O fim das ilusões em 1984

July 20, 2008 at 8:11 pm (Livros/BD/revistas)

O texto a seguir transcrito surgiu pela primeira vez num dos fanzines publicados pelos Filhos de Athena em 2005, e é agora de novo reproduzida para efeitos de preservação e compilação dos textos online da autora.

O Tempo deixou de ter qualquer relevância no mundo cinzento e passivo de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell. Os dias sucedem-se uns aos outros, sem que seja permitido desvios em relação às regras impostas pelo Partido. Viver tornou-se um simples e automático desempenhar de funções ditadas por um regime político impiedoso.

No centro deste mundo, conhecido pelo nome de Oceânia, encontramos Winston Smith a viver numa Londres futurista, decadente e dilapidada, sempre a ameaçar colapso, e as suas ruínas uma clara evidência da incapacidade do Governo em providenciar pelo bem estar dos seus cidadãos.

Pela mente de Winston, um membro inferior do Partido, perpassam constantemente dúvidas e receios em relação às tácticas e decisões tomadas pela omnipotente figura do Grande Irmão, a face visível do regime, sumamente representadas pelo slogan:

GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA

Winston não consegue conceber como o seu mundo enveredou por tal caminho insano e assustador. Lentamente, apercebe-se de factos reveladores que vão cimentando a sua resistência psicológica aos ensinamentos do Partido, tais como, a destruição sistemática de Memória encetada pelos Ministérios. Ao ser colocada em funcionamento uma implacável máquina de Propaganda que altera a história a seu bel-prazer, os cidadãos são já incapazes de diferenciar a verdade da mentira. Mesmo para aqueles, como Winston, que se apercebem das falsas versões históricas, nada podem fazer para resistir ao gradual apagar do passado.

Outro aspecto que pesa na sua alma é a incessante vigilância das câmaras. A tecnologia, longe de ser desenvolvida para fins altruístas ou que encorajem o progresso social e científico, é instrumento de opressão e violação da privacidade do indivíduo. Nenhum cidadão de Oceânia sai incólume dessa constante observação, mesmo quando se julga a salvo.

A própria sociedade é direccionada para uma cultura de adoração irracional e lealdade inquestionável à enigmática estrutura de poder que domina a narrativa. Temos os já célebres Dois Minutos de Ódio, onde os cidadãos são encorajados a libertar a violência dos seus sentimentos mais negativos, direccionada para o inimigo que estiver naquele momento em guerra com Oceânia, tanto podendo ser Lestásia como Eurásia. É indiferente, conquanto a lealdade ao partido permaneça incondicional.

O que torna a obra de Orwell fascinante será, porventura, a capacidade visionária e a perspicácia em ter exposto os mecanismos que envolvem a instauração eficaz de um regime totalitário que viria a reflectir-se ao longo do séc. XX, numa Europa torturada pelo fascismo. Neste contexto, tendo a obra sido publicada em 1949, a data de 1984 poderia servir como um alerta para a realidade desta sociedade totalitária vir a concretizar-se com a ascensão do fascismo no continente Europeu.

A Novilíngua, o CrimePensar, a eliminação da identidade de um individuo de todos os registos, a manipulação ideológica e o próprio uso de uma figura da resistência, Goldstein, servirão todos como meio de aumentar o poder do Estado ainda mais eficazmente sobre o cidadão.

Perante este mundo feito de desespero e desesperança, que dizer das próprias relações humanas? Quando Julia revela, através de um subterfúgio, que ama Winston, não será a forma que ela própria encontrou de desafiar o Partido e a repressão de que a sua natureza é alvo? Não será o próprio amor consumado de Julia e Winston uma expressão dessa tentativa de rebelião e a confiança num futuro melhor?

De facto, tão confiantes se apresentam que tomam a decisão de se entregarem às mãos de O’Brien, julgando-o um membro da resistência. E aparentemente, corre tudo bem. É assim dada a oportunidade a Winston de ler o livro de Goldstein onde estão expostos os princípios ideológicos e as circunstâncias que levaram à ascensão do Grande Irmão. Um conjunto fascinante de dados que descreve o sistema de funcionamento do Partido, enunciando princípios como um estado de guerra perpétuo como forma de tirania sobre o indivíduo.

Mas, para grande mal de Winston e Julia, ambos subestimaram o poder do Partido. E assim são levados para o lugar onde não existe escuridão, dando início à reeducação de ambos os amantes.

O’Brien é a segunda personagem mais relevante na obra depois de Winston. Um homem absolutamente enigmático e do qual o leitor nunca se sente seguro do papel que representa na história, até chegarmos ao fim e ao quarto 101. A vida detalhada ao pormenor de Winston contrasta com o tão pouco que sabemos de O’Brien.

O representante por excelência da ideologia do Grande Irmão, o zelota implacável que discursa com absoluta certeza sobre a eficácia do Partido e a sua invulnerabilidade. É a personagem mais temível, e curiosamente, em quem mais desejamos confiar e pedir auxílio e conforto. Perversamente fascinante a forma como o seu discurso aborda a ineficácia das formas de opressão ao longo da História, o modo como as vítimas morriam às mãos de regimes totalitários mártires e sem arrependimento. Mas o Partido atingira novas formas sofisticadas de tortura, e é aí que observamos onde reside o verdadeiro Poder.

Winston é submetido a uma tortura física, mas antes de mais, psicológica. Esmagam a sua humanidade e espremem-na do seu espírito até à última gota, não restando nada mais do que um ser quebrado e sem forças. Quando Winston olha-se ao espelho e se apercebe de que aquela figura esquálida e repelente reflectida é o seu próprio corpo, já não lhe resta mais esperança, nem qualquer vontade de resistência.

As palavras de O’Brien, nesse momento, soam como um lamento fúnebre pelo Homem.

If you are a Man, Winston, you are the last man. Your Kind is extinct; we are the last inheritors.

E a última prova de tortura a que o submetem, no quarto 101, torna evidente como toda a resistência é fútil perante um tal poder negro que conhece os medos mais íntimos da pessoa e os usa contra si. O mal triunfa absolutamente e o amor pelo Grande Irmão torna-se uma realidade. A manipulação da mente foi de tal forma eficaz que o Winston do epílogo já não é o mesmo Winston que nos foi dado a conhecer no início da obra.

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro anuncia-se como obra profética que, longe de querer finalizar com uma nota de esperança, alerta para o advento de formas de repressão que põem fim a todas as ilusões e todos os sonhos. Mais de cinquenta anos decorridos após a publicação da obra, torna-se urgente reavaliar os caminhos ideológicos políticos pelos quais rumam as sociedades do nosso tempo e questionar as suas próprias intenções e a (in)sensatez das suas decisões, para que a esperança não morra como na obra de Orwell e continue desperta entre os homens.

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