Amor obsessivo

June 8, 2008 at 11:24 am (Cinema e TV, Livros/BD/revistas)

Por um daqueles acasos engraçados, um livro que li e um filme que vi recentemente seguem o mesmo padrão, o do amor obsessivo, incondicional, que raia o absurdo e irracional, para descambar no patético e ridículo (esse rídulo tão temido pela corte de Versalhes do séc. XVII descrita por Patrice Leconte no filme Ridicule), culminando em nota eloquente trágica.

O livro era Carta de uma Desconhecida de Stefan Zweig (aquisição na feira do livro) e o filme era L’Histoire d’ Adèle H. de François Truffaut. Comprei o livro porque sou uma grande apaixonada pelo filme de Max Ophuls inspirado precisamente nessa noveleta de Zweig, e vi o filme porque interessou-me esta ficção romanceada em torno da loucura de Adèle H., a malograda filha do escritor Victor Hugo.

Em Carta de uma Desconhecida, um escritor recebe uma longa carta escrita por uma mulher desconhecida que principia por narrar os principais factos da sua vida inteiramente devotada a uma paixão não-correspondida por esse mesmo escritor.

A sua adolescência e vida adulta guiaram-se por este amor platónico até que um encontro ocasional na rua leva a três noites de paixão que rapidamente caem no esquecimento na mente do escritor. Mas para a mulher desconhecida esse amor era tudo e deu-lhe um filho. O final é arrasador, mas a tragédia da história reside no facto de que, de cada vez que ela se volta a encontrar com o seu amante, ele nunca reconhece o seu rosto.

Confesso que o filme é superior, com uma Joan Fontaine inocente e apaixonada, completamente rendida ao charme e sedução de Louis Jourdan. Partilhamos com a personagem o seu amor, que Max Ophuls jamais se atreve a ridcularizar, mas também a sua tristeza por jamais ser reconhecida pelo homem a quem entregou a sua vida.

Em L’Histoire d’ Adéle H., a personagem principal embrenha-se num longo jogo em que se ilude a si própria, julgando que o seu amado irá consentir no tão desejado casamento. O amor obsessivo de Adèle vai muito mais longe, assumindo uma face auto-destrutiva, submetendo-a a um processo de degradação inexorável.

É no seu diário secreto que Adéle escreve palavras incendiárias, e que reflectem o gradual fim da sua lucidez. Isabelle Adjani, com a sua beleza de Helena de Tróia, interpreta Adéle com a absoluta convicção de que se o Tenente Pinson não lhe pertence, então nunca poderá pertencer a alguém. Sistematicamente, recorre a sabotagem e deliberadamente engana a sua família para conseguir o seu desejo. É por isso trágico que Adéle, nos momentos finais, já nem sequer reconheça o amado enquanto deambula pelas ruas de Barbados, a sua alma destruída pela dor deste amor não-correspondido.

Duas mulheres devoradas por amor, e destruídas por ele. A história destas duas mulheres poderia ser encarada como um melodrama vulgar, não fosse a excepcional intensidade espiritual manifesta nas palavras de ambas, na carta da mulher desconhecida e no diário de Adéle, mas também a incondicional entrega (não só no plano físico, uma vez que ambas confessam terem-se entregue à pessoa amada) e o incondicional amor que as mantém presas e altera as suas vidas, não mais pertencentes à esfera do racional e do humano.

Adéle e a mulher desconhecida tornam-se personagens que vivem à margem da sociedade, arruinadas pelo amor mais perigoso de todos, e não mais ao alcance da convenção.

1 Comment

  1. Agatha said,

    Olá, você sabe se esse diário da Adèle foi publicado? Fiz umas pesquisas na internet mas não encontrei.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: