Três obras de George R. R. Martin e Daniel Abraham

January 27, 2009 at 2:32 pm (Livros/BD/revistas)

Para além do universo d’As Crónicas do Gelo e do Fogo, George R. R. Martin é o autor de várias obras que se aventuram nos mais diversos géneros e entre elas, destaca-se Fevre Dream, um romance sobre vampiros que assombram as cidades e vilas americanas ao longo do rio Mississipi e afluentes nos finais do séc. XIX.

Não é inteiramente inédito, uma vez que em 1976 Anne Rice lançara o famoso Entrevista com o Vampiro, também sobre vampiros a calcorrear as ruas nocturnas de New Orleans, e que viria a estabelecer a imagem mainstream do vampiro moderno, um ser que odeia as acções que a sua natureza o força a cometer, e é quase sempre atormentado pelos seus instintos predadores.

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Fevre Dream não se distancia tanto dessa temática na medida em que também coloca no centro das atenções um vampiro que tenta renegar a própria sede por sangue, devotando a sua vida em busca de uma nova existência para a raça dos vampiros, livre de toda a barbárie. Abner Marsh, dono de uma frota de barcos a vapor, é abordado pelo misterioso Joshua York para dar início à construção de um novo barco, mais poderoso e veloz que se irá chamar de Fevre Dream e irá desafiar os barcos mais rápidos que navegam os rios.

Mas a desconfiança de Abner em relação aos hábitos noctívagos de Joshua, assim como as estranhas notícias de mortes que vão surgindo ao longo da viagem pelo rio, forçam-no a confrontar Joshua York, e não tarda muito até descobrir toda a verdade sobre a raça dos filhos da noite.

Os próprios vampiros não actuam a uma voz só e surgem rivalidades que ameaçam a integridade do barco. O vampiro Julian está demasiado avançado em idade, amargura e insanidade para escutar a voz da razão que Joshua leva a toda a raça em extinção. A confrontação é inevitável, mas Abner Marsh sabe que, qualquer que seja o resultado, o seu adorado barco não terá hipóteses de vir a ganhar a desejada fama nos rios.

É uma narrativa bem construída e interessante, embora se arrastem ligeiramente na parte final os confrontos entre os vampiros que se repetem e emperrem, não parecendo haver um fim à vista para o impasse. E claro que nunca chega ao nível de excelência a que Martin nos habituou em As Crónicas de Gelo e Fogo, tendo aí já amadurecido o seu estilo de escrita cínico e irónico, bem como domínio na caracterização de personagens e criação do efeito de suspense. Ainda assim, não deixa de ser um romance muito interessante de seguir, com as sementes do talento de George R. R. Martin ainda sem terem desabrochado por completo.

Outro autor de fantasia que li com interesse recentemente foi Daniel Abraham (curiosamente, um grande amigo de Martin), autor da série The Long Price Quartet. Li os primeiros dois volumes, A Shadow in Summer e A Betrayal in Winter. Abraham é um novo autor no género, a começar a construir a sua reputação, embora não tenha atingido a popularidade instantânea de outros autores como Scott Lynch e Joe Abercrombie.

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A favor de Abraham, devo admitir que o mundo que criou tem algumas noções interessantes. As cidades de Verão formam o colectivo dos Khaiem e cada cidade é governada pelo Khai, trazendo à mente alguns elementos do Extremo Oriente. Mas o poder do Khai de nada vale e são, na verdade, os poetas que movem as peças cruciais do tabuleiro. Um poeta aprendeu os verdadeiros segredos da Natureza  e é capaz de trazer à vida um dado aspecto da Natureza que se materializa na forma dos andats. A vontade do poeta captura o espírito indómito do andat, mas este demonstra a sua própria personalidade que irá procurar sempre libertar-se da mente do seu captor.

O prólogo mostra-nos uma escola de poetas em que um dos alunos revela o talento de que tanto necessitam, mas os seus próprios princípios morais forçam-no a abandonar a escola e tudo o que conhece, renunciando à dádiva de ser o líder dos poetas.

Logo de seguida, somos transportados para a cidade de Saraykeht, a cidade governante dos Khaiem, muito graças ao poeta Heshai e o seu andat, Seedless. Acabado de chegar à cidade, temos o jovem poeta Maati, que tomará o lugar de Heshai a seu tempo, mantendo o controlo sobre Seedless. Mas Maati descobre, para sua consternação, que a relação complexa e instável entre o poeta e o seu andat é marcada por ódio, desprezo e por feridas antigas que ameaçam ruir o frágil equilíbrio entre ambos.

Outras personagens são apresentadas como Itani e a sua amante, Liat. Mas é Amat, a administradora dura e inflexível de uma das principais Casas, que descobre que os seus próprios patronos preparam uma conspiração para derrubar o Khai e a cidade de Saraykeht, atingindo o seu centro nevrálgico, o poeta e o andat.

É uma narrativa recheada de surpresas e fortalecida pela dinâmica entre as principais personagens, cada uma com os seus próprios segredos. Fiquei agradavelmente surpreendida com o enredo forte e criativo e com as personagens humanas que nem sempre tomam as decisões mais sábias. Se alguns deixam-se levar pelo coração, outros compreendem a importância de compaixão e perdão.

Tendo ficado com uma nota tão positiva do 1º volume, não hesitei em avançar para o segundo, A Betrayal in Winter. Infelizmente, a criatividade de Daniel Abraham que vimos florescer em força no início da saga esvai-se na sequela. Desta vez, as atenções concentram-se em Machi onde se dá início à luta pela sucessão do Khai. É tradição milenar que, para suceder ao Khai, os seus filhos mais velhos (os mais novos são banidos para a escola de poetas e destituídos da sua herança) têm que se matar uns aos outros até que um irrompa triunfante.

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Voltamos à personagem de Otah Machi, o sexto filho do Khai que desempenhara um papel vital no primeiro livro, acusado de matar o seu irmão e disputar ilegitimamente o direito à sucessão. O que todos se esquecem nesta sociedade dominada pela perspectiva masculina, é que as mulheres são tão capazes de actos vis como os homens. Relegada à sua posição de mulher submissa, a filha do Khai, longe de se conformar aos ditames dos homens da sua família, conspira com a família do seu noivo para usurpar o poder aos seus irmãos.

A história poderia ter pano para mangas se não fosse inteiramente previsível, e já logo desde o primeiro terço Abraham opta por revelar a conspiração da filha do Khai, tornando o resto da narrativa ligeiramente aborrecida e pautando-se sempre pela angústia permanente da mulher que começa a odiar a si própria, mas deixa-se destruir pela sua própria ambição. Ainda aguardei por alguma surpresa inesperada que desse a volta à trama, mas ela nunca veio.

A Betrayal in Winter está longe da criatividade e energia do primeiro volume, sendo na verdade uma continuação desinspirada, linear e por vezes com soluções narrativas a tresandarem a Deus ex Machina. Não pude deixar de sentir que o autor deixou-se fascinar pelos dilemas morais das suas personagens, esquecendo-se de lhes conferir mais substância em acção.

Dificilmente voltarei a dar uma oportunidade a esta saga a não ser que me digam que o terceiro volume The Autumn War opera uma revolução no género da fantasia. De qualquer modo, nada disso deveria impedir que o valor de Daniel Abraham fosse reconhecido e talvez em obras futuras volte a recapturar a magia que presenciei em A Shadow in Summer.

1 Comment

  1. Os vampiros e toda sua existência, pelas linhas de Polidori, Stoker e tantos outros | PHANTASTICUS said,

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