[Círculo de Leibowitz] The Centauri Device de M. John Harrison

March 21, 2009 at 6:35 pm (Círculo de Leibowitz)

Consigo compreender os leitores que se recusam a aventurar em obras de ficção científica. É um erro julgar que é para todos os gostos, porque não é. Um leitor de ficção científica precisa de estar disposto a descodificar os parâmetros que foram instituídos no mundo criado pela imaginação do autor. E precisa, acima de tudo, de uma mente aberta que se prepare para absorver, às vezes com dificuldade, a estranheza da história de modo a tentar compreendê-la.

E isso torna-se especialmente verdade no livro The Centauri Device de M. John Harrison, um dos autores de vanguarda da New Wave dos anos 70, a vaga literária que viria a dar nova vida à literatura especulativa.

Poderíamos afirmar que o livro se inscreve no género popular da space opera porque não lhe faltam muitas das características que definem a space opera, tais como, as viagens interestelares com conflitos a uma escala grandiosa entre poderosos inimigos,  mas evitemos cair em rótulos desnecessários porque M. John Harrison certamente não estava interessado em seguir as velhas fórmulas ao escrever The Centauri Device.

A história centra-se essencialmente em torno de John Truck, um capitão de uma nave espacial que vadia pela Galáxia, e que passa grande parte do seu tempo a tentar manter a cabeça à tona por entre o mar de decadência e desespero que afogaram grande parte das populações dispersas por colónias no espaço. A maioria das descrições de cidades e personagens parecem dar a entender que não há muita esperança ou alegria e que a única coisa que poderá dar alguma fuga ao desespero são as drogas.

De facto, o leitor tem a constante sensação de que as personagens lutam contra a sua dependência por algo que alivie a dor e a depressão. Na melhor analogia que poderia encontrar, muitas das personagens não são muito diferente de dharma bums, poetas ou músicos vagabundos que viviam na miséria, cedendo a álcool e vícios, e qualquer talento que possuíam era lentamente destruído pela cruel percepção de que o universo nunca quis saber deles.

A acção presente na história, por mínima que seja, está constantemente pontuada por divagações metafísicas e reflexões sobre a natureza do desespero e a vastidão do espaço galáctico indiferente à fragilidade humana. E será esse o calcanhar de Aquiles de The Centauri Device. De tal forma está embrenhado M. John Harrison em expor a miséria e a futilidade de guerra que se esquece de dar mais carne e osso à história.

A história resume-se de forma simples. O planeta Terra está subjugado pela luta entre IWG, Israel World Government, e UASR, United Arab Socialist Republics. No profundo ódio fanático que nutrem um pelo outro, ambas as organizações estão dispostas a tudo para que as suas ideologias imperem acima de todas as outras, mesmo que implique práticas como o genocídio.

John Truck, um aparente zé-ninguém que esteve envolvido na sua dose de violência e combates, torna-se o homem mais procurado da galáxia devido aos seus genes que o indicam como o último da sua raça, os Centaurianos. Uma raça velha, uma das primeiras civilizações, foi totalmente exterminada (ou cometeram suicídio em massa, confesso que não percebi bem), não antes que concebessem uma poderosa arma que poderia conceder-lhes a vitória, o Centauri Device. Desenterrada por um arqueólogo seguidor de uma religião chamada Openerism, presume-se que seja um mecanismo alienígena poderoso que pode destruir todos os inimigos e pôr um fim à guerra galáctica.

Mas apenas um indivíduo com os genes centaurianos poderá operar o mecanismo e daí todas as facções começarem a perseguição por John Truck, um piloto solitário traficante de drogas, e um homem com quem dificilmente o leitor irá simpatizar.

Ao longo da narrativa, a personagem não passa de um joguete nas mãos dos vários grupos que pretendem controlar o misterioso Centauri device. Inicialmente nas mãos dos israelitas, ele é capturado pelo submundo do tráfico de droga, pelos anarquistas, depois pelos openerists, uma religião fanática que trará imensa miséria ao protagonista, e por fim, os árabes. Todos deixam as suas marcas, mas raramente a história evolui e os líderes políticos, General Gaw, Ben Barka,  não são mais do que meras caricaturas ridículas, paródias das ideologias que defendem.

Ao longo de mais de duzentas páginas, não vemos mais do que o carácter fraco e cretino de Truck a arrastar-se penosamente até ao desfecho, momento em que alcança o Centauri device e produz uma cena que eu diria quase induzida por ácido em que a sua mente confraterniza com todos os fracassados, fracos de espírito, dependentes e miseráveis que jamais conheceu, e assim ele compreende aquilo que deve fazer.

Se me custou a ler esta pequena obra, é porque gosto de uma boa história que não se limite a reflectir o quão erradas são as ideologias e os efeitos devastadores que estas  exercem na sociedade. Frequentemente, as descrições do livro parecem uma constante alucinação induzida por uma droga poderosa e aguardamos que as personagens acordem do buraco profundo em que as suas mentes se afundaram. O enredo torna-se assim oco, vazio, desprovido de interesse.

Mas seria injusto se não salientasse algumas das melhores passagens do livro, que na minha opinião são as que descrevem a captura de John Truck pelo líder dos anarquistas, um homem  excêntrico com um apurado sentido artístico de nome Swinburne Sinclair-Pater, dono de uma frota de naves alienígenas que irão confrontar o inimigo.

Pater, um dos últimos anarquistas interestelares, consegue elevar o espírito de John Truck e despertar nele uma profunda consciência pela beleza cruel do espaço infinito, indiferente aos conflitos ideológicos desesperados da existência humana.

‘Here we begin to guess at the nature of space’, said Pater soflty to Truck. ‘Our palette is prepared. The Galaxy has given us our canvas, a dead dragonfly has bequeathed us the brushes we have to hand. We make Space. We define it. Look out there. IWG and UASR see at best a conduit for Earth’s rubish of politics. We infer reality. None of this belongs to Earth or ideology. It is inviolate.’

E mesmo Himnation, o suposto filho de Pater, ao se aventurar no final do livro numa dimensão desconhecida da Galáxia, the Third Speed, não mais consegue fazer parte da Humanidade, impelido pelo intenso desejo de ser absorvido e absorver o além desconhecido.

The Centauri Device é o tipo de ficção científica que afasta muitos leitores do género. A prosa, por vezes poética, é impressionante mas densa e difícil, as personagens são na essência toxicodependentes falhados e os cenários à sua volta são tenebrosos e dominados por miséria e decadência. Certamente não recomendo este livro para aqueles que se desejem iniciar na literatura de ficção científica, embora seja um bom exemplo da abordagem inédita e experimental que a New Wave incutiu na ficção científica dos anos setenta.

Outras críticas  a TCD no Círculo de Leibowitz:

Cristina Alves

João Seixas

Nuno Fonseca

Correio Fantástico (entrevista ao autor M. John Harrison)

4 Comments

  1. [O Círculo de Leibowitz] The Centauri Device - M. John Harrison « Rascunhos said,

    […] Stranger in a Strange Land (Safaa […]

  2. José Simões said,

    Eu acho esta iniciativa (não estou certo de quem teve a ideia, mas para mim é irrelevante) uma excelente ideia.

    No entanto acho que se devia ter uma lista com, sei lá, pelo menos 4 meses de antecedência antes de cada livro (isto não significa 4 meses entre livros) para quem não tem o livro, nem nunca o leu, ter tempo de, pelo menos poder tentar estas coisas. E no meu caso podia por na minha lista de coisas para (ir indo) fazer.

    Colocando sempre uma nota na qual se indique em cada livro qual a data a partir da qual se “pode” dar opinião.

    No caso eu tive alguma dificuldade em obter o livro e se obtive foi graças à uma das minhas admiradoras secretas que às vezes deixam CDs ou DVDs na minha caixa do correio.

    Só prevejo dar a minha opinião daqui a umas 2 semanas, porque só comecei a ler muito recentemente. Não tendo o livro impresso nem sequer posso usar a minha janela de 30 min que uso antes de ir dormir. [tomei a decisão de nunca imprimir nada que possua na forma digital, enfim uma espécie de redenção, que eu sei bem onde a minha admiradora secreta arranja os conteúdos].

    E claro, os começo de semestre são sempre muito pesados (não fora isso talvez tivesse dado um pulinho ao EuroCon…)

    Claro que até daqui a 4 meses podia-se falar sobre clássicos, ou de outra maneira esquecer a regra dos 4 meses até lá.

    E já agora quem não tem blog onde posta? (claro que é áacil criar um blog, aliás eu tenho um de FC no qual não escrevo à uns 4 anos…)

    José Simões

  3. Safaa Dib said,

    Olá José Simões, agradeço o seu comentário. Esse ponto que referiu é um que tem gerado alguma discussão neste grupo de leitura. Vamos tentar arranjar uma forma de encorajar a participação de novos membros e para isso realmente teremos que proporcionar mais tempo de leitura.

    De qualquer modo, como poderá ver pela imagem na barra lateral do meu blogue, o próximo livro escolhido é o RIVER OF GODS de Ian MacDonald.

    Assim que estiver tudo melhor definido, avisamos!

    (E a ideia foi do João Seixas).

  4. Outra esquisitice pessoal « Universo Tangente said,

    […] esquisitice pessoal By Marcelo Lopes A editora do blog Stranger in a Strange Land, Safaa Dib, resumiu a aversão que muitas pessoas sentem por obras de ficção científica – ou […]

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