O passado islâmico da Península Ibérica

July 13, 2008 at 6:24 pm (Strange Land)

(O texto a seguir reproduzido surgiu pela primeira vez num dos fanzines dos Filhos de Athena no ano de 2005, e é de novo republicado para efeitos de preservação dos textos da autora)

O sol ia já alto quando o grito de «Allah hu acbar!» soou no centro dos esquadrões do Islame. Era a voz sonora e retumbante de Tariq. Repetido por milhares de bocas, este grito restrugiu e ecoou, como o estourar de trovoada distante, pelos pendores das serras e murmurou e perdeu-se pelos desfiladeiros e vales. […]
― Cristo e avante! ― bradaram os godos: e os esquadrões de Roderico precipitaram-se ao encontro dos muçulmanos.

Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano

Do outro lado da costa mediterrânica europeia, existe um mundo tão singular e incompreensível como as distantes paragens do Extremo Oriente onde florescem espantosas teias de diversidade linguística e cultural. Mas no Norte de África, na faixa de Levante e Ásia Menor prosperou ao longo dos séculos uma cultura que um olhar de um ocidental se apressaria a julgar como caótica, exuberante e guiada por preceitos estranhos e incompreensíveis. Falamos da cultura árabe, com uma história que remonta a Abraão, o pai de todas as nações, e diz o mito que o seu filho Ismael lançou a semente que daria origem aos filhos do mundo árabe. Ser árabe pode significar ser um cidadão de um país com língua oficial árabe, ser descendente dos povos que habitavam a península arábica, ser falante da língua árabe.

Mas houve um momento fundamental na história deste povo que para sempre mudaria o seu universo. Essencialmente nómadas e comerciantes, as diferentes tribos da Ásia Menor assistiram ao nascimento de um novo profeta no séc. VII, Mohammed, o último de uma linha que inclui Adão, Abraão, Moisés e Jesus Cristo. Em Mohammed foi revelada a palavra divina, o Corão, através do anjo de Deus ou Allah, Gabriel. Desde esse momento em diante, os árabes tornaram-se também muçulmanos. Não a totalidade deles, note-se. Embora maioritariamente seguidores do Islão, existem muitas outras minorias residentes em países de expressão árabe.

Após a conquista de Meca pelo Profeta, deu-se início a um processo político de Arabização e Islamização, poucas vezes pacífico, que se estendeu ao Levante e Norte de África. As elites árabes excluíam do poder as minorias étnicas não-árabes e, mais tarde, este factor viria a desestabilizar muitas das relações entre os mouros oriundos do actual Magrebe e Algéria e os árabes de Síria ou Arábia Saudita.

A morte de Mohammed iria eventualmente conduzir a acérrimas disputas acerca da sucessão do Profeta, que culminariam na grande cisão que dividiu os xiitas e sunitas. Na causa desse confronto estava a atribuição de poderes ao califa, o sucessor do profeta, o príncipe dos fiéis. Após forte dissensão, sobe ao poder aquela que veio a ser a primeira dinastia de Califas, os Omíadas, sendo a cidade de Damasco o centro do seu domínio.

Tendo como escudo a nova fé, foi no ardor dos primeiros séculos do Islão que os ensinamentos do Corão se propagaram e se tornaram o estandarte para os exércitos dos sarracenos, como eram comummente apelidados na Europa.

Em 711, deu-se a travessia do Mediterrâneo e os exércitos maioritariamente mouros, liderados pelo berbere Tarik Ibn-Ziyad, a mando dos governadores árabes, alcançaram solo europeu e trouxeram com eles os ventos do deserto e da mudança. A Hispânia, então governada por uma monarquia visigótica em decadência, não pôde fazer frente à primeira onda invasora. Nas margens do rio Barbate, Tárik alcança uma vitória esmagadora contra o último rei Visigodo, Roderico, traído pelos seus pares. Em pouquíssimos anos, quase toda a Hispânia viu-se conquistada, dividida e governada a partir de Damasco. Lisboa abriu as suas portas em 716, sendo então uma relativamente pequena vila portuária na margem do rio Tejo, mas que com os anos veio a prosperar com as trocas mercantis e viu a sua importância subir consideravelmente, acabando por se tornar um importante núcleo de moçárabes, isto é, de habitantes cristãos que não se converteram ao Islamismo.

A conquista de Hispânia não é um relato sanguinário e bárbaro que ceifou a vida a milhares de locais, mas antes uma história que implicou negociações e cedências de ambas as partes, até se chegar a um consenso que permitiu que a vida florescesse no Andalus, o nome que a Península Ibérica recebeu dos árabes. A conquista árabe podia ter-se estendido ao resto da Europa, não tivesse sido a valorosa resistência de Charles Martel (imagem em baixo) na batalha de Poitiers em 732. Só podemos especular sobre como seria a Europa de hoje caso esta batalha tivesse revertido a favor dos árabes.

Charles Martel

Charles Martel

Com a passagem dos séculos, o Andalus tornou-se um centro de erudição e ensino, de comércio e arte, onde cristãos, árabes e mouros coexistiam numa paz frágil mas que permitiu a construção de um legado importante na Península. A língua árabe, embora não tenha afectado as estruturas linguísticas daquilo que viria hoje a ser o português, contribuiu com um imenso e rico vocabulário normalmente reconhecido pelo artigo Al- no início da palavra.

Por esta altura, os eventos no plano internacional eram marcados por relatos de batalhas e golpes de estado, de traições e assassinatos entre os califas e pretendentes a califas. O califado dos Omíadas é destruído e no seu lugar, ascendem os Abássidas que proliferam em Bagdade. O único sobrevivente dos Omíadas consegue escapar para o Norte de África, e mais tarde, para Córdova, onde declara a sua independência como emir, desafiando o poder de Bagdade. Mais tarde, em 920, os emirs de Córdova ir-se-ão declarar como califas.

Estão criadas as condições e as circunstâncias que irão conduzir, nos próximos séculos, a um período excepcional na História Islâmica – a Idade de Ouro do Islão – uma era de inigualáveis proezas intelectuais e que permitiu grandes avanços em áreas tão diversas como Medicina, Astronomia, Geografia, Agricultura e anatomia. Figuras ímpares como o médico e filósofo Avicenna, o cartógrafo Idrisi, o filósofo Al-Farabi, o poeta Al-Mutanabbi, entre muitos outros, permitiram à Europa, com os seus ensinamentos e descobertas, que a Idade das Trevas se extinguisse e fosse substituída por novas luzes de conhecimento.

Na grande Hispânia, os cristãos escorraçados pelos exércitos de Tárik para o Norte da Península, sendo Pelágio a primeira grande figura de destaque da resistência, gradualmente ganham em força e organização e começa o moroso e difícil processo da Reconquista. Mas também a terra prosperava sob a soberania de Córdova; novos canais de irrigação tornavam a terra mais fértil, universidades foram construídas e a arquitectura dava novas maravilhas ao mundo na forma de grandes mesquitas.

O califado de Córdova, que governava a Hispânia Islâmica e o Norte de África, confrontado com contínuas dissensões e lutas de poder entre governadores, assim como uma escalada de tensão entre berberes, árabes e moçárabes, e ainda a perda de territórios para hostes cristãs, acaba por inevitavelmente soçobrar e cair no ano de 1031.

As muitas cidades e territórios sob controlo árabe fracturam-se em pequenos estados independentes, conhecidos como as taifas. Mas tal não implicou o fim da civilização islâmica na Ibéria, antes assistiu-se a um novo florescer. A obra de Averroes, natural de Córdova, influenciou profundamente todo o pensamento europeu, ainda que fosse incompreendido no seu próprio tempo.

Silves constituía um dos últimos bastiões de esplendor artístico e literário da civilização islâmica. Foi, aliás, nos palácios de Silves que habitaram, por breve tempo, duas das figuras literárias mais ilustres deste período, o rei poeta Al-Mu’tamid e seu amigo, também poeta, Ibn Ammar, cujas vidas e amizade são dignas de uma tragédia grega. Mas antes que o infortúnio arruinasse as suas vidas, e antes que Al-Mu’tamid fosse forçado a matar com as suas próprias mãos Ibn Ammar que o traíra, foi da lira do rei poeta que saiu este belo poema, o qual exprime bem o idílio efémero que ambos viveram no AlGharb.

Saúda, por mim, Abu Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.

[…]

Poema de Al-Mu’tamid enviado a Ibn Ammar, Evocação de Silves

(versão portuguesa de Adalberto Alves)

Al-Mu’tamid não fica apenas na história como um poeta, mas como o rei da taifa de Sevilha que assistiu à perda de Toledo, em 1085, a favor dos príncipes cristãos. Numa desesperada tentativa de travar a Reconquista cristã, as taifas assinam a sua própria condenação e perda de independência ao convidarem, em seu auxílio, os Almorávidas, uma confraria religiosa.

Destronado pelos Almorávidas, Al-Mu’tamid é desterrado para o Magrebe, para uma vida de exílio e miséria. De forma a proteger e conservar a sua amada Andaluzia, pagara um preço demasiado elevado.

Começa um tempo na Península marcado pelo fundamentalismo religioso islâmico exercido pelos Almorávidas, mas também uma sucessão de conquistas lendárias pelo campeão hispânico e brilhante militar, Rodrigo Díaz de Vivar, mais conhecido por El Cid, que ironicamente começara como mercenário a soldo das taifas.

Posteriormente, uma Andaluzia já militarmente e politicamente fragilizada perante o avanço da monarquia Castilho-leonesa e as proezas militares de D. Afonso Henriques a Nordeste da Península Ibérica, sofre um duro revés com a reconquista de Lisboa em 1147, um marco importante não só pelo que representou para a nação portuguesa, mas pelo facto de ter induzido às taifas a recorrerem mais uma vez a islâmicos radicais do Norte de África, desta vez, a dinastia dos Almóadas.

Foi o princípio do fim. Estes radicais, longe de providenciarem um verdadeiro auxílio à Andaluzia, limitaram-se a anexar os territórios e mostravam profundas divisões no seio das suas tribos. Nos próximos dois séculos, eram já incapazes de fazer frente aos exércitos disciplinados e unidos dos príncipes cristãos, e em 1492, os reis católicos Fernando e Isabel completaram a Reconquista com a rendição da última taifa sobrevivente, Granada. A lenda diz que o seu rei, Boabdil, ao partir para o exílio, olhou uma última vez para a cidade e chorou pela sua perda, num momento que ficou conhecido como o Último Suspiro do Mouro.

E com esse suspiro, veio o fim de uma era e de uma cultura única em todo o mundo. O universo islâmico da Península não era unicamente árabe, mas composto por uma miríade de vozes e heranças que originaram um património singular presente nos magníficos mosaicos de Alhambra, na imponente mesquita de Córdova, ou na caligrafia árabe de Averroes ou Ibn Ammar.

Mas se há alguma verdade que possa ser dita acerca da história deste período é que, por breves sopros de tempo, os povos que habitaram a Península construíram uma nova identidade e essa identidade não rejeitou o legado árabe e islâmico, nem tão só o desvalorizou, mas assimilou alguma coisa dos conhecimentos e da cultura, e não é possível negar que durante esse breve intervalo de tempo na história de civilizações, o coração da Ibéria era árabe.

3 Comments

  1. Adalberto Alves said,

    Prezada Senhora:

    Felicito-a pelo seu interessante e agradeço-lhe a divulgação que fez de um fragmento da minha versão portuguesa do poema de al-mu’tamid “Evocação de Sil
    ves “.
    Todavia, como é de lei e justo, agradeço que faça constar o meu nome, como autor da versão.

    Com as melhores saudações,

    Adalberto Alves

  2. Safaa Dib said,

    Prezado Dr. Adalberto Alves,

    As minhas desculpas por não ter indicado a autoria da versão, mas já o próprio sítio de onde retirei o excerto não indicava o nome do autor, levando-me a pensar que se tratava de uma tradução portuguesa do poema de Al-Mu’tamid. Entretanto, já editei o texto de modo a indicar a autoria.

    Aproveito esta oportunidade para felicitá-lo pelo prémio Sharjah pelo seu contributo à divulgação da cultura árabe.

    Melhores cumprimentos,

    Safaa Dib

  3. Marcelo Junior said,

    vão se fuder

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