Jerusalém através dos séculos

May 16, 2008 at 11:42 am (Livros/BD/revistas)

Publisher’s Weekly chamou-o de o melhor romancista americano desconhecido. E de facto, a palavra-chave reside em desconhecido. Edward Whittemore (1933-1995) mais de 10 anos após a sua morte, permanece um mistério para muitos dos leitores que tiveram a sorte ou privilégio de encontrarem a sua obra literária. Apenas 5 romances, intricamente ligados, povoados de aventuras excêntricas e a descrição exuberante de pessoas que vivem demasiado intensamente, fechadas no seu próprio mundo de imaginação.

São personagens obcecadas, determinadas a seguir um peculiar curso de vida, desiludidas e amarguradas a um certo ponto, atormentadas pelas visões que as perseguem, mas todas convivendo na mesma universal teia que as prende a Jerusalém.

E no entanto, todos estrangeiros numa terra estranha que adoptaram como sua, muito como o próprio Whittemore que viveu durante vários anos em Jerusalém e, diz quem sabe, que foram os anos mais felizes da sua vida.

Nenhuma descrição de The Sinai Tapestry, o primeiro em quatro volumes, poderá fazer justiça a esta obra-prima. O quarteto continua com Jerusalem Poker, Nile Shadows e Jericho Mosaic, narrativas multiculturais que cruzam as histórias e tragédias pessoais de muitas personagens.

Skanderberg Wallenstein, um monge fanático de Albânia, que desenterra a bília mais velha do mundo num mosteiro em Jerusalém e descobre que nega toda as verdades religiosas tal como foram transmitidas. Plantagenet Strongbow, um aventureiro inglês que se torna um homem santo muçulmano e finalmente, na véspera da Grande Guerra, o governante secreto do Império Otomano. O seu filho, Stern, um visionário que dedica a sua vida a estabelecer uma terra onde vivam em comunhão cristão, judeus e muçulmanos. Haj Harun, um guerreiro de 3000 anos de idade e um antiquário. E O’Sullivan Beare, um irlandês exilado que luta pela liberdade, enquanto trafica armas.

Ousado na criação de personagens alucinantes e alucinadas, Whittemore desafia as convenções e expõe uma intensa visão pessoal metamorfoseada em histórias fantásticas com os pés bem assentes na História do Médio Oriente.

Os capítulos dedicados a Esmirna são dos mais intensos e marcantes. Nas vésperas do ataque que vitimou as vidas de milhares de arménios e gregos às mãos de tropas turcas no ano de 1923, as personagens encontram-se presas nessa cidade, e têm que lutar para escaparem a salvo. Mas as atrocidades que testemunham testam os seus limites como homens e alguns abandonam a cidade para sempre transformados por esta experiência.

Livros apropriados neste tempo em que Israel celebra os seus 60 anos de precária existência, uma celebração que para muitos representa a Catástrofe, o dia da Nakba. Jerusalém permanece ainda o pomo da discórdia, mas é no seu centro sagrado intemporal que o crente encontra as raízes da sua fé. É cidade de sangue, mas também cidade de esperança para os que desejam acreditar, muito como as próprias histórias de Whittemore, em que a crueldade e violência se fundem com histórias de ternura e amor.

Excêntrico como possa parecer, Whittemore é um dos mais fascinantes e obscuros escritores norte-americanos, capaz de transmitir a intensidade e a poesia da vida, por vezes cómico, por vezes comovente e por vezes profundo, a atestar por esta curta passagem de Sinai Tapestry.

Love gentle and kind and ferocious, rich and starved and hallucinatory, damned and diseased and saintly. Love, the bewildering varieties of love. That and only that able to recall the lives lost in the spectacle, the hours forgotten in the dream.

Hopes and failures given to time, demons pressed into quietude, spirits released to memory in the chaotic book of life, a repetitious and contradictory Bible suggesting infinity, a Sinai Tapestry of many colours.

Whittemore foi também o autor de Quin’s Shangai Circus, o seu primeiro romance de novo reeditado, juntamente com o quarteto de Jerusalém pela Old Earth Books, uma excêntrica história de espionagem no Extremo Oriente, povoada de visões incendiárias e imaginativas que apresentam ao leitor um dos mais irreverentes e eloquentes escritores de ficção especulativa.

Por isso agora pergunto, qual o editor português que terá a coragem de publicar a irreverência e eloquência de Whittemore?

3 Comments

  1. Rafael Lino said,

    Fiquei com vontade de ler Whittemore agora!
    Em modo de piada, olha um editor que não tenha sido apanhado pela crise!😀
    Para as familias Portugueses comprar livros é cada vez mais um luxo.

  2. Francisco Norega said,

    Por acaso também me deixaste curiosa. Se tivesse uma editora, era capaz de apostar no autor, até porque os conflitos e a história daquela terra a que uns chamam israel e a que outros chamam palestina me interessa muito. O problema é que (ainda?) não tenho, por isso vou ter de ficar à espera… ou então leio em inglês.

  3. Hugo said,

    Consta que foi publicado pela Ulisseia🙂

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