Casanova in love with Dancing Doll

July 11, 2008 at 2:13 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

Depois de ver ontem Casanova de Fellini (1976) na Cinemateca, há uma cena maravilhosa que não me larga. Devo dizer que não é fácil gostar de Fellini. Temos que nos deixar levar e não esperar nenhuma lógica ou compromisso com a realidade e temos que nos deixar cativar pelas poderosas fantasias que irrompem da mente do cineasta. Penso que com a idade, Fellini cedeu cada vez mais ao seu próprio imaginário, fabricando sonhos de sonhos, enredando o espectador numa teia de ilusão e estranheza.

Em Casanova estão presentes todos os elementos fellinescos que constituem a imagem de marca do cineasta. Os freaks, que por norma seriam marginalizados por serem demasiado feios ou grotescos, são os filhos predilectos de Fellini e povoam todas as cenas. Eles fazem parte de circos ambulantes, companhias de actores, estão entre a ralé, escondidos nas nobres casas ou nos bordéis, nunca cessando de existir na imaginação de Fellini.

Mas é Casanova o centro da história, o homem de façanhas prodigiosas no amor, famoso pela sua erudição em artes e letras mas, principalmente, pela energia e paixão que devota a cada mulher que admira. Contudo, a sua vida é uma existência vácua, em perseguição de fama e fortuna, julgando-se uma grande figura que será relembrada através das eras, quando na verdade não passa de uma figura patética, humilhada no fim, destroçada pela perda da juventude e vigor. Diz-se que Fellini via em Casanova a representação de toda a imoralidade que abominava e que tinha tomado conta da Roma do seu tempo, nas décadas de 50 e 60. E a ser isto verdade, não nos podemos deixar espantar com o retrato desencantado e imoral que Fellini nos oferece do princípio ao fim.

Apesar disso, há uma cena em que é inegável que Fellini se superou e se deixou comover pela tragédia da vida de Casanova. Na parte final, o homem de letras deixa-se fascinar por uma boneca mecânica em tamanho real. Uma obra-prima, a beleza da boneca impressiona-o e, numa dança lenta, sedutora e quase mágica, ele faz amor com a boneca na talvez única cena de amor verdadeiramente tocante em todo o filme.

A cena é magnífica pela música de Nino Rota, coreografia de movimentos e monólogos de Casanova, tornando-se artística e bela como como só Fellini poderia criar. Mas vendo para além da beleza, a boneca mecânica representa uma metáfora que espelha a existência do próprio galã, vazia e desprovida de sentimentos. Não é por acaso que os sonhos finais da vida de Giacomo Casanova relembram o melhor da sua juventude em Veneza, enquanto dança lado a lado com a boneca. É um fim triste, mas apropriado, a uma vida devotada ao prazer e boémia.

Pode não ser o melhor filme de Fellini, mas a sua beleza é certamente algo para guardar na memória (e não terá esta cena reproduzida abaixo um toque de ficção científica? Esta boneca é demasiada avançada para o seu tempo, é antes um robô, embora o espectador saiba que é um humano a fingir que é um ser mecânico).

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