Sinais (incómodos) dos tempos

June 15, 2008 at 7:47 pm (Strange Land)

Os leitores começaram a aperceber-se dos primeiros sinais de mudança no mercado dos livros quando a Leya decidiu desafiar os ditames da APEL sobre a organização da Feira do Livro de Lisboa, envolvendo o certame numa longa polémica polvilhada de contradições, ameaças e insultos velados da parte de todos os envolvidos. Se muitos suspeitaram que o episódio da Feira seria apenas o primeiro de muitos, foi com a abertura da Praça Leya que todos receberam a confirmação de que o grupo iria optar por tácticas agressivas e dominadoras para impor a sua lógica capitalista.

A infame Praça Leya da Feira do Livro eliminou todo o seu catálogo menos comercial e popular, colocando à venda apenas uma meia dúzia de livros bem-sucedidos por cada chancela. Num canto perdido de armazéns empoeirados ficaram todas as outras colecções publicadas no passado. A Leya e respectivas chancelas – e falamos daquelas que foram no passado algumas das maiores editoras históricas do país – Caminho, D. Quixote, Asa, Texto, Gailivro, com a notícia recente de que também a Oficina do Livro passaria a fazer parte do Grupo Leya – estão na origem de um profundo mal-estar que se começa a fazer sentir no seio das outras editoras, em particular, as pequenas e médias editoras.

O dinheiro move montanhas, e quando não se tem falta dele, não há muito que possa travar a marcha da máquina comercial dos gigantes da edição que se tornaram as chancelas da Leya. A parceria recentemente anunciada com a Casa Fernando Pessoa pode parecer inocente à partida, mas a julgar pelas palavras da actual Directora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa (também autora publicada pela… Leya), o grupo é quem praticamente sustenta a Casa, uma vez que o orçamento disponibilizado para a gestão da CFP nem chega para pagar suficiente papel higiénico.

Talvez não seja de todo despropositado comparar-se a Leya ao monstro Caríbdes, o abismo que devora as ondas, e três vezes por dia, as vomita com formidáveis rugidos. Mesmo para os afortunados que conseguem escapar ao seu perigo, acabam devorados por Cila. Como poderão as editoras pequenas e médias fazer frente a tal formidável oponente que fará tudo para impor as suas tácticas dominadoras no mercado dos livros?

Mercado este que tem poucas qualidades positivas que se possam realçar. Todas as semanas saem centenas de novidades, impossíveis de serem absorvidas por um público generalista, mais atento a livros vistosos, caros e bonitos, em detrimento da qualidade literária. Não podemos cometer o erro de afirmar de que toda a gente que compra livros conhece os livros que compra.

É um público que ainda não conseguiu ver os benefícios da Internet na compra e divulgação de livros, sendo ainda totalmente alheado da compra de livros portugueses online. É na sua maioria indiferente à blogosfera, a não ser que alguma polémica se tenha instalado em torno de algum plágio (ver o caso insólito e grotesco das acusações de plágio a Miguel Sousa Tavares). Raramente dá atenção à crítica literária que surge nos (cada vez mais) parcos suplementos literários. E ao contrário da restante população mundial, os portugueses ainda descobrem as novidades literárias primeiramente através dos meios de comunicação social, e só mais tarde, através da Internet.

Esta falta de adaptação do leitor português aos tempos modernos poderá ser um reflexo dos próprios modelos tradicionais instaurados pelos livreiros e editores que temos. Até há cinco anos, quem é que me saberia apontar um site decente de uma editora portuguesa?

Se houve alguma coisa que mudou o panorama definitivamente para melhor foi a abertura das FNACs. Não só trouxeram uma incomparável diversidade na oferta de livros, como proporcionaram oportunidade para todos os protagonistas na área dos livros mostrarem os seus catálogos. Antes das FNACs, nem editores, nem tão pouco livreiros, se davam ao trabalho de escutar as necessidades do público leitor. Havia uma falta de profissionalismo gritante no atendimento público dos potenciais compradores de livros, e existia uma total falta de comunicação entre leitores e editores. Chegámos ao início do século XXI com o público moldado pelas editoras e livreiros que tínhamos: desinteressado, desinformado e atrasado em relação aos seus semelhantes europeus.

Felizmente, as coisas começaram a mudar com o surgimento de novas editoras, mais dinâmicas, acessíveis e inovadoras. O mercado dos livros em Portugal foi forçado a profissionalizar-se, mesmo que no fundo nunca tivesse sido nada mais do que caótico e desorganizado. E não irei abordar aqui os graves problemas de distribuição que afectam esta área, e que impedem um verdadeiro trabalho de edição e progresso cultural no país, pois aí o panorama é verdadeiramente deprimente e desencorajador.

Mas ainda assim, notou-se uma evolução positiva no mercado graças a esta crescente profissionalização. Até que o impensável aconteceu e todas as editoras de peso foram compradas, uniformizadas e tornaram-se máquinas de arrotar produtos. Correndo o risco de soar dramática, instalou-se um cenário orwelliano onde as instituições públicas são descaradamente compradas para fazer publicidade a grupos de esmagador poder financeiro, onde os livros que vendem menos do que cem exemplares por ano são eliminados e indignos de entrar nas livrarias, onde a classe jornalística foi silenciada porque têm os seus próprios interesses a defender, e onde o independente e alternativo, o pequeno e médio, deixaram de ter simplesmente lugar.

Os sinais de mal-estar multiplicam-se e, escondidas do público em geral, desenrolam-se muitas discussões onde se tem desafiado a lógica que a pouco e pouco se tem instalado. A discussão em torno dos booktrailers, iniciada pela editora Livros de Areia, foi apenas mais uma situação em que pudemos observar como os livreiros agora se têm descartado das suas responsabilidades de promoção e divulgação cultural e literária e se tornaram coniventes com esta absoluta dominação do mercado determinada a arrasar com a competição por todos os meios possíveis.

Em vez de serem as próprias livrarias a disponibilizarem os seus monitores para passarem booktrailers de todas as editoras, assistimos ao absurdo de serem as editoras a ter que fornecer os meios e a alugar o espaço para que seja possível tal exibição de trailers. Ganha quem tiver mais músculo financeiro, obviamente.

Apesar de tudo, é bom observar como se têm multiplicado os apelos para uma união dos editores independentes. Talvez seja agora a altura ideal para pôr em marcha uma associação profissional que defenda verdadeiramente os interesses daqueles que mais estão a ser prejudicados pela nova conjectura de mercado (não seguindo os maus exemplos da UEP), uma associação que crie a sua própria rede de distribuição e livrarias e construa a sua própria máquina publicitária. Pode parecer impossível ser criada semelhante coisa em Portugal, mas alguém tinha previsto o surgimento da Leya há 1 ano?

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Amor obsessivo

June 8, 2008 at 11:24 am (Cinema e TV, Livros/BD/revistas)

Por um daqueles acasos engraçados, um livro que li e um filme que vi recentemente seguem o mesmo padrão, o do amor obsessivo, incondicional, que raia o absurdo e irracional, para descambar no patético e ridículo (esse rídulo tão temido pela corte de Versalhes do séc. XVII descrita por Patrice Leconte no filme Ridicule), culminando em nota eloquente trágica.

O livro era Carta de uma Desconhecida de Stefan Zweig (aquisição na feira do livro) e o filme era L’Histoire d’ Adèle H. de François Truffaut. Comprei o livro porque sou uma grande apaixonada pelo filme de Max Ophuls inspirado precisamente nessa noveleta de Zweig, e vi o filme porque interessou-me esta ficção romanceada em torno da loucura de Adèle H., a malograda filha do escritor Victor Hugo.

Em Carta de uma Desconhecida, um escritor recebe uma longa carta escrita por uma mulher desconhecida que principia por narrar os principais factos da sua vida inteiramente devotada a uma paixão não-correspondida por esse mesmo escritor.

A sua adolescência e vida adulta guiaram-se por este amor platónico até que um encontro ocasional na rua leva a três noites de paixão que rapidamente caem no esquecimento na mente do escritor. Mas para a mulher desconhecida esse amor era tudo e deu-lhe um filho. O final é arrasador, mas a tragédia da história reside no facto de que, de cada vez que ela se volta a encontrar com o seu amante, ele nunca reconhece o seu rosto.

Confesso que o filme é superior, com uma Joan Fontaine inocente e apaixonada, completamente rendida ao charme e sedução de Louis Jourdan. Partilhamos com a personagem o seu amor, que Max Ophuls jamais se atreve a ridcularizar, mas também a sua tristeza por jamais ser reconhecida pelo homem a quem entregou a sua vida.

Em L’Histoire d’ Adéle H., a personagem principal embrenha-se num longo jogo em que se ilude a si própria, julgando que o seu amado irá consentir no tão desejado casamento. O amor obsessivo de Adèle vai muito mais longe, assumindo uma face auto-destrutiva, submetendo-a a um processo de degradação inexorável.

É no seu diário secreto que Adéle escreve palavras incendiárias, e que reflectem o gradual fim da sua lucidez. Isabelle Adjani, com a sua beleza de Helena de Tróia, interpreta Adéle com a absoluta convicção de que se o Tenente Pinson não lhe pertence, então nunca poderá pertencer a alguém. Sistematicamente, recorre a sabotagem e deliberadamente engana a sua família para conseguir o seu desejo. É por isso trágico que Adéle, nos momentos finais, já nem sequer reconheça o amado enquanto deambula pelas ruas de Barbados, a sua alma destruída pela dor deste amor não-correspondido.

Duas mulheres devoradas por amor, e destruídas por ele. A história destas duas mulheres poderia ser encarada como um melodrama vulgar, não fosse a excepcional intensidade espiritual manifesta nas palavras de ambas, na carta da mulher desconhecida e no diário de Adéle, mas também a incondicional entrega (não só no plano físico, uma vez que ambas confessam terem-se entregue à pessoa amada) e o incondicional amor que as mantém presas e altera as suas vidas, não mais pertencentes à esfera do racional e do humano.

Adéle e a mulher desconhecida tornam-se personagens que vivem à margem da sociedade, arruinadas pelo amor mais perigoso de todos, e não mais ao alcance da convenção.

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