O fim das ilusões em 1984
O texto a seguir transcrito surgiu pela primeira vez num dos fanzines publicados pelos Filhos de Athena em 2005, e é agora de novo reproduzida para efeitos de preservação e compilação dos textos online da autora.
O Tempo deixou de ter qualquer relevância no mundo cinzento e passivo de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell. Os dias sucedem-se uns aos outros, sem que seja permitido desvios em relação às regras impostas pelo Partido. Viver tornou-se um simples e automático desempenhar de funções ditadas por um regime político impiedoso.
No centro deste mundo, conhecido pelo nome de Oceânia, encontramos Winston Smith a viver numa Londres futurista, decadente e dilapidada, sempre a ameaçar colapso, e as suas ruínas uma clara evidência da incapacidade do Governo em providenciar pelo bem estar dos seus cidadãos.
Pela mente de Winston, um membro inferior do Partido, perpassam constantemente dúvidas e receios em relação às tácticas e decisões tomadas pela omnipotente figura do Grande Irmão, a face visível do regime, sumamente representadas pelo slogan:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA
Winston não consegue conceber como o seu mundo enveredou por tal caminho insano e assustador. Lentamente, apercebe-se de factos reveladores que vão cimentando a sua resistência psicológica aos ensinamentos do Partido, tais como, a destruição sistemática de Memória encetada pelos Ministérios. Ao ser colocada em funcionamento uma implacável máquina de Propaganda que altera a história a seu bel-prazer, os cidadãos são já incapazes de diferenciar a verdade da mentira. Mesmo para aqueles, como Winston, que se apercebem das falsas versões históricas, nada podem fazer para resistir ao gradual apagar do passado.
Outro aspecto que pesa na sua alma é a incessante vigilância das câmaras. A tecnologia, longe de ser desenvolvida para fins altruístas ou que encorajem o progresso social e científico, é instrumento de opressão e violação da privacidade do indivíduo. Nenhum cidadão de Oceânia sai incólume dessa constante observação, mesmo quando se julga a salvo.
A própria sociedade é direccionada para uma cultura de adoração irracional e lealdade inquestionável à enigmática estrutura de poder que domina a narrativa. Temos os já célebres Dois Minutos de Ódio, onde os cidadãos são encorajados a libertar a violência dos seus sentimentos mais negativos, direccionada para o inimigo que estiver naquele momento em guerra com Oceânia, tanto podendo ser Lestásia como Eurásia. É indiferente, conquanto a lealdade ao partido permaneça incondicional.
O que torna a obra de Orwell fascinante será, porventura, a capacidade visionária e a perspicácia em ter exposto os mecanismos que envolvem a instauração eficaz de um regime totalitário que viria a reflectir-se ao longo do séc. XX, numa Europa torturada pelo fascismo. Neste contexto, tendo a obra sido publicada em 1949, a data de 1984 poderia servir como um alerta para a realidade desta sociedade totalitária vir a concretizar-se com a ascensão do fascismo no continente Europeu.
A Novilíngua, o CrimePensar, a eliminação da identidade de um individuo de todos os registos, a manipulação ideológica e o próprio uso de uma figura da resistência, Goldstein, servirão todos como meio de aumentar o poder do Estado ainda mais eficazmente sobre o cidadão.
Perante este mundo feito de desespero e desesperança, que dizer das próprias relações humanas? Quando Julia revela, através de um subterfúgio, que ama Winston, não será a forma que ela própria encontrou de desafiar o Partido e a repressão de que a sua natureza é alvo? Não será o próprio amor consumado de Julia e Winston uma expressão dessa tentativa de rebelião e a confiança num futuro melhor?
De facto, tão confiantes se apresentam que tomam a decisão de se entregarem às mãos de O’Brien, julgando-o um membro da resistência. E aparentemente, corre tudo bem. É assim dada a oportunidade a Winston de ler o livro de Goldstein onde estão expostos os princípios ideológicos e as circunstâncias que levaram à ascensão do Grande Irmão. Um conjunto fascinante de dados que descreve o sistema de funcionamento do Partido, enunciando princípios como um estado de guerra perpétuo como forma de tirania sobre o indivíduo.
Mas, para grande mal de Winston e Julia, ambos subestimaram o poder do Partido. E assim são levados para o lugar onde não existe escuridão, dando início à reeducação de ambos os amantes.
O’Brien é a segunda personagem mais relevante na obra depois de Winston. Um homem absolutamente enigmático e do qual o leitor nunca se sente seguro do papel que representa na história, até chegarmos ao fim e ao quarto 101. A vida detalhada ao pormenor de Winston contrasta com o tão pouco que sabemos de O’Brien.
O representante por excelência da ideologia do Grande Irmão, o zelota implacável que discursa com absoluta certeza sobre a eficácia do Partido e a sua invulnerabilidade. É a personagem mais temível, e curiosamente, em quem mais desejamos confiar e pedir auxílio e conforto. Perversamente fascinante a forma como o seu discurso aborda a ineficácia das formas de opressão ao longo da História, o modo como as vítimas morriam às mãos de regimes totalitários mártires e sem arrependimento. Mas o Partido atingira novas formas sofisticadas de tortura, e é aí que observamos onde reside o verdadeiro Poder.
Winston é submetido a uma tortura física, mas antes de mais, psicológica. Esmagam a sua humanidade e espremem-na do seu espírito até à última gota, não restando nada mais do que um ser quebrado e sem forças. Quando Winston olha-se ao espelho e se apercebe de que aquela figura esquálida e repelente reflectida é o seu próprio corpo, já não lhe resta mais esperança, nem qualquer vontade de resistência.
As palavras de O’Brien, nesse momento, soam como um lamento fúnebre pelo Homem.
If you are a Man, Winston, you are the last man. Your Kind is extinct; we are the last inheritors.
E a última prova de tortura a que o submetem, no quarto 101, torna evidente como toda a resistência é fútil perante um tal poder negro que conhece os medos mais íntimos da pessoa e os usa contra si. O mal triunfa absolutamente e o amor pelo Grande Irmão torna-se uma realidade. A manipulação da mente foi de tal forma eficaz que o Winston do epílogo já não é o mesmo Winston que nos foi dado a conhecer no início da obra.
Mil Novecentos e Oitenta e Quatro anuncia-se como obra profética que, longe de querer finalizar com uma nota de esperança, alerta para o advento de formas de repressão que põem fim a todas as ilusões e todos os sonhos. Mais de cinquenta anos decorridos após a publicação da obra, torna-se urgente reavaliar os caminhos ideológicos políticos pelos quais rumam as sociedades do nosso tempo e questionar as suas próprias intenções e a (in)sensatez das suas decisões, para que a esperança não morra como na obra de Orwell e continue desperta entre os homens.
Margarita e o Mestre de Mikhail Bulgakov
Desde a minha adolescência que tenho lido, com enorme fascinação, a literatura russa do século XIX. Fui sempre tomada por um profundo sentimento de que ao ler os russos, lia histórias de uma grande alma humana a sofrer silenciosamente, uma alma formada pelas vidas dos muitos homens e mulheres que pereceram na obscuridade, estóicos, resignados a uma estranha infelicidade que parece dominar permanentemente as terras de Inverno.
Autores como Pushkin, Tolstoi, Turgueniev, mas particularmente Dostoievsky e Tchékov, que melhor do que muitos exprimiram essa dor e peso de ser-se russo, conseguiram impressionar-me e para sempre deixaram a sua marca. Só muito mais tarde descobri Mikhail Bulgakov, devendo-se a uma curiosa canção dos Franz Ferdinand Love and Destroy em que Margarita voa pelos céus de Moscovo, em busca de vingança pelo seu amor.

Bulgakov viveu durante os anos Stalin e mesmo que não tenha perecido às mãos do regime, sofreu a opressão de uma vida literária asfixiada pela elite e condenada à censura. Empobrecido e doente, pede ao grande ditador para que lhe conceda autorização para deixar Rússia. É o próprio Stalin que lhe responde, oferecendo-lhe um emprego no teatro russo. É um famoso episódio da vida de Bulgakov sempre invocado em todos os prefácios e notas sobre as suas obras. Só podemos imaginar a sua conversa com Stalin e a sua aceitação do destino que lhe é imposto.
Mas custou-lhe que não tivesse a liberdade de escrever a obra-prima que alimentava o seu coração, uma obra em que denunciaria os males que então contaminavam a classe literária russa, irremediavelmente manchada aos seus olhos. Em segredo e com o constante temor de ser descoberto, trabalha no manuscrito de Margarita e o Mestre. Infelizmente, não viveu para assistir à sua publicação póstuma, nem à sua consagração como um dos maiores romances do século XX.
O romance alterna entre três partes distintas. A primeira foca a visita de Satanás, disfarçado de um misterioso professor mágico de nome Woland, a Moscovo durante os anos 30. Acompanhado pela sua hoste de figuras irreverentes, tais como o gato preto Behemoth, Koroviev, o demónio Azazello e a bruxa Hella, Woland está prestes a lançar caos em Moscovo, tendo como alvo especial a elite literária moscovita.
A cena de abertura, estranha e indecifrável como possa parecer, coloca em confronto a figura de Berlioz, um alto oficial burocrata pertencente à elite literária, e Woland que revela gradualmente os seus poderes mágicos e começa a narrar a história de Pôncio Pilatos, tal como é testemunhada pelo Diabo (narrativa esta que irá dar origem a uns capítulos peculiares). A estranha conversação entre o cavalheiro mágico e o burocrata é assistida por um poeta, Ivan, a quem é revelado antecipadamente a morte súbita e trágica de Berlioz.
Chocado pelas estranhas circunstâncias a que assiste, assim como a morte de Berlioz perante os seus olhos, Ivan lança-se em perseguição do bando de Woland, mas acaba por ser considerado louco e encerrado num asilo lunático.
É então que assistimos à intromissão do Diabo na cena moscovita quotidiana, expondo-a totalmente ao ridículo e satirizando-a através de um espectáculo de variedades, onde é colocada a nu a ganância, cegueira e ignorância da classe burguesa. Indiferente ao bem-estar das personagens, Woland, através de Koroviev e Behemoth, atormenta Moscovo e muitos começam a duvidar da sua própria sanidade mental.
A voz narrativa neste ponto é notável, sendo um dos grandes triunfos de Margarita e o Mestre. É uma voz que alterna entre o satírico, o humorístico, o grandiloquente, o trágico, o cómico, e o romântico. A voz acompanha-nos sempre, numa grande intimidade com o leitor, relatando as façanhas do Diabo e tirando gozo e proveito da ridicularização a que Moscovo é sujeita. As personagens não sabem o que pensar perante o oculto e o desconhecido, e são as suas reacções perante as circunstâncias singulares causadas pela visita de Woland que propiciam os melhores momentos satíricos do romance.
Mas a sátira à sociedade constitui apenas o cenário para a história central do livro, a do amor entre Margarita e o Mestre. Margarita é uma dama casada e aparentemente bem estabelecida na sociedade, mas profundamente infeliz, até que conhece o Mestre, um escritor desconhecido por quem se apaixona perdidamente. É este mesmo Mestre sem nome que escreveu um manuscrito sobre a crucificação de Jesus Cristo por Pôncio Pilatos, que está a ser narrada em paralelo com os capítulos sobre Moscovo.
Alimentando esta paixão secreta, pela qual está disposta a abandonar toda a sua vida passada, o amor de Margarita e o Mestre é testado desde o início e condenado à separação. O Mestre adoece e é enviado para o mesmo asilo lunático onde se encontra o poeta Ivan, com o total desconhecimento de Margarita. Julgando-se abandonada pelo seu amor, ela vagueia pelas ruas de Moscovo, observando acidentalmente o funeral de Berlioz, até ser abordada por Azazello que lhe realizar uma estranha proposta.
No momento em que Margarita aceita a proposta, não mais irá agir de forma convencional. Ela liberta-se de todo o peso da sua vida anterior, e aceita o pacto com o diabo com uma coragem notável. Algumas das mais belas cenas do romance são precisamente quando Margarita torna-se uma bruxa na noite do pacto. Nua, voa numa vassoura pelos céus de Moscovo, sentindo uma alegria que é partilhada com o leitor. Os espíritos da floresta saúdam-na e ela torna-se parte do mundo mágico, banhando-se no lago à noite, e celebrando a sua nova vida.
Mas ela não se esqueceu de toda a sua vida passada. Com os seus novos poderes, ela mostra a sua face mais cruél e violenta, ao exercer vingança em alguns críticos literários que tinham humilhado e maltratado o seu mestre amado. Como não partilhar a sua satisfação quando estilhaça a casa de um dos críticos?
Nessa mesma noite, Margarita tem que enfrentar o seu maior teste. Todos os anos, Satanás é o anfitrião de um baile que acolhe todas as personagens de mal e abre as portas ao Inferno e aos mortos. E todos os anos, uma mulher de nome Margarita (até o seu nome é simbólico, evocando Fausto de Goëthe) é escolhida para ser o acompanhante do Diabo. Se ela aceitar e sobreviver à noite do baile, e provar estar à altura da tarefa, Woland irá conceder o seu maior desejo.
Não irei contar o final, mas as três partes do enredo fundem-se no final, combinando religião e arte, história e ficção, sátira e denúncia política. No entanto, algumas questões permanecem. Qual o propósito da visita do Diabo a Moscovo, fazendo com que se envolva pessoalmente (assim como à sua hoste) em tumultos? Somos levados a acreditar que os seus actos são maléficos; faz desaparecer misteriosamente as pessoas, leva-as à loucura, mas em direcção ao fim, observamos como o alvo do Diabo é a ganância e a ambição desmedida de uma classe de russos que se tornara mesquinha e burguesa. Através do mal, o Diabo opera o bem. Não é à toa que a epígrafe do livro consiste numa resposta de Mephisto em Fausto de Goëthe: I am part of that power which eternally/ wills evil and eternally works good.
E o Diabo será o principal interveniente nos destinos do Mestre e Margarita. Se o final trouxe alguma medida de conforto a Bulgakov, deixa expresso também a sua crença de que as personagens, todas elas moralmente ambíguas, não merecem salvação, sendo apenas possível alcançar a paz. Confesso que é um final algo estranho, mas o livro estava inacabado aquando a morte do autor e foi completado pela sua mulher.
Houve uma primeira versão do manuscrito destruída pelo próprio Bulgakov, receando as consequências da sua descoberta pelo regime stalinista. Ele queria escrevê-lo mais do que tudo, mas vivia no tormento da censura e repressão ditatorial, muito à semelhança do próprio Mestre que queima também o seu manuscrito sobre Pôncio Pilatos, pelas mesmas razões. Mas o Diabo devolve o manuscrito ao Mestre, dizendo: manuscripts don’t burn, confirmando a supremacia da arte sobre tudo o resto, a arte que sobrevive à dominação política, à repressão e ao fim da razão.
Independentemente das suas temáticas, que devem ser aludidas no devido contexto da história e cultura soviética, é importante sublinhar que o impacto de Margarita e o Mestre ultrapassou em muito as circunstâncias geográficas, históricas e linguísticas que a viram nascer. Sobre a obra e a sua contribuição para o estabelecimento do realismo mágico, Robert Olen Butler escreveu:
I first read Mikhail Bulgakov’s The Master and Margarita on a balcony of the Hotel Metropole in Saigon on three summer evenings in 1971. The tropical air was heavy and full of the smells of cordite and motorcycle exhaust and rotting fish and wood-fire stoves, and the horizon flared ambiguously, perhaps from heat lightning, perhaps from bombs. Later each night, as was my custom, I would wander out into the steamy back alleys of the city, where no one ever seemed to sleep, and crouch in doorways with the people and listen to the stories of their culture and their ancestors and their ongoing lives. Bulgakov taught me to hear something in those stories that I had not yet clearly heard. One could call it, in terms that would soon thereafter gain wide currency, “magical realism.” The deadpan mix of the fantastic and the realistic was at the heart of the Vietnamese mythos. It is at the heart of the present zeitgeist. And it was not invented by Gabriel García Márquez, as wonderful as his One Hundred Years of Solitude is. García Márquez’s landmark work of magical realism was predated by nearly three decades by Bulgakov’s brilliant masterpiece of a novel.
É realmente uma obra-prima brilhante, produzida num tempo histórico que já não existe. Mas os seus ecos vibram ainda pelas décadas fora, alertando-nos para as vicissitudes da arte perante a tirania e opressão, tornando-se o mais sublime exemplo de resistência face à adversidade dos tempos.
O passado islâmico da Península Ibérica
(O texto a seguir reproduzido surgiu pela primeira vez num dos fanzines dos Filhos de Athena no ano de 2005, e é de novo republicado para efeitos de preservação dos textos da autora)
O sol ia já alto quando o grito de «Allah hu acbar!» soou no centro dos esquadrões do Islame. Era a voz sonora e retumbante de Tariq. Repetido por milhares de bocas, este grito restrugiu e ecoou, como o estourar de trovoada distante, pelos pendores das serras e murmurou e perdeu-se pelos desfiladeiros e vales. […]
― Cristo e avante! ― bradaram os godos: e os esquadrões de Roderico precipitaram-se ao encontro dos muçulmanos.
Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano
Do outro lado da costa mediterrânica europeia, existe um mundo tão singular e incompreensível como as distantes paragens do Extremo Oriente onde florescem espantosas teias de diversidade linguística e cultural. Mas no Norte de África, na faixa de Levante e Ásia Menor prosperou ao longo dos séculos uma cultura que um olhar de um ocidental se apressaria a julgar como caótica, exuberante e guiada por preceitos estranhos e incompreensíveis. Falamos da cultura árabe, com uma história que remonta a Abraão, o pai de todas as nações, e diz o mito que o seu filho Ismael lançou a semente que daria origem aos filhos do mundo árabe. Ser árabe pode significar ser um cidadão de um país com língua oficial árabe, ser descendente dos povos que habitavam a península arábica, ser falante da língua árabe.
Mas houve um momento fundamental na história deste povo que para sempre mudaria o seu universo. Essencialmente nómadas e comerciantes, as diferentes tribos da Ásia Menor assistiram ao nascimento de um novo profeta no séc. VII, Mohammed, o último de uma linha que inclui Adão, Abraão, Moisés e Jesus Cristo. Em Mohammed foi revelada a palavra divina, o Corão, através do anjo de Deus ou Allah, Gabriel. Desde esse momento em diante, os árabes tornaram-se também muçulmanos. Não a totalidade deles, note-se. Embora maioritariamente seguidores do Islão, existem muitas outras minorias residentes em países de expressão árabe.
Após a conquista de Meca pelo Profeta, deu-se início a um processo político de Arabização e Islamização, poucas vezes pacífico, que se estendeu ao Levante e Norte de África. As elites árabes excluíam do poder as minorias étnicas não-árabes e, mais tarde, este factor viria a desestabilizar muitas das relações entre os mouros oriundos do actual Magrebe e Algéria e os árabes de Síria ou Arábia Saudita.
A morte de Mohammed iria eventualmente conduzir a acérrimas disputas acerca da sucessão do Profeta, que culminariam na grande cisão que dividiu os xiitas e sunitas. Na causa desse confronto estava a atribuição de poderes ao califa, o sucessor do profeta, o príncipe dos fiéis. Após forte dissensão, sobe ao poder aquela que veio a ser a primeira dinastia de Califas, os Omíadas, sendo a cidade de Damasco o centro do seu domínio.
Tendo como escudo a nova fé, foi no ardor dos primeiros séculos do Islão que os ensinamentos do Corão se propagaram e se tornaram o estandarte para os exércitos dos sarracenos, como eram comummente apelidados na Europa.
Em 711, deu-se a travessia do Mediterrâneo e os exércitos maioritariamente mouros, liderados pelo berbere Tarik Ibn-Ziyad, a mando dos governadores árabes, alcançaram solo europeu e trouxeram com eles os ventos do deserto e da mudança. A Hispânia, então governada por uma monarquia visigótica em decadência, não pôde fazer frente à primeira onda invasora. Nas margens do rio Barbate, Tárik alcança uma vitória esmagadora contra o último rei Visigodo, Roderico, traído pelos seus pares. Em pouquíssimos anos, quase toda a Hispânia viu-se conquistada, dividida e governada a partir de Damasco. Lisboa abriu as suas portas em 716, sendo então uma relativamente pequena vila portuária na margem do rio Tejo, mas que com os anos veio a prosperar com as trocas mercantis e viu a sua importância subir consideravelmente, acabando por se tornar um importante núcleo de moçárabes, isto é, de habitantes cristãos que não se converteram ao Islamismo.
A conquista de Hispânia não é um relato sanguinário e bárbaro que ceifou a vida a milhares de locais, mas antes uma história que implicou negociações e cedências de ambas as partes, até se chegar a um consenso que permitiu que a vida florescesse no Andalus, o nome que a Península Ibérica recebeu dos árabes. A conquista árabe podia ter-se estendido ao resto da Europa, não tivesse sido a valorosa resistência de Charles Martel (imagem em baixo) na batalha de Poitiers em 732. Só podemos especular sobre como seria a Europa de hoje caso esta batalha tivesse revertido a favor dos árabes.

Charles Martel
Com a passagem dos séculos, o Andalus tornou-se um centro de erudição e ensino, de comércio e arte, onde cristãos, árabes e mouros coexistiam numa paz frágil mas que permitiu a construção de um legado importante na Península. A língua árabe, embora não tenha afectado as estruturas linguísticas daquilo que viria hoje a ser o português, contribuiu com um imenso e rico vocabulário normalmente reconhecido pelo artigo Al- no início da palavra.
Por esta altura, os eventos no plano internacional eram marcados por relatos de batalhas e golpes de estado, de traições e assassinatos entre os califas e pretendentes a califas. O califado dos Omíadas é destruído e no seu lugar, ascendem os Abássidas que proliferam em Bagdade. O único sobrevivente dos Omíadas consegue escapar para o Norte de África, e mais tarde, para Córdova, onde declara a sua independência como emir, desafiando o poder de Bagdade. Mais tarde, em 920, os emirs de Córdova ir-se-ão declarar como califas.
Estão criadas as condições e as circunstâncias que irão conduzir, nos próximos séculos, a um período excepcional na História Islâmica – a Idade de Ouro do Islão – uma era de inigualáveis proezas intelectuais e que permitiu grandes avanços em áreas tão diversas como Medicina, Astronomia, Geografia, Agricultura e anatomia. Figuras ímpares como o médico e filósofo Avicenna, o cartógrafo Idrisi, o filósofo Al-Farabi, o poeta Al-Mutanabbi, entre muitos outros, permitiram à Europa, com os seus ensinamentos e descobertas, que a Idade das Trevas se extinguisse e fosse substituída por novas luzes de conhecimento.
Na grande Hispânia, os cristãos escorraçados pelos exércitos de Tárik para o Norte da Península, sendo Pelágio a primeira grande figura de destaque da resistência, gradualmente ganham em força e organização e começa o moroso e difícil processo da Reconquista. Mas também a terra prosperava sob a soberania de Córdova; novos canais de irrigação tornavam a terra mais fértil, universidades foram construídas e a arquitectura dava novas maravilhas ao mundo na forma de grandes mesquitas.
O califado de Córdova, que governava a Hispânia Islâmica e o Norte de África, confrontado com contínuas dissensões e lutas de poder entre governadores, assim como uma escalada de tensão entre berberes, árabes e moçárabes, e ainda a perda de territórios para hostes cristãs, acaba por inevitavelmente soçobrar e cair no ano de 1031.
As muitas cidades e territórios sob controlo árabe fracturam-se em pequenos estados independentes, conhecidos como as taifas. Mas tal não implicou o fim da civilização islâmica na Ibéria, antes assistiu-se a um novo florescer. A obra de Averroes, natural de Córdova, influenciou profundamente todo o pensamento europeu, ainda que fosse incompreendido no seu próprio tempo.
Silves constituía um dos últimos bastiões de esplendor artístico e literário da civilização islâmica. Foi, aliás, nos palácios de Silves que habitaram, por breve tempo, duas das figuras literárias mais ilustres deste período, o rei poeta Al-Mu’tamid e seu amigo, também poeta, Ibn Ammar, cujas vidas e amizade são dignas de uma tragédia grega. Mas antes que o infortúnio arruinasse as suas vidas, e antes que Al-Mu’tamid fosse forçado a matar com as suas próprias mãos Ibn Ammar que o traíra, foi da lira do rei poeta que saiu este belo poema, o qual exprime bem o idílio efémero que ambos viveram no AlGharb.
Saúda, por mim, Abu Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.
[…]
Poema de Al-Mu’tamid enviado a Ibn Ammar, Evocação de Silves
(versão portuguesa de Adalberto Alves)
Al-Mu’tamid não fica apenas na história como um poeta, mas como o rei da taifa de Sevilha que assistiu à perda de Toledo, em 1085, a favor dos príncipes cristãos. Numa desesperada tentativa de travar a Reconquista cristã, as taifas assinam a sua própria condenação e perda de independência ao convidarem, em seu auxílio, os Almorávidas, uma confraria religiosa.
Destronado pelos Almorávidas, Al-Mu’tamid é desterrado para o Magrebe, para uma vida de exílio e miséria. De forma a proteger e conservar a sua amada Andaluzia, pagara um preço demasiado elevado.
Começa um tempo na Península marcado pelo fundamentalismo religioso islâmico exercido pelos Almorávidas, mas também uma sucessão de conquistas lendárias pelo campeão hispânico e brilhante militar, Rodrigo Díaz de Vivar, mais conhecido por El Cid, que ironicamente começara como mercenário a soldo das taifas.
Posteriormente, uma Andaluzia já militarmente e politicamente fragilizada perante o avanço da monarquia Castilho-leonesa e as proezas militares de D. Afonso Henriques a Nordeste da Península Ibérica, sofre um duro revés com a reconquista de Lisboa em 1147, um marco importante não só pelo que representou para a nação portuguesa, mas pelo facto de ter induzido às taifas a recorrerem mais uma vez a islâmicos radicais do Norte de África, desta vez, a dinastia dos Almóadas.
Foi o princípio do fim. Estes radicais, longe de providenciarem um verdadeiro auxílio à Andaluzia, limitaram-se a anexar os territórios e mostravam profundas divisões no seio das suas tribos. Nos próximos dois séculos, eram já incapazes de fazer frente aos exércitos disciplinados e unidos dos príncipes cristãos, e em 1492, os reis católicos Fernando e Isabel completaram a Reconquista com a rendição da última taifa sobrevivente, Granada. A lenda diz que o seu rei, Boabdil, ao partir para o exílio, olhou uma última vez para a cidade e chorou pela sua perda, num momento que ficou conhecido como o Último Suspiro do Mouro.
E com esse suspiro, veio o fim de uma era e de uma cultura única em todo o mundo. O universo islâmico da Península não era unicamente árabe, mas composto por uma miríade de vozes e heranças que originaram um património singular presente nos magníficos mosaicos de Alhambra, na imponente mesquita de Córdova, ou na caligrafia árabe de Averroes ou Ibn Ammar.
Mas se há alguma verdade que possa ser dita acerca da história deste período é que, por breves sopros de tempo, os povos que habitaram a Península construíram uma nova identidade e essa identidade não rejeitou o legado árabe e islâmico, nem tão só o desvalorizou, mas assimilou alguma coisa dos conhecimentos e da cultura, e não é possível negar que durante esse breve intervalo de tempo na história de civilizações, o coração da Ibéria era árabe.
Casanova in love with Dancing Doll
Depois de ver ontem Casanova de Fellini (1976) na Cinemateca, há uma cena maravilhosa que não me larga. Devo dizer que não é fácil gostar de Fellini. Temos que nos deixar levar e não esperar nenhuma lógica ou compromisso com a realidade e temos que nos deixar cativar pelas poderosas fantasias que irrompem da mente do cineasta. Penso que com a idade, Fellini cedeu cada vez mais ao seu próprio imaginário, fabricando sonhos de sonhos, enredando o espectador numa teia de ilusão e estranheza.
Em Casanova estão presentes todos os elementos fellinescos que constituem a imagem de marca do cineasta. Os freaks, que por norma seriam marginalizados por serem demasiado feios ou grotescos, são os filhos predilectos de Fellini e povoam todas as cenas. Eles fazem parte de circos ambulantes, companhias de actores, estão entre a ralé, escondidos nas nobres casas ou nos bordéis, nunca cessando de existir na imaginação de Fellini.
Mas é Casanova o centro da história, o homem de façanhas prodigiosas no amor, famoso pela sua erudição em artes e letras mas, principalmente, pela energia e paixão que devota a cada mulher que admira. Contudo, a sua vida é uma existência vácua, em perseguição de fama e fortuna, julgando-se uma grande figura que será relembrada através das eras, quando na verdade não passa de uma figura patética, humilhada no fim, destroçada pela perda da juventude e vigor. Diz-se que Fellini via em Casanova a representação de toda a imoralidade que abominava e que tinha tomado conta da Roma do seu tempo, nas décadas de 50 e 60. E a ser isto verdade, não nos podemos deixar espantar com o retrato desencantado e imoral que Fellini nos oferece do princípio ao fim.
Apesar disso, há uma cena em que é inegável que Fellini se superou e se deixou comover pela tragédia da vida de Casanova. Na parte final, o homem de letras deixa-se fascinar por uma boneca mecânica em tamanho real. Uma obra-prima, a beleza da boneca impressiona-o e, numa dança lenta, sedutora e quase mágica, ele faz amor com a boneca na talvez única cena de amor verdadeiramente tocante em todo o filme.
A cena é magnífica pela música de Nino Rota, coreografia de movimentos e monólogos de Casanova, tornando-se artística e bela como como só Fellini poderia criar. Mas vendo para além da beleza, a boneca mecânica representa uma metáfora que espelha a existência do próprio galã, vazia e desprovida de sentimentos. Não é por acaso que os sonhos finais da vida de Giacomo Casanova relembram o melhor da sua juventude em Veneza, enquanto dança lado a lado com a boneca. É um fim triste, mas apropriado, a uma vida devotada ao prazer e boémia.
Pode não ser o melhor filme de Fellini, mas a sua beleza é certamente algo para guardar na memória (e não terá esta cena reproduzida abaixo um toque de ficção científica? Esta boneca é demasiada avançada para o seu tempo, é antes um robô, embora o espectador saiba que é um humano a fingir que é um ser mecânico).
Es muss sein
Sobrevivi a uma das semanas mais intensas e emocionais da minha vida.
Representou ao mesmo tempo o fim, o culminar e um novo início.
O fim de uma situação profissional que já se tornara insustentável, o que fez com que apresentasse a minha demissão. Foi também o culminar de anos de trabalho e dedicação ao fantástico, tendo atingindo um ponto alto na honra que foi entrevistar o escritor George R. R. Martin no seu 1º evento público em Lisboa. E um novo início porque não sei bem o que me reserva o futuro a partir do dia de amanhã. As últimas palavras de Crime e Castigo de Dostoievsky ecoam, de certa forma, aquilo pelo qual estou a passar.
But that is the beginning of a new story—the story of the gradual renewal of a man, the story of his gradual regeneration, of his passing from one world into another, of his initiation into a new unknown life. That might be the subject of a new story, but our present story is ended.
Para breve, o relatório completo da passagem de George R. R. Martin em Portugal no blogue da Épica. Para já, ficam com as minhas fotografias.
George R. R. Martin juntamente com as três pessoas que possibilitaram a sua vinda a Portugal
Fotografia de João Gonçalves






