Diário da Cinemateca: High Plains Drifter

January 14, 2009 at 1:40 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

Novo ano, nova categoria. Como o ano 2008 foi definitivamente o ano da Cinemateca Portuguesa, um espaço que tenciono continuar a visitar assiduamente, fica criada esta nova categoria sobre os filmes que vou vendo na Cinemateca (a iniciar brevemente uma nova fase mais interessante, esperamos nós, com o anúncio recente da saída de João Bénard da Costa).

Já tinha falado neste blogue anteriormente de alguns grandes clássicos que tive a oportunidade de visionar como Peeping Tom de Michael Powell, Casanova de Fellini, The Killers de Don Siegel, Night of the Hunter de Charles Laughton, A Clockwork Orange de Kubrick, mas espero ainda comentar outros como If… de Lindsay Anderson ou O Anjo Exterminador de Buñuel, seja em pequenos apontamentos ou textos mais fundamentados. De uma forma ou outra, os filmes estão inevitavelmente contaminados pelo meu gosto por fantástico, mas não se limitam à sua esfera.

Ultimamente, a atenção a cinema tem sido maior do que a que tenho devotado à área da literatura, tão só porque estou a enveredar por novas leituras ou a retomar outras que deixei para trás na minha adolescência, e também porque planeio testar novas ideias para este blogue que advém do facto de presentemente trabalhar como assistente editorial. Os desafios de falar sobre edição parecem-me tão aliciantes quanto falar dos livros em si.

E para inaugurar esta nova categoria Diário da Cinemateca, nada melhor do que um filme realizado por Clint Eastwood, exibido no âmbito de uma retrospectiva ao actor e realizador prolífico. A escolha recaiu em High Plains Drifter, realizado pelo próprio actor.

High Plains Drifter [aviso de spoilers] começa com a chegada de um estranho a uma pequena cidade americana. O cowboy caminha indiferente e sem medo perante os olhares dos habitantes que o fitam com desconfiança, não sabendo o que pensar da sua postura arrogante e provocatória. Mas a arrogância do homem sem nome é logo testada por arruaceiros que morrem às suas mãos, e a perícia que demonstra no uso de  armas leva a cidade a convidá-lo a organizar uma defesa contra um trio de bandidos que cedo irão ser libertos da prisão e buscar a sua vingança contra a pequena cidade.

Mas nada é o que parece, e cedo a chegada do estranho volta a evocar fantasmas e a despertar memórias dolorosas do passado. Os pecados da cidade voltam para assombrá-los e descobrimos que a força misteriosa que impele o estranho a lidar com a cidade é afinal motivada por um crime cometido e uma maldição…

Começa como um típico western, mas o tom sobrenatural vai adquirindo cada vez mais força, culminando na estranha visão de uma cidade inteira pintada de vermelho,  como se recriando um cenário do próprio inferno. E o inferno efectivamente desce à cidade no momento em que o homem sem nome começa a punir os habitantes e bandidos. Por esta altura, não é difícil adivinhar a verdadeira identidade do estranho e compreendemos que é uma consequência da maldição lançada pelo antigo xerife, morto às mãos da populaça.

Da mesma forma que chegou, cavalgando o cavalo com indiferença e desprezo, o estranho abandona a cidade em ruínas e com o sentido de missão cumprida. De certa forma e apesar de se tratarem de obras vastamente diferentes, High PLains Drifter trouxe-me à memória o filme The Fog de John Carpenter, que também tive a oportunidade de rever na Cinemateca recentemente.

Em The Fog, uma pequena cidade costeira está amaldiçoada por uma colónia de leprosos e, durante uma noite especial longa, são assombrados pelos fantasmas dos leprosos que apenas irão saciar a sua sede por vingança com sangue. Vale a pena ver Carpenter tão só pela verosimilhança que impregna em cada imagem, recriando a realidade e beleza de uma vila costeira que está na iminência de um ataque mortífero, ao som de uma banda-sonora surreal e sinistra.

Um western e um filme de horror que nos lembram na perfeição que os mortos não descansam e podem voltar a qualquer momento para nos assombrar.

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