Possessão de A. S. Byatt

August 8, 2008 at 12:02 pm (Livros/BD/revistas)

The Beguiling of Merlin, Edward Burne-Jones

Correspondência entre Randolph Henry Ash e Christabel LaMotte:

De Randolph Henry Ash para Christabel LaMotte:

I remember your face turned aside a little-but decisive-I remember your speaking with such feeling-of the Life of Language-do you remember that phrase? I began so ordinary-polite-you said-you hoped to write a long poem on the subject of Melusina-and your eye partly defied me to find fault with this project-as though I could or would-and I asked-was the poem to be in Spenserian stanzas or blank verse or in some other metre-and suddenly you spoke-of the power of the verse and the Life of Language-and quite forgot to look shy or apologetic, but looked, forgive me, magnificent-it is a moment I shall not easily forget…

C. LaMotte para R. H. Ash:

You understood my very phrase-the Life of Language. (…) words have been all my life, all my life-this need is like the Spider’s need who carries before her a huge Burden of silk which she must spin out-the silk is her life, her home, her safety-her food and drink too-and if it is design anew-you will say she is patient-so she is-she may also be savage-it is her nature…

R. H. Ash para C. LaMotte:

I have dreamed nightly of your face and walked the streets of my daily life with the rhythms of your writing singing in my silent brain. I have called you my Muse, and so you are, or might be, a messenger from some urgent place of the spirit where essential poetry sings and sings. I could call you, with even greater truth-my Love- there, it is said-for I most certainly love you in all ways possible to man and most fiercely. It is a love for which there is no place in this world-a love my diminished reason tells me can and will do neither of us any good, a love I tried to hide cunningly from, to protect you from, with all the ingenuity at my command.

Preciso de palavras para descrever a intimidade entre estes dois poetas vitorianos fictícios que sucumbiram a uma paixão secreta, como duas almas gémeas à espera de se encontrarem uma à outra para finalmente se completarem? Esta correspondência fala por si própria. E gostaria de pensar que isto não é nenhuma mera invenção de A. S. Byatt, embora eu saiba que nunca houve um poeta de nome Randolph Henry Ash ou uma poetisa de nome Christabel LaMotte. Mas a descrição dos sentimentos, reprimidos e mais tarde libertados, é o reflexo de uma época com uma sensibilidade muito mais alerta aos profundos mistérios da vida. E isso não é nenhuma ficção de todo.

O romance em si, Possession / Possessão (disponível numa magnífica edição portuguesa publicada pela Sextante Editora), narra com uma tal vivacidade de detalhe a relação amorosa entre esses dois poetas que o tempo contemporâneo parece, em comparação, vazio e desprovido de sentido. Maud e Roland, dois académicos que descobrem a verdade do caso amoroso, são eles próprios obscuros, desinteressantes, cheios de dúvidas e inseguranças. É quando Byatt evoca o mundo vitoriano, por vezes cruél, que o romance adquire cores vibrantes.

O amor desse tempo contrasta com o tempo presente, o nosso tempo, que desconfia do amor, mas no qual prolifera a linguagem sexual. Sobre Roland e Maud, a autora escreve: They were children of a time and culture that mistrusted love, “in love”, romantic love, romance in toto, and which nevertheless in revenge proliferated sexual language, linguistic sexuality, analysis, dissection, deconstruction, exposure.

E apenas uma académica como a própria Byatt poderia fazer pouco das instituições académicas e do sistema de dissecação e apropriação das vidas de antigos poetas, muitas vezes interpretadas à luz de teorias literárias contemporâneas inapropriadas. É delicioso ler os ensaios académicos petulantes e ridículos que se escrevem sobre Ash ou LaMotte, totalmente irrelevantes. Faz-nos pensar acerca da utilidade da teoria e crítica académica literária, que muitas vezes se assemelha a um bisturi a dissecar camadas de significados que não existem.

Não deixam de existir muitas referências artísticas subtis. Christabel é o modelo feminino para a pintura da sua amiga Blanche sobre o encantamento de Vivienne e Merlin (ver quadro acima de Burne-Jones,The Beguiling of Merlin). E de facto, essa história do feiticeiro é a que melhor expressa o encantamento de LaMotte (ela própria, Melusina, a mulher meio-serpente) tecido em volta de Ash, cativo das suas palavras poéticas.

O que sinceramente me deu prazer em ler foi a descoberta gradual da relação entre Ash e LaMotte através das cartas e poemas. Se por um lado, Byatt ridiculariza e desconstrói o academismo moderno, histriónico e fechado, por outro, ela revela a verdadeira profissão do estudioso literário na forma como Maud e Roland descobrem as pistas deixadas nos poemas, cartas e textos da época.

E nos capítulos em que a narração assume a primeira pessoa, do ponto de vista de Ash ou da sua esposa, Ellen, conseguimos ver todo o talento de Byatt em evocar esse mundo perdido, para sempre fascinante, feito de honra e cavalheirismo, de sacrifício e devoção, de paixão e talento, de palavras, tantas palavras, que ficam por dizer.

2 Comments

  1. Alexandra A. said,

    Acabei ontem de ler (na referida edição da Sextante Editora)”Possessão”. Ainda estou arrebatada pela intensidade, beleza absoluta, inteligência e sensibilidade desta obra. Aqueles dois seres e a sua inevitável e trágica ligação (Ash e LaMotte)ficarão para sempre comigo.

  2. Safaa Dib said,

    Também fiquei muita impressionada pela ligação entre os dois poetas.

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