Receita de galinha com sabor a Irão

August 18, 2009 at 9:42 pm (Livros/BD/revistas)

Na sua última obra numa carreira já consagrada, Chicken with Plums (Poulet aux Prunes), Marjane Satrapi oferece-nos uma obra que herda as características tão singulares dos seus livros anteriores, a saber, um sentido de humor mordaz e a capacidade de expor um retrato a preto e branco com um traço incisivo, qual Eça, de uma sociedade que atravessa décadas de história política conturbada, com costumes e tradições únicos em todo o mundo.

Os iranianos são um dos povos mais duros e extraordinários que já me foi dado conhecer. No meu primeiro emprego convivi durante dois anos com a cultura iraniana que descobri ter muito pouco de comum com a cultura árabe. Até em coisas que pensava que conhecia, como a religião do Islão, descobri que o Irão vive o xiismo de formas que nenhum muçulmano aceitaria. Mas mais do que a questão religiosa, vivem num mundo ditado pelos seus próprios calendários, nomes de meses, feriados, e o ritmo de vida de um iraniano raramente será entendido por alguém de fora da cultura.

Dotados de uma incrível resiliência, a espinha dorsal dos iranianos raramente se quebra, forçados a lidar constantemente com a adversidade. Mas é curioso que Satrapi queira contar precisamente a história de um músico iraniano que deseja morrer, facto invulgar numa região onde os homens raramente se dão ao luxo de baixarem os braços e deixarem-se esmagar sob o peso das circunstâncias.

Mas a verdade é que Ali Nasser Khan, grande músico e tocador do instrumento tar, não deseja mais viver após o seu instrumento favorito ter sido quebrado. A história começa com as suas tentativas sucessivas de encontrar um substituto adequado ao seu muito amado instrumento, mas as lágrimas correm pelas suas faces ao ouvir as notas dissonantes de reles tares incapazes de transmitir a verdadeira música da sua alma.

Finda a música do tar, é como se tivesse findado a razão de viver de Ali Nasser Khan, um homem casado e pai de quatro filhos, infeliz no casamento e na vida. Ao contrário de Persepolis em que os acontecimentos históricos e políticos influenciam profundamente o rumo de vida da protagonista, para Nasser Ali Khan o mundo é como se tivesse cessado de existir. Sabemos que a história ocorre em Teerão em 1958, num tempo em que o primeiro-ministro Mossadegh perdeu o poder com um golpe de estado que deu lugar ao Xá da Pérsia (apoiado pelos EUA e Reino Unido). Mas isso é apenas uma nota de rodapé na vida de Nasser Ali Khan. O tar era tudo o que importava e a sua fonte de prazer.

Decidido a morrer, a autora revela-nos que a 22 de Novembro de 1958, oito dias depois de tomar a sua decisão em deixar de viver, foi enterrado no cemitério com a presença da família e amigos em luto.

E nas páginas seguintes passará a desenrolar-se a narração memorável dos oito dias finais na vida de Nasser Ali Khan em que se recordam os momentos mais importantes da sua vida; a sua relação com a mulher e os filhos, a sua juventude e paixão por uma mulher que não se concretizou, a sua mãe, figura tutelar na sua vida, até por fim ser visitado por Azrael, o anjo da morte, que lhe recorda a efemeridade da vida através de versos do poeta Khayyam.

Apenas Satrapi sabe transmitir a terrível emoção presente na vida das suas personagens, emoções dilacerantes como as que me fizeram chorar nos momentos finais do filme de Persepolis (tão curioso que as duas melhores animações que vi nos últimos anos sejam uma israelita e outra iraniana), emoções subtis mas impossíveis de esquecer como o momento em que Satrapi descreve como a primeira amada de Nasser Ali Khan não o reconhece muitos anos depois num encontro ocasional na rua para depois revelar ao leitor que nunca o esquecera e ainda o chorava…

Os leitores gostarão de ler a obra de Satrapi mais não seja para terem acesso a uma cultura extraordinária, mas inteiramente desconhecida. Galinha com ameixas é um prato tradicional iraniano e o favorito do protagonista. Por breves momentos, Ali Khan esquece-se do seu desejo de morte e é tentado de volta à vida pelo sabor da ameixa (será uma homenagem ao filme O Sabor da Cereja de Kiarostami?), mas declara por fim que perdeu a capacidade de saborear e apreciar.

Assim termina a vida de um homem insatisfeito que não foi capaz de viver em pleno, submisso a um profundo sentimento de que a sua alma ferida encontrou apenas conforto na música que expressou toda a dimensão da sua perda e tristeza. Citando os versos do poeta persa Rumi do poema Gone to the Unseen:

At last you have departed and gone to the Unseen.
What marvelous route did you take from this world?

Beating your wings and feathers,
you broke free from this cage.
Rising up to the sky
you attained the world of the soul.

[…]

Now the words are over
and the pain they bring is gone.
Now you have gone to rest
in the arms of the Beloved.

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