Uma mulher silenciosa

December 1, 2008 at 2:08 pm (Livros/BD/revistas)

Ultimamente, tenho pensado muito em Alison Porter.

A Woman Ironing, Edgar Degas

A Woman Ironing, Edgar Degas

Alison é a personagem feminina principal da peça de teatro Look Back in Anger de John Osborne, de 1959. Alison é uma personagem trágica, embora Osborne nunca a descreva como uma daquelas grandes heroínas de outrora, cheia de beleza e perdida de amor, atingida inevitavelmente por morte prematura. Pelo contrário.

Ela é uma dona de casa da classe média, a viver num pequeno apartamento com o seu marido Jimmy Porter. Jimmy não é um homem violento, nem dado a alcoolismo ou vícios. Mas ele fala demasiado. E magoa Alison demasiado com as suas palavras. Têm que compreender que Jimmy é um homem desperdiçado pela sociedade; qualquer inteligência ou talento que tenha são ignorados e desprezados porque Jimmy não nasceu na classe certa.

A sua frustração e raiva são diariamente manifestadas pelos diálogos sarcásticos e venenosos que frequentemente têm como alvo Alison. Mas em muitos aspectos, a mulher é mais sábia do que o homem e se ela o respeita e o ama, irá tomar a escolha mais prudente para não hostilizar o companheiro. A escolha de Alison é o silêncio. Como uma boa dona de casa, ela cumpre as rotinas diárias e tarefas domésticas como passar a ferro que considera a sua obrigação, enquanto Jimmy convida os amigos e cospe a sua amargura para quem quiser ouvi-la. Mas Jimmy não consegue perdoar a Alison por ela ter nascido na classe alta.

E esse é o motivo fundamental de toda a tensão subjacente. Jimmy tem tanta raiva pela classe que o despreza que acaba por exercer vingança sobre a sua mulher. Testa a paciência de Alison com as suas provocações, mas ela sabiamente escolhe sempre o silêncio. Ela sabe que é inocente, mas a sua educação e origens marcam-na perante os olhos do marido.

Tudo o que Jimmy quer é uma reacção. Ele quer vê-la a perder as estribeiras, quer vê-la a gritar impropérios contra ele, mas ela nunca morde o isco porque ela é demasiado bem-educada para isso, embora às vezes possa mostrar que não passa de um ser humano frágil e vulnerável perante o público, longe do olhar do marido. Pela minha descrição do Jimmy, uma pessoa interroga-se porque Alison simplesmente não o deixa e volta para o conforto e segurança da sua família bem estabelecida. Isso é porque Jimmy não é apenas cruel ou sarcástico. Ele combina sinceridade com malícia, ternura com mágoa, ressentimento com amor.

É uma relação marital difícil que inevitavelmente colapsa. Alison mostra por vezes tal passividade perante os acontecimentos que a ultrapassam que sentimos pena por ela. Jimmy é uma tal força de natureza povoada de rancor e amargura pela sua condição social que se torna impossível para ele olhar apenas com amor, sem ódio, para a sua mulher.

Quando se dá a separação, Alison é posta de lado, desaparece de cena. Pobre Alison. O silêncio dela de nada lhe valeu. O marido está a viver com outra mulher e parece contente. As humilhações constantes que sofreu às mãos de Jimmy saem impunes, pois Alison nunca se revolta, nunca grita, nunca profere uma palavra de censura. Ela sabe que a relação está toda errada e partir é a melhor solução. E isso seria o fim de Alison Porter, excepto pelo facto de ela escolher voltar para enfrentar o marido uma vez mais.

A Alison que enfrenta Jimmy nos momentos finais da peça é uma Alison quebrada, frágil, devastada. Não só pela separação do marido, mas porque ela acabou de perder o filho de ambos que carregava no ventre. É a provação final que destrói todas as suas forças e força-a a ir de encontro ao marido, a causa dos seus males mas, ao mesmo tempo, o único homem na terra capaz de compreendê-la na sua perda. Citando uma das personagens femininas de Shakespeare, my tongue must tell the anger of my heart/Or else my heart concealing it will break, Alison revela por fim o que o marido tanto queria ouvir, que conseguiu quebrá-la.

A sua dor é tal que finalmente confessa Don’t you see! I’m in the mud at last! I’m grovelling! I’m crawling!

É esse desabafo intenso e comovente que me faz admirar Alison. Como ela aguentou de forma benigna toda a raiva do marido direccionada contra si e toda a sociedade, como ela se submeteu às humilhações e tiradas cruéis, como ela suportou tudo em silêncio, forçando o coração a acumular todas as mágoas por falar, para no fim expor-se perante o marido e declará-lo vencedor, mas ao mesmo tempo, fazendo-lhe um apelo mudo de conforto pois ele é a única pessoa capaz de partilhar com ela a dor do filho que perdeu. E Jimmy não consegue ser indiferente perante a dor da mulher que é a sua própria dor também. Envolve-a nos seus braços, prometendo-lhe o calor e refúgio e protecção que ela necessitava.

Dois seres humanos desiludidos, magoados, que se refugiam na sua própria caverna de amor. Porque a peça de Osborne não rejeita amor, mas diz-nos que é o bem mais difícil de todos de preservar e que é bem possível que não sobreviva perante as agruras da vida.

1 Comment

  1. Dunya said,

    Fiquei com vontade de ver/ler a peça. Muito bonito o teu texto.

    ***********

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