tanto Gordon como Landis são homens confiantes, seguros, carismáticos, donos de uma experiência e conhecimentos invejáveis. Vale a pena seguir as obras de ambos estes mestres de horror.

Já na sua 3ª edição, é interessante ver o festival Motelx a crescer em público e diversidade. No primeiro ano ainda era de tendências claramente góticas, mas rápido se tornou um dos festivais mais “in” de Lisboa e agora ninguém quer perder esta festa do terror que se realiza todos os anos em inícios de Setembro. Cá aguardamos pelo próximo ano com expectativa.

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