Crime e Castigo

August 2, 2009 at 5:29 pm (Livros/BD/revistas)

As edições Relógio d’Água anunciam uma nova edição do clássico de literatura russa Crime e Castigo de Fiódor Dostoievski, numa tradução do russo por António Pescada. Não será a primeira tendo a 1ª edição portuguesa traduzida do russo surgido sob alçada da Editorial Presença (tradução de Nina e Filipe Guerra).

Embora tenha lido a obra pela primeira vez na língua inglesa, seria interessante proceder a uma nova leitura tão só porque algumas traduções em línguas europeias terão romantizado ou suavizado a aspereza e crueza do russo de Dostoievski. E porque se trata de uma das obras cimeiras da literatura mundial? O texto de apresentação revela uma história aparentemente simples.

Raskólnikov, um estudante pobre e desesperado, vagueia pelos bairros degradados de São Petersburgo e comete um assassínio. A vítima é uma velha usurária. Raskólnikov imagina-se um grande homem, agindo por uma causa que está para além das convenções da lei moral e o coloca acima do comum dos mortais.

Crime e Castigo

A acção não é movida apenas por miséria ou extrema necessidade, mas por uma intensa crença de que o acto do crime o irá colocar acima de qualquer princípio moral que possa imperar na sociedade. Raskólnikov deseja pertencer ao panteão exclusivo dos homens que não tremem perante as consequências morais dos seus actos, mesmo que possam semear tragédia.

Mas o crime persegue-o e abala a essência do seu ser. Grande parte do romance trata-se do dilema psicológico que a personagem tem que enfrentar. Ele afunda-se num crescente desespero, exacerbado pela miséria a que assiste nas ruas de São Petersburgo. Através de Sónia, uma prostituta, conhece algum alívio espiritual e a fé da rapariga poderá trazer-lhe eventualmente salvação, mas apenas se Ráskol der o passo final para o abismo, a confissão.

Não é fácil acompanhar a mente distorcida do estudante durante as páginas de Crime e Castigo, mas o leitor não consegue recusar ver a humanidade e os males que a corroem. Somos inteiramente absorvidos e exauridos das nossas forças pela caminhada de Raskólnikov em direcção às trevas e das trevas para a luz.  Assusta-nos a solidão, a miséria, a falta de esperança que mina todas as acções de personagens destituídas, corrompidas pelos vícios de uma sociedade cruel, como o jogo, alcoolismo e o crime. Mas nem tudo são trevas. A história de Raskólnikov ensina-nos que apenas através do sofrimento pode o homem alcançar a redenção. Apenas quando os pés tiverem tocado o fundo do abismo, pode o medo e a fé e a crença em amor salvar um homem e guiá-lo de novo em direcção à vida.

Raskólnikov poderá não ser Napoleão, um homem para além de qualquer compromisso moral, mas representará melhor do que qualquer outro as limitações e imperfeições que assolam o ser humano. Apenas profetas e loucos poderão atingir a transcendência e Raskólnikov nem é profeta, nem louco o suficiente para renegar tudo o que aprendeu.

Leiam o livro, mas apenas se tiverem a coragem para acompanhar a jornada de Raskól. Nem todos são capazes como Dostoievski de pôr a nu a alma e enfrentar os terríveis segredos que lá se ocultam.

1 Comment

  1. Francisco Norega said,

    Olá safaa!

    Tenho uma grande confiança nos clássicos editados pela Relógio d’Água, desde que li o Moby Dick. Uma excelente obra com uma tradução muito competente e uma edição irrepreensível.

    Como dizia, tenho uma grande confiança na Relógios d’Água e, depois da crítica que fizeste ao livro, fiquei ainda mais curioso. Uma obra a ler num futuro próximo, se tudo correr bem🙂

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