Let slip the dogs of war

January 4, 2009 at 1:43 pm (Cinema e TV)

Em cinema, foi preciso esperar pelo primeiro dia do ano 2009 para ver o melhor filme de 2008. Valsa com Bashir do israelita Ari Folman desafia as convenções e recria um formato único e irrepetível – documentário em animação – para dissecar  as experiências traumáticas de soldados israelitas durante a invasão do Líbano em 1982.

Digo irrepetível porque apenas esta conjunção singular de desenho animado e documentário poderia transmitir a dimensão surreal e onírica das experiências dos soldados, pois uma guerra não é feita apenas da experiências vividas, mas o efeito devastador que essas experiências incutiram na psique do indivíduo, seja ele soldado, vítima, torcionário ou testemunha.

No caso de Ari Folman, a experiência da invasão do Líbano pelo exército israelita foi apagada da sua memória, incapaz de lidar com o horror em que participou. Mas lentamente, através de conversas com amigos e outros homens que integraram também a ofensiva, ele e outros gradualmente relembram o caos, terror e o país em ruínas que era o Líbano, sendo forçados a destruí-lo ainda mais.

É significativo que os ex-soldados não se limitem a confessar o que viram e os actos que cometeram, mas contem também as alucinações e pesadelos que os assombraram durante a guerra, um reflexo do medo intenso da morte e do desejo de escapar a uma destruição sem sentido.

Beirute nos sonhos de um soldado israelita

Beirute nos sonhos de um soldado israelita, Valsa com Bashir (2008)

É fácil negar a humanidade a um inimigo desconhecido, esquecendo que esse inimigo é também um homem, ou um rapaz acabado de sair da adolescência, que gosta de ouvir música rock, que canta músicas sobre o Líbano enquanto passeia num tanque de guerra, e que também ele se revolta contra a carnificina e procura por formas de escapar às visões de inferno.

A narração da guerra adquire por vezes um  tom poético, aliada a uma música intensa, que transcende os factos. Como esquecer a narração sobre o soldado que via tudo como uma excursão, tentando bloquear a mente à realidade feia, até ao momento em que os seus olhos testemunham os cavalos moribundos no hipódromo de Beirute, despedaçando a sua sanidade? Ou o momento em que uma mulher gigante vem a nadar pelas águas do Mediterrâneo para salvar um soldado de um bombardeamento?

Folman não explica as circunstâncias políticas que levaram à invasão de Israel pelo Líbano em 1982 e foi sábio em escolher não explicar porque, de facto, nem os próprios soldados conseguem ver uma razão para a sua presença no Líbano, já totalmente imerso numa sangrenta guerra civil que aterrorizou os soldados israelitas ao chegarem às costas de Beirute.

O filme culmina com o massacre de Sabra e Chatila em que cerca de 3000 palestinianos perderam as vidas às mãos dos cristãos falangistas libaneses, com a cumplicidade passiva do exército israelita e conhecimento de Ariel Sharon, o então Ministro da Defesa israelita (fortemente criticado no filme).

Há uma breve explicação sobre os cristãos falangistas libaneses e a razão de terem exercido uma tão terrível vingança nos campos de Sabra e Chatila, mas não é preciso ter conhecimentos da história do Líbano e dos conflitos israelo-palestinianos para compreender a atrocidade dos actos que é exibida em pleno, na sua forma mais crua e sem animação, nas cenas finais do filme. E, apesar de tudo, choca que seja um jornalista israelita a fazer comparações de Sabra e Chatila com o guetto de Varsóvia, pondo o dedo numa ferida profunda na memória colectiva dos judeus.

A impotência e cumplicidade dos soldados israelitas durante o massacre nos campos de refugiados de Sabra e Chatila é impossível de negar, mas é com esta animação em documentário que se afirma a possibilidade de exorcisar os fantasmas e admitir a culpa, obtendo assim algum conforto, mesmo que isso não atenue o ódio entre invadidos e invasores.

Estranho que este filme surja face aos acontecimentos recentes em que Israel lança a ofensiva terrestre contra Gaza, mas a história de sangue do Médio Oriente – tanto Israel como os países árabes – foi ditado em grande parte por governos totalitários e belicistas, e é importante destacar, por mais inconveniente ou difícil que seja, que os povos muitas vezes não são livres de escolher o caminho certo, forçados a adoptar uma cultura de ódio, crueldade e vingança.

Mas para os que são capazes de conservar a sanidade e uma réstia de compaixão e solidariedade, resta a arte como forma de denúncia e também como tentativa de acalmar os demónios da mente, os cães de guerra, que percorrem os sonhos à noite.

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