Margarita e o Mestre de Mikhail Bulgakov

July 17, 2008 at 9:06 am (Livros/BD/revistas)

Desde a minha adolescência que tenho lido, com enorme fascinação, a literatura russa do século XIX. Fui sempre tomada por um profundo sentimento de que ao ler os russos, lia histórias de uma grande alma humana a sofrer silenciosamente, uma alma formada pelas vidas dos muitos homens e mulheres que pereceram na obscuridade, estóicos, resignados a uma estranha infelicidade que parece dominar permanentemente as terras de Inverno.

Autores como Pushkin, Tolstoi, Turgueniev, mas particularmente Dostoievsky e Tchékov, que melhor do que muitos exprimiram essa dor e peso de ser-se russo, conseguiram impressionar-me e para sempre deixaram a sua marca. Só muito mais tarde descobri Mikhail Bulgakov, devendo-se a uma curiosa canção dos Franz Ferdinand Love and Destroy em que Margarita voa pelos céus de Moscovo, em busca de vingança pelo seu amor.

Bulgakov viveu durante os anos Stalin e mesmo que não tenha perecido às mãos do regime, sofreu a opressão de uma vida literária asfixiada pela elite e condenada à censura. Empobrecido e doente, pede ao grande ditador para que lhe conceda autorização para deixar Rússia. É o próprio Stalin que lhe responde, oferecendo-lhe um emprego no teatro russo. É um famoso episódio da vida de Bulgakov sempre invocado em todos os prefácios e notas sobre as suas obras. Só podemos imaginar a sua conversa com Stalin e a sua aceitação do destino que lhe é imposto.

Mas custou-lhe que não tivesse a liberdade de escrever a obra-prima que alimentava o seu coração, uma obra em que denunciaria os males que então contaminavam a classe literária russa, irremediavelmente manchada aos seus olhos. Em segredo e com o constante temor de ser descoberto, trabalha no manuscrito de Margarita e o Mestre. Infelizmente, não viveu para assistir à sua publicação póstuma, nem à sua consagração como um dos maiores romances do século XX.

O romance alterna entre três partes distintas. A primeira foca a visita de Satanás, disfarçado de um misterioso professor mágico de nome Woland, a Moscovo durante os anos 30. Acompanhado pela sua hoste de figuras irreverentes, tais como o gato preto Behemoth, Koroviev, o demónio Azazello e a bruxa Hella, Woland está prestes a lançar caos em Moscovo, tendo como alvo especial a elite literária moscovita.

A cena de abertura, estranha e indecifrável como possa parecer, coloca em confronto a figura de Berlioz, um alto oficial burocrata pertencente à elite literária, e Woland que revela gradualmente os seus poderes mágicos e começa a narrar a história de Pôncio Pilatos, tal como é testemunhada pelo Diabo (narrativa esta que irá dar origem a uns capítulos peculiares). A estranha conversação entre o cavalheiro mágico e o burocrata é assistida por um poeta, Ivan, a quem é revelado antecipadamente a morte súbita e trágica de Berlioz.

Chocado pelas estranhas circunstâncias a que assiste, assim como a morte de Berlioz perante os seus olhos, Ivan lança-se em perseguição do bando de Woland, mas acaba por ser considerado louco e encerrado num asilo lunático.

É então que assistimos à intromissão do Diabo na cena moscovita quotidiana, expondo-a totalmente ao ridículo e satirizando-a através de um espectáculo de variedades, onde é colocada a nu a ganância, cegueira e ignorância da classe burguesa. Indiferente ao bem-estar das personagens, Woland, através de Koroviev e Behemoth, atormenta Moscovo e muitos começam a duvidar da sua própria sanidade mental.

A voz narrativa neste ponto é notável, sendo um dos grandes triunfos de Margarita e o Mestre. É uma voz que alterna entre o satírico, o humorístico, o grandiloquente, o trágico, o cómico, e o romântico. A voz acompanha-nos sempre, numa grande intimidade com o leitor, relatando as façanhas do Diabo e tirando gozo e proveito da ridicularização a que Moscovo é sujeita. As personagens não sabem o que pensar perante o oculto e o desconhecido, e são as suas reacções perante as circunstâncias singulares causadas pela visita de Woland que propiciam os melhores momentos satíricos do romance.

Mas a sátira à sociedade constitui apenas o cenário para a história central do livro, a do amor entre Margarita e o Mestre. Margarita é uma dama casada e aparentemente bem estabelecida na sociedade, mas profundamente infeliz, até que conhece o Mestre, um escritor desconhecido por quem se apaixona perdidamente. É este mesmo Mestre sem nome que escreveu um manuscrito sobre a crucificação de Jesus Cristo por Pôncio Pilatos, que está a ser narrada em paralelo com os capítulos sobre Moscovo.

Alimentando esta paixão secreta, pela qual está disposta a abandonar toda a sua vida passada, o amor de Margarita e o Mestre é testado desde o início e condenado à separação. O Mestre adoece e é enviado para o mesmo asilo lunático onde se encontra o poeta Ivan, com o total desconhecimento de Margarita. Julgando-se abandonada pelo seu amor, ela vagueia pelas ruas de Moscovo, observando acidentalmente o funeral de Berlioz, até ser abordada por Azazello que lhe realizar uma estranha proposta.

No momento em que Margarita aceita a proposta, não mais irá agir de forma convencional. Ela liberta-se de todo o peso da sua vida anterior, e aceita o pacto com o diabo com uma coragem notável. Algumas das mais belas cenas do romance são precisamente quando Margarita torna-se uma bruxa na noite do pacto. Nua, voa numa vassoura pelos céus de Moscovo, sentindo uma alegria que é partilhada com o leitor. Os espíritos da floresta saúdam-na e ela torna-se parte do mundo mágico, banhando-se no lago à noite, e celebrando a sua nova vida.

Mas ela não se esqueceu de toda a sua vida passada. Com os seus novos poderes, ela mostra a sua face mais cruél e violenta, ao exercer vingança em alguns críticos literários que tinham humilhado e maltratado o seu mestre amado. Como não partilhar a sua satisfação quando estilhaça a casa de um dos críticos?

Nessa mesma noite, Margarita tem que enfrentar o seu maior teste. Todos os anos, Satanás é o anfitrião de um baile que acolhe todas as personagens de mal e abre as portas ao Inferno e aos mortos. E todos os anos, uma mulher de nome Margarita (até o seu nome é simbólico, evocando Fausto de Goëthe) é escolhida para ser o acompanhante do Diabo. Se ela aceitar e sobreviver à noite do baile, e provar estar à altura da tarefa, Woland irá conceder o seu maior desejo.

Não irei contar o final, mas as três partes do enredo fundem-se no final, combinando religião e arte, história e ficção, sátira e denúncia política. No entanto, algumas questões permanecem. Qual o propósito da visita do Diabo a Moscovo, fazendo com que se envolva pessoalmente (assim como à sua hoste) em tumultos? Somos levados a acreditar que os seus actos são maléficos; faz desaparecer misteriosamente as pessoas, leva-as à loucura, mas em direcção ao fim, observamos como o alvo do Diabo é a ganância e a ambição desmedida de uma classe de russos que se tornara mesquinha e burguesa. Através do mal, o Diabo opera o bem. Não é à toa que a epígrafe do livro consiste numa resposta de Mephisto em Fausto de Goëthe: I am part of that power which eternally/ wills evil and eternally works good.

E o Diabo será o principal interveniente nos destinos do Mestre e Margarita. Se o final trouxe alguma medida de conforto a Bulgakov, deixa expresso também a sua crença de que as personagens, todas elas moralmente ambíguas, não merecem salvação, sendo apenas possível alcançar a paz. Confesso que é um final algo estranho, mas o livro estava inacabado aquando a morte do autor e foi completado pela sua mulher.

Houve uma primeira versão do manuscrito destruída pelo próprio Bulgakov, receando as consequências da sua descoberta pelo regime stalinista. Ele queria escrevê-lo mais do que tudo, mas vivia no tormento da censura e repressão ditatorial, muito à semelhança do próprio Mestre que queima também o seu manuscrito sobre Pôncio Pilatos, pelas mesmas razões. Mas o Diabo devolve o manuscrito ao Mestre, dizendo: manuscripts don’t burn, confirmando a supremacia da arte sobre tudo o resto, a arte que sobrevive à dominação política, à repressão e ao fim da razão.

Independentemente das suas temáticas, que devem ser aludidas no devido contexto da história e cultura soviética, é importante sublinhar que o impacto de Margarita e o Mestre ultrapassou em muito as circunstâncias geográficas, históricas e linguísticas que a viram nascer. Sobre a obra e a sua contribuição para o estabelecimento do realismo mágico, Robert Olen Butler escreveu:

I first read Mikhail Bulgakov’s The Master and Margarita on a balcony of the Hotel Metropole in Saigon on three summer evenings in 1971. The tropical air was heavy and full of the smells of cordite and motorcycle exhaust and rotting fish and wood-fire stoves, and the horizon flared ambiguously, perhaps from heat lightning, perhaps from bombs. Later each night, as was my custom, I would wander out into the steamy back alleys of the city, where no one ever seemed to sleep, and crouch in doorways with the people and listen to the stories of their culture and their ancestors and their ongoing lives. Bulgakov taught me to hear something in those stories that I had not yet clearly heard. One could call it, in terms that would soon thereafter gain wide currency, “magical realism.” The deadpan mix of the fantastic and the realistic was at the heart of the Vietnamese mythos. It is at the heart of the present zeitgeist. And it was not invented by Gabriel García Márquez, as wonderful as his One Hundred Years of Solitude is. García Márquez’s landmark work of magical realism was predated by nearly three decades by Bulgakov’s brilliant masterpiece of a novel.

É realmente uma obra-prima brilhante, produzida num tempo histórico que já não existe. Mas os seus ecos vibram ainda pelas décadas fora, alertando-nos para as vicissitudes da arte perante a tirania e opressão, tornando-se o mais sublime exemplo de resistência face à adversidade dos tempos.

3 Comments

  1. Mikhail Bulgakov: Margarita e o Mestre « Translucidamente’s Blog said,

    […] de um artigo de Alexandra Lucas Coelho na colecção Mil Folhas, do jornal Público, e do blogue ’stranger in a strange land‘, de uma luso-libanesa chamada Safaa Dib: “descobri Mikhail Bulgakov graças a uma […]

  2. http://giganticpasseng05.blinkweb.com/1/2013/07/how-to-take-care-of-your-xbox-360-and-avoid-the-ring-of-death-468e5/ said,

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