If…

March 29, 2009 at 7:40 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

The thing I hate about you, Rowntree, is the way you give Coca-Cola to your scum, and your best teddy bear to Oxfam, and expect us to lick your frigid fingers for the rest of your frigid life.

Se há um filme que deve ser relembrado e salvo do baú do esquecimento é If… de Lindsay Anderson. Uma pessoa jamais se esquece do fulgurante papel de Malcolm McDowell como Mick Travis, o estudante insurgente que irá declamar tiradas poéticas a favor da violência e revolução.

A citação acima é retirada de uma cena particularmente sublime em que Travis desafia frontalmente as pessoas responsáveis pelo seu sofrimento, sem medo, apenas a coragem dos rebeldes.

Muitos não saberão que If… é o primeiro filme de Malcolm McDowell, lançando-o para a fama no Reino Unido e chamando a atenção do realizador Stanley Kubrick que acabaria por escolhê-lo para o infame papel de Alex DeLarge em Clockwork Orange. Embora ambos os filmes tenham protagonistas semelhantes que lutam contra o establishment, o estudante que incita à revolta em If… está longe da psicose que invade cada canto da mente perversa de Alex deLarge. O estudante é de natureza idealista, arrogante, seguro, confiante nas suas capacidades e ciente de que estão a ser completamente desperdiçadas no ambiente enclausurado e rigído da escola privada  inglesa.

Malcolm McDowell em  If... de Lindsay Andersin (1968)

Malcolm McDowell em If... de Lindsay Anderson (1968)

É um filme notável, cheio de cenas inesquecíveis, que tive a oportunidade de ver pela primeira vez na Cinemateca Portuguesa em 2008. A história é aparentemente simples. Numa escola privada no Reino Unido, os alunos são ensinados a conformarem-se aos seus superiores e a nunca desafiarem a autoridade da direcção ou dos estudantes mais velhos que controlam os alunos.

Neste cenário tão tipicamente Eton, surge no início do filme um jovem qual Guy Fawkes a esconder com a sua capa um bigode rebelde. Mick, juntamente com dois amigos, é o eterno insubmisso que se aliará a favor dos oprimidos contra a injustiça. Mas não é assim tão simples. De facto, o filme de Lindsay Anderson pouco tem de simples e politicamente correcto. Não é apenas uma afirmação contra a moral hipócrita vigente ou a autoridade  senil, mas é também um espelho das grandes transformações que se iriam operar nessa década, os anos sessenta.

Lançado no ano simbólico de 1968, o filme acabaria por ter um profundo impacto numa geração de espectadores e na própria história do cinema britânico que se afasta então dos modelos clássicos a favor de uma nova abordagem de denúncia e reveladora da sociedade moderna em que o homem recupera o controlo do seu destino.

Travis não é apenas um mero defensor de estudantes mais fracos ou alguém que deseja vingar-se dos seus opressores. É o revolucionário incendiário que afirma que One man can change the world with the bullet in the right place ou Violence and revolution are the only pure acts. Não tem uma consciência de herói que separa nitidamente o bem do mal, até porque Mick não hesitará em roubar uma mota ou usar armas ou bombas. É o anarca completo sem consciência moral, uma criatura perigosa de deixar à solta, e não é por acaso que o filme envereda cada vez mais  num tom surreal e satírico que irá terminar da forma mais brilhante e politicamente incorrecta que me lembro de ver em cinema.

O que importa é o acto de rebelião, a derradeira ofensa à instituição. Um grito de liberdade que estava reprimido há demasiado tempo e que acabaria por ecoar as próprias mudanças da sociedade inglesa nessa década.  É curioso notar como a homossexualidade é abordada de um ângulo muito suave e naturalista, algo invulgar na altura.

A cinematografia é excelente e o espectador poderá estranhar algumas imagens a preto e branco de interiores (a lenda diz que o filme não tinha orçamento suficiente para filmar todas as cenas a cores). Os jovens actores, seja os vilões ou os rebeldes, são todos de um realismo admirável e McDowell nunca esteve tão bem num filme que acabaria por definir o rumo da sua carreira de forma tão marcante.

Lindsay Anderson realizaria mais dois filmes com a personagem de Mick Travis, O Lucky Man! e Britannia Hospital que não vi, mas se forem tão marcantes como If…

1 Comment

  1. João Seixas said,

    Olá Safaa,

    O IF… é também um dos meus filmes culto favoritos. É quase indescritível pelo fascinante de algumas técnicas cinemáticas que o Anderson usa para transmitir o subtexto (como o episódio do beijo roubado e do açucareiro). O teu texto deu-me vontade de rever o filme (já não o vejo desde que o gravei da TV em 1998 e está na hora de estrear a excelente edição da Criterion; talvez em breve o escolha para uma Midnight Session. Entretanto, se quiseres descobrir um pouco mais sobre o IF… e o O LUCKY Man!, o Tim Lucas tem dois textos muito interessantes no blogue dele (recentemente desactivado), mas que podes encontrar aqui (http://videowatchdog.blogspot.com/2005/11/if-you-have-disc-on-which-you-think.html) e aqui (http://videowatchdog.blogspot.com/2007/06/remembering-if-girl.html).
    E aqui podes ler uma excelente crítica à edição DVD da Criterion (também do Lucas): http://www.bfi.org.uk/sightandsound/review/3987

    Seixas

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