Watchmen

March 8, 2009 at 4:13 pm (Cinema e TV, Livros/BD/revistas)

watchmen-rorschach-poster

É difícil descrever Watchmen sem cair no ridículo. É um dos marcos fundamentais na história moderna da banda-desenhada não só pela sua complexidade narrativa, mas também pela sua inédita abordagem ao mito do super-herói. A partir da sua data de publicação, a escrita da BD não mais passou a ser a mesma e o formato tornou-se terreno fértil de exploração visual e narrativa das idiossincrasias do nosso tempo.

A novela gráfica amplificou a paranóia causada pela Guerra Fria, expondo o conceito vital de guerra que subjuga todo o enredo e o qual testemunhámos ao longo da História – Whoever we are, wherever we reside, we exist upon the whim of murderers.

Em Watchmen assistimos também ao notável uso da técnica da história alternativa, a recriação de um tempo e espaço semelhante ao nosso mas em que certos eventos históricos tomaram precedência sobre outros, alterando o curso da Humanidade. E se a guerra do Vietname tivesse sido ganha e Nixon eleito uma terceira vez? A resposta está em Watchmen.

Mas regressemos aos anos 50 da presente América criada por Alan Moore, altura em que um bando de super-heróis ganha fama assumindo-se como uma liga de combate ao crime. Eis que surge a primeira geração de super-heróis mascarados, sem poderes especiais, e que iria dar lugar a uma nova geração que viria a ser ilegalizada por Nixon.

A América alternativa dos anos 80 de Alan Moore venceu a guerra do Vietname graças à intervenção de Dr. Manhattan, um cientista que, após um terrível desastre, torna-se um semi-deus com a capacidade de alterar espaço e tempo. E é apenas graças a ele que ainda não se deu a deflagração da III Guerra Mundial e o holocausto nuclear, consequência da corrida às armas entre americanos e soviéticos.

No entanto, a guerra está iminente, e faltam apenas cinco minutos para a meia-noite, a hora simbólica que anuncia a proximidade ao dia do Armagedão.

Para compreender as personagens principais que compõem a história principal, é essencial compreender o background e Snyder fez um trabalho notável na sequência de abertura ao recriar toda a história do grupo de super-heróis desde a sua criação. Embora eu tenha sérias dúvidas que o espectador sem conhecimentos da história tenha conseguido acompanhar a torrente de informação.

Alan Moore fez algo na altura que nenhum argumentista tinha alguma vez feito. Descreveu o super-herói como um ser vulnerável, sujeito a falhas, profundamente afectado pelo ambiente que o rodeia e não imune a dor. Às vezes a dor torna-se tão forte que alguns atingem o ponto de não-retorno como Rorschach, tornando-se vigilantes psicóticos a calcorrear as ruelas sombrias do submundo do crime e penetrando nas trevas sem compromisso, desprovidos de emoções humanas.

A justiça em termos de branco e preto aplicada por Rorschach é irónica, considerando que as personagens que a aplicam estão longe de serem linearizadas e mesmo um super-herói como o Comediante, que abate a tiro mulheres grávidas e não é mais do que um mercenário sem escrúpulos de instintos violentos, vacila perante o abismo.

Todos eles, com as suas neuroses, medos e dúvidas tornaram-se objectos do passado até ao momento em que o Comediante é brutalmente assassinado, lançando a paranóia em Rorschach, determinado a descobrir a identidade do seu assassino e os motivos.

A contrapor a Rorschach e o Comediante, temos personagens como Nite Owl, insatisfeito com a renúncia aos dias de vingador, Ozymandias, o homem mais inteligente do mundo que se equipara a Alexandre o Grande e Ramsés II ou Miss Jupiter, a filha da primeira Miss Jupiter, que mantém uma relação amorosa com Dr. Manhattan, este distanciando-se cada vez mais da Humanidade.

O filme não falha em ser fiel à obra, mas os grandes diálogos soam falsos e perdem toda a intensidade quando soam ditos pelos actores e é apenas quando Rorschach profere todo o seu desprezo pela imundice que assola Nova Iorque no seu diário que acredito que estes super-heróis existiram realmente. Patrick Wilson é um excelente actor, mas porque o senti desconfortável e pouco convincente na pele de mascarado? Laurie Jupiter é apenas uma sex-bomb que troca com facilidade um homem por outro, mas é na verdade uma mulher muito carente que precisa de ser amada, quem diria no filme? Ozymandias não aparenta ser mais do que o vilão fanático e alucinado, mas é na verdade aquilo que Raskolnikov tentou ser tão desesperadamente em Crime e Castigo de Dostoievsky, um homem que alcançou a grandeza ao superar dilemas de ordem moral, na essência, a linha ténue entre o bem e o mal.

Quando o relógio atinge o ponteiro da meia-noite libertando o Armagedão, o filme já perdeu alguma da qualidade com que começara e torna-se quase um mero confronto de velhos amigos. Faltou a magnitude e majestade da obra literária, tornando-nos estranhamente indiferentes.

Não julgo o filme Watchmen em comparação com a novela gráfica porque seria injusto. Todos nós sabíamos à partida que iria ser intransponível, mesmo que os detalhes da história estejam lá todos. Mas para o público que não conhece o material, que possível interesse poderá ter um grupo neurótico de super-heróis com máscaras decididamente más? Faltou a chama para que o espectador conseguisse perceber que estava perante uma obra-prima.

A história de Watchmen não pode ser contada numa sinopse, e fazê-lo é na verdade retirar-lhe toda a grandeza. Há tanto mais para dizer sobre a riqueza de uma obra como Watchmen e a própria erudição rigorosa de Alan Moore, uma das imagens de marca dos seus argumentos de BD. No entanto, para ser justa, não deixa de ter os seus bons momentos como a sequência de abertura ao som de The times they are a-changing de Bob Dylan, a evocação de Dr. Manhattan em Marte dos acontecimentos que conduziram ao seu acidente, ou a captura de Rorschach pela polícia, revelando a sua verdadeira identidade.

Todavia, pela primeira vez terei que fazer um reparo à banda-sonora de um filme. Era mesmo necessário repetir A Cavalgada das Valquírias numa sequência sobre o Vietname? Tenho a certeza de que, com algum esforço, teriam conseguido escolher algo mais original.

1 Comment

  1. Rui Baptista said,

    Gostei da tua opinião. Agora vamos a ver se vou gostar tanto do filme como gosto da novela gráfica.

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