Top de livros de ficção científica – Parte I

August 23, 2008 at 7:19 pm (Livros/BD/revistas)

Uma das razões porque comecei tarde a leitura de ficção científica deve-se à vaga e temível noção de que a literatura de FC não era melhor do que as séries televisivas que foram passando nas últimas décadas e que, invariavelmente, me inspiravam uma aversão e uma indiferença que ainda hoje não consigo explicar.

Foi preciso ultrapassar a adolescência e começar os meus anos universitários para dar início, de forma algo titubeante, à leitura da verdadeira literatura de FC. O primeiro livro que me terá realmente impressionado foi Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. Até então lia sagas de fantasia de numerosos volumes titânicos e começava a suspeitar que era quase tudo sempre o mesmo. Mas o livro de Bradbury tinha uma qualidade visionária, um estilo seco e conciso e uma voz a anunciar novos futuros inteiramente verosímis que me deixou agradavelmente impressionada e curiosa por mais.

Dune veio a seguir. Mais uma obra-prima a mostrar-me como tinha pensado tudo errado em relação à literatura de ficção científica. A vida cheia de armadilhas e o destino final de Paul Muad’Dib ainda hoje comovem-me profundamente. Outros seguiram-se. As últimas trinta páginas de The Left Hand of Darkness e a viagem na neve de dois seres alienígenas inteiramente diferentes, mas cheios de amor um pelo outro. A cegueira generalizada que afecta a população e destrói a sociedade numa questão de horas em The Day of the Triffids de John Wyndham. E que dizer da surpresa e curiosidade de Halloway em Aparelho Voador a Baixa Altitude de Ballard ao caminhar numa cidade do séc. XX abandonada após a aparente extinção das energias fósseis?

Foi uma jornada de descoberta e admiração pela incrível vitalidade deste género tão mal compreendido. E tenho vindo a sentir que, com os anos, o meu fascínio cresce cada vez mais. Por isso, decidi compilar uma pequena lista pessoal das minhas obras de ficção científica favoritas. Não é nenhum top definitivo e não quer dizer que as minhas escolhas sejam as melhores (embora todas elas tenham influenciado o género de uma forma ou outra). Seguem-se cinco obras, sem nenhuma ordem em especial. Noutro post, irei colocar outras cinco obras que considero fundamentais para compreender e apreciar a literatura de ficção científica. Conto as histórias dos livros em linhas gerais e sem revelar o fim, mas alguns poderão considerá-los spoilers. Fica o aviso.

A Canticle for Leibowitz de Walter M. Miller Jr. É provavelmente uma das melhores obras sobre a temática da devastação humanitária causada pelo uso de armas nucleares. Constituída por três partes interligadas, a narrativa começa com a descoberta das relíquias de um santo nos arredores de um mosteiro. Vivendo numa nova idade das trevas, após uma catástrofe ter erradicado quase todo o conhecimento, os monges têm como missão juntar todas as partículas de conhecimento que tenham restado e preservá-las para as gerações futuras. Mas a descoberta das relíquias de Leibowitz, um homem que fora um cientista judeu e sobrevivera à Apocalipse, convertendo-se ao catolicismo e fundando uma ordem de monges dedicada à preservação dos livros, lança uma nova discussão no mosteiro que eventualmente conduz à canonização de Leibowitz.

A segunda parte é essencialmente constituída por uma confrontação entre o Abade do Mosteiro e o brilhante físico que encontra nos escritos de Leibowitz novas luzes para construir uma tecnologia mais avançada. Na final e brilhante parte do livro, o mundo encontra-se de novo dominado por alta tecnologia e uma nova ameaça nuclear. Mas o Abade tem que enfrentar a vontade autoritária de governos e novos ataques nucleares que causam milhares de vítimas. Ele luta, de corpo e alma, para pôr fim aos campos de eutanásia para os quais são enviadas muitas das vítimas. É uma brilhante reflexão sobre as consequências morais que advém de assumir o papel de Deus numa terra onde Deus deixou os humanos, criaturas patéticas e incapazes de aprender com os erros, entregues a si próprios.

Desde a Idade das Trevas até à Idade da Razão e Progresso Científico, os três abades do mosteiro, em cada parte, têm que enfrentar escolhas difíceis e assistir às mudanças que afectam o mundo. E cada um tenta prestar o seu contributo, por mais insignificante que possa parecer. É uma narrativa complexa , perturbante, mas, acima de tudo, expressa um profundo lamento pela civilização humana. (Traduçao disponível em português).

Lord of Light de Roger Zelazny. Uma brilhante reconstrução de antigos mitos religiosos num cenário de ficção científica. Após a destruição da terra, os últimos homens colonizam um planeta em que subjugam a raça nativa e assumem o papel de deuses da mitologia hindu. Capazes de manter um longo ciclo de vida graças a reencarnação, criação de novos corpos e transferência da mente, eles controlam o planeta.

Mas Sam, um antigo deus, revolta-se contra a complacência e a supremacia dos deuses que mantém propositadamente os nativos num nível tecnológico primitivo, e assume a persona de Siddhartha, pregando os ensinamentos do Buda, ao mesmo tempo que planeia derrotar os deuses, que não passam na realidade de humanos com um conhecimento avançado de tecnologia.

Seguindo episódios da vida de Siddhartha, assim também constrói-se a história de Lord of Light. Terá que derrotar Bhrama, Yama, o Deus da Morte, Kali, Shiva, Vixnu, Ganesha se deseja restaurar a liberdade e direito ao conhecimento do povo nativo.

Mas embora pareça difícil conceber tal história, é com um notável talento para contar os episódios da vida de Sam – a sua rebelião, exílio, ressurreição e batalha final – que torna esta obra de Zelazny tão aclamada. Citando os Vedas e os Upanishads, a figura e os ensinamentos do Buda renascem num planeta distante e servem de orientação e guia, da mesma forma que serviram no planeta Terra. (Tradução disponível em português).

The Dispossessed de Ursula Le Guin. Shevek, um brilhante físico que tenciona revolucionar o universo com uma nova teoria científica sobre as complexidades do tempo e espaço, está preso entre dois mundos diferentes que disputam o seu génio científico. O mundo de Anarres, onde impera um sistema político anárquico e aparentemente igualitário, é também o mundo da pobreza com condições quase impossíveis de ultrapassar. O mundo de Urres, capitalista, dominante, cheio de vida e riqueza, é muito semelhante ao nosso próprio mundo. Ambos os planetas não deixam de expor profundas falhas nas suas crenças e sistemas.

Não é à toa que o subtítulo do livro é uma utopia ambígua, podendo ser considerado como um retrato da Guerra Fria e da rivalidade entre a União Soviética e os Estados Unidos, em que nenhum dos sistemas políticos prova ser benéfico para o seu povo, mas antes assumem uma fachada hipócrita que serve apenas os interesses dos líderes.

O contraste entre os dois planetas fica na memória do leitor, mas é o gradual despertar e amadurecimento de Shevek que torna The Dispossessed uma obra tão única; testemunhamos a sua dor para com o seu povo, o choque ao confrontar a cultura de Urres, ganhando assim consciência da sua própria natureza falível e humana, ao mesmo tempo que estabelece na sua alma uma profunda empatia com todos os seres vivos. (Tradução disponível em português.)

Dune de Frank Herbert. To begin your study of the life of Muad’ Dib, then take care you first place him in his time: born in the 57th year of the Padishah Emperor, Shaddam IV. And take the most special care that you locate Muad’Dib in his place: the planet Arrakis. Do not be deceived by the fact that he was born on Caladan and lived his first fifteen years there. Arrakis, the planet known as Dune, is forever his place.

Assim começa uma das mais intensas e influentes séries de ficção científica, Dune, em torno da personagem messiânica, Paul Muad’Dib. Herdeiro da casa Atreides que é traída por uma aliança galáctica de poderosas forças, Paul é forçado a refugiar-se no deserto onde ele irá aprender um inteiramente novo modo de vida e irá conhecer o seu destino como líder, santo, guerreiro e místico.

Herbert faz uso do seu conhecimento de cultura e língua árabe e adapta-a ao modo de vida dos Fremen, o povo do deserto de Arrakis, Dune. E não nos podemos esquecer da especiaria que existe em Dune, um narcótico que desperta Paul para o seu papel fundamental como Kwisatz Haderach, o homem cuja solução genética iria ultrapassar as limitações de tempo e espaço.

Os seis volumes da série Dune centram-se em Paul, e posteriormente, na sua descendência. Mas é a sua figura atormentada e trágica que reverbera por todo o universo Dune, influenciando todo o pensamento e acção. Ecologia, política, filosofia, ciência e muito mais combinam para formar uma monumental obra-prima da ficção científica. Para uma crítica mais detalhada da minha autoria, podem consultar este artigo. (Tradução disponível em português.)

A Fire Upon the Deep de Vernor Vinge. Enquanto a maioria da população mundial pode não estar preparada ainda para os futuros desafios da tecnologia, alguns indivíduos há muito que transcenderam as limitações do nosso tempo, sendo um deles Vernor Vinge. Em A Fire Upon the Deep, uma entidade que habita o espaço da Transcendência, onde toda a tecnologia atingiu um grau de inteligência artificial sem patamar e para além da compreensão da raça humana (a singularidade), tornou-se uma perversão capaz de infilitrar sistemas informáticos e seres biológicos. Os seus objectivos são desconhecidos, mas o que é certo é que liberta uma onda de caos e destruição por todo o universo que aniquila civilizações.

Para combater esta Perversão, outra entidade transcendente ressuscita um ser humano – Pham Nuwen – e torna-o o seu agente para lutar contra a entidade maligna. Mas a única arma que permitirá a sobrevivência das zonas de pensamento (o universo divido em várias zonas; as profundezas do espaço, A zona lenta, o Além e a Transcendência) está oculta num planeta distante na zona lenta onde aterrou uma nave com crianças, planeta este habitado por – e esta é a parte mais complexa e difícil de digerir no livro de Vinge – matilhas de cães que agem por telepatia. Demasiado rebuscado? Não é. E Vinge transmite com grande emoção a solidão, angústia e necessidade por calor humano, se é que tal coisa ainda existe na vastidão dos espaços, através da personagem de Pham Nuwen. (Tradução disponível em português)

Estes cinco livros, todos eles, de uma forma ou outra, representam linhas de pensamento revolucionárias que ecoam o tempo histórico em que foram escritas, ao mesmo tempo que o transcende. Vinge com o seu conceito de singularidade, Dune com a sua mensagem inédita ecológica, a ambiguidade da utopia política retratada em The Dispossessed, as hediondas consequências da devastação nuclear que implica a destruição da Humanidade em A Canticle for Leibowitz, e por fim, a preservação do nosso legado mitológico e sua subversão para se adaptar a sistemas políticos totalitários em Lord of Light, são algumas das temáticas poderosas que estes livros têm para oferecer, apelando à consciência do leitor, e cumprindo a missão fundamental de qualquer ficção científica – to go boldly where no man has gone before.

Em breve, a segunda parte deste texto, com mais cinco livros.


10 Comments

  1. igdrasil said,

    Excelente post, muito elucidativo e interessante, tal como tudo neste blog. Apesar de ser visitante assíduo do blog ainda não tinha comentado por uma razão ou por outra, mas nunca por falta de interesse!

    Ficaria muito satisfeito se visitasse um blog que mantenho com três apaixonados pelo fantástico nas artes, fazendo parte deste trio o escritor português Pedro Ventura ( Goor- A cronica de feaglar) -conhece o seu trabalho? O blog destina-se a fornecer um espaço de análise através de posts críticos sobre os mais variados temas como por exemplo o desenho gráfico no fantástio, tentamos também promover a literatura fantástica portuguesa e mais importante ainda tentamos fornecer espaço para que novos autores portugueses se mostrem ( nesse sentido mantenho um projecto de edição de um revista de contos em que alguns novos autores surjam acompanhados de autores já consagrados no panorama da literatura fantástica portuguesa. Este projecto conta com o interesse de uma pequena editora do porto e encontra-se na sua fase preliminar de aceitação e análise dos textos propostos. O nome da revista será Vollüspa , uma homenagem ao espectacular poema do Edda, expoente máximo da mitologia Nórdica); Muita da inspiração para todos estes projectos surgiu através do contacto com o trabalho que tem desenvolvido tal como o trabalho de outros grandes vultos da ficção cientifica portuguesa (João Barreiros, Jorge Candeias, etc.);

    É por todas estas razões que teria o melhor orgulho em receber a sua visita no pequeno cantinho correiodofantastico.wordpress.com ;

    Espero que tal possa vir a acontecer e quem sabe se dentro de alguns dias não estarei a ler um comentário da sua autoria no correio do fantástico!

    Roberto Mendes (Igdrasil)

  2. igdrasil said,

    Errata: Onde se lê “melhor orgulho” deve ler-se “maior orgulho”

  3. Safaa Dib said,

    Muito obrigado pelo seu comentário!

    Eu já conheço o vosso blogue e recentemente chegou ao meu conhecimento essa nova revista Volluspa. Conheço também o trabalho do Pedro Ventura que chegámos a promover no Fórum Fantástico 2006.

    Boa sorte para os vossos projectos. Se precisarem de ajuda, podem contar comigo.🙂

  4. igdrasil said,

    Obrigado pela resposta, fico muito satisfeito pelo facto de conhecer o correio do fantástico. Neste momento estamos a tentar melhorar o blog, abrindo as portas a novos “carteiros” que possam trazer um salto qualitativo no nosso trabalho. Gostaria assim de deixar o convite para se juntar à nossa equipa. Qualitativamente daríamos um salto enorme devido à sua qualidade literária que, aliada à experiência, a tornam num dos maiores vultos do fantástico nas artes em Portugal! Teríamos todos muito a aprender com a sua participação; Sabendo de antemão que o tempo que tem disponível deve ser curto gostaria de lhe assegurar que, na eventualidade (ainda que remota, contudo tenho esperança;) de vir a aceitar o convite, não teria qualquer obrigação de efectuar participações no blog com frequência. Teria total disponibilidade para escolher quando e se queria postar algo e seria, tal como todos nos somos, administradora do blog. Todos nós nos encontramos com parca disponibilidade de tempo por isso nada é exigido. Deixo o convite consciente que será difícil alguém que já tanto conseguiu venha a querer participar em tão modesto projecto mas asseguro-lhe que os nossos objectivos vão de encontro com aqueles que tanto luta para conseguir : a divulgação da literatura fantástica no universo literário português! E,ainda que de momento nos encontremos num patamar um pouco primário na prossecução deste objectivo, apenas iremos conseguir chegar mais longe com maior qualidade e maior experiência, e essas duas qualidades são por si possuídas em grande escala!
    Quando referiu na sua resposta ao meu comentário que podemos contar consigo para nos ajudar tocou num ponto essencial para nós: precisamos muito de ajuda; ajuda para crescer neste mundo!

    Fica então assim feito o convite; fico à espera da resposta com alguma esperança!

    Quanto à revista seria óptimo se me pudesse disponibilizar qualquer tipo de ajuda, na divulgação da mesma por exemplo, mas o que me deixaria mesmo orgulhoso seria a sua participação, pois contar com um conto da sua autoria seria fantástico!

    Espero não ter pedido demais, mas talvez o tenha feito. Se for esse o caso deixo as minhas antecipadas desculpas.

    Desculpe também o facto de o comentário ser tão grande!

    Obrigado, Roberto Mendes

  5. Rogerio Ribeiro said,

    Olá, Roberto.

    Aparece no Fórum Fantástico 2008 e eu ajudo-te a convencê-la😛

    Um abraço,
    Rogério

    http://forumfantastico.wordpress.com

    PS: E já agora, parabéns pelo “Correio”, do qual também sou leitor assíduo.

  6. igdrasil said,

    Apenas vou ter disponibilidade para estar no primeiro dia no fórum, mas lá estarei… Fico mesmo muito satisfeito por seres leitor do correio, um abraço

  7. Caio Ertai said,

    Excelente post! Estou encantado com a leitura de “A Canticle for Leibowitz” – tanto quanto pela peculiar biografia do autor – e por causa do seu post já coloquei “Lord of Light” na minha lista de leituras.

  8. julio cunha said,

    Foi com muito prazer que cheguei a esta página e acho os títulos muito bem escolhidos. Infelizmente ainda não li Lord of Light de Roger Zelazny.

    Não posso deixar no entanto de sugerir um livro fundamental para mim: “Fiasco” de Stanislaw Lem. Narra a tentativa de contacto com uma civilização extraterrestre e fico triste de não o ver em nenhuma página dedicada a este Género.

  9. Top de livros de ficção científica – Parte II « Stranger in a Strange Land said,

    […] a comment » Há cerca de um ano,  escrevi um top de livros de ficção científica em que descrevi cinco dos meus livros favoritos. Prometi então a segunda parte, com mais cinco […]

  10. Zeeedu said,

    Ремонт квартир. Покупка кровельные материалы
    Требуется плотник
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