Lex Talionis
Eu sou a eterna optimista, embora grande parte das pessoas com quem me relacione não o sejam muito. Eu sou a optimista que acredita que com trabalho duro e dedicação as pessoas certas conseguem chamar a atenção e ultrapassar o mediano ou o medíocre que ultimamente parece imperar em todo o lado.
Mas a optimista em mim não se deixa enganar. Há uma parte de mim que se queda a observar e nota que a evolução é uma coisa ilusória e que os progressos que se pensava terem sido feitos, parecem na maioria das vezes embater numa parede ou cair em saco roto. Mas chega de abstracções e passemos a coisas mais concretas.
Estou de volta à actividade neste blogue (e pretendo mantê-la a um ritmo mais regular, embora já tenha tentado anteriormente) e a razão que me fez de novo escrever tem a ver com uma série de reflexões que têm circulado em vários blogues sobre um tema que me é caro no qual me envolvi bastante: o fantástico em Portugal. Muito se falou nestas últimas semanas, por vezes num tom bastante azedo, e segui atentamente tudo o que foi escrito.
O meu amor por livros, especialmente os de literatura fantástica, é o fio condutor que alimentou todo o meu trabalho, mesmo quando eu não suspeitava dos frutos que iria colher. As coisas que faço por amor, como diria Jaime Lannister, a minha personagem favorita em As Crónicas de Gelo e Fogo. Ele fez coisas hediondas, mas eu prefiro pensar que dei o meu contributo para a divulgação dessa literatura e uma maior consciencialização do potencial do fantástico em Portugal. Gosto de pensar que dei toda a minha alma e empenho enquanto os projectos me interessaram e enquanto acreditei neles.
Em 2006, escrevi um post sobre a situação da fantasia e ficção científica em Portugal e agora a relê-lo penso como está tão incrivelmente datado e incompleto. Detecto naquele post um certo tom, lá está, optimista. Mas com os anos eu sei que esse optimismo converteu-se num certo azedume e impaciência, e as pessoas que melhor se dão comigo o terão detectado.
Houve os grupos de discussão de Tolkien, os sci-freaks, os filhos de Athena, os 1ºs Encontros Literários, a Épica, o Fórum Fantástico, os trabalhos freelancers para a Saída de Emergência. Ultimamente esse papel de divulgadora, moderadora e organizadora tem estado um pouco mais apagado porque, simplesmente, desenvolvo hoje um trabalho em prol do género a um nível muito mais profissional e sério.
O que era uma brincadeira, uma actividade de tempos livres, um passatempo, um projecto para me manter sã, rouba-me agora quase todo meu tempo e energias. Trabalhar como assistente editorial no Grupo Saída de Emergência abriu-me os olhos para a realidade do lado de quem faz os livros e de quem os vende. E acreditem que é uma perspectiva inteiramente diferente. Pensamos que sabemos coisas como tradutores, autores, revisores ou por conversas com editores em feiras do livro, mas na verdade o mundo da edição é aquele que determina as tendências, que pode quebrar ou elevar um bom escritor, que pode abrir portas ou fechá-las irremediavelmente. Muitos podem invejar o poder do editor, mas é um poder que não está isento de regras e limitações. Raro é o editor que se dá ao luxo publicar aquilo que os seus gostos ditam. Esqueçam essa ideia, porque não é verdadeira. Prometo escrever um post mais detalhado sobre edição de literatura fantástica em Portugal, mas agora o assunto é outro.
Porque falo deste trabalho agora? Porque permite-me ter uma noção mais clara do que tinha em 2006 do que realmente se passa no mundo da literatura fantástica em Portugal. Recentemente, o Luís Rodrigues foi convidado pela Sf Signal para escrever um texto sobre a situação do fantástico em Portugal. Ora eu conheço o Luís há anos e sei bem qual a opinião dele, que não me surpreendeu minimamente. É uma opinião informada e sei que o Luís acompanha bem as coisas que se têm feito em Portugal (e muitos não saberão do seu contributo insuspeito e não reconhecido para muitas iniciativas importantes). O problema do Luís é o problema que houve desde sempre: é por vezes demasiado hostil e ácido na forma como entra em discussões. A atitude dele torna-se problemática para muitas pessoas que se revoltam com a sua abordagem da questão.
Na caixa de comentários do blogue do Correio Fantástico, assim como na Sf Signal, surgiram as reacções ao texto do Luís que só me surpreenderam numa coisa: era o mesmo tipo de reacção azeda e exacerbada que testemunhava em fóruns há muitos anos. Pensei eu “mas ainda estamos nisto depois de tantos anos? Ainda esta celeuma e despeito todo?” Deixem-me explicar o principal motivo da reacção: o Luís Rodrigues é um alvo suspeitíssimo, um membro há muitos anos do mítico e famigerado fandom nacional.
Não é nenhum segredo de que existe um grupo de pessoas que há anos tem-se mostrado activo, em maior ou menor grau, na divulgação do género. E também não é nenhum segredo que o convívio regular com os principais protagonistas deste grupo deu-me a conhecer muitos defeitos, virtudes, episódios lamentáveis, outros memoráveis, mas absorvi tudo e aprendi a interagir de acordo com a personalidade de cada figura.
A maioria tem opiniões muito fortes sobre o estado da nação, alguns dirão que são os eternos pessimistas que professam que nada com a etiqueta nacional merece considerações. A maioria dos membros do chamado fandom desenvolvem um trabalho já reconhecido na área e são as suas opiniões que são normalmente ouvidas pelos meios de comunicação social ou outros eventos quando é preciso uma voz que saiba do que está a falar.
E depois há a ideia que a maioria dessas pessoas tem de que o fandom despreza a fantasia inspirada em Tolkien, a que se chama vulgarmente de fantasia épica derivativa que, como se sabe, foi a fantasia que mais vingou em Portugal nos últimos anos. Mas há que colocar aqui uma questão importante: o fandom critica negativamente a fantasia inspirada em Tolkien por ser uma mera cópia ou porque é má? Porque se criticam por ser meramente uma cópia, então eu sou obrigada a divergir deles.
Conheço imensas fantasias derivativas que hoje são consideradas clássicos ou obras bem amadas.
Uma das primeiras obras de Guy Gavriel Kay, A Tapeçaria de Fionavar, é abundantemente inspirada em Tolkien, tendo sido escrita no seguimento do seu trabalho de edição do Silmarillion juntamente com Christopher Tolkien. E apesar de um início fraco e tremido, Kay vai conquistando uma voz cada vez mais segura, lírica e emocional que o tornou famoso em obras posteriores. Também posso dar o exemplo de Terry Brooks na série Shannara. The Sword of Shannara acaba por ser um simples remastigar do enredo do Senhor dos Anéis mas isso não impediu que o livro conquistasse milhares de fãs porque de facto tem algumas qualidades.
E o mesmo poderia dizer dos livros Dragonlance escritos por Margaret Weiss e Tracy Hickman, dois escritores que fizeram as delícias de milhares de jovens com histórias e aventuras bem escritas de grande carga emocional e personagens que acabaram por se tornar lendárias.
E não posso deixar de mencionar o David Gemmell, um grande autor de fantasia cujos mundos se inspiram fortemente nos clichés de fantasia épica, mas isso não o impediu de criar histórias memoráveis. E depois poderia destacar o caso de Poul Anderson em The Broken Sword que não só respeitou as convenções do género, mas ainda o levou mais longe.
Já tive a oportunidade de ler inúmeros manuscritos, contos, excertos e obras publicadas por portugueses que se poderiam incluir em fantasia épica. Não posso dizer que tenha encontrado uma obra ou texto que me tenha satisfeito plenamente e que me tenha enchido as medidas, mas vi potencial em algumas, um potencial que muitas vezes andava de mãos dadas com algumas falhas sérias a nível de construção narrativa, enredo ou situações risíveis e ridículas em que as personagens são colocadas. Tudo facilmente emendado, creio, com trabalho rigoroso e disciplina, empenho e dedicação. Mas aqui há um aspecto que não posso deixar de abordar.
É imperativo que acabe uma certa mentalidade que existe em Portugal de que o livro, apenas porque é publicado, é obra de um génio. E o que é pior: Ao constatarem que o livro não tem o sucesso desejado ou não atingiu as estantes de livrarias no país inteiro, consideram que o livro é obra de um génio incompreendido, e vai daí a lamúrias e protestos que não dignificam muito o autor. Ainda poderia falar do caso dos autores que julgam que o manuscrito não precisa de nenhum trabalho de edição, mas isso é assunto para outros posts, até que porque faz falta um verdadeiro trabalho de edição em Portugal. Eu não quero ofender ninguém com esta afirmação, mas compreendam que publicar um livro em Portugal não é sinónimo de se ser escritor. Eu não sou obrigada a reconhecer uma pessoa como escritor apenas porque publicou obras, seja numa grande casa editorial ou numa vanity-press. E nem o Luís Rodrigues é obrigado a reconhecer o trabalho de muitos jovens autores apenas porque foram publicados e venderam e têm fãs. Se o Luís leu esses livros e considerou-os que não deviam ser mencionados no seu texto, é porque a sua consciência assim o ditou. Podia tê-lo mencionado por respeito a essas obras, mas não há nenhuma lei que o obrigue a tal.
Durante anos assumi uma posição moderada, juntamente com o Rogério Ribeiro, uma posição que medeia entre a inflexibilidade do fandom e uma maior abertura e desejo de contar histórias de muitas pessoas que fomos conhecendo graças ao fórum fantástico e outros. No último ano ou dois, muitos poucos sabem que eu e o Rogério começámos a divergir cada vez mais sobre o conteúdo do evento. O Rogério defendia que, independentemente das qualidades da obra apresentada, devíamos dar-lhe lugar no evento, mesmo tendo nós consciência das suas limitações. Eu defendia que, precisamente por não estarem a um nível minímo desejado, deviam ser excluídas de apresentação. Eu acreditava que por maiores que fossem as boas intenções do Rogério em apresentar a obra e apontar ao autor a necessidade de melhorias, achava que o evento estaria conotado com um nível de mediocridade que a minha consciência recusava-se a divulgar. Felizmente, chegámos a um consenso em grande parte das vezes, houve vários que não foram convidados, houve outros que aceitaram o convite. Mas o que importa é que a lógica do Rogério sempre imperou no Fórum, que foi a de permitir divulgar tudo o que era feito em Portugal, seja por membros do fandom, seja por pessoas que nunca se envolveram em grupos, facções, etc.
A atitude é a falha principal no meio. A atitude daqueles que se mostram intransigentes nos seus standards. A atitude daqueles que se ressentem com a rejeição e falta de apreciação pelos seus esforços e optam por enveredar por vezes pelo mesmo desrespeito de que os primeiros são acusados. A atitude dos invejosos que querem nada mais do que destruir o mérito do trabalho dos outros. A atitude daqueles que se julgam salvadores da pátria, mas não lhes reconheço as qualidades para salvarem coisa alguma.
E deixem-me que vos diga. Por mais defeitos que tenha o fandom, há algo em que geralmente não falham. Marcam presença nos lançamentos, estão sempre disponíveis em contribuições e sugestões para o Fórum Fantástico, estão lá sempre quando é preciso guiar autores estrangeiros em Portugal, compram os livros, divulgam-nos à sua maneira. Recentemente, foi lançada a antologia COM A CABEÇA NA LUA, que foi provavelmente o evento do ano em ficção científica em Portugal, e constatei, desiludida, que só as habituais caras do fandom tinham marcado presença no lançamento. Onde as novas caras? Onde os leitores ávidos? Onde os bloggers entusiastas (À excepção da Cristina Alves, editora do Rascunhos, que tem sido exemplar e quem me dera que houvesse mais 500 como a Cristina)? Onde os editores de e-zines de fantástico? Em lado nenhum!
Assim não é possível fazer crescer o género fantástico em Portugal.
Mas voltando à literatura em si, e deixando as atitudes de lado, se os autores que temos não querem seguir as pisadas de Jack Vance, Michael Moorcock, Gene Wolfe ou Stephen R. Donaldson, devemos ignorá-los por isso? Ou devemos construir pontes que lhes façam abrir os olhos para toda a diversidade que existe na literatura fantástica?
E agora pergunto para o lado dos jovens leitores e autores que tanto criticam o fandom: Querem alguém que fale sempre bem dos vossos textos e digam que são a figura mais influente e talentosa dos últimos tempos? Querem apenas elogios? Querem alguém que aceite tudo o que publicam sem um olhar crítico que aponte uma ou outra falha? Eu suspeitaria imenso do editor que me propusesse a publicação de um manuscrito meu sem que me desse uma opinião fundamentada e esclarecida, a opinião de alguém que já adquiriu a experiência e conhecimentos suficientes para saber se valho a pena ou não como escritora.
Mas se há uma coisa que mudou para melhor desde 2006 é que temos muitos mais leitores do que há cinco anos. Leitores que não se ficaram por J. K. Rowling e Harry Potter, mas procuraram mais e mais e tornaram-se exigentes. É o sinal mais positivo que encontrei nos últimos tempos. Eu vejo no fórum Bang! a quantidade de fãs que devoram a colecção e anseiam pelo próximo título de Moorcock, George R. R. Martin, Dan Simmons, Richard Morgan e outros. Eu leio as sugestões que fazem e espanto-me e fico contente porque demonstram um nível já bastante superior que era praticamente inexistente em Portugal há uns anos. A facilidade de compras na Internet também ajudou bastante a este fenómeno, assim como a facilidade de encontrar o melhor que se tem feito através de word of mouth na Internet.
Será sonhar muito a ideia de que talvez alguns destes leitores revelem no futuro uma escrita capaz de fazer o Luís Rodrigues mencioná-los com orgulho na SF Signal?
Confesso que ainda não vi um escritor português de fantasia que me tivesse impressionado, e disse-o no twitter, ao que me foi perguntado: “Mas não serás tu difícil de impressionar?” A pergunta é perigosa porque evidencia uma linha de pensamento de que eu devia baixar os meus padrões de exigência para tornar assim mais fácil a aceitação de novos autores. Quando começo a ler um novo texto, não estou à espera de ver o próximo George R. R. Martin, apenas algo que eu goste de ler, que me emocione, que me faça virar a página com entusiasmo, que me faça entrar no maravilho mundo da suspensão de descrença, porque eu quero mesmo acreditar. Mas se o português nao for bom o suficiente, se os diálogos não soarem naturais o suficiente, se o enredo for aborrecido ou mal feito, não posso acreditar.
Algumas pessoas sugeriram à própria SdE que incentive workshops de escrita criativa, mas a SdE é uma empresa, embora se faça muito ali por amor à camisola. É a outros que cabe a organização de workshops; a edição de revistas, seja em papel ou online; a organização de encontros e tertúlias; a procura de colaboradores dispostos a contribuir diariamente com textos e novidades. Passei por tudo isso, mas o que se tem feito mesmo assim não é suficiente enquanto não houver mais colaboradores, mais união no meio, menos suspeita e indiferença, mais vontade em ensinar e aprender, em dar e receber.
Tem que acabar a política azeda de retribuição que impera no meio da literatura fantástica em Portugal, a de olho por olho, dente por dente, que eu diria que é um passatempo favorito de certas pessoas. A ideia é discutir, mas não pôr no lugar. A ideia é sugerir, mas não denegrir ou rebaixar. A ideia é aceitar, e não ignorar. A ideia é construir e fazer crescer, e não destruir com ódio, dor de cotovelo, inveja, incompreensão, falta de comunicação, uma terrível e estúpida e dispensável falta de comunicação.





