2666 ou o próximo Ulisses

August 20, 2009 at 9:20 pm (Livros/BD/revistas)

Este comentário de Eduardo Pitta sobre o livro 2666 vai de encontro ao que secretamente muitas alminhas pensarão. Em público, fica bem acompanhar as tendências da actualidade, mas quando se fala de um romance monumental como 2666, a pergunta a colocar é: seremos nós capazes de devotar tempo para ler uma obra de 1000 páginas só porque se fala bem dela e é consagrada entre a crítica? Muitos certamente o tentarão, mas quantos chegarão ao fim?

Para quem ainda não sabe, e estranharei certamente quem não saiba tanto que a blogosfera divulgou esta notícia, a editora Quetzal anunciou para Setembro a publicação da obra-prima póstuma do chileno Roberto Bolaño, intitulada 2666. Há já alguns anos que a obra de Bolaño alcançou estado de graça entre a crítica literária internacional e não serei eu a julgar o mérito ou desmérito dessa notoriedade, não tendo lido nenhum dos seus livros.

roberto_bolano

Roberto Bolaño

Mas a publicação de 2666 prevista para Setembro em Portugal, e anunciada com pompa, circunstância e reverência pela blogosfera portuguesa como a publicação do ano deixou-me, de certa forma, divertida. E isto porque, apesar das vozes entusiastas entre jornalistas, bloggers, críticos, interessados, sei que serão muito poucos os que lerão a obra monumental de Bolãno. Poderia dizer que o preço do livro deverá ser proibitivo para certas bolsas. Mas não é só isso.

O editor da Quetzal, Francisco José Viegas, comparou o livro com Ulisses de James Joyce, essa obra mítica e também grandiosa que fica muito bem em estantes de livros intocada ao longo dos anos… Fosse eu uma leitora menos formada e experiente, essa afirmação do Viegas ter-me-ia assustado tão só porque o Ulisses de James Joyce não é um livro para qualquer leitor. Simplesmente não é. Seja em tamanho, seja em conteúdo que requer persistência da parte do leitor.

Mas talvez a questão seja mesmo essa. A editora não pretende que 2666 seja para qualquer leitor. A escolha da Quetzal é certamente interessante para certos gostos mais requintados e com certas tendências intelectuais (afinal temos que estar a par do que se diz bem lá fora…), mas a julgar pela capa algo comercial e desinspirada, não sei dizer se conseguirão atingir o sonho de qualquer editor: ser um sucesso entre a crítica em paralelo com uma significativa adesão das massas que desejem ler o livro. Desejem ler, logo, comprar.

Eu sei que muitos são os que compraram Ulisses, considerado um dos melhores romances do séc. XX, mas quem terá lido essa história que narra um único dia na vida de várias personagens na cidade de Dublin? É bom? Não há qualquer dúvida sobre a sua excelência. Mas é chato? Certamente que é. Só tenho pena que 2666 vá cair inevitavelmente na armadilha dos lugares-comuns que são ditos sobre magníficas obras de 1000 páginas sem, no entanto, ter um público que verdadeiramente o aprecie.

Pensando bem, talvez Francisco José Viegas tenha razão em comparar o 2666 ao Ulisses. 2666 poderá vir a ser o próximo livro a integrar a lista dos mais populares e menos lidos entre os leitores. E isso certamente que não é mau em termos de vendas.

10 Comments

  1. canochinha said,

    Reflexão interessante.
    Tenho acompanhado a divulgação deste livro pela blogosfera fora e também me parece que não estamos perante um livro que vá vender muito. Não por causa da qualidade (a atestar pelas opiniões, porque também não li nada do autor), mas porque se está precisamente a posicionar, pela divulgação feita, como um livro para “elites intelectuais”. Como não me revejo nesse grupo, confesso que tenho pouca vontade de pegar num livro deste género. Pelo menos por enquanto.

  2. Rui Baptista said,

    É verdade que fiquei com muita vontade de ler este livro, muito por culpa das boas opiniões que surgiram na blogosfera portuguesa. Claro que, opiniões de quem muito provavelmente não leu ainda o livro. E muito provavelmente irá ler sequer metade.

    Continuo com vontade de o ler, mas também tenho plena consciência que 1100 páginas num romance que poderá nem ser bem o meu género, é extremamente assustador. E investir num livro que depois vai ficar a enfeitar na prateleira, não, não vale a pena.

    Por outras palavras, este é um livro que dificilmente vou ler, mas de certeza que não vou comprar.

  3. Menphis said,

    É sem dúvida uma reflexão bastante interessante.
    Acabo de ler uma obra de Bolaño, e só posso dizer que “2666” será um livro que não vou perder. Se o vou comprar agora, no próximo ano ou daqui a 2 anos quando o livro estiver a um bom preço não sei. Sei que irá ser uma luta intensa, embora não me assuste, devido ás 1300 páginas mas o livro é constituído, segundo sei, por 5 partes distintas entre si, por isso posso sempre ler uma de cada vez e, entre os capítulos ler um outro livro para “desenjoar”. O que me assustará vai ser mesmo o preço, mas contudo, primeiro quero ler ” Detectives Selvagens”

    • Menphis said,

      Nem de propósito, acabo de ler um post do Senhor Palomar que diz isto:

      “O entusiasmo, diga-se, está mais relacionado com a boa experiência por outros livros do autor, do que pela leitura deste monumental / magistral / inigualável 2666 (é escolher o melhor atributo, se faz favor).”

      ou seja, faço das palavras dele as minhas,( ele não leu o ” 2666″) porque assim como tenho lá em casa alguns livros que ainda não os li por serem densos e não ter a disposição mental para eles, o ” 2666″ vai acontecer o mesmo, um dia acabarei por lê-lo, até porque adorei o outro livro que li dele.

  4. David Soares said,

    Olá, Safaa.

    Fiz uma reflexão semelhante no meu weblog, aquando da publicação de “As Benevolentes”, mas o livro de Littell, ao contrário do “2666”, não colheu opiniões consensuais entre a crítica especializada – tanto cá, como lá fora.

    Penso que os livros ditos muito grandes têm, infelizmente, os dias contados, porque pouquíssimos leitores têm tempo, vontade ou bagagem cultural para os conseguir ler. Entra aqui outra faculdade importantíssima para a leitura e que é a memória: hoje lê-se com pouca memória e isso é essencial para sustentar a leitura de textos grandes.

    No que me diz respeito, gosto de livros grandes e da sensação de abandono que o final da leitura me provoca: sinto-me como se tivesse regressado a casa, após uma longa viagem, e as coisas não se encontram no mesmo sítio. É estranho, mas é bom. Às vezes, as sensações desconfortáveis fazem muita falta.
    Tenho curiosidade em ler o “2666”, mas acho que vou ler a tradução inglesa. Digo isto porque, fazendo mais outra comparação com o “Ulysses”, li esse título em português (há muitos anos) e, apesar de ter gostado bastante, fiquei com a impressão que haviam ali escolhas algo duvidosas. Mais tarde li o “Finnegans Wake” em inglês e percebi que uma releitura do “Ulysses”, na língua original, era uma boa ideia.

    Não li o “Finnegans Wake” de seguida, nem sequer do princípio para o fim. Fui lendo aos pedaços e não me fez confusão nenhuma. Acho que é daqueles livros que têm de ser abordados com o espírito certo, seja lá isso o que for. Para mim é não abordar o livro como se fosse um cristal da Swarovski: ou seja, temos de agarrá-lo à bruta, enfiar-lhe o nariz adentro e avançar sem preconceitos ou medos. O “Ulysses”, esse li-o do início para o fim, e também não achei que fosse nada de meter medo. Sinceramente, acho que, às vezes, quem diz que livro X ou livro K são complicados é quem não os leu ou quem nem sequer os quer ler.

    Mas acho fantástico que livros como o “2666” sejam publicados nestes tempos do sintético e do instantâneo. Talvez uma forma de influenciar as pessoas a lê-los seja dizer-lhes que são anuários da Twitter: assim, se elas observarem os milhares de páginas como sendo uma sucessão de vários ‘quanta’ de 140 caracteres ainda serão capazes de se esforçar e retirar algum prazer do acto da leitura.

    Abraço.
    David Soares

  5. Safaa Dib said,

    Canochinha,

    Muitas pessoas irão certamente pensar como tu em relação a este livro, o que é pena, porque não é um livro que deva ser vendido para uma certa elite. Nenhum bom livro devia ser exclusivo de um certo grupo.

    Menphis,

    As críticas aos livros do Bolaño são sempre muito boas, e acredito que haja muitos leitores genuinamente interessados em adquirir e ler essa obra. Não ponho isso em causa. Mas algo me diz que alguns comentários da blogosfera cheiram a insinceridade e oportunismo na medida em que só desejam falar bem de um livro que está em estado de graça entre a crítica.

    Olá David,
    A edição inglesa do 2666 está disponível na FNAC e, no entanto, apesar de todos os elogios da crítica tenho que ser realista: não tenho a disposição mental para comprá-lo e lê-lo. Entre os meus 16 e 20 anos teria sido certamente diferente, mas não agora em que o meu tempo de leitura é mais limitado. Já gostei mais de ler livros extensos e difíceis, mas agora tenho dificuldade em dedicar-lhes o devido tempo.

    E depois os meus próprios gostos pessoais levam-me inevitavelmente a enveredar quase sempre pela literatura fantástica que considero muito mais aliciante, e a qual curiosamente nunca tive medo em ler sucessivos calhamaços de 1000 páginas. Afinal li os 10 livros do Robert Jordan em 1 ano…

  6. claudia oliveira said,

    Olá,

    acho este texto mto interessante. Tenho pena que assim seja e um livro enormeeeeee deixe de chamar tanta atenção. Talvez por isso, o Miguel e o Teu Deserto tenha vendido tanto.

  7. armando sousa said,

    O “Ulisses” consegui-o ler ao fim da sexta ou sétima tentativa e acho que ainda falta uma boa tradução para o português desta obra. Mas ter tentado, por diversas vezes, ler o livro sem o conseguir, acabou por ser gratificante. É na realidade um grande livro mas na minha opinião muito longe daquilo que eu considero um dos melhores livros da minha vida.
    Em relação a Roberto Bolanõ, li dois dos três livros editados em Portugal até ao momento e o grande mérito dele é escrever quase tão bem como Jorge Luís Borges, mas não ser preguiçoso.
    O Borges dizia e estou a citar de cor, para quê escrever grandes livros se se podia escrever em poucas palavras. Vem daí a sua especialidade de escrever fabulosos e extraordinários contos. Para mim Bolaño é um “Borges” mas no formato de romance.
    Vou comprar e ler imediatamente o livro “2666” quando sair mesmo que tenha, certamente, de pagar um preço exorbitante.
    O seu texto é claro, pertinente e excelente.

  8. Introdução à leitura de “2666″, de Roberto Bolaño – Milton Ribeiro said,

    […] lusitana, parece haver autêntica expectativa, debate, existem tentativas talvez exageradas de arranjar-lhe um bom lugar na história da literatura, divulga-se opiniões de gente que leu (por mais amalucadas que sejam) e a cultura parece ser até […]

  9. said,

    Boa tarde,

    Eu li o 2666, é verdade que demorei mais tempo que o habitual, demorei um mês. É verdade que não dá muito “jeito” carregar um livro tão grande, mas fi-lo durante todo o tempo em que o andei a ler, com muito gosto.

    Gostei muito do livro e não achei aborrecido, provavelmente já não pensaria o mesmo de Ulisses, que nunca tentei ler.

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