Peeping Tom, o Rosto do Medo

April 6, 2008 at 4:59 pm (Cinema e TV, Diário da Cinemateca)

Do you know what the most frightening thing in the world is…? É a pergunta essencial em torno da qual se constrói um dos mais desprezados e vilificados filmes da história do cinema britânico, Peeping Tom, que destruiu a carreira do realizador Michael Powell.

É difícil de acreditar nestes tempos em que a sociedade é completamente submersa em voyeurismo a uma escala sem precedentes que um dos mais laureados realizadores britânicos da idade de ouro do cinema clássico tenha sido totalmente crucificado pela crítica porque se atreveu a criar o que era visto como uma aberração na altura (1960), sendo forçado a pôr um fim à sua gloriosa carreira de cineasta.

Michael Powell é talvez mais conhecido pela sua associação a Emerich Pressburger, a lendária colaboração que originou alguns do melhores filmes das décadas 40 e 50, como A Matter of Life and Death, The Red Shoes, Black Narcissus, The Life and Death of Colonel Blimp, Tales of Hoffman.

Todos nós já vimos pelo menos um filme da dupla Powell & Pressburger, mesmo que os nomes não sejam familiares. A criatividade de ambos tornou-se icónica e hoje muitos dos seus filmes são clássicos bem amados que expressaram a admiração de Powell & Pressburger por arte e literatura, bem como o compromisso que assumiram perante a realidade da vida.

Para compreender Peeping Tom é necessário compreender como é uma criação muito à frente do seu tempo. Do lado americano, a década de 60 iniciou-se com dificuldades financeiras para os grandes estúdios e os primeiros sinais do fim da era clássica dourada são as fracas receitas de bilheteira do dispendioso épico Cleopatra e a compra dos estúdios por companhias multinacionais que levou ao início do novo cinema moderno e independente. Muitos consideram The Misfits, com duas grandes estrelas da era clássica (Marilyn Monroe e Clark Gable no que foi curiosamente o último filme de ambos em vida) como o filme de transição de uma idade em crepúsculo para uma nova era florescente a anunciar os novos rumos da sétima arte.

Mas há muito a dizer sobre a influência dos britânicos na produção cinematográfica da década de 60. Se por um lado, providenciaram um contributo decisivo na preservação dos valores clássicos em filmes históricos como Lawrence of Arabia, Dr. Zhivago, A Man For All Seasons, The Lion of Winter, por outro, deram origem a novos dramas de angry men que se procuravam libertar das expectativas da sociedade, com realizadores a descreverem as suas vidas de uma forma honesta e crua nunca antes vista.

E é nesse contexto que se insere Peeping Tom. O seu conteúdo afasta-se da visão puritana herdada do cinema clássico, e aproxima-se do britânico Kitchen Sink Drama que iria destruir as aparências e abrir todas as cortinas de realidade, quebrando os mitos tão esforçadamente criados pelos grandes estúdios de cinema.

Se Peeping Tom teve uma recepção exacerbadamente negativa à altura é porque o seu realizador, Michael Powell, era um dos cineastas britânicos mais consagrados e cada novo filme seu produzia elevadas expectativas por parte de um público e crítica que exigiam mais do mesmo material.

Mas Peeping Tom é matéria da mais negra. Mark Lewis (o alemão Karl Böhm), fotógrafo de profissão, leva uma vida normal e discreta, encerrado num sótão do seu próprio casarão. Nas sombras cerradas do seu quarto esconde um terrível segredo. Observa filmes por ele criados dos últimos momentos de vida de mulheres que matou. Observa, fascinado e obcecado pelos rostos de medo que ele próprio induz.

O que eleva Mark Lewis para além da figura redutora de um psicopata é a justificação psicológica para as suas acções. Um homem torturado na sua infância pelas experiências científicas do seu pai, nunca tendo conhecido um momento de privacidade, foi sempre constantemente perseguido pelas câmaras do seu pai, e foi de tal modo absorvido por esse pesadelo orwelliano que cresce para se tornar num assassino voyeur que se deleita com o terror estampado nos rostos das suas vítimas.

Longe de ser retratado como um monstro de enorme crueldade e um pervertido sexual, Mark revela, apesar de tudo, uma enorme vulnerabilidade e em vez de o público fugir do horror dos seus actos, não pode deixar de sentir pena e até simpatia para com o diabo. O seu lado mais sensível é revelado através da sua inquilina, Helen, a quem ele gradualmente revela a negritude da sua infância.

O filme caminha para o seu fim inevitável trágico. Mark pergunta a Helen Do you know what the most frightening thing in the world is…? Para induzir o terror nas suas vítimas, Mark força-as a assistir aos seus próprios rostos distorcidos por medo, retirando daí satisfação dos seus desejos mais negros. A presença omnipotente da câmara no filme, o objecto fetiche de Mark, força-nos a associar os homens por detrás da câmara a voyeurs, intrusos na privacidade, vítimas de desejos inconfessados.

Moira Shearer, a estrela de The Red Shoes, tem um pequeno papel como uma das vítimas de Mark, enterrando ainda mais Michael Powell no desagrado da crítica, incapaz de o perdoar por sujeitar uma das mais estrelas adoradas do cinema e ballet à temática perturbante de Peeping Tom.

Mas é a figura do pai a mais perturbadora, revelada através de filmes antigos. Ele é o principal vilão, responsável pela tragédia do seu filho, e ao colocar-se a si próprio na pele da figura do pai, Michael Powell é condenado, incompreendido, para sempre marginalizado pela crítica. O seu primeiro compromisso era para com as histórias que queria contar, as visões que queria denunciar, indiferente aos gostos e expectativas do público. O realizador nunca mais voltou a fazer filmes à altura das suas glórias passadas (realizou apenas mais três filmes até à sua morte) e foi preciso outra década e realizadores em ascendência como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola para reabilitar a imagem de Michael Powell e redefinir a sua obra cinematográfica, incluíndo Peeping Tom, como uma das mais influentes e percursoras do século XX.

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