Um acaso

May 19, 2008 at 7:46 pm (Strange Land)

Qual é a probabilidade de me sentar no metro no regresso a casa, após um dia de trabalho, e descobrir que estou sentada em frente de uma pessoa que está a ler precisamente um livro que eu traduzi? Espero que as pessoas à minha volta nao tenham interpretado erradamente o meu riso mal disfarçado. É um riso que não expressa mais do que admiração por estes curiosos acasos.

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Jerusalém através dos séculos

May 16, 2008 at 11:42 am (Livros/BD/revistas)

Publisher’s Weekly chamou-o de o melhor romancista americano desconhecido. E de facto, a palavra-chave reside em desconhecido. Edward Whittemore (1933-1995) mais de 10 anos após a sua morte, permanece um mistério para muitos dos leitores que tiveram a sorte ou privilégio de encontrarem a sua obra literária. Apenas 5 romances, intricamente ligados, povoados de aventuras excêntricas e a descrição exuberante de pessoas que vivem demasiado intensamente, fechadas no seu próprio mundo de imaginação.

São personagens obcecadas, determinadas a seguir um peculiar curso de vida, desiludidas e amarguradas a um certo ponto, atormentadas pelas visões que as perseguem, mas todas convivendo na mesma universal teia que as prende a Jerusalém.

E no entanto, todos estrangeiros numa terra estranha que adoptaram como sua, muito como o próprio Whittemore que viveu durante vários anos em Jerusalém e, diz quem sabe, que foram os anos mais felizes da sua vida.

Nenhuma descrição de The Sinai Tapestry, o primeiro em quatro volumes, poderá fazer justiça a esta obra-prima. O quarteto continua com Jerusalem Poker, Nile Shadows e Jericho Mosaic, narrativas multiculturais que cruzam as histórias e tragédias pessoais de muitas personagens.

Skanderberg Wallenstein, um monge fanático de Albânia, que desenterra a bília mais velha do mundo num mosteiro em Jerusalém e descobre que nega toda as verdades religiosas tal como foram transmitidas. Plantagenet Strongbow, um aventureiro inglês que se torna um homem santo muçulmano e finalmente, na véspera da Grande Guerra, o governante secreto do Império Otomano. O seu filho, Stern, um visionário que dedica a sua vida a estabelecer uma terra onde vivam em comunhão cristão, judeus e muçulmanos. Haj Harun, um guerreiro de 3000 anos de idade e um antiquário. E O’Sullivan Beare, um irlandês exilado que luta pela liberdade, enquanto trafica armas.

Ousado na criação de personagens alucinantes e alucinadas, Whittemore desafia as convenções e expõe uma intensa visão pessoal metamorfoseada em histórias fantásticas com os pés bem assentes na História do Médio Oriente.

Os capítulos dedicados a Esmirna são dos mais intensos e marcantes. Nas vésperas do ataque que vitimou as vidas de milhares de arménios e gregos às mãos de tropas turcas no ano de 1923, as personagens encontram-se presas nessa cidade, e têm que lutar para escaparem a salvo. Mas as atrocidades que testemunham testam os seus limites como homens e alguns abandonam a cidade para sempre transformados por esta experiência.

Livros apropriados neste tempo em que Israel celebra os seus 60 anos de precária existência, uma celebração que para muitos representa a Catástrofe, o dia da Nakba. Jerusalém permanece ainda o pomo da discórdia, mas é no seu centro sagrado intemporal que o crente encontra as raízes da sua fé. É cidade de sangue, mas também cidade de esperança para os que desejam acreditar, muito como as próprias histórias de Whittemore, em que a crueldade e violência se fundem com histórias de ternura e amor.

Excêntrico como possa parecer, Whittemore é um dos mais fascinantes e obscuros escritores norte-americanos, capaz de transmitir a intensidade e a poesia da vida, por vezes cómico, por vezes comovente e por vezes profundo, a atestar por esta curta passagem de Sinai Tapestry.

Love gentle and kind and ferocious, rich and starved and hallucinatory, damned and diseased and saintly. Love, the bewildering varieties of love. That and only that able to recall the lives lost in the spectacle, the hours forgotten in the dream.

Hopes and failures given to time, demons pressed into quietude, spirits released to memory in the chaotic book of life, a repetitious and contradictory Bible suggesting infinity, a Sinai Tapestry of many colours.

Whittemore foi também o autor de Quin’s Shangai Circus, o seu primeiro romance de novo reeditado, juntamente com o quarteto de Jerusalém pela Old Earth Books, uma excêntrica história de espionagem no Extremo Oriente, povoada de visões incendiárias e imaginativas que apresentam ao leitor um dos mais irreverentes e eloquentes escritores de ficção especulativa.

Por isso agora pergunto, qual o editor português que terá a coragem de publicar a irreverência e eloquência de Whittemore?

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Welcome, Mr. Paine. How do you do, Mr. Warre?

May 9, 2008 at 3:41 pm (Strange Land)

Cidadãos portugueses no Líbano estão “todos bem”
09.05.2008 – 15h09 Lusa, PÚBLICO

Os portugueses residentes no Líbano estão “todos bem” e, de momento, não estão previstas operações para os retirar do país, revelou o secretário de Estado das Comunidades.

“Portugal tem 34 cidadãos no Líbano e estão todos bem” declarou António Braga, garantindo que as autoridades nacionais estão a acompanhar a situação em Beirute, palco nos últimos dias de combates entre apoiantes e opositores do Governo.

Mas… e os cidadãos libaneses…? Mais uma vez, entregues a eles próprios perante a complacência do mundo inteiro?

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The art of deceivement, ou o talento para enganar

May 4, 2008 at 6:05 pm (Livros/BD/revistas)

As heroínas de romances são geralmente figuras trágicas, vítimas de circunstâncias que se poderão dever a um amor impossível, a uma sociedade opressora e dominante, ou tornam-se presas inocentes e incautas de má-fé da parte de terceiros. Os romances realistas do século XIX retrataram a mulher a uma luz pouco edificante, mas não a culparam pelos vícios da sua educação, antes culparam a sociedade. No entanto, a um certo ponto, heroínas tornaram-se estereotipadas. E esse é o pior serviço que se pode fazer a uma mulher. Descrevê-la com banalidade e vulgaridade. É curioso notar que, independentemente da época histórica, ou da geografia, houve autores determinados a quebrar os estereótipos e a defender a mulher como um ser infinitamente complexo e digno da nossa maior admiração, fascínio e compaixão.

Alguns dos maiores romances protagonizados por heroínas envolvem um mecanismo por parte dos seus autores que se poderia descrever como a técnica da falsa crença. Quer isto dizer que o autor escreveu o enredo baseando-se em grande parte na ideia falsa que formamos do carácter da personagem. O escritor quer-nos fazer acreditar que o que vimos como pecado é na verdade uma virtude, e o que vimos como uma virtude é na verdade uma terrível falha de carácter.

A técnica da falsa crença baseia-se no conceito de que o autor pretende que o leitor assuma uma falsa ideia do carácter da personagem, e recorro a dois romances para melhor ilustrar esta técnica, Rebecca de Daphne du Maurier (1938 ) e Helena de Machado de Assis (1876).

Muita da credibilidade e força da narrativa assenta neste jogo do autor, uma vez que todas as pistas deixadas são concebidas para formar uma ideia que, quando revelada a verdade, projecta uma nova luz na personagem e muda a inteira noção formada em relação ao romance. Em Rebecca, Mrs. de Winter vive as primeiras semanas do seu casamento com Maxim de Winter oprimida pela sombra omnipotente da sua primeira mulher, Rebecca. A decoração da mansão, Manderley, é especialmente conivente com os gostos e estilo de Rebecca, e para nos fazer constantemente lembrar as suas palavras, luxo e elegância, não falta a governanta, qual corvo da tormenta na vida da nova Mrs. de Winter.

Mrs. de Winter é levada a acreditar por um subtil jogo psicológico, em que a casa desempenha um papel determinante, que nunca poderá chegar aos calcanhares de Rebecca, uma figura que se crê ser bem amada e bem recordada por todos. A primeira parte da narrativa é inteiramente dominada por este confronto entre memórias do passado e o presente, até ao momento em que o barco em que Rebecca morreu é descoberto e alguns factos surgem que levantam questões sobre as circunstâncias da sua morte. Dá-se a reviravolta então, não do enredo, mas uma reviravolta de perspectivas. Maxim de Winter confessa, numa surpreendente revelação para o leitor, que Rebecca era tudo menos a cândida, inocente e devotada esposa. Tinha um estilo de vida opulento e dada a excessos e não tinha falta de amantes. E fazia vida de Maxim um inferno permanente. De anjo, Rebecca transforma-se num demónio prestes a acabar com as vidas do casal. É um brilhante romance precisamente pela falsa expectativa que induz no leitor, ou mais apropriadamente dito em inglês, pelo seu deceivement.

Da mesma forma, em Helena de Machado de Assis opera-se o engano, mas no sentido inverso. O que acreditámos ser uma personagem corrompida se revela no final como virtuosa. Helena é declarada no testamento do Conselheiro Vale como sua filha, fruto de uma relação ilegítima. Ela é adoptada pela família do Conselheiro, e cedo encanta a família e sociedade, em especial, o seu meio-irmão, Eustácio.

Inconscientemente, desenvolve-se uma afeição incestuosa entre Helena e Eustácio, e a rapariga foi beneficiada como herdeira de uma parte da fortuna do Conselheiro. Mas os seus encontros matinais com uma pessoa misteriosa levantam suspeitas sobre a sua honra e carácter e, assim, os homens da história encarregam-se de esclarecer os factos e, eventualmente, condenar Helena.

O que na verdade se revela é que a moça formosa e prendada é uma vítima das circunstâncias e está aprisionada entre o amor que surgiu inesperado e o dever para com um pai que a forçou, não como um pai vilão mas um homem destituído e miserável, a assumir uma farsa, de modo a que ela possa herdar a fortuna do Conselheiro. Helena é ilibada de qualquer pecado na mente do leitor, mas é esmagada por uma sociedade burguesa, que destrói todas as suas forças, e a sinceridade dos seus sentimentos para com Eustácio nunca se poderá consumar devido a motivos de ordem social. A imoralidade das pessoas que a rodearam toda a sua vida acabou por minar a sua própria credibilidade, mas ela permanece no fim, uma figura orgulhosa, embora trágica, ciente de que foi erradamente julgada, mas com a consciência de uma mulher que honrou o seu dever à custa da sua própria vida.

É não muito diferente do que sucede em La Princesse de Clèves de Madame de La Fayette (1678), considerado por muitos como um dos primeiros romances modernos europeus pela brilhante análise psicológica, inédita à altura, em que a heroína é acusada de adultério e traição quando, na verdade, honrara os seus compromissos, mesmo que certas acções aparentassem o contrário.

É também um dos primeiros romances em que o realismo da vida triunfa sobre histórias impossíveis de amor e aventura, onde o picaresco e o exótico que povoam as vidas dos heróis e amantes cedem lugar a histórias plausíveis onde domina a impossibilidade de uma vida feliz restringida pelos preceitos da sociedade. Madame de La Fayette não era nenhuma estranha à vida no meio da aristocracia francesa e fez amizade com as personalidades mais extraordinárias da literatura e teatro da época.

A princesa é uma mulher de grande virtude. E todo o enredo do romance gira em torno das tentativas de manchar essa virtude. A sua beleza tornou-a alvo das atenções do Duque de Nemours, um aristrocrata sedutor da corte francesa, e por mais que ela lute, não pode deixar de amar esse homem, em mente e espírito apenas.

Embora não haja nenhuma estratégia da parte do autor em enganar o leitor em relação ao carácter da Princesa, o deceivement opera-se a nível interno narrativo, quando a reputação da princesa é posta em causa pelo seu marido, que morre convencido que a sua mulher o traíra. Ela desafia as convenções ao manter os seus princípios e honra intacta. Ela desafia a sociedade ao manter a sua pureza, e recusando-se a ceder à pressão de Nemours, mesmo quando é livre para tal. E o romance termina com uma afirmação de admiração por essa mulher, et sa vie, qui fut assez courte, laissa des exemples de vertu inimitables.

Muito da técnicada falsa crença reside, essencialmente, na construção de uma aparência, de uma superfície enganadora que oculta uma verdade inesperada. E não será exagero dizer que muitos filmes assentam nesse jogo de ilusões, que é talvez o maior jogo de todos no cinema. Não se trata de conhecer melhor uma personagem, mas sim de jogar com as expectativas do leitor.

Há um outro romance (curiosamente, todos os romances escolhidos têm como títulos os nomes das heroínas) que destrói toda esta estratégia literária de entreter e enganar o leitor, através de uma técnica muito simples, e ao mesmo tempo, uma das mais complexas em literatura: expondo os pensamentos privados das personagens. Mrs. Dalloway de Virgina Woolf é um romance notável precisamente pelo seu exemplar uso de stream of consciousness. Em grande parte autobiográfico, A persona de Woolf reflecte-se em duas diferentes personagens, a do louco Septimus Smith, e a de Clarissa Dalloway, a mulher rica e submissa de um político que vive uma mentira.

A imagem que o leitor constrói de Mrs. Dalloway é constantemente alterada ao longo do romance, mas porque a personagem se expõe em absoluto. A falsa aparência existe e continua lá presente nas belas festas que Mrs. Dalloway anfitria, mas apenas sabemos que tudo é falso porque ela nos conta. Virginia Woolf descreve, exteriormente, o estereótipo que Mrs. Dalloway representa, mas ao mesmo tempo o destrói, quando nos dá acesso aos seus pensamentos íntimos.

Tanto Madame de La Fayette, como Daphne du Maurier, como Machado de Assis, embora autores vastamente diferentes entre si, revelam um talento para enganar e criar falsas aparências. A criação das suas personagens é tudo menos vaga, e deixam apenas espaços brancos suficientes para que o leitor crie as suas próprias noções, mas é uma tentativa, acima de tudo, de fuga do estereótipo.

Rebecca é, aparentemente, a esposa ideal, vítima de uma morte prematura. Julgamos a um dado momento que Helena é a imagem de uma herdeira oportunista e manipuladora. E a Princesa de Clèves poderia ser mais uma nobre aristocrata a sucumbir a amores ilegítimos, e não seria a primeira. E mesmo que possam parecer virtuosas ou demoníacas, são acima de tudo heroínas, ou mesmo anti-heroínas, cuja vida é muito mais tumultuosa e complexa do que julgávamos. A conclusão a tirar no final de todos esses livros é, banal como possa parecer, que a vida interior de uma mulher está longe de ser linear, e não nos devemos precipitar com jugamentos errados, correndo o risco de ver as nossas expectativas arrasadas.

Tal como na pintura de John Waterhouse, La Belle Dame Sans Merci (reproduzida em cima) é, na aparência, uma bela e vulnerável donzela que ludbria o cavaleiro e o enreda na sua teia de sedução; e o que revela afinal é um coração cruel e sem compaixão. O que nós vemos e o que cavaleiro vê roça apenas a superfície das coisas. E tendo em mente as vidas de Helena, a Princesa de Clèves e a de Rebecca, não basta julgar a aparência para atingir a profundidade destas personagens. Na imaginação dos leitores, elas realizam uma jornada inesperada da luz para a escuridão ou da escuridão para a luz.

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