Entre os Dois Palácios de Nagib Mahfouz

February 18, 2009 at 10:22 pm (Livros/BD/revistas)

Não faltam muitas páginas para terminar o 1º volume da trilogia do Cairo de Nagib Mahfouz, publicada pela editora Civilização, numa tradução directa do árabe. Espanta-me ainda ser capaz de ler um livro tão longo (mais de 500 páginas que requerem bastante concentração) não relacionado com literatura fantástica.

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Tinha lido há muitos anos um livro de contos do escritor egípcio, mas não ficara de todo impressionada. Todavia, a famosa trilogia do Cairo estivera sempre na minha mente e nos meus horizontes de leitura, tão só pelas referências da minha mãe à série televisiva egípcia baseada na trilogia de Mahfouz que fez furor há algumas décadas no mundo árabe.

Entre os Dois Palácios (1º vol.) é uma revelação para mim. Uma magnífica obra-prima de um escritor no pico florescente do seu talento, baseando a história nas suas próprias vivências.

Trata-se de um relato íntimo e acutilante de uma família, contaminado de humor, crueldade, medo e ternura, mas é também a história da própria Cairo, a nível político e social. A sociedade egípcia dos anos 20 é descrita em toda a sua plenitude através da família de Ahmed Abd el-Gawwad, um comerciante abastado e pai de família que mantém a esposa e filhos sob os preceitos rigídos da moral e tradição islâmica. A hipocrisia vigente impele à dupla personalidade do pai que, enquanto de dia é a imagem da virtude e autoridade indisputáveis, à noite os seus sentidos absorvem profundamente a vida de prazer e boémia que Cairo tem para lhe oferecer.

Comovente, e por vezes déspota, embora nunca desprovido de um estilo ligeiramente irónico que despe a tragédia do  seu drama inerente, torna-se impossível não continuar a ler e fazer parte dos serões de café a que assistimos como intrusos e nos quais a família discute os eventos que abalaram profundamente o Egipto após a I Grande Guerra.

Através dos filhos varões, temos acesso a personalidades diferentes entre si. Yassin que se deixa levar pela natureza devassa numa fuga cega do tédio. Fahmi, o estudante de direito, sonhador e idealista. Kamal, a criança traquinas e inocente, com ideias muito próprias acerca da vida e religião. E depois temos as mulheres da história, em especial, Amina, a esposa fiel e submissa que jamais se rebela contra a vontade autoritária do marido, mesmo que o coração lhe sussurre o contrário. Ambas as filhas, Aisha e Khadija, são os seus tesouros escondidos, o espelho da virtude e pureza, em oposição às mulheres cantoras e boémias que dão colorido às noites de Cairo.

Alguns pormenores podem chocar a sensibilidade feminina ocidental, mas é necessário não julgar as acções do homem, nem a religião que lhe está subjacente. As próprias personagens são as primeiras a admitir que o pai de família, Abd el-Gawwad, é demasiado purista e conservador, mesmo para os padrões da época. Algumas características profundamente árabes permanecem inalteráveis como o forte sentido de união familiar e a noção sempre vigente de que o pai é o protector e guardião da família e é sua obrigação velar e assegurar o futuro de todos os membros.

Tal como um Balzac ou Eça, Mahfouz  expõe ao máximo nas páginas da trilogia do Cairo a sua fina ironia que nada deixa intacto, em particular os alicerces tradicionais da sociedade islâmica. Os habitantes de Cairo são dissecados pelo seu olho penetrante e rara é a descrição que não transmita a vivacidade do espírito, assim como todo o zeitgeist de uma época politicamente conturbada.

Vivamente recomendada, a trilogia continua com O Palácio do Desejo e O Açucareiro, ambas já publicadas pela Civilização.

1 Comment

  1. Francisco Norega said,

    Deixaste-me curioso😛

    Quando puder, vou comprar este livro😀

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