O Nome do Vento de Patrick Rothfuss

August 30, 2009 at 10:56 am (Livros/BD/revistas)

Nota: Para quem tenciona ler este livro, aviso que a crítica contém alguns spoilers, mas podem ser lidos os primeiros três parágrafos e o último.

Taborlin could see the sky and breathe the sweet spring air. He stepped to the edge, looked down, and without a second thought he stepped out into the open air. So Taborlin fell but he did not despair. For he knew the name of the wind and so the wind obeyed him.


Esta é apenas um dos mitos contados no mundo criado por Patrick Rothfuss no seu primeiro livro de fantasia, The Name of the Wind, o primeiro volume da Crónica do Regicida, que li em inglês. Muitas histórias são contadas em estalagens e aldeias, cidades e casas de nobres sobre grandes feitos em tempos onde a magia era poderosa. Transmitidas oralmente, tornam-se matéria de lendas, esquecida a verdadeira história, permanecendo apenas o poder da magia.

Há um amor pela arte de contar histórias presente no livro, a tal ponto que esse amor se irá tornar o centro nevrálgico que irá desencadear a inteira trilogia. A escrita está ao nível do melhor que se tem feito no género e estamos perante um autor que domina muito bem a linguagem, e claro que isso se torna essencial para obter uma fantasia verosímil, uma suspensão de descrença que nos permita ser envolvidos pela história.

Numa estalagem num fim do mundo, homens reúnem-se para contar os rumores de tempos negros e estradas assoladas por ladrões e criaturas demoníacas. Há um ouvinte atento a estas histórias, o estalajadeiro, um homem aparentemente inofensivo mas na verdade nenhum dos homens que bebe da sua cerveja desconfia que ele é uma das próprias lendas que é contada de casa em casa.

Kvothe é o seu verdadeiro nome e como ele próprio confessa I have stolen princesses back from sleeping barrow kings. I burned down the town of Trebon. I have spent the night with Felurian and left with both my sanity and my life. I have talked to Gods, loved women, and written songs that make the minstrels weep. My name is Kvothe. You may have heard of me.

Mas porque é que um homem de tal fama e proezas se esconderia como estalajadeiro num canto esquecido do mundo? Após alguns capítulos em que nada é revelado, eis que finalmente conhecemos a figura do cronista que, após ouvir alguns rumores, decidiu partir em busca de Kvothe para conhecer a verdadeira história da sua vida.

Mesmo perante a evidência de tempos conturbados, o cronista encontra milagrosamente (demasiado milagrosamente para o meu gosto) Kvothe uma noite na estrada e aí começa a relação entre o cronista e o mago que irá revelar toda a sua história em três dias.

O Nome do Vento relata apenas o primeiro dia, um dia em que iremos ouvir a narração de Kvothe acerca da sua infância como Edema Ruh, um povo versado nas artes performativas e que viajam de cidade em cidade apresentando peças de teatro ou participando em festivais, muito à semelhança das companhias teatrais isabelinas patrocinadas por um mecenas.

É um início muito auspicioso para a história de Kvothe, e sem dúvida uma das melhores partes do livro em que a criança muito inteligente e curiosa é iniciada nos segredos de magia através de um velho arcanista, ao mesmo tempo que desenvolve um amor por teatro, música e viagens.

Ao lermos as histórias contadas pelo arcanista ao rapaz, começamos a ter uma perspectiva mais abrangente do mundo de Rothfuss e é impossível não notar a profunda influência do universo de Earthsea de Ursula Le Guin. Tal como em Terramar, o poder reside no domínio dos nomes. Saber o nome do vento é conquistar a sua obediência, mas descobrir o nome das coisas é a mais difícil das artes embora Kvothe demonstre uma excepcional habilidade para o Arcanum mesmo em tenra idade.

Há uma clara vontade da parte do autor em mostrar-nos o mito em torno da figura de Kvothe, da mesma forma que Ged era um dos maiores arquimagos da história de Terramar. Mas Ursula Le Guin era excepcional no feito de contar a história de Ged desde a sua infância e adolescência até à idade adulta, revelando a sua faceta íntima, mas ao mesmo tempo preservando o mito. Mas não me quero antecipar em revelar aquele que foi um dos pontos negativos do livro para mim.

Após uma tragédia, Kvothe irá aprender da forma mais dura a sobreviver sozinho nas ruas da cidade como pedinte. São três anos da sua vida narrados em algum detalhe, mas que não deixam de ser interessantes de seguir, mais não seja pelos mitos contados sobre os Chandrian, figuras misteriosas demoníacas que se crê nunca terem existido…

Finalmente dá-se a entrada na Universidade, também um dos momentos mais fascinantes do livro e não pude deixar de reparar nas semelhanças em certos aspectos com a escola de feiticeiros de Ged em Terramar. A vida de Kvothe na Universidade irá dominar a segunda metade do livro. E aqui o autor começa a derrapar naquilo que até então tinha sido uma narrativa muito boa.

A aprendizagem na universidade está pejada de obstáculos e perigos: desde a rivalidade da parte de um herdeiro de uma casa nobre, passando pela extrema pobreza de Kvothe, tendo que inventar estratégias para pagar as propinas, até ao facto de o seu génio e talento lhe terem angariado uma reputação logo desde o primeiro dia de aulas que lhe trouxe inimizades, mas também fervorosa admiração.

Tudo contado em detalhe, extremo detalhe. Algumas partes alongam-se em demasia, outras são intensas e bem conseguidas como a cena em que Kvothe prova o seu talento musical com a flauta, mas no geral revela-se uma descrição demasiado imersa em pormenores que tornam Kvothe ordinário (por vezes simplório), arruinando um pouco do seu mito. Nunca senti nas aventuras de Ged em Earthsea que a personagem se tornara banal. Havia sempre algo profundo e intocável em Ged que permaneceu até à sua velhice, uma fonte de poder que o tornava inalcançável. Até mesmo na personagem de Raistlin do universo Dragonlance era possível sentir isso.

Mas Kvothe, que supostamente aprendera linguagens arcaicas em dois dias, não é mais do que um rapaz extremamente inteligente, imensamente ingénuo em relação a raparigas, e determinado a sobreviver e alcançar a verdade sobre os Chandrian.

E é com infelicidade que constatamos que Rothfuss tomou a decisão de relegar as grandes proezas de Kvothe para o segundo livro. A personagem avisou-nos desde o início que fora expulsa da Universidade, mas Rothfuss nem sequer conta o episódio da expulsão neste livro, optando por inserir capítulos desnecessários, aborrecidos e supérfluos sobre a luta de Kvothe com um dragão junto com a rapariga que ama, Denna. E assim termina o livro a saber a pouco, demasiado a pouco, depois de uma primeira metade tão auspiciosa. As últimas duzentas e cinquenta páginas são estranhamente as mais pobres do livro.

Terminamos o primeiro dia da crónica sabendo que Kvothe finalmente é aceite pelo Mestre dos Nomes para iniciar a sua aprendizagem na arte dos nomes.

Quanto às personagens secundárias, nenhuma se revelou grandemente inspiradora sendo Bast, o companheiro demónio de Kvothe, o mais intrigante de todos. Denna, a rapariga protagonista, nunca verdadeiramente empatiza com o leitor, tendo recebido uma descrição algo unidimensional. Nenhum dos seus motivos ou razão para as suas acções foi revelado; é uma rapariga bonita, cruel e selvagem e isso parece justificar tudo. Engraçado como todas as raparigas no livro de Rothfuss são bonitas.

Tenho que confessar que li o livro por curiosidade, uma vez que a editora Gailivro irá lançar a edição portuguesa em finais de Setembro. A recepção muito positiva que o livro tem tido levou-me a tentar descobrir se estava perante mais uma grande fantasia épica. E embora O Nome do Vento não tenha alcançado para mim a alta esfera onde se encontram as grandes obras de fantasia, é ainda assim um primeiro romance a transbordar de talento e aguardemos que o segundo livro revele as histórias favoritas de Kvothe. E esperemos que também se tornem as nossas histórias favoritas.

O segundo e terceiro livros ainda se encontram a ser escritos.

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24 Comments

  1. necrux said,

    muito bom o livro recomendo =]

  2. Prinny said,

    Muito Bom o livro, recomendadissimo.

  3. Jonathan de Oliveira said,

    Tambem recomendo pela questão do detalhismo e a questão de como há uma preocupação de mostrar fatos do mundo onde se passa a história, como fã de livros do genero recomendo.

    Abraços

  4. António Costa said,

    Gostei muito do livro e fiz esta pesquisa com ideia de encontrar o nome dos outros dois livros da trilogia.
    Pelo que li os livros ainda estão a ser escritos, é lógico que tenho que esperar. O livro é muito bom e recomendo-o com agrado.

  5. Marco said,

    O livro é bastante bom. Gostei! Concordo em tudo com o nosso amigo que fez a critica! Espero os proximos livros!

  6. Belaís said,

    Adorei completamente o livro, superou as minhas espectativas em relão ao seu conteúdo. Está divinamente interessante e realmente bom em termos de escrita e história. Recomendo a todas as classes numéricas este livro bafuloso e autêntico.
    Bom age a todos ^^

  7. Rusher said,

    Eu gostei do livro. Definitivamente superou minhas expectativas (estava esperando uma narração mais fantasiosa e pobre). Achei seu comentário sobre o livro bom, mas não concordo com você quando diz que foi ruim o autor ter reduzido a imagem do mito de Kvothe na sua narrativa. Eu achei que esta tinha sido a sua intenção, mostrar o mito e a realidade e mostrar o quando cada um difere ou se assemelha ao outro. E, realmente, a parte final do livro, sobre o foi no mínimo tediosa e não condiz com o resto do livro.

  8. Maria João said,

    Concordo com algumas partes da sua crítica e discordo noutras. Acho o livro muito bom de se ler, nada presunçoso e com uma história com tempero q.b. É importante mostrar que por trás da lenda do impressionante Kvothe, existe um jovem quase vulgar… não o achei simplório. Concordo com o facto de que as últimas duzentas e tal páginas são as mais fracas e nos deixam com um sabor de pouco… à espera de mais. E ainda bem que não sou a única a achar que o Bast tem interesse. Estou curiosa por saber como os dois se conheceram. Quanto à menina Denna… não me diz nada. Beijinhos. Maria João

  9. Pedro said,

    Livro muito bom… quem ler vai gostar

  10. chopper said,

    terminei o livro hoje, é muito bom.
    ele parece uma mistura de “senhor dos anéis” com “harry potter”.
    a narrativa não deixa nada a desejar e o modo como a história se passa na primeira pessoa permite ao autor descrever os pensamentos sempre interessantes de kvothe.
    porém admito que o início do livro (as primeiras vinte páginas) foram meio chatas e quase parei por causa delas, mas como não se pode julgar um livro pelo começo continuei lendo e não me arrependi.

  11. Paulo Romano said,

    Ainda não terminei, mas recomendo este livro. Muito bem escrito e ambientado. O problema mesmo é a espera pelo resto da trilogia :D

    Mas vale apena esperar!

  12. raquel said,

    terminei o livro hoje e ja queria recomeça-lo ou ler o segundo.o livro é muito bom eu particulamente recomendo a todos.o livro é muito bom pois ele fala tao detalhadamente que é como vc sentisse td o que ele sentiu visse oq ele viu é como se vc estivesse la mais ninguem podia te ver pois esse livre é ate capaz de te levar alem da imaginação e espero muitos livros desse autor para eu poder conhecer cada vez mais esses personagens.AMEI O LIVRO MT!!!S2!!estou esperando os outros anciosa!bjs

    • Ana said,

      Eu também acabei hoje o livro e estou triste por não poder começar logo a ler o próximo, e realmente é uma desilusão chegar ao fim e ter de ficar a secar durante quase um ano pelo próximo -.-
      Mesmo assim vou ficar á espera, triste, mas vou :(

  13. Ricardo said,

    sinceramente.. esse livro é otimo, nao é perfeito, pois o livro perfeito é aquele escrito por nos mesmo, ou seja, nao tem como satifazer a todos. porem eu gostei muito.. kvothe, narra sua historia mostrando como apenas era um genio, e a media que suas historias vao sendo contadas, ele vai se tornando lenda… por isso que as vezes ele parece “banal”

  14. pedro said,

    oi galera tambem ja li esse livro e na minha opiniao é um dos melhores. Eu encontrei um forum a respeito dessa serie: onomedovento.forumeiros.com
    Nao sei se é permitido fazer propaganda aqui. Se nao
    for peço perdao.

  15. Eduardo said,

    Gostei do começo, mas depois fica um pouco massante, não me levem a mal, mas fiquei muito entediado quando o livro começou a se focar em briguinhas de escola, achei que o nível desceu num nível muito juvenil (diferente do começo).

    Acho que os próximos serão melhores, mas além das minhas criticas, vale a pena ler.

  16. André Monteiro said,

    Só fica a pergunta … pra quando é o segundo livro ?

    .AND.

  17. Fábio Ventura said,

    Este foi sem dúvida o melhor livro que li até hoje.
    São precisamente esses pormenores, ou melhor, o “excesso” de detalhe, que dá intensidade ao livro. Eu não conseguia parar de ler o livro, ficava dias inteiros a lê-lo. Um livro intenso, misterioso, romântico e que vale a pena ler.

    Sem dúvida, um livro para a vida.

    Não posso esperar mais pelos 2.º e 3.º livros. :)

  18. Dant3X said,

    Não recomendo a ninguém. Todos esses elogios que vocês mencionam aqui não vi dentro da narrativa. Leitura chata, cansativa e entediante. Confesso que parei na metade do livro, porque já estava achando insuportável. Que protagonista mais irritante, putz.

    Não sei se é porque havia finalizado a obra de Eiji Yoshikawa ( Musashi ), e estava criando muitas espectativas em qualquer outro livro, esse O Nome do Vento é descartável. Quem estiver afim de ler, eu vendo baratinho.

  19. António Silva said,

    Muito bom! Adorei!

  20. henrique vieira de farias said,

    simplesmente adorei ja faz um tempo que li mas gostei muito e recomendo valeu um abraço

  21. Auri. said,

    Acabei de ler The wise man’s fear, ou O Temor do Sábio, como preferir.
    É nele que se percebe a maestria de Patrick Rothfuss, contando as principais aventuras do Kvothe. É de fato melhor do que o primeiro livro, mas há de se admitir que O nome do vento deixa muito livro no chinelo, e aliás, o achei muito superior a vários livros famosos do estilo.
    O principal objetivo do exemplar é a desmistificação da lenda Kvothe, então, é de se supor que mostre o lado mais humano dele. Qualquer um pode ser um herói, bastando ter inteligência e ser esforçado, algo assim. É isso que o livro transmite. Mesmo querendo que não idolatremos o Kvothe, de qualquer jeito, ele nos parece tão incrível – mesmo sendo um humano com erros como qualquer outro – que passamos a admirá-lo.
    Com certeza é o meu protagonista favorito, de todos os livros.
    O temor do sábio é aquele livro completo, perfeito, sem erros, que não te entedia em nenhum momento, e ao mesmo tempo te ensina coisas.
    Se você ler, vai ver como é difícil nao querer aprender a lingua dos ademriamos ou mesmo a Ketan, os truques de amor da Feluriana, a dominação de várias línguas e a arte ensinada na Ficiaria. É tentador e queria, pelo menos um minuto, vislumbrar esse mundo.

  22. Daniel said,

    Gostei muito do livro mas ainda é muito cheio de chichês e intrigas típicas de livros adolescentes. Algumas horas parece que ele é apenas uma releitura do Mago de Terramar . O livro tem grandes qualidades e defeitos, como seria de se esperar do primeiro livro de um autor, mas acho que Patrick Rothfuss tem tudo para se destacar entre os grandes autores da fantasia.

  23. Erica Serpa said,

    Ganhei o segundo livro de presente, e comprei o primeiro.
    Mal posso esperar pelo erceiro. Embora existam clichês , a forma com que eles são descritos dão ânimo à leitura, e à expectativa.

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